sábado, 14 de julho de 2012

Ateísmo e Religiões - Por Carlos Barroco Esperança


Ateísmo e Religiões
(conferência)
Por: Carlos Barroco Esperança

Ateísmo – Génese, história e contemporaneidade
Definição e ideias gerais
«A única desculpa de Deus é que não existe» (Stendhal)
«Quem quiser ser cristão tem de arrancar os olhos à sua própria razão» (Lutero)
«A religião é vista pela gente comum como verdadeira, pelos sábios como falsa e pelos governantes como útil» (Séneca)
«Desde os tempos imemoriais que se sabe quão proveitosa nos tem sido esta fábula de Jesus Cristo» (Leão X, Papa, 1513/21). Carta dirigida ao cardeal Bembo, por João de Médicis que viria a ser proclamado papa com o nome de Leão X). In Mentiras Fundamentais… e a Desilusão de Deus.
Bento XI (1033/1045) nasceu em 1022. Foi Papa aos 11 anos.
Ateísmo é a posição filosófica que rejeita o conceito do teísmo e a existência de deuses. Em sentido lato, é a ausência de crença na existência de divindades, ou seja, a doutrina que nega uma realidade transcendente ao homem.
O termo ateísmo vem do grego atheos, e era aplicado a qualquer pessoa que não acreditava em deuses, ou que aceitava doutrinas em conflito com as religiões estabelecidas.
Religião – A palavra religião deriva do termo latino religio, foi usada durante séculos no contexto cultural europeu, dominado pelo cristianismo, que acabou por se apropriar dela.
A religião é um conjunto de crenças, que grupos de pessoas encaram como sobrenatural e sagrado, sujeito a rituais, a que associam códigos morais que cumprem com maior ou menor rigor e impõem de forma mais ou menos vigorosa de acordo com o grau de proselitismo e o poder de que dispõem.
Agnosticismo – É a doutrina que afirma que a questão da existência ou não de um poder superior (Deus) não foi nem pode ser resolvida. O termo foi cunhado pelo biólogo britânico Thomas Henry Huxley " no início do último quartel do séc. XIX.
[a-" anteposto à palavra grega "gnostos" (conhecimento)].
Teísmo e ateísmo separam os que acreditam em deus (seja isso o que for) dos que não acreditam, enquanto o agnosticismo designa os que excluem a capacidade da razão para conhecer o sobrenatural não excluindo, conforme a postura perante a crença, uma orientação teísta (conhecimento pela fé!?), deísta ou ateísta.

O ateísmo é o inimigo que as Igrejas mais odeiam. Os infiéis sempre foram alvo da fúria beata, nas Cruzadas ou na jihad, mas os ateus suscitam o ódio mais violento dos dois monoteísmos prosélitos e mais extremistas – o cristianismo, e, sobretudo, o islamismo.
Só por curiosidade, vale a pena lembrar, a propósito, que a peregrinação a Fátima, em 13 de Maio de 2008, presidida pelo cardeal Saraiva Martins, foi realizada «contra o ateísmo». As peregrinações são inúteis e essa podia ter sido disfarçada em nome da fé, mascarando o carácter belicista contra o ateísmo. No mesmo ano, o patriarca Policarpo afirmou que «Todas as expressões de ateísmo, todas as formas existenciais de negação ou esquecimento de Deus, continuam a ser o maior drama da humanidade». Nem as pandemias, as guerras, a fome e as catástrofes naturais são um drama maior ou, sequer, equivalente! Nem as próprias religiões.
Os crédulos procuram sempre algo, cuja explicação se desconhece, para atribuir a deus. Este é o suspeito do costume para preencher todos os vazios, a justificação por defeito para todas as dúvidas, o pretexto para que os homens abdiquem da razão em troca da fé.
A dúvida é a atitude dos céticos, agnósticos e livres pensadores, de todos os homens e mulheres que sobrepõem a razão às crenças e procuram dar sentido às suas vidas sem especular acerca do sobrenatural.
O ateísmo é uma opção filosófica assumida por quem se sente responsável pelos seus atos e forma de viver, de quem preza a vida – a sua e a dos outros –,cultiva a razão e confia no método científico para construir modelos da realidade, e de quem não remete as questões do bem e do mal para seres incertos nem para a esperança de uma existência após a morte.
O ateísmo é frequentemente apresentado como uma filosofia nascida no século XIX mas já no século IV antes da era vulgar Teodoro, o Ateu, proclamava que Deus não existia. Aliás, o ateísmo segue a par e passo as religiões; quando nos faltam elementos sobre a sua evolução, é através da animosidade da fé, para ser suave, que conhecemos os afloramentos ateístas das diversas épocas.
Parafraseando Rousseau direi que «O homem é ateu por natureza e é a sociedade que o corrompe», especialmente o clero que, desde tenra idade, toma conta dele e o catequiza.
O crepúsculo da fé acentua-se com as descobertas científicas, o aprofundamento das liberdades individuais e a progressiva secularização das sociedades democráticas. Ela mantém-se e exacerba-se em redutos com grandes constrangimentos sociais, fortemente dependentes do poder clerical, das hierarquias tribais e de regimes totalitários.
Carl Sagan, no seu livro «Um mundo infestado de demónios», lembra-nos que o abade Richalmus escreveu um tratado sobre os demónios, por volta de 1270. Os sedutores demoníacos de mulheres chamavam-se íncubos e os de homens, súcubos. Santo Agostinho acreditava que as bruxas eram o produto dessas uniões proibidas tal como a maioria das pessoas da antiguidade clássica ou da Idade Média.
Compreendem-se hoje as freiras que, num estado de confusão, viam semelhanças entre o íncubo e o padre confessor ou o bispo e que ao acordarem se sentissem conspurcadas como se se tivessem misturado com um homem, como escreveu um cronista do século XV (pág.126, ob. Citada no § anterior).
A fé e a superstição confundem-se. Ainda hoje vemos crentes que rumam a Fátima e à Santa da Ladeira, deixando o óbolo em ambos os locais, sem dispensarem as rezas e a liturgia da bruxa perante a adversidade.
Hoje, em democracia, ninguém é molestado por comer presunto, labutar em dias santos ou desprezar jejuns e sacramentos, mas só sucede porque o clero foi contido pelo poder político. São direitos conquistados pela laicidade e não outorgados pelas religiões.
A lei seca, nos EUA, teve origem no radicalismo religioso e o porco continua imundo para judeus ortodoxos e muçulmanos, escravos de um deus que está com o olho neles, a cheirar o hálito, a vigiar as ementas, a controlar os jejuns, a forma de vestir e as orações, para decidir entre as penas perpétuas e o paraíso que lhes reserva.
Hoje não se discute a higiene básica, a epidemiologia ou a alfabetização e, no entanto, apesar da ligação direta entre as crenças e a ação, toleram-se as religiões que apelam à violência, ao racismo e ao genocídio.
O incitamento ao ódio, a discriminação de género, a xenofobia e outras barbaridades, são crimes graves que as democracias punem mas toleram sob os auspícios das religiões cujos livros sagrados são detonadores desses mesmos crimes.

Considerações sobre o Ateísmo
O ateísmo é definido sempre pela negativa (a-teísmo, des-crença) como se existisse só em função das religiões e não tivesse mérito próprio para responder às manifestações religiosas e pseudocientíficas com uma abordagem científica, racionalista e humanista.
A negação de Deus provoca desmedida agressividade nos crentes, quer pelos interesses ligados às religiões, quer pelo pavor de que os ateus, sem amarras de um ente superior, criado para aturdir os homens, possam subverter a moral e corromper os princípios em que a sociedade assenta em cada momento histórico.
A negação de Deus é a negação suprema, que transporta uma carga emocional pesada, uma espécie de «mãe de todas as negações», responsabilizada por todas as calamidades e tragédias que a superstição e os interesses pios lhe atribuem.
Durante muitos séculos as referências à descrença aparecem apenas nos testemunhos dos que a reprimiram, pelo que a história do ateísmo se confunde com a história das perseguições feitas pela fé que, no catolicismo, foram especialmente ativas nos séculos XVI e XVII.
No entanto, o ateísmo é plural como, aliás, as religiões, desde o ateísmo estalinista, puro e duro, transformado em religião por regimes totalitários, até à opção filosófica que percorre hoje todo o espetro político das democracias, incluindo as próprias conceções liberais da economia que veem nos interditos religiosos uma ameaça à livre iniciativa.
O caminho faz-se caminhando, como disse num belo poema o poeta andaluz, António Machado, e o ateísmo tem vindo a afirmar-se como o espaço onde homens e mulheres constroem os seus valores e uma moral humanista alheia aos caprichos dos deuses e às ameaças do Inferno. A história do ateísmo é também a história desse combate pela autonomia da moral, sem especulações metafísicas nem interferência do clero.
Não é admissível permitir perseguições dos que creem aos que não creem ou vice-versa. A tolerância terá de ser o paradigma das sociedades livres onde a laicidade do Estado garanta a legitimidade de todas as crenças, descrenças e anti crenças.
O ateísmo já existia com Demócrito e Epicuro, nos séculos V e IV A.C., e, ao longo da história, a crença e a descrença caminharam a par e em conflito. Embora a estruturação do pensamento ateu seja uma marca do século XIX, já antes se verificaram posições, claramente ateias e, até, de pendor marcadamente radical. O pensamento ateu teve no século das Luzes um grande progresso, devendo muito ao racionalismo hegeliano que fez a transição com base na filosofia.
A história comparada e os avanços científicos, no início do século XVIII, demoliram a fé. A sua origem puramente humana foi demonstrada, apesar do esforço clerical para impedir a ciência, de natureza humana, de cometer o sacrilégio de investigar a palavra de Deus contida, em estado puro, nas Escrituras. Os milagres mantiveram-se como os principais argumentos eclesiásticos quando a física os colocou em xeque e nunca mais deixou de arrasar a fé e a transcendência.
A Inglaterra de 1700 facilitou o ateísmo. As lutas contra o absolutismo monárquico, a defesa das liberdades fundamentais, a vitória das liberdades individuais com o Habeas Corpus e a Declaração de Direitos, puseram em causa o cristianismo, em particular, e a religião, em geral.
Os combates entre as várias religiões, e as lutas no interior de cada uma delas, fornecem sempre os mais preciosos argumentos contra a fé e os exemplos mais pedagógicos para demonstrar que as crenças são meros instrumentos para a conquista do poder.
Um século antes de Nietzsche e várias décadas antes do marquês de Sade foi um padre ateu, vigário de aldeia, que viveu no norte da França entre os anos de 1664 e 1729 que, no manuscrito intitulado “Memória dos pensamentos e dos sentimentos de Jean Meslier”, concluído em 1720, e nas “Cartas aos curas”, preconizou uma sociedade ideal fundamentada no ateísmo.
O abade Meslier, indignado com a opressão e as injustiças sociais praticadas contra os camponeses, durante o reinado de Luís XIV, foi um autor radical, incisivo, comunista e ateu, que manteve as suas ideias no mais absoluto sigilo, pois sabia que, não existindo vida para além da morte, era prudente preservar a única e irrepetível que lhe coube.
Os seus escritos, onde nega de forma inequívoca o dogma da criação do universo e, por conseguinte, as ideias de divindade, transcendência e ordenação divina da natureza, só foram conhecidos postumamente. Era um revoltado, por razões políticas e sociais, que pregou homilias materialistas. Foi colossal o escândalo provocado pelo seu ateísmo, quando foram divulgadas as suas diatribes contra Cristo, descrito como louco, fanático, ignorante e charlatão, indivíduo astuto que se aproveitou da credulidade e do desespero de pessoas ignorantes para estabelecer o seu império.
Foi, aliás, imensamente crítico para com a religião, que considerou um artifício humano, nefasto expediente dos espertalhões e um eficiente instrumento de dominação utilizado por reis, sacerdotes e demais parasitas para submeterem e manipularem as populações miseráveis e abatidas pelo sofrimento.
O abade Meslier é um representante do Iluminismo francês cujo manuscrito, apesar de prolixo e do estilo rebarbativo, é merecedor de ombrear com as obras de Montesquieu, Rousseau e Voltaire, na filosofia política das Luzes que gerou a Revolução Francesa, e com os filósofos ingleses John Locke e Thomas Hobbes.
É surpreendente observar como o desespero e a miséria provocam ondas de piedade e de devoção, não sendo raro ver milagres nos sobreviventes de uma catástrofe ou nas sobras de um cataclismo, mas também é verdade que o deus que os homens inventaram sempre foi interpelado na sua alegada omnipotência, desde Epicuro (mais de 3 séculos antes de Cristo) até Pierre Bayle, no Iluminismo. O clero, porém, sempre procurou atribuir a causa das catástrofes naturais à ira do seu deus provocada pelos pecados dos crentes ou pela existência de descrentes contra quem dirigiam o ódio beato da superstição.
A ideia do deus relojoeiro, proposta por Newton e repetida por J. J. Rousseau, levanta tantas dúvidas sobre o autor do relógio como sobre o criador do autor, com o absurdo levado ao infinito.
O medo do ateísmo e a força da palavra fez nascer, em 1866, a Liga Nacional Contra o Ateísmo. A «Guerra a Deus» foi o grito de revolta de Paul Lafargue em 1865 e, em 12 de Maio de 1870, Gustave Florens declara num artigo em «La Libre Pensée»: “O inimigo é Deus, essa espantosa mentira que, desde há seis mil anos, irrita, embrutece e humilha a humanidade”. É curiosa a observação de Ferdinand Buisson, referindo «aqueles que, no fundo, têm medo das palavras e que, sem se saber porquê, não pronunciam a palavra ‘ateísmo’ como qualquer outra» .
(Isto é bem compreendido pelos que viveram na ditadura salazarista e sabem como, mesmo em família, se pronunciavam as palavras PIDE, comunismo, maçonaria, Tarrafal ou Peniche ).
Nos finais do século XIX, era preciso guardar os moribundos ateus para evitar que os padres entrassem e lhes aplicassem a unção, para dizerem aos crentes que o ímpio se arrependeu à hora da morte. Não bastava o medo que incutiam, exigiam a desonra de quem tinha a pituitária avessa ao incenso e a pele alérgica à água benta, farejando a morte e pressionando a família. Foi assim que o ateu Émile Littré foi atacado com dois sacramentos à hora da morte, batismo e extrema-unção, para gáudio do clero, que se regozijou, e a cólera dos livres-pensadores de que L’Anticlérical» se fez eco num artigo, em 11 de Junho de 1881, que intitulou: «Mais um cadáver roubado. Mais uma infâmia que os padres acabam de cometer».
Christopher Hitchens, na magnífica conferência realizada em Lisboa, na Casa Fernando Pessoa, em 18 de Fevereiro de 2010, em sintonia com o seu livro «deus não é grande», afirmou que a religião envenena tudo, quer pelos seus efeitos quer pelos seus princípios. Nenhum ato bom é exclusivo dos religiosos e, para se ser bom e ter valores, a religião é escusada. Mas, facilmente vemos atos e valores condenáveis associados a práticas religiosas, desde os sacrifícios humanos e a Inquisição até aos ataques bombistas e à mutilação genital feminina. Em síntese, afirmou que a fé é inútil para se ser bom e é a causa de muitos atos condenáveis. Referiu boas razões para um ateísmo combativo: a persistência das superstições que impedem mais justiça, as tentativas obstinadas das religiões para interferirem na política das democracias e o islamismo radical que designou como fascismo islâmico.
Diariamente vemos condenações à morte por adultério em países islâmicos, a absoluta ausência de liberdades nas teocracias, bem como os inúmeros interditos do catolicismo romano a proibir o planeamento familiar, o divórcio e o uso do preservativo em países que a sida dizima.
O que leva as pessoas a crerem em Deus não são os argumentos mas, quase sempre, o hábito de o fazerem desde crianças. É essa tradição que, a ser quebrada, reduzirá o fenómeno religioso à irrelevância mas, antes, é preciso erradicar os constrangimentos sociais e impedir as severas punições que as teocracias aplicam.
Os três monoteísmos, patriarcais e misóginos, são filhos de um texto bárbaro da Idade do Bronze, conhecido como Antigo Testamento, um manual de maus costumes – como lhe chamou José Saramago –, que os dignitários do judaísmo, cristianismo e islamismo continuam a reclamar como palavra de Deus, qualquer que tivesse sido o aparelho vocal com que a comunicou.
Esse deus a que Richard Dawkins chamou «delinquente psicótico» perdura como guia e ganha-pão dos funcionários dos três monoteísmos que lhe devem o poder e a opulência.

