sábado, 31 de dezembro de 2011

Editorial: Um postal não ilustrado de votos para o Ano Novo...

Amália Rodrigues - Povo Que Lavas No Rio
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Não irei, desta vez, perante os leitores e amigos do Alpendre da Lua, recorrer à formalização de um voto a desejar-lhes um bom e feliz Ano Novo. Nem vou enfeitar um qualquer raquítico pinheiro com luminárias mais ou menos psicadélicas. Prefiro, antes, perante os graves perigos que Portugal enfrenta no momento presente, provocados pelos iníquos ataques de açuladas matilhas, as domésticas e as de lá de fora, que pretendem morder-lhe as canelas, recordar este fado de Amália Rodrigues, cuja letra é da autoria do poeta Pedro Homem de Mello.
Não sou muito apreciador do fado, pois enfastiei-me com as intragáveis versões do Fado Malandro e do Fado Marialva, e nem sequer suporto o fado choradinho, onde se cantam os lancinantes dramas amorosos de faca e alguidar. Mas não o desdenho, nem o despromovo para a prateleira das inutilidades, pois reconheço-lhe a natureza identitária do povo português, ao traduzir-lhe a tristeza e a melancolia endémicas, traços marcantes da sua idiossincrasia, e ao mesmo tempo que sobreleva o destino fatalista dos tempos da desgraça, do sofrimento e da miserável resignação, sentimentos estes contra os quais é necessário lutar, para os ultrapassar.
 E se escolhi este fado cantado por Amália Rodrigues, um fado que sempre me emocionou, é porque o poema fala do povo, do meu povo, do povo a que eu pertenço por inteiro, e que irá talhar as tábuas do meu caixão, imagem que se encaixa no pensamento premonitório da morte dantesca do meu país, que neste momento já não tem mar nem caravelas para novas terras descobrir. 
E agora, antes que os caixões estejam prontos, ao povo português, apenas restam duas alternativas: ou lutar, como lutou em Aljubarrota, ou fugir e chorar, como aconteceu em Alcácer Quibir. E ao ouvir este "Povo que lavas no rio", eu já estou a chorar...