terça-feira, 3 de março de 2015

Cada um de nós tem um Kafka dentro de si


Só, como Franz Kafka
Kafka é o nome de um enigma que o próprio levou a vida inteira a tentar decifrar, tendo encontrado apenas “um mundo tremendo” dentro da sua cabeça, que ele legou como herança ao século que fez do “kafkiano” um lugar-comum.
Proferiu a pergunta a que um exército de exegetas irá tentar responder: “‘Quem sou eu, afinal?’”. Esta pergunta teve respostas diferentes, nunca faltou Kafka para todos os gostos: o santo, o culpado, o funcionário renitente, o homem que tinha “um mundo tremendo na sua cabeça”.
António Guerreiro

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 Cada um de nós tem um Kafka dentro de si

Em Kafka, tal como em Fernando Pessoa, a obra literária, muito densa, profunda e intimista, confunde-se com o seu criador.
Aliás, Kafka e Pessoa percorreram caminhos comuns, nas suas vidas. Ambos viveram a fase adulta, nas duas primeiras décadas do século XX, um período marcado pela Primeira Guerra Mundial e pelo aparecimento do movimento modernista, na literatura e nas artes. Ambos eram indivíduos solitários e tímidos, com uma grande dificuldade de se relacionar com as mulheres. Ambos assumiram uma visão decadentista do Homem, do mundo e da sociedade. Ambos morreram precocemente. Ambos construíram um mundo de pesadelos. Ambos deixaram muitos escritos por publicar ou inacabados. Ambos, sem qualquer premeditação ou intencionalidade, criaram o mito à volta da sua vida e da sua obra literária. Ambos desencadearam, posteriormente à sua morte, grandes polémicas em relação ao seu posicionamento político. Ambos, como mais nenhuns outros escritores, despertaram tanto interesse aos críticos e aos investigadores literários. Ambos alcançaram o estatuto de génios da literatura. 
E, depois disto tudo, chega-se à conclusão de que o mundo Kafkiano e o mundo pessoano ainda têm muito para descobrir.
AC