Guerras Religiosas
A liberdade religiosa consiste no direito à prática de qualquer religião bem como ao direito à contestação, renúncia, desprezo ou combate, sem risco de discriminação ou castigo – um direito existente em sociedades secularizadas onde a laicidade impera.
Sabe-se como o proselitismo converte diferenças em divergências e como procura resolvê-las. A evangelização foi, quase sempre, forçada. Por isso, a laicidade tornou-se exigência, em nome da tolerância, e a garantia da liberdade para todas e cada uma das religiões. O presidente Bush, que disfarçava cristãmente a inteligência e escondia, por modéstia, a cultura, não se coibiu de apelidar de cruzada a ingerência no Iraque. Tinha, aliás, o hábito de explicitar a fé. Julgava-se um evangelista ungido para cumprir missões divinas.
A religião alimentou a guerra da ex-Jugoslávia e foi o rastilho de ódios que o mosaico étnico e a conivência externa ajudaram a deflagrar. No Kosovo esteve em curso um genocídio dos sérvios ortodoxos sobre albaneses e sérvios islamizados a que a ONU pôs cobro, sem que os muçulmanos dissolvessem as milícias assassinas.
A Croácia cometeu, uma vez mais, horrores contra os sérvios, católicos contra ortodoxos, esquecida do passado nazi, na década de 40, em que o Estado fantoche de Ante Pavelic, apoiado pelo Vaticano, quis exterminar todos os judeus e levou a cabo uma campanha de conversão forçada dos cristãos ortodoxos. O seu partido Ustashe era tão repugnante que muitos oficiais alemães protestaram, envergonhados por serem obrigados a associar-se a ele.
O nazismo, sendo um fenómeno de natureza secular, não teria levado tão longe a sua loucura genocida se o cristianismo (católicos e protestantes) não tivesse envenenado os crentes com as conceções antissemitas que os moldaram. Quando o Terceiro Reich iniciou a vasta e metódica aniquilação dos judeus logo surgiram pogroms antissemitas na Polónia, Roménia, Hungria, Áustria, Checoslováquia, Croácia e outros países. Mas já em 1919, por exemplo, tinham sido mortos 60 mil judeus, só na Ucrânia, sem nazismo e o Terceiro Reich. Não esqueçamos o carácter antissemita do concílio de Trento e da Inquisição. De algum modo os nazis foram agentes da teologia cristã para a qual os judeus são ainda piores do que simples hereges; são hereges que repudiam explicitamente a divindade de Jesus e foram autores do deicídio. O próprio Hitler, ao usar a expressão «ninho de víboras», para os judeus, tanto a pode ter ido buscar diretamente ao Evangelho de Mateus (3:7) ou a Lutero, que decerto a bebeu aí, mas o antissemitismo não foi alheio à educação católica que recebeu.
Perseguições aos judeus em Espanha com os ataques às judiarias (Toledo, 1355, 12 mil mortos; Palma de Maiorca, 1391, 50 mil mortos; Sevilha, 1391, etc.; com a Inquisição (1478) milhares deles procuraram refúgio em Portugal. Outros, por medo, deixaram-se converter ao catolicismo. Uma perseguição tão cruel levou as judiarias espanholas à miséria, até que em 1492 foi declarada a expulsão dos judeus da Espanha.
Em Portugal, o anti judaísmo provocou a revolta popular contra cristãos-novos e judeus ocorrida em Abril de 1506 – o infame Pogrom de Lisboa. A superstição agravou o medo da peste que grassava na cidade e as dúvidas de um judeu sobre um suposto milagre desencadeou a onda de ódio, estimulada por um frade, que perseguiu, matou espancou e arrastou semivivos para as fogueiras que logo se acenderam na Ribeira e no Rossio – um massacre de 4 mil judeus, enquanto dois frades, o português João Mocho e o aragonês Bernardo, um com uma cruz e o outro com um crucifixo erguido, bradavam: Heresia! Heresia!, atiçando o ódio.
Na Irlanda do Norte, há poucos anos, os atos de terrorismo repetiam-se com monótona regularidade entre protestantes e católicos numa interminável espiral de violência. O IRA deixava a sua macabra assinatura em explosões de proselitismo e de bombas, enquanto os protestantes promoviam procissões de provocação e ação de graças.
Falar das Cruzadas, da evangelização, da Contra-Reforma (ou da Reforma), da Inquisição, das (re)conquistas cristãs e do antissemitismo histórico da ICAR é, apenas, lembrar que a demência islâmica atual não é inédita, apenas se trata de uma recidiva obsoleta de uma religião que se sente ameaçada pela globalização e é o cimento de uma civilização falhada – a civilização árabe –, que quase só produz petróleo, devoção e terrorismo.
Há meio século, cidades como Beirute, Damasco e Bagdade ainda eram cosmopolitas, a mulher gozava de liberdades e a secularização e o progresso seguiam o seu curso. A secularização foi suspensa, a sociedade retrogradou e os direitos e liberdades sumiram-se.
A tragédia dos países árabes deve-se à religião e à natureza não secular do Estado. O ódio dos clérigos ao laicismo e a sua arrogância moral exacerbam-se com o declínio económico e cultural e a propriedade sobre as mulheres é outro obstáculo à democratização.
A brutalidade agrava-se nas culturas em risco de extinção. A evolução jurídica, política e social está aí refém do poder eclesiástico e dos versículos do livro sagrado. O fanatismo que varre o Médio Oriente é uma catástrofe brutal. Enquanto persistir, é impossível a paz e os mais elementares direitos humanos são postergados. Os que viram a luta recente contra as ditaduras do norte de África como uma «primavera árabe», já preveem o inferno islâmico.
Nem os hindus resistem, de vez em quando, a queimar mesquitas. Até os budistas são capazes de exercer a repressão, como acontece no Sri Lanka sobre os Tamiles.
(No séc. X o Islão esteve à beira de conseguir o que o culto de Mithra ia conseguindo no séc. II - a derrota do cristianismo. No séc. XVI a Reforma protestante podia ter aniquilado a influência papal e, neste caso, sem prejuízo para o mundo nem saudades de Roma. No séc. XX o ateísmo marxista podia ter destroçado a ICAR se não tivesse as mesmas taras e derivado para experiências totalitárias de raiz estalinista que o tornaram odioso).
