domingo, 5 de junho de 2016

Vem aí o e-comércio (a economia colaborativa) e uma vaga descomunal de desemprego estrutural.


Vem aí o e-comércio (a economia colaborativa) e uma vaga descomunal de desemprego estrutural.

Se a Era da da Revolução Industrial se baseou na mecanização, na industrialização, no recurso intensivo às fontes de energia provenientes do carvão, da electricidade, do petróleo, da cisão nuclear e, em termos políticos, na exploração de matérias primas nos territórios coloniais, a Era da Globalização, que lhe sucedeu, e que está a viver-se em pleno, caracteriza-se pela informatização e robotização, pelo desenvolvimento das comunicações e das telecomunicações, pelo domínio, à distância, do espaço global, e, agora, ainda de uma forma embrionária, pelo comércio online, que tenderá também a ser global.
No entanto, entre estas duas grandes revoluções, que marcaram, e continuam a marcar, a evolução da Humanidade, existem semelhanças, diferenças, benefícios e prejuízos para as populações. Ambas propiciaram o progresso e uma melhoria das condições de vida das populações dos países que as puderam incorporar nas suas respectivas economias. Ambas favoreceram a oferta de bens e serviços de utilidade indiscutível, a preços acessíveis, possibilitados pelos efeitos de escala e pela grande massificação do consumo. 
Mas, contrariamente, ambas desenvolveram e reforçaram o domínio do Capital sobre o Trabalho. Ambas deram origem às formas imperialistas do exercício do poder. Ambas desenvolveram o capitalismo financeiro, que condicionou o poder dos Estados e contribuiu para o aprofundamento das desigualdades sociais. 
Não nos esqueçamos que, hoje, um por cento dos habitantes do globo auferem o mesmo rendimento do auferido pelos restantes noventa e nove por cento dos habitantes, um fosso enorme provocado principalmente pela Globalização, que gerou lucros enormes às grandes companhias multinacionais, através do processo das deslocalizações territoriais dos meios de produção, na procura de mão de obra mais barata, e aos bancos, através da financeirização da economia. 
Diferenças entre a Era da Industrialização e a Era da Globalização também existem, naturalmente. E a principal diz respeito ao emprego. Enquanto a Revolução Industrial criou empregos massivamente, atraindo as populações rurais activas para as cidades industriais, alterando assim, profundamente, a paisagem física e a demografia dos países industrializados, a Globalização, excepto no período das deslocalizações das fábricas para os países asiáticos, está a criar manchas enormes de desemprego, uma tendência que irá agravar-se, de forma exponencial, com o desenvolvimento da chamada economia colaborativa, que eu prefiro designar por e-comércio.
O desenvolvimento das novas tecnologias vai promover, também de forma exponencial, o incremento das transacções on line, na maioria dos sectores de bens e de serviços, o que vai eliminar o sector dos intermediários, com graves repercussões ao nível do desemprego. Em todo o mundo, milhões de postos de trabalho serão destruídos e o sistema capitalista, que adquiriu a dimensão universal, não tem resposta adequada para este agudo problema. Ou até tem, na sua forma mais perversa. Deixar que seja o mercado global a fazer a selecção entre os países que irão crescer, que serão poucos, e os que irão, irreversivelmente, empobrecer, que serão muitos, e, dentro de cada país, deixar que seja o respectivo mercado interno a fazer a divisão entre uma minoria de ricos e remediados, por um lado, e uma grande maioria de pobres, por outro, e, se possível, muito bem escondida, para não causar alarmes sociais, que são sempre indesejáveis e inoportunos para o bom andamento dos negócios. Os regimes capitalistas saberão viver com esta nova realidade, diluindo-a na demagogia discursiva, manipulando-a no espaço mediático ou, simplesmente, silenciando-a através da repressão.
Um Novo Mundo, assim imaginado (ou melhor, assim previsto), e que estará presente, perante todos nós, na próxima década, vai necessitar de uma nova ordem internacional, assente na centralização do poder político e militar da potência dominante. Assim, a liderança do mundo será assumida pelos EUA. Para lá chegar, só é necessário encontrar a forma de neutralizar a China e a Rússia e aniquilar os países do Médio Oriente que ainda resistem à submissão, garantindo-se assim o controlo da maior reserva de petróleo do mundo. 
Quem não acreditar neste prognóstico, que recue uns dez a vinte anos atrás, e se interrogue se, nesse tempo, conseguia imaginar o mundo, tal como ele é hoje.
AC

3 comentários:

Alexandre de Castro disse...

