quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A casa de ler no escuro _ Maria Azenha


Tive o privilégio de conhecer, no final do mês passado, a “poeta” Maria Azenha de quem sou um admirador incondicional. O pretexto foi o de receber das suas mãos o seu último livro de poesia, que recentemente publicou, e onde inseriu, como nota preambular, uma pequena frase minha, que, previamente, me solicitara para o efeito, e que aqui transcrevo:

“Todos anseiam escrever um poema num muro escuro.
Se possível, com gomos de lume, para incendiar as pedras.”

Entendi o honroso convite, que volto a agradecer, como uma prova de estima.
***
Maria Azenha, já com duas dezenas de livros publicados, exprime-se poeticamente num estilo literário inconfundível, que ninguém consegue imitar, enquadrando os seus poemas numa geometria metafórica grandiosa, em que o segredo dos efeitos reside na precisão de cada palavra, milimetricamente escolhida, o que me levou a dizer que os seus poemas são verdadeiras “catedrais góticas”.
***
Do livro em causa, “A casa de ler no escuro”, escolhi, para aqui deixar, o poema da página 11 e o da página 33.

O Anjo do desastre

Chegou a morte com a boca cheia de cravos.
Chegou numa certa manhã escura
com sirenes no deserto e
cavalos

contra a primavera
contra a chuva

sem que o sangue de deus existisse num milagre
ou num mícron de segundo.

Vi o anjo do desastre colocar os pés no mundo.

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A noite da europa

Toda a violência procura o disfarce
de uma virgem que é perseguida por
um louco.

Auschwitz é um cão que morde o poema
triunfante de ruína.

O seu verso de saída é um imperador morto
Que busca o ouro nos destroços

Maria Azenha.

1 comentário:

Eduardo Júlio disse...

PARABÉNS À POETA MARIA AZENHA.