Em África há um duelo, dirigido à distância, entre o islão e um cristianismo radical. O islão, apoiado pela Arábia Saudita, está a implantar-se nos países do Sahel (Senegal, Mali e Níger) enquanto o cristianismo evangelista ganha terreno na África do Sul, Costa do Marfim, Benim e Libéria com a ajuda dos EUA e das grandes igrejas evangelistas.
(O Sahel é a região da África situada entre o deserto do Sahara e as terras mais férteis a sul).
Normalmente, incluem-se no Sahel o Senegal, a Mauritânia, o Mali, o Burkina Faso, o Níger, a parte norte da Nigéria, o Chade, o Sudão, a Etiópia, a Eritreia, o Djibouti e a Somália. Por vezes, usa-se este termo para designar os países da África ocidental, para os quais existe um complexo sistema de estudo da precipitação. (Wikipédia)
Desistir do carácter intransigentemente laico do Estado é comprar a paz a curto prazo e fomentar a guerra no futuro. Confiar aos clérigos a defesa da tranquilidade pública é dar aos transgressores os meios para subverter a lei e comprometer a liberdade. Mudar de paradigma é estimular o desafio às instituições republicanas e enfraquecer a democracia.
O proselitismo é comum ao cristianismo e ao islamismo. Ambos querem impor o único deus verdadeiro – o seu –, e a vontade divina aclarada pelo clero. Ambos aspiram à globalização, exigindo o exclusivo. Odeiam-se mutuamente e não toleram a indiferença agnóstica ou a crítica ateia. Há, nos dois, e nas seitas que nascem uma vocação totalitária. O judaísmo não é prosélito (ser o povo eleito é um exclusivo) mas a fé na vontade divina é o fundamento do imperialismo sionista, como se a Bíblia hebraica fosse uma certidão notarial divina que conferisse direitos sobre a Palestina.
É na herança humanista da Revolução Francesa que assentam o laicismo e a democracia. Por isso tantos se afadigam tanto a denegrir o laicismo como se este não fosse a vacina que permite conter os vários «ismos» religiosos que se digladiam e a via para responder à onda de provocações que os crucifixos e os véus se esforçam por atiçar.
Só a laicidade e a secularização podem conter o proselitismo e garantir a diversidade religiosa. O Estado democrático tem de ser firme na sua defesa.
A Constituição de 1933, do «país tradicionalmente católico», deu lugar à atual, omissa em referências religiosas. A experiência demonstra que há hoje liberdade religiosa, que não havia, incluindo a ICAR que se libertou da tutela estatal. No Estado Novo a nomeação dos bispos estava dependente da aprovação do Governo.
Os quatro Evangelhos (Marcos, Lucas, Mateus e João) e os Actos dos Apóstolos têm, na contabilidade de Daniel Jonah Goldhagen (in A Igreja católica e o Holocausto) cerca de 450 versículos explicitamente antissemitas, «mais de dois por cada página da edição oficial católica da Bíblia». Quanto ao Corão e aos horrores que Alá reserva aos infiéis basta uma leitura breve para nos apercebermos da violência contida nos versículos que são debitados nas pregações das mesquitas e recitados nas madraças.
Os períodos de maior religiosidade corresponderam sempre aos de maior violência e intolerância e só a resistência dos livres-pensadores obrigaram as religiões à contenção. Os homens têm tendência em ser tão bárbaros como o deus em que creem e os clérigos em dar o exemplo. Recordo o caso de Buda, culto e tolerante, que não impediu o obscurantismo e a crueldade dos seus monges no Tibete.
Como foi possível que ninguém se opusesse aos espanhóis, católicos, que, no México e no Peru, tinham por hábito batizar os índios que logo decapitavam para lhes garantir o céu?
Devemos ter presente que o esclavagismo foi erradicado contra a vontade das Igrejas e que a liberdade foi conquistada contra elas. Hoje não se encontra outra explicação, para os crimes e a responsabilidade de cada um dos fanáticos que os praticou, senão atribuí-la à época, como se a crença pudesse ser exonerada da malévola responsabilidade.
Em relação a Deus, a fidelidade atribuída pelo judaísmo, o amor referido pelos cristãos e a misericórdia proclamada pelos muçulmanos esbarram nas atrocidades e guerras que, ora os dilaceram internamente, ora os envolvem em confrontos sangrentos na defesa da verdade, que é sempre única, e da vontade de Deus, que é exatamente a que cada religião proclama.
O budismo, cuja compaixão inclui as plantas e os mais insignificantes animais, não contém as rivalidades entre conventos nem basta para impedir o obscurantismo, tirania e crueldade dos seus monges no Tibete, nem a fé é alheia ao subdesenvolvimento social e económico que oprime os países onde é praticada; os hindus reivindicam as liberdades individuais como apanágio da sua crença e calam-se em relação à escravatura, que ainda praticam dentro ou fora das castas, à existência das castas e aos hábitos de opressão que persistem defendidos nos seus textos.
O monoteísmo abraâmico, quer tenha origem no animismo ou nos politeísmos, surge com os hebreus e resulta da sua organização tribal e patriarcal e da sua necessidade de defesa das terras e da identidade contra as tribos nómadas.
O judaísmo, apesar do fator de instabilidade que o sionismo representa e da sua defesa por cristãos que esperam o Armagedão, está reduzido a cerca de 16 milhões de crentes.
Representa um perigo para a humanidade a radicalização dos dois monoteísmos mais prosélitos – o cristianismo e o islamismo –, dois credos competitivos em que o último não abdica de banir o primeiro, logo que destrua os judeus, sem prescindir do terrorismo como arma do seu proselitismo.
O respeito de uma religião pelas outras não existe e Deus não defende o respeito pelos pontos de vista dos não crentes. Espero que não se cumpra a profecia final do título do livro de Robert Hutchison: “O Mundo Secreto do Opus Dei – Preparando o confronto final entre o Mundo Cristão e o Radicalismo Islâmico”.
(Ed. Prefácio, Novembro de 2001)

