sexta-feira, 14 de março de 2014

Ucrânia: À Europa, Saiu o Tiro Pela Culatra

 

Putine passou de bestial a besta em menos de 24 horas. De grande estrela organizadora dos Jogos Olímpicos de Sotchi, autêntica medalha de ouro da modalidade de contra-terrorismo, capa de variadíssimas publicações ocidentais durante quinze dias, Putine passou a ser o urso que ameaça devorar o mundo. Há, claro, em tudo isto (como diria Mark Twain a propósito das notícias sobre a sua morte), algum exagero e também alguma má-fé e muita ignorância.

As razões geopolíticas do afrontamento na “terra da fronteira” (significado literal de Ucrânia) são conhecidas de todos os que se interessam (mesmo pouco que seja) pela geopolítica. Mario Draghi confessou, a propósito, há uns dias, que a geopolítica era algo que estava para lá do alcance de “um pobre banqueiro central”… Mas esqueceu-se de referir (ou não sabia) que nenhum banqueiro central (pobre ou não…) está para além do alcance da geopolítica.

George Friedman, para só citar um nome conhecido dos leitores do “IE”, há anos que vinha a antecipar, em público, os actuais acontecimentos da Ucrânia (e outros da Europa e da Rússia) e, ao longo de 2013, lançou vários alertas sobre o problema. Portanto, esta crise, como todas as crises, era antecipável e a prova é que houve quem a antecipasse, como o nosso referido amigo George Friedman.
Não há, portanto, aqui nenhuma surpresa (Friedman explicou há um ano como a reacção de Putine só poderia ser a que agora… foi!) e se algum dirigente político ocidental se diz surpreendido, então, só está a comprovar que não tem competência para o cargo que ocupa. Mas isso também já se sabia…

Que a Crimeia queira ser russa também não é um facto que possa surpreender, tendo em conta a história dos últimos séculos e a conjuntura estratégica das últimas décadas. Nem é, de resto, caso raro e muito menos único. Assim, de repente, para não falar da defunta Checoslováquia, nem da falecida Jugoslávia e outros Kosovos, bastará lembrar a velha guerra da Irlanda e, mais recente, a Escócia a querer separar-se do Reino Unido, a Flandres que quer sair da Bélgica, a Valónia que admite integrar-se na França, a Lombardia que não quer ser italiana e, mais perto de nós, o País Basco e a Catalunha que gritam não ser Espanha e pretendem viver a sua própria vida. E a Alemanha deverá olhar também um pouco para aquilo que é… O estado politicamente mais arcaico e frágil da Europa, permanentemente ameaçado de uma implosão que só a ocupação militar americana mantinha fora da agenda e que agora só o sucesso económico disfarça, a Alemanha ter em qualquer altura a sua Crimeia na…Baviera.

A Crimeia não é, portanto surpresa alguma, nem sequer uma história rara. Que as chancelarias da União Europeia sucumbam a um fatal cocktail de arrogância e ignorância, polvilhado de preguiça, é outra história, que tão pouco é rara mas, sim, muito comum. Que, tendo sucumbido a esse cocktail fatal, as chancelarias europeias sejam surpreendidas, pelo normal evoluir das dinâmicas que desencadeiam, tão pouco tem nada de surpreendente. Que estejam agora a ser assediadas pelos banqueiros que, levianamente e com muito desprezo pela geopolítica, se “expuseram” na Rússia mas sobretudo na Ucrânia (onde a exposição ascende a dezenas de milhares de milhões…) também não surpreende. Aliás, seria o contrário que surpreenderia. Tal como surpreenderia que a União Europeia não mobilize já umas dezenas de milhares de milhões (do
dinheiro dos contribuintes, claro) para correr “ajudar” (a fundo perdido) a Ucrânia a pagar aos bancos europeus, para que estes não percam os seus fundos. O dinheiro, aliás, nem avistará terras da Ucrânia, passará directamente dos bolsos dos contribuintes para os cofres dos bancos. Claro, tudo isto precisa de um discurso justificativo e até apologético. A guerra económica dos bancos pela recuperação dos seus fundos precisa de uma boa guerra de informação… E ela aí está que já transformou em ouro devorador a medalha olímpica do contra-terrorismo de Sotchi. Até os editoriais de um “Economist”, outrora tão lúcido, cheiram a propaganda barata…

