sábado, 3 de junho de 2017

PRÉMIO LITERÁRIO GLÓRIA DE SANT’ANNA – 2017 _ Referência ao livro “ A Casa de ler no escuro” de Maria Azenha


PRÉMIO LITERÁRIO GLÓRIA DE SANT’ANNA – 2017

(obra finalista)

Referência ao livro “ A Casa de ler no escuro” de Maria Azenha
Por João Guisan – Professor – Galiza

Como já sabem aqueles que assistiram à anterior entrega dos prémios Glória de Sant’Anna, na hora de determinar os poemas que vou ler, o meu primeiro critério de escolha é sempre o mesmo: de todos o mais curto (neste caso, os mais curtos). Não é apenas por preguiça. É que eu acho que toda a poesia, ou pelo menos a boa poesia, tem qualquer coisa de “podasia”, que, segundo constará dos dicionários de um futuro não muito longínquo, é a «arte mista de “poda” e “poesia” que consiste em podar um discurso até o deixar reduzido a uma parte tão essencial que não pode ser compreendido da primeira vez». Porque a “podasia”, com efeito, espreme todo o sumo poético de um texto, mas a custo de o deixar desprovido de sentido. Pelo menos de “sentido ao primeiro olhar”. Tomemos, por exemplo, um sisudo tratado sobre a pesca do bacalhau na Terra Nova de 500 páginas. Comecemos por “podar”, como quem não quer a coisa, 499 delas, e, não nos conformando com isso, dessa única página restante deixemos apenas umas poucas linhas, e mesmo a essas poucas linhas vamos podar-lhes a maior parte do seu comprimento, até obtermos qualquer coisa como: «No beliche o músculo O peixe no porão Os sonhos a bordo Esticam-se aos quilómetros Perdão: às milhas náuticas». Teremos conseguido que aquele longo estudo, por podas sucessivas, destile, no extremo das linhas decepadas, uma poucas gotas de seiva com algum cheiro de poesia, quer dizer de “podasia”. Talvez não vamos tirar daí muitos dados sobre a pescaria do bacalhau na Terra Nova, mas compreenderemos por fim o verdadeiro sentido e funcionamento da “Podasia”. A “podasia” exige do leitor o que a poda exige do Sol, da terra, a chuva e as sazões: que reconstrua toda a ramada antes cortada. Com o senão de ela já não poder ser mais igual à original, mas talvez muito mais viçosa. É isso que vos peço que façam com estes dois brevíssimos poemas da Maria Azenha que vou ler. Se quando eu tiver pronunciado a última das sílabas do último dos versos, vocês acharem que chegou o ponto final, que o poema já acabou… Se não perceberem nesta reverberação de capela uma convite às reticências… É um sintoma de que, ou eu li pessimamente, ou vocês padecem da maior e pior das surdezes, que é a incapacidade para ouvir o silêncio. Consultem urgentemente os vossos otorrinolaringolocardiologistas, que nos dicionários do futuro serão os «especialistas nas ressonâncias que os sons emitidos pela garganta e percebidos pelos ouvidos, produzem nas ondas que registam os electrocardiogramas».

POEMAS DE MARIA AZENHA: “AVISO” E “A LOUCURA”

Aviso

A vida pode ser uma mulher atravessando a rua
A mulher pode ser uma criança com uma flor de cinzas na boca
A flor pode ser um homem enforcado na lua


A loucura

! A loucura parece-se com Deus.
Não a temas.
Verás que é boa e não arruína a garganta
como a voz humana!

In No Tempo dos Espelhos

***«»***
O meu comentário:

Aprendi muito, ao ler o texto do Professor João Guisan. E, agora, também eu posso dizer: é através da “podasia” (um seu inédito e original conceito) que os grandes poetas escrevem grandes poemas. É o caso dos poemas “Aviso” e “A loucura”, da “poeta” Maria Azenha.
E, nestes dois poemas (permita-se-me este meu acervo crítico), Maria Azenha evidencia toda a sua enorme capacidade em proceder à “síntese poética da Ideia”.
Alexandre de Castro
2017 06 03

1 comentário:

Alexandre de Castro disse...

No “Abril de Novo Magazine”, um Portal que cooptou cerca de trinta blogues, entre os quais o Alpendre da Lua, a publicação, referente ao livro “ A Casa de ler no escuro” de Maria Azenha, ocupa, desde anteontem (4 de Junho), a posição de uma das dez publicações mais lidas.