Razões para ser ateu
Não há a mais leve suspeita ou o menor indício da existência de deus, nem ele, alguma vez, fez prova de vida. O ser imaginário, criado à imagem e semelhança dos homens, reflete as caraterísticas tribais dos patriarcas hebraicos que, há cerca de seis mil anos, criaram o deus do Antigo Testamento.
Há razões intelectuais para descrer de um deus de que não existe qualquer prova, apesar dos risíveis milagres que lhe atribuem para perpetuar a crença inculcada, quase sempre na infância, e alimentada pelos constrangimentos sociais e pela perpetuação dos medos como mecanismos de manutenção do poder religioso.
São razões morais as mais fortes para que o ateísmo não se transforme numa convicção pessoal silenciosa, pois jamais alguém matou ou foi morto por duvidar do movimento de rotação da Terra ou da lei da gravidade, mas diariamente se mata e morre em nome de um deus verdadeiro que cada crente julga ser o seu. Não há lapidações, fogueiras ou decapitações para quem não acredite numa lei da física ou numa teoria da biologia mas corre perigo quem manifesta dúvidas sobre a sanidade mental dos profetas ou sobre os preceitos que cada religião proclama.
Não podemos conformar-nos com o ódio que os sunitas sentem pelos xiitas e vice-versa e ambos pelos cristãos, judeus e hindus; com o antissemitismo dos cristãos; com o sionismo dos judeus; enfim, com o ódio de cada uma das religiões por quem não crê nos poderes invisíveis que controlam o universo ou acredita por intermédio de outro deus.
Devemos ter presente que as religiões monoteístas, cheias de interditos, são herdeiras e guardiãs de preconceitos morais de uma época mais cruel e intolerante do que a atual. Há, pois, razões morais para nos opormos à vingança, crueldade, violência, espírito misógino e homofobia que as religiões propagam e às relações de poder que perpetuam, nomeadamente à subordinação a que querem submeter a mulher em relação ao homem.
É difícil provar a inexistência do que quer que seja. Não é possível demonstrar que não existem, por exemplo, o abominável Homem das Neves, o monstro de Loch Ness ou as Sereias, ainda que destas últimas haja testemunhos numerosos, alguns de pessoas tão respeitáveis como Cristóvão Colombo que referiu, por escrito, tê-las avistado na costa da América, e não invertamos o ónus da prova, que cabe a quem afirma a existência de deus e, sobretudo, a quem vive à sua custa. Se as religiões continuassem a dominar as mentes, a ciência e o progresso teriam sofrido um enorme atraso.
Como Bertrand Russell, estou tão firmemente convencido da nocividade das religiões como estou da sua falsidade (in Porque não sou cristão – Brasília Editora – Porto).
Russell previu que “a condenação, pelo catolicismo, do controlo da natalidade, caso viesse a impor-se – como aconteceu –, tornaria impossível a supressão progressiva da miséria e a abolição das guerras”. Denunciou igualmente o sofrimento inútil causado pelas crenças hindus sobre o carácter sagrado da vaca e a suposta imoralidade da viúva que se casa de novo. E não lhe passaram despercebidas as abominações provocadas pela crença comunista na ditadura de uma minoria de verdadeiros crentes. (id, ibidem).
Não resisto a registar esta ironia certeira de Russel: «os protestantes gostam de ser bons e inventaram a teologia para que se conservassem assim, enquanto os católicos gostam de ser maus e inventaram a teologia a fim de fazer com que os seus vizinhos se conservem bons» (id. Ibidem).
As religiões foram algumas vezes perseguidas, sempre por razões políticas, mas as suas perseguições foram motivadas por crenças. Ninguém combate os talibãs por acreditarem que deus é grande ou que Maomé seja o seu profeta, nem por rezarem cinco vezes ao dia ou por jejuarem, mas pelos atentados que perpetram, pela guerra santa (jihad) que movem e pelos atos terroristas que praticam. O terrorismo pio invoca a vontade divina e é motivado pelo ódio aos infiéis e pela ânsia da conquista do Paraíso.
O que terá levado o Vaticano, o arcebispo de Cantuária e o rabino supremo de Israel a tomarem uma posição favorável ao aiatola Khomeini quando, na sua piedosa demência, condenou à morte Salman Rushdie pelo abominável crime de…ter escrito um livro?
Para as horrendas criaturas estava em causa um crime hediondo – a blasfémia –, crime de sabor medieval que contraria a liberdade de expressão e o direito de repudiar uma crença – apostasia –, que no seu implacável proselitismo ameaça vergar o mundo, pela guerra, à vontade de Maomé. Os dignitários admitiram os assassinatos cometidos para cumprir a fatwa, e a vida de tradutores, editores, livreiros e do próprio autor tornaram-se irrelevantes perante a fúria demente de quem julga ter rios de mel e dezenas de virgens, a título definitivo, pela prática de um crime.
Não podemos deixar-nos iludir pelo aparente carácter benigno do cristianismo atual, confiantes de que a luta contra a tirania eclesiástica e os seus interditos foi ganha pelo Iluminismo, pela Revolução Francesa e pela secularização em curso na Europa. Não há vitórias definitivas. O Deuteronómio, que inspirou os inquisidores e não foi revogado, ordena explicitamente aos fiéis que matem qualquer pessoa que professe simpatia por deuses estrangeiros e exige ainda que as pessoas demasiado suscetíveis para tomar parte nas chacinas religiosas devem, também elas, ser mortas. (Ob. Citada 17:12-13).
A raiva e frustração árabes contra o Ocidente, que está na origem do terrorismo suicida e assassino, bem como o seu atraso económico, social e político, são consequência dos versículos do Corão que intoxicam e enlouquecem os crentes. Ler esse plágio grosseiro dos versículos bíblicos, imune à influência da cultura grega e do direito romano, mostra a escassez da compaixão em detrimento da violência, a submissão humana à vontade de deus – o clemente –, que um pastor analfabeto disse ter-lhe sido transmitida pelo arcanjo Gabriel, durante duas décadas, nas deslocações entre Medina e Meca.
As páginas do Corão apelam constantemente à destruição dos infiéis, da sua cultura e civilização, bem como dos judeus e cristãos (por esta ordem) em nome do mesmo Deus misericordioso que alimenta a imensa legião de clérigos e hordas de terroristas.
Deve permitir-se que uma crença imponha o ensino da tolice criacionista, que a Terra, e apenas a Terra, nasceu no Sábado, 22 de Outubro de 4004 A.C., às seis horas da tarde – como calculou o famoso arcebispo James Ussher de Armagh –, num universo que terá começado há cerca de 12 mil milhões de anos?
Como fitaria hoje, cada um de nós, homens civilizados, a mãe, a mulher, as filhas ou as irmãs, se acatássemos o Talmude – manual de maus costumes, como diria Saramago –, o livro sagrado mais antigo, em uso contínuo, que ordena ao crente que agradeça todos os dias ao criador por não o ter feito mulher?
É essa misoginia de Paulo de Tarso, judeu cuja dissidência criou o cristianismo, quando expressava medo e desprezo pelas mulheres, que o A.T. afirmava terem sido criadas para uso e consolo do homem. Que demência pode justificar o medo primitivo de que metade da raça humana fosse suja e impura como atestam os textos religiosos?
Se os funcionários de deus não tentassem inculcar a religião de forma coerciva, não teríamos necessidade de uma vigilância contínua e de autodefesa, mas estamos longe do fim do proselitismo totalitário e da violência das religiões que disputam o mercado da fé. Santo Agostinho continua a ser uma referência ética da Igreja católica, o santo doutor que argumentava que se a tortura era adequada para aqueles que violavam as leis dos homens era-o ainda mais para aqueles que violavam a lei de Deus. (O Fim da Fé, Sam Harris, pág. 94)
O Império Romano foi consolidado pelo cristianismo, mas a Europa moderna – e essa é uma singularidade sua – foi construída pelas suas elites políticas e intelectuais, através da separação da Igreja e do Estado, em contínuo confronto com o catolicismo romano, avesso à modernidade e à democracia.
Os países dominados pelo cristianismo ortodoxo, onde o direito tem natureza política, não conseguiram a laicidade do Estado e essa é a principal razão para que nenhum país ortodoxo tenha conseguido tornar-se um Estado moderno.
Mas, talvez a mais dramática das sequelas da moral religiosa tenha sido a obsessão pela repressão sexual que causou a infelicidade, o medo e o trauma do pecado em relação a uma fonte de prazer e de realização humana e, pior ainda, o carácter misógino que impediu a emancipação da mulher, o direito à sua determinação social, profissional e cívica, reprimida pelos mais estúpidos e cruéis preconceitos patriarcais.
É urgente o sobressalto cívico, laico e republicano, que ecoe pelo Planeta e erradique as guerras religiosas e o terrorismo, promovidos por quem julga cumprir a vontade de um deus violento, cruel e vingativo, uma criação obscena que conduz ao desvario dos seus crentes.
O diálogo de religiões é uma impossibilidade teórica e prática. Pode – e deve – haver um diálogo de culturas. Aliás, as culturas contaminam-se, no sentido sociológico, e acabam por ser a síntese de várias, o produto do convívio entre comunidades diversas, o resultado da assimilação mútua e recíproca dos usos e costumes de todas e de cada uma.
O diálogo das religiões é diferente, é uma utopia, na melhor das hipóteses e, na pior, uma operação de marketing para facilitar o proselitismo e disfarçar a aversão recíproca. Uma religião, qualquer que seja, considera-se a intérprete da vontade divina e exige que todos se submetam à vontade do único deus verdadeiro – o seu.
Os homens podem entender-se mas os deuses exigem o confronto. A atoarda de que os livros sagrados são a expressão da vontade divina, ditados por anjos ou intermediados por profetas, transforma as afirmações em dogmas e os recados de Deus em sentenças iníquas de obediência obrigatória.
Quando um dignitário de uma Igreja fala em diálogo das religiões tem em vista aparecer aos olhos do mundo globalizado como líder e arauto da unificação de todos os credos a quem promete o Paraíso e pede ajuda no combate ao secularismo, laicidade e ateísmo.
Não há diálogo entre doutrinas totalitárias. Não é possível haver cedências em nome de Deus porque ele não aparece e os que dizem representá-lo não abdicam dos privilégios do múnus e do conforto do clã. Deus é o maior detonador de ódio criado pelos homens. Tem os piores defeitos dos seus criadores e minguam-lhe as virtudes que a humanidade, na sua caminhada, foi adquirindo.
Não é por acaso que as sociedades secularizadas e os Estados laicos protegem direitos, liberdades e garantias, pugnam pela não discriminação em função do sexo, raça ou religião, em suma, são plurais, tolerantes e democráticas, ao contrário das teocracias.
Pelo contrário, as sociedades que se regem pelos livros sagrados são intolerantes, cruéis e misóginas, perpetuam hábitos tribais e usam a jurisprudência canónica – simulacro de justiça –, administrada por clérigos com furor divino.
O direito à crítica das crenças, à descrença, à apostasia e à blasfémia foi adquirido por um preço demasiado alto. Não se pode tolerar que os "terroristas do pensamento único" o revoguem ou enfraqueçam. Quando se fala da burqa não se trata de moda feminina, está em jogo o iluminismo e a sua herança, a modernidade e a sua proteção, a liberdade e o seu exercício, valores mais importantes do que todas as religiões. Qualquer cedência é um retrocesso capaz de trazer de volta o obscurantismo, o ódio e a violência prosélita.
A heresia é uma opinião minoritária sem força para se manter enquanto a ortodoxia é a crença maioritária com poder para se impor.
O Talmude e a Tora, o Antigo e o Novo Testamento, o Corão e a Sunnah (séc. IX) têm em comum o carácter misógino mas diferem em relação ao álcool, à carne de porco e na defesa do véu ou da burka. No islão as proibições atingem o fulgor demente, onde até é proibido urinar virado para Meca.
Paulo de Tarso moldou o cristianismo. Perseguir era a sua obsessão esquizofrénica sem cuidar do objeto da perseguição. Ouviu vozes na estrada de Damasco e passou a perseguir o que deixara em nome do que abraçou. Juntou a essa tara a vocação pirómana e apelou à queima dos manuscritos perigosos.
Paulo de Tarso odiava o prazer e injuriava as mulheres. Advogou o castigo do corpo e glorificou o celibato, a castidade e a abstinência. É um expoente da patologia teológica, do masoquismo místico e da cegueira beata – o inspirador do Opus Dei. O cristianismo herdou a misoginia judaica. O Génesis condena radical e definitivamente a mulher como primeira pecadora e causa de todo o mal no mundo.
As três religiões monoteístas defendem a fé e a submissão, a castidade e a obediência, a necrofilia (pulsão da morte, não a parafilia), a castidade, a virgindade e outras santas tolices que conduzem à idiotia e ao complexo de culpa em relação à sexualidade.
A história de Adão e Eva é comum às três religiões monoteístas. Em todas, Deus proíbe a aproximação à árvore da sabedoria e o demónio incita à desobediência.
Aliás, o pecado é definido como a desobediência a Deus, ou seja, à vontade dos padres.
As páginas do Corão apelam constantemente à destruição dos infiéis, da sua cultura e civilização, bem como dos judeus e cristãos (por esta ordem) em nome do mesmo Deus misericordioso que alimenta a imensa legião de clérigos e hordas de terroristas.
Fonte: Traité d’athéologie, Michel Onfray - Ed. Grasset & Fasquelle, 2005
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Os cristãos fundamentalistas, sobretudo nos EUA, apoiam cinicamente os judeus e a sua jurisdição sobre a Palestina, convencidos de que só o poder sionista sobre a Terra Santa, permitirá a reconstrução do templo de Salomão e pode precipitar o Segundo Advento de Cristo para a destruição final dos judeus. A visão esquizofrénica sobre o fim do mundo não é uma invenção de fanáticos atuais, é a profecia do Armagedão do Apocalipse.
Os crentes, aflitos perante os crimes cometidos pela religião que professam, contrapõem os crimes perpetrados por regimes irreligiosos ou ateus, verdade que a história confirma. Quando o ateísmo é elevado à categoria de dogma converte-se numa crença.
Vejamos alguns exemplos da moral bíblica: Qual é o castigo para quem invoque o nome de Deus em vão?.- a morte (Levítico 24:16). E por trabalhar ao 7.º dia? – a morte, claro (Êxodo 31:15). E o castigo para o adultério? – Naturalmente, a morte (Levítico 20:10). E para a homossexualidade? (Levítico 18:22). E por comer moluscos? (Levítico 11:10).
Mas é permitido vender uma filha como escrava: (Êxodo 21:7) e possuir escravos, tanto homens como mulheres, desde que comprados em nações vizinhas (Levíticos 25:44).
Pode dizer-se que o Antigo Testamento é uma obra meramente literária, como dizem, envergonhados, alguns crentes. Mas não é o que pensa o Vaticano:

