segunda-feira, 9 de março de 2015

A quadratura do círculo

António Costa a transportar o leite da Alemanha

Os dirigentes do PS não podem apenas culpar António Costa. Têm também de se culpar a si próprios, pois continuam a pensar e a agir como se fosse possível resolver a quadratura do círculo. Ou seja, continuam a pensar que será possível, no plano mediático, e para o eleitor consumir, manter o partido numa posição equidistante, em relação ao PSD, por um lado, e ao PCP e ao BE, por outro. Esse equilibrismo político já não é possível, pois o quadro social eleitoral alterou-se com a crise dos últimos quatro anos. 
O eleitorado tradicional do PS, principalmente o colocado mais à esquerda, e que se integra na classe média, uma classe social que foi severamente castigada com as medidas de austeridade, impostas pelo governo PSD/CDS, já não se contenta com os eloquentes discursos, feitos de lugares comuns, e que de substancial nada dizem, ou dizem pouco. Acusar o governo de ter empobrecido o país e, em contrapartida, não apresentar um projeto credível e objetivo para inverter a situação, não é suficientemente apelativo. Dizer que o PS vai fazer uma política diferente da do governo da coligação de direita, e omitir a questão do Tratado Orçamental e a magna questão da dívida pública, que é necessário e urgente renegociar e reestruturar, é entendido pela opinião pública como mais uma grande mentira. 
Já se percebeu que António Costa não pretende alterar a política atual, em relação às instâncias europeias. Ele é um europeísta convicto, tal como o são António Seguro e Passos Coelho. Percebeu-se que ele não tem nenhuma intenção de contrariar tudo aquilo que seja decidido em Bruxelas e em Berlim. Mas as pessoas também já perceberam, até pelo tratamento arrogante e ditatorial assumido pelos dirigentes europeus, em relação à Grécia, que os donos políticos desta Europa não estão minimamente interessados em alterar a sua política de austeridade e de empobrecimento. Parte do eleitorado está mais informado sobre as questões económicas e políticas da Europa, e, também, alarga-se o número de portugueses que já começam a perceber que estas políticas de austeridade são inimigas do desenvolvimento económico e que não levam a lado nenhum, pois a colossal dívida pública externa  será impossível de pagar. Os eleitores, que já percebem isto, não irão votar em António Costa. Os eleitores que anteriormente votaram no PSD e que agora estão descontentes, não vislumbrarão vantagens em votar no PS, recusando assim o ritual da alternância do voto, o chamado voto flutuante, ao centro. Os eleitores do PS, mais à esquerda, e que pretendem uma efetiva mudança política, que se afirme convictamente anti-austeritária, ou irão exilar-se na abstenção ou votarão em partidos da verdadeira esquerda. E é esta quadratura do círculo que os dirigentes do PS e António Costa não conseguem resolver, a não ser que ocorra uma revolução dentro deste partido, que conduza a uma maior radicalização em relação à Europa e a uma aproximação sincera e transparente ao PCP e ao BE, coisa em que eu não acredito.