Em relação a um leitor, que me perguntou se o mercado era inteligente, eu respondi assim:
"A Economia Clássica (liberal) definiu a principal lei do mercado, que é a Lei da Procura e da Oferta, Procura e Oferta estas que se adaptam, que interagem entre si, e se harmonizam em função das necessidades das pessoas e dos bens e serviços, que satisfazem essas necessidades. A outra lei é a lei dos preços, que estipula que o preço de um determinado bem forma-se no mercado, em função do valor da oferta desse bem e da respectiva procura. Mais tarde Karl Marx definiu a lei do valor de um bem. Os economistas clássicos partiram do axioma de que alguém só se disponibiliza a produzir um bem, se houver alguém que o compre. Por isso, o mercado não tem que ser inteligente ou não. A inteligência é uma característica exclusiva da condição humana, e não do mercado. A estes postulados da Economia Clássica, junta-se o da liberdade de produzir e a liberdade de consumir, o que à partida elimina a existência dos monopólios. Se bem que todos estes postulados e axiomas estejam correctos, vistos em abstracto, os economistas clássicos esqueceram-se de equacionar, no campo da economia real, as relações de poder entre os produtores e os consumidores, que acabam por ser de natureza política. Esqueceram-se de dizer que os produtores, normalmente, têm mais força e influência do que os consumidores, aspectos estes que acabam por distorcer as leis de funcionamento do mercado. E essas relações de poder foram estudadas por Karl Marx e pelos economistas marxistas, que defendem o planeamento da produção, comandada pelo Estado, em função das necessidades das pessoas, abolindo assim a Lei da concorrência, que é outra lei da economia clássica".

Alexandre de Castro disse...

Do meu sobrinho, JOÃO DE CASTRO MOTA, a quem enviei este texto, recebi a seguinte resposta:

“Ola Tio,

Obrigado pelo email. Penso que as previsões do Tio são acertadas. O cenário é sombrio para a maioria da população, ainda que os negócios assentes na Internet sejam evangelizados como democráticos, equitativos e, sobretudo, baseados em competição. Mas, na verdade, a última década mostrou que o e-comércio promove exactamente o contrário: criaram-se os ultra-monopólios da Google, Facebook, e Amazon que, por sua vez, acumularam uma riqueza sem precedentes.

A mecanização de que o Tio fala ainda não se materializou em grande escala, mas a tecnologia que o permitirá fazer já existe e está a ser desenvolvida precisamente por estas empresas. Falo, não da mecanização de trabalhos manuais, mas sim da mecanização dos serviços, onde está concentrada a força de trabalho. Um exemplo é a tecnologia chamada "deep learning", que permitiu a um computador vencer o campeão (humano) mundial do jogo Go, e que está na base dos mais modernos sistemas de reconhecimento automático de caras. Na minha opinião, esta última tecnologia, ainda que não tão publicitada como a do jogo Go, é muito mais impressionante: um computador já consegue identificar caras em fotografias com maior eficácia do que um humano. O mais preocupante é que este tipo de técnicas (deep learning) são bastante genéricas. São aplicáveis em muitos outros problemas para além de reconhecimento de caras e jogos Go; exemplos incluem a criação de respostas automáticas a emails (algo que ouvi dizer que a Google está a implementar) e tradução automática. E mesmo alguns aspectos do processo de descobertas científicas podem ser automatizados desta aneira. O único requerimento é o acesso a uma grande quantidade de dados, algo fácil hoje em dia, e um grande poder computacional, que está ao alcance de qualquer pessoa que tenha acesso a um supercomputador ou que saiba trabalhar (e possa pagar) os serviços computacionais da Amazon, Microsoft, ou Google. A massificação destas tecnologias pode, efectivamente, criar um desemprego mundial sem precedentes. Esperemos que as mudanças sociais e económicas a que isto certamente levará sejam pacíficas.

Rogerio G. V. Pereira disse...

É crente teu sobrinho
Sobre a forma de obstar e conter isso

Se te lembrares, dá-lhe um abraço meu!