Quatro citações do «Catecismo da Igreja Católica»:
«§81 - A Sagrada Escritura é a Palavra de Deus enquanto redigida sob a moção do Espírito Santo».
«§106 - Deus inspirou os autores humanos dos livros sagrados. Na redação dos livros sagrados, Deus escolheu homens, dos quais se serviu fazendo-os usar as suas próprias faculdades e capacidades, a fim de que, agindo ele próprio neles e por meio deles, escrevessem, como verdadeiros autores, tudo e só aquilo que ele próprio queria».
«§121 – O Antigo Testamento é uma parte indispensável das Sagradas Escrituras. Os seus livros são divinamente inspirados e conservam um valor permanente, pois a Antiga Aliança nunca foi revogada».
«§123 - Os cristãos veneram o Antigo Testamento como a verdadeira Palavra de Deus. A Igreja sempre rechaçou vigorosamente a ideia de rejeitar o Antigo Testamento sob o pretexto de que o Novo Testamento o teria feito caducar».

Quanto a Alá, o misericordioso, basta observar quais são as motivações dos suicidas, o seu desejo de serem mártires, a sua obsessão pelo Paraíso, a ansiedade pelos rios de mel e as virgens que lhes são prometidas. O fundamento do ódio está no livro e nos clérigos que os intoxicam nas madraças e mesquitas.
O Corão limita-se a descrever os castigos que esperam o apóstata no outro mundo mas os hadiths são a sua jurisprudência: «seja quem for que mude de religião, mata-o», para além de servirem de auxiliar para a interpretação do Corão.

Pio IX excomungou a laicidade com a Encíclica Syllabus (1864)

O califa Uthman, depois de verificar que havia lutas por causa de versões diferentes do Corão, ordenou que todas as edições anteriores e rivais da que conservava fossem destruídas. Fez melhor do que Ireneu e o bispo Atanásio de Alexandria, em relação à Bíblia cristã.

O regime fantoche da Eslováquia era dirigido pelo padre nazi Tiso, abençoado pelo Vaticano e o cardeal da Áustria proclamou o seu entusiasmo pela invasão por Hitler.

Discriminações e perseguição aos infiéis

The Texas Constitution
Article 1 - BILL OF RIGHTS
Section 4 - RELIGIOUS TESTS
No religious test shall ever be required as a qualification to any office, or public trust, in this State; nor shall anyone be excluded from holding office on account of his religious sentiments, provided he acknowledge the existence of a Supreme Being. http://www.capitol.state.tx.us/txconst/sections/cn000100-000400.html

- No Texas, a Constituição (Artigo I, Secção 4) permite claramente a discriminação de ateístas em cargos públicos, «ninguém será excluído de uma posição pública com base nos seus sentimentos religiosos, desde que reconheça a existência de um Ser Supremo».

- O protestantismo evangélico é responsável pelos crimes cometidos contra médicos e enfermeiros que trabalham em clínicas onde se pratica a interrupção da gravidez;

- As tentativas de assassinato de Salman Rushdie, para cumprimento da fatwa proferida pelo aiatola Ruhollah Khomeini, e a obsessão dos bons muçulmanos em cumpri-la, são provocadas pela demência da fé;

- As tentativas de assassinar o cartoonista Kurt Westergaa por causa das caricaturas de Maomé devem-se à mesma cegueira religiosa;

- Os atentados das Torres de Nova York, do Metro de Londres, dos comboios de Atocha e numerosos outros crimes têm a assinatura perversa do Corão;

- Os atos terroristas do sionismo contra crianças e mulheres indefesas, o longo historial de horrores referidos no Livro Negro do Cristianismo e a continuada demência fascista do Islão político – atualmente o mais implacável e execrável dos monoteísmos –, mostram bem que deus não é bom e é um detonador do ódio e a mais totalitária das referências.

Efetivamente, deus envenena tudo.

2 comentários:

olimpio pinto disse...

Deus, existe apenas no pensamento humano, e não tem definição nem conceito. A fé, não passa do medo e da esperança atávicos, e, as religiões, da sua exploração.

olimpio pinto disse...

Deus, existe apenas no pensamento humano, e não tem definição nem conceito. A fé, não passa do medo e da esperança atávicos, e, as religiões, da sua exploração.