domingo, 16 de março de 2014

Jerónimo de Sousa defende que Manifesto dos 70 é "tardio"


O secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, afirmou hoje, no Porto, que o manifesto subscrito por 70 personalidades é "tardio", mas vem confirmar a necessidade "urgente" da renegociação da dívida e a rutura com o atual rumo político.
No comício comemorativo do 93.º aniversário do partido, o líder comunista salientou que o manifesto conclui a necessidade "imediata" do país renegociar a sua dívida pública, reconhecendo a natureza insustentável da dívida e as consequências devastadoras que lhe estão associadas.
"Uma renegociação que, para o PCP, deve ser assumida por iniciativa do Estado português, na plenitude do direito soberano da salvaguarda dos interesses do país e do povo, assente num serviço de dívida compatível com o crescimento económico e a promoção do emprego, tendo como objetivo a sustentabilidade da divida no medio e longo prazo", referiu.

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O Manifesto dos 70 é tardio e opta por uma solução minimalista. Perante o gigantismo da dívida do Estado português, a sua “reestruturação” (alongamento das maturidades e abaixamento de juros) já é insuficiente. Neste momento, em que a perspetiva futura de bancarrota se apresenta como provável, a solução também passa pelo perdão de parte dessa dívida, através da sua “renegociação”, tal como propôs o PCP, já em 2011, e que não é nenhuma novidade nas relações financeiras entre Estados soberanos. A própria Alemanha beneficiou da benevolência dos seus credores, onde constava a Grécia, que lhe perdoaram cerca da metade da dívida soberana e lhe alongaram os prazos de maturidade.
Mas, apesar destas insuficiências, o manifesto teve o mérito de mostrar as brechas que já estão a abrir-se no setor da direita e a ampliar na opinião pública o ceticismo em relação à política de austeridade seguida pelo governo. Embora tardiamente, as pessoas começam a perceber que os sacrifícios vieram para ficar, e com a agravante de não conduzirem a lado nenhum, a não ser à pobreza endémica da maior parte da população.
O manifesto, uma vez que cruza subscritores de vários quadrantes ideológicos, tem dois tempos com marcas identitárias diferentes. O primeiro, o da análise económica, aliás, bem sucedida, tem a marca das personalidades mais à esquerda, onde se vislumbra a mão dos economistas neo-Keynesianos. O segundo, o das soluções propostas, tem a influência das personalidades de direita, que evitaram qualquer referência explícita ao governo, que apenas implicitamente é criticado.