sexta-feira, 13 de outubro de 2017

A Catalunha será independente…

Cortes catalãs sec. XV

A Catalunha será independente…

Inés Arrimadas, a líder parlamentar do Ciudadanos, partido que se perfila contra a independência da Catalunha, no seu discurso no Parlamento, no dia em que estava programado que Carles Puigdemont proferisse a declaração unilateral da independência da Catalunha, ridicularizou os independentistas, e, para acentuar o verrume, até foi buscar uma frase de um artigo de 2008, de um outro independentista, o vice-presidente Oriol Junqueras (da Esquerda Republicana), que dizia: “os catalães têm mais proximidade genética com os franceses do que com os espanhóis; mais com os italianos do que com os portugueses e um pouco com os suíços”.

Eu não sei se essa identidade genética dos catalães com os franceses e os italianos é real. Talvez seja, já que até 1714, ano em que a anexação da Catalunha pelo reino espanhol se consumou, através de uma intervenção militar, a Catalunha mantinha um intercâmbio comercial intenso com a Itália e o sul de França.

Por outro lado, o Condado de Barcelona chegou a integrar a Sardenha, Sicília, Minorca (nas Ilhas Baleares) e o reino de Nápoles. Daí que tivesse havido uma miscigenação populacional. Mas mesmo que esse argumento possa ser rejeitado, devido à ausência de uma objectiva demonstração científica, será válido recuperar o argumento da identidade cultural e nacionalista dos catalães. A requintada cultura renascentista entrou na Península Ibérica pela Catalunha e não por Bayona, no outro extremo dos Pirenéus, e foi na Catalunha, principalmente em Barcelona, que essa cultura avançada se entranhou, deixando marcas civilizacionais importantes. Nos séculos XIV e na primeira metade do século XV, a Catalunha era a fronteira ocidental da cultura renascentista, e que separava a civilização erudita italianizante da “barbárie" ibérica, ainda a cheirar a mouros e a visigodos. E o refinamento cultural da Catalunha constituiu-se sempre no fermento da forte pulsão independentista, que os néscios de hoje querem ignorar.

Por outro lado, a Catalunha tomou a dianteira no processo da industrialização, a partir da segunda década do século XIX, o que lhe garantiu a supremacia económica, na Península Ibérica, supremacia esta que persiste, nos dias de hoje. É a Catalunha que trabalha para Espanha e não o contrário.

Perante esta supremacia cultural e económica, no futuro, vai ser difícil ao governo de Madrid manter as coisas, tal como estão, pois,   uma coisa é certa: os catalães de gema nunca se reviram na cultura ibérica e, principalmente, na cultura de Castela. No seu passado, Castela privilegiou mais o culto de guerra e das armas e a usura da terra pela nobreza, do que o culto das Artes, das Letras, das Ciências e das Indústrias. O conflito, já secular, entre as duas entidades culturais e económicas esteve sempre latente, como está ainda hoje.

Como “água mole em pedra dura tanto dá até que fura”, a independência da Catalunha acabará por acontecer, mais tarde ou mais cedo. Neste momento, ela apenas foi adiada.

Quem é que, no Portugal salazarento, no dia 24 de Abril de 1974, adivinhava a manhã redentora do dia seguinte. A História dos povos é feita de saltos bruscos no Tempo e esses saltos vêm sempre, na maior parte das vezes, de surpresa.
 Alexandre de Castro
2017 10 13

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