domingo, 17 de agosto de 2014

Notas do meu rodapé: Para criar ricos é necessário, primeiro, criar os pobres.


Portugal está a ser uma cobaia da Europa, onde se pretende experimentar a funcionalidade de um modelo sócio-económico assente numa política de baixos salários e no atrofiamento do Estado Social. Se a experiência resultar, ela será expandida para os países mais pobres da UE.
Para o capitalismo europeu esta é a forma mágica para a economia europeia recuperar a competitividade perdida ao longo da última década, criando-se uma Europa económica a duas velocidades e até, possivelmente, cada uma delas com a sua moeda. O euro forte para os países ricos e o euro fraco para os países pobres. Com uma mão-de-obra disponível e de baixo custo, as unidades produtivas das grandes multinacionais europeias instalar-se-ão nos países do sul, para poderem competir no mercado global com as economias asiáticas, invertendo assim o ciclo autofágico da economia europeia, que vive essencialmente das exportações para os outros países do bloco da UE. A Alemanha, por exemplo, apenas exporta para fora do espaço europeu 40 por cento do total das suas exportações. O declínio da economia europeia, que não cresce, pode ver-se por este exemplo. Antes, a Alemanha exportava as máquinas para a China montar as suas fábricas. Depois, a China começou a construir essas máquinas, com menos custos, para o seu próprio setor industrial. A seguir, a China iniciou a venda dessas máquinas para os tradicionais mercados externos da Alemanha, fazendo-lhe uma forte concorrência, ao nível de preços. Atualmente, a China já vende essas máquinas à indústria alemã. Mas se a Alemanha deslocalizar as fábricas que produzem essas máquinas para Portugal e para a Grécia recupera a competitividade, através dos salários baixos.
Talvez assim se compreendam melhor os objetivos de longo prazo do ministro das Finanças da Alemanha, ao arquitetar os planos de austeridade para os países do sul da Europa, em que se procurou promover unicamente a desvalorização salarial, isentando de quaisquer cortes os rendimentos do capital.
Para criar ricos é necessário, primeiro, criar os pobres. É o que está a acontecer em Portugal e na Grécia.

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