A questão estratégica, porém, é outra. A Rússia é o jovem Estado que sucedeu à União Soviética (embora tenha perdido territórios e populações). Como jovem Estado está a iniciar o seu percurso e tem escolhas estratégicas a fazer. Escolhas que ditarão o seu futuro imediato e a longo prazo. Por exemplo, dizer que a Rússia deve escolher a democracia à ocidental é uma frase feita e totalmente
vazia. Oca. A Rússia, para escolher e construir a democracia à ocidental, precisa de ter um horizonte de integração no mundo euro-atlântico. De sentir e ver que essa integração não só é possível como é a melhor aposta em termos de desenvolvimento e segurança do jovem Estado russo. Ora, a “crise” da Ucrânia constitui-se em trauma para a Rússia que percepciona este conflito como a vontade da Alemanha, enquadrada por outros europeus e apoiada por Washington, de desestabilizar as fronteiras russas, instalar-se aí e obter o controlo do Mar Negro, barrando a Moscovo a sua única via de acesso ao Mediterrâneo. Bem ou mal, a Rússia percepciona a Ucrânia como um Estado-tampão essencial à sua defesa. Isso é um facto. Um facto real e estratégico que, sendo tal, não pode ser ignorado, como o foi pelas chancelarias europeias. Moscovo considera que, dada a sua geografia e a sua história, a transformação
da Ucrânia num Estado sob influência de Berlim (com ou sem apoio de Washington) é uma gravíssima ameaça à sua segurança nacional e, como tal, não pode ser tolerável e, muito menos, tolerado. A reacção de Putine só podia, portanto, ter a natureza que teve…

A sua recentíssima declaração de que pretende uma “solução diplomática”, mais do que apaziguadora pode ser muito preocupante e tem várias leituras possíveis mas concordantes e mesmo complementares.

Primeiro, Putine sente que já está montado um sistema suficiente de forças na Crimeia e que, resolvido esse problema de terreno, é agora tempo de começar a “conversar”;

Segundo, Putine não acredita em “soluções diplomáticas” mas as forças no terreno, tanto na Crimeia como em todo o leste da Ucrânia, são já suficientes para aguentar embates com as milícias e as tropas deste governo anti-russo de Kiev;

Terceiro, não havendo soluções diplomáticas (e, obviamente, quanto menos elas forem possíveis mais ele chamará por elas…), Putine aceita uma “guerra prolongada” na Ucrânia (à imagem da ex-Jugoslávia), em que não empenhará tropas mas municiará abundantemente as milícias pró-russas, pelo menos enquanto não  houver intervenções estrangeiras;
Quarto, uma tal guerra civil na Ucrânia, uma estratégia de caos, desestabilizará não só a Ucrânia mas toda a região, será um imenso sarilho para a União Europeia, prejudicará gravemente os interesses americanos no Irão, Síria, Iraque, Afeganistão e outros, tornará o Mediterrâneo oriental uma autêntica zona de guerra, será uma bela vacina para outros Estados ex-soviéticos que apresentem veleidades anti russas e, last but not least, isto afastará, por décadas, Moscovo do mundo euro-atlântico colocando-o numa posição de radical desconfiança estratégica de todo o Ocidente e, particularmente, de Berlim;
Quinto, esta “estratégia caos” choca de frente com os interesses europeus de um próspero mercado de 45 milhões de consumidores ucranianos mas não belisca o interesse russo de ter na Ucrânia um Estado-tampão, que pode perfeitamente ser o campo de ruínas resultante de uma arrasadora guerra civil.

A Bruxelas, na Ucrânia, já está visto que lhe saiu o tiro pela culatra… Os estragos que isso provocará é o que ainda iremos ver. Como tudo isto pode ser visto, enquadrado e explorado no quadro da estratégia nacional portuguesa é algo a que só quem souber o que essa estratégia nacional poderá dar alguma resposta…
Inteligência Económica
10/03/2014

Amabilidade de Diamantino  Silva

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