quinta-feira, 6 de março de 2014

Notas do meu rodapé:A charlatanice à solta


Belmiro de Azevedo "Salários só aumentam quando português fizer uma coisa igual"

O presidente do Conselho de Administração da Sonae, Belmiro de Azevedo, afirmou hoje que os salários em Portugal só podem aumentar quando os trabalhadores tiverem a mesma produtividade que, por exemplo, os alemães.
"Os salários só podem aumentar - e oxalá que isso aconteça -- quando, de facto, um trabalhador português fizer uma coisa igual, parecida, com um trabalhador alemão ou inglês, seja o que for", afirmou Belmiro de Azevedo, à margem da cerimónia de entrega dos diplomas dos finalistas do MBA Executivo da Porto Business School.
Notícias ao Minuto (ver texto completo da notícia)


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A charlatanice à solta

Pasmo de espanto como é que na seleta reunião da entrega dos diplomas aos finalistas do MBA Executivo da Porto Business School, pejada de economistas, ninguém tivesse corrigido a aleivosia do patrão da Sonae, sobre a sua errada definição de produtividde, que ele, por motivos ideológicos e de classe, focaliza exclusivamente no factor de produção, o trabalho, ignorando um outro factor, o investimento, que é é a grande alavanca do aumento da produtividade. Belmiro de Azevedo, ou já está senil, ou é ignorante ou, então, é um charlatão. Se está senil, não deveria ter sido convidado para uma reunião, que, em princípio, deveria caracterizar-se pelo rigor da linguagem económica. A segunda hipótese, a da crassa ignorância, também deveria ter ditado a sua exclusão. A terceira hipótese, a da charlatanice, remete-me para a dúvida se os dirigentes e responsáveis daquele MBA Executivo não passam também de uns grandes charlatães (ou charlatões, se preferirem).
A produtividade de uma economia mede-se pela razão do PIB em relação ao número de trabalhadores ativos, multiplicado pelo número total de horas de trabalho (PIB / nº de trabalhadores x nº de horas trabalhadas). Como se trata de uma fração, com numerador e denominador, qualquer pessoa percebe que a produtividade é tanto maior, quanto maior for a riqueza produzida e quanto menor for o número de horas trabalhadas. Num determinado ano, a produtividade em relação ao ano anterior aumentará se um mesmo número de trabalhadores, trabalhando o mesmo número de horas, produzir mais e (ou) melhores produtos e serviços (mais riqueza). Mas essa capacidade de aumentar riqueza depende quase exclusivamente de um dos factores da composição do PIB, o investimento (em novas tecnologias, que encurtem o tempo de trabalho para fabricar cada unidade dos produtos, na formação profissional dos trabalhadores, aumentando as suas capacidades produtivas, e na melhoria da gestão e do marketing). Também se poderia aumentar a produtividade, aumentando os horários de trabalho ou os ritmos de trabalho, que é o que está a acontecer em Portugal, atualmente. Mas tudo isto depende do empresário e não dos trabalhadores, que cumprem (não têm outro remédio) os horários e os ritmos de trabalho que lhes são impostos. Ora a produtividade tem sido, desde sempre, o calcanhar de Aquiles da economia portuguesa, e isto porque os empresários não arriscam em investimentos focalizados na inovação, que aumentem a produtividade e, consequentemente, a competitividade.
Neste sentido, pode dizer-se que os nossos empresários foram e são parasitas, pois só pensam em aumentar a produtividade à custa do aumento dos tempos de trabalho e aumentar a produtividade à custa da desvalorização salarial (menores custos de trabalho). Apesar de ser o homem mais rico de Portugal, Belmiro de Azevedo é um deles, pois só aposta em negócios de pouco risco e de pouco valor acrescentado (devido à baixa produtividade), mas que lhe proporciona elevados lucros, devido aos baixos salários.