quarta-feira, 27 de julho de 2011

Turbulência pode voltar", diz líder do FMI


Christine Lagarde afirma que apesar da tensão nos mercados ter diminuido com o resgate à Grécia "as turbulências podem voltar facilmente" 
A directora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, advertiu ontem, segunda-feira, os países da zona euro que, apesar da tensão nos mercados ter diminuído com o novo resgate à Grécia, "as turbulências podem voltar facilmente".
Lagarde, que falava numa conferência em Nova Iorque, afirmou que o acordo alcançado na semana passada, em Bruxelas, "demonstra que os líderes europeus acreditam na zona euro e farão o que for necessário para assegurar o seu futuro".
O acordo, acrescentou, "foi bem-vindo para os mercados, como se pode ver no fortalecimento do euro e na descida do risco dos países periféricos".
No entanto, a ex-ministra francesa disse que os problemas orçamentais nos países europeus periféricos "revelaram riscos decorrentes de uma união económica e monetária incompleta", pelo que exortou os líderes da zona euro a "concretizarem com celeridade" os acordos alcançados na cimeira extraordinária da semana passada.
Os líderes europeus acordaram na quinta-feira, em Bruxelas, um novo pacote de ajuda financeira à Grécia, que inclui 109 mil milhões de euros da zona euro e do Fundo Monetário Internacional (FMI) e mais 50 mil milhões que serão suportados pelos bancos e pelas instituições financeiras detentoras de dívida pública grega.
Diário de Notícias
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O carro da UE está descomandado na descida e ameaça despenhar-se no desfiladeiro. Mais uma vez, os dirigentes da UE demoraram a encontrar uma solução (mesmo que precária) para o problema da dívida grega e, também, mais uma vez, encalharam na resolução de fundo desse problema, a necessária, avançando com meias medidas, que mais não significam do que o seu adiamento.
A Alemanha, que já está a ganhar com a situação (os bancos credores, em pouco anos, e devido à aplicação de taxas de juro especulativas, começam a recuperar grande parte dos seus créditos, ao mesmo tempo que as suas grandes empresas, algumas com participação do Estado, se posicionam em condições de preferência para abocanhar a parte mais apetecível do bolo das privatizações, que o governo grego já pôs em marcha) procura Não perder a liderança do processo a fazer prevalecer os seus pontos de vista. A manobra da senhora Merkel em exigir a participação voluntária dos bancos credores no novo pacote de assistência à Grécia, não passa disso mesmo. Uma manobra eleitoralista, a fim de passar para a opinião pública a ideia de que não são apenas os contribuintes alemães a pagar a factura. Não existem garantias que os bancos alemães embarquem na ideia, já que o seu envolvimento é voluntário e não terá de ser imediato. Se a situação na Grécia começar a deteriorar-se, o que é o mais provável, os bancos acabarão por não avançar.
O que está a acontecer na Grécia é uma antecipação do que irá ocorrer em Portugal nos próximos dois anos, se, entretanto, os dirigentes europeus não mudarem a sua obstinada estratégia em relação aos países do sul da Europa, optando por apoios para o seu desenvolvimento económico, em alternativa à imposição de prazos curtos para a correcção dos défices orçamentais, que se transformaram numa obsessão doentia, que só agrada aos credores (bancos, companhias de seguros e fundos de investimento). A proclamação patriótica de que Portugal não é a Grécia não passa de uma falácia. Cada vez mais a semelhança é mais evidente. Ao contrário do que  vem afirmando o actual ministro das Finanças, não é certo que a partir de 2013, ano em que se prevê a consolidação do défice orçamental (se não houver surpresas pelo caminho), o crescimento da economia venha a ter ganhos substanciais, que  criem os excedentes necessários para pagar a dívida. Uma vez chegados aí, ou mesmo antes, e tal como está a acontecer na Grécia, novas e brutais medidas de austeridade vão ser impostas, mas que já não irão ser recebidas pacificamente por uma população castigada por uma política suicida, que penaliza exclusivamente os rendimentos provenientes do trabalho e das pensões e poupa os rendimentos de capital, situação esta que o ministro da Finanças, com uma grande e descarada desfaçatez, classifica de universal e equitativa.

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