quarta-feira, 6 de julho de 2016

Uma premonição sobre o fim da União Europeia


Uma premonição sobre o fim da União Europeia

Se é verdade que a economia do Reino Unido precisa da Europa, não é menos verdade que a economia europeia também precisa do Reino Unido. E também é verdade que, a David Cameron, a ideia de convocar um referendo, sobre a permanência da Grã-Bretanha na UE, não lhe surgiu de repente, quando ele, numa certa manhã, no início de 2015, em que se preparava para obter o seu segundo mandato, como primeiro-ministro, estava a olhar para o espelho, a barbear-se. Esta ideia já lhe bailava na cabeça, quando, quatro antes, e sob a sua égide, a Grã-Bretanha recusou assinar o Pacto Orçamental (Tratado sobre a Estabilidade, Coordenação e Governação na UEM).

E nem sequer se poderá acreditar que estas duas importantes decisões, contra a Europa, tivessem sido tomadas por um capricho individual ou devido a uma sua exacerbação ideológica anti europeísta. Não... Essa era a vontade dos donos da City (o conglomerado do grande e poderoso capital financeiro).
Londres percebeu, desde os primórdios da fundação da UE, que não podia ser potência dominante num espaço, que era ferreamente controlado por Berlim e Paris. E se aderiu à UE, pelas mãos de Margaret Thatcher, foi porque a UE teve de fazer muitas cedências e concessões (algumas delas verdadeiramente escandalosas). 

Mas, com o incontestável crescimento da França e, principalmente, da Alemanha, à custa dos outros países da UE, a Grã-Bretanha, no futuro próximo, iria acabar por vir a perder importância estratégica, a nível internacional. A City tinha de fazer alguma coisa, para se salvar do declínio. E escolheu-se uma estratégia secreta de afrontamento camuflado. Se a Grã-Bretanha não pode combater a Alemanha por dentro, a opção é combatê-la, tendo um pé dentro e o outro fora, que é como ela está agora, após o referendo, e será assim que irá continuar, por alguns anos, com a Grã-Bretanha a adiar constantemente e sucessivamente o acionamento do artigo 50º do Tratado de Lisboa - a fim de formalizar o pedido de saída da EU - e fazendo exigências exorbitantes que a Alemanha não poderá aceitar, para não perder a face, e também porque não quer perder o seu domínio imperial sobre uma dócil Europa (até ver), que a não tem incomodado.

Além disso, a Grã-Bretanha lançou o seu ataque no momento certo, o momento de uma maior fragilidade da UE, atascada em crises sucessivas, e onde, em alguns países, começam a emergir forças centrífugas, que irão ganhar alento com a posição da Grã-Bretanha, e até tornarem-se suas aliadas, no seio da UE.

A Grã-Bretanha vai jogar forte e feio na desagregação da UE, deixando que as intermináveis negociações comecem a minar a confiança dos governos, dos políticos, dos investidores e dos cidadãos. Regressa-se, assim, ao ambiente político que gerou a Primeira Guerra Mundial, em que o objecto da disputa se concentrava na posse de territórios ultramarinos, que a Alemanha não possuía, mas de que necessitava.

Entretanto, a situação económica dos dois lados, em conflito político, irá agravar-se, naturalmente. Não há partos sem dor. Talvez com mais prejuízos para a UE, que terá grandes dificuldades em encontrar plataformas comuns de entendimento sobre os caminhos a seguir e em gerar consensos entre os vários governos dos países, que a compõem, até porque esses governos vão começar a ter de enfrentar-se com uma opinião pública hostil e com uma grande agitação social, que todas as crises fazem emergir. Por outro lado, o sentimento anti germânico irá recrudescer em espiral, motivando os partidos anti europeístas a pedir a realização de referendos.

Neste quadro de confusão, a França poderá vir a dar o golpe mortal na UE, se Marie Le Pen ganhar as próximas eleições. 

Uma coisa é certa: será a Grã-Bretanha a ter a chave na mão, nestas negociações preliminares, e será o governo de Sua Majestade que irá comandar o seu ritmo e prioridades. Aliás já se percebeu o nervosismo dos dirigentes europeus, que já estão a ver o chão fugir-lhes debaixo dos pés.

Nesta análise (ou será mais uma tese de conspiração?), fica-se sem saber qual vai ser o comportamento dos EUA e da Rússia.

Os EUA têm quase terminado o tal secreto TTIP (Transatlantic Trade and Investment Partnership) com a Comissão Europeia, que ainda precisa de ser aprovado pelo Conselho Europeu e pelo Parlamento Europeu. Trata-se de um tratado (tanto quanto se sabe) que é um autêntico Cavalo de Troia, pois vem dar mão livre às multinacionais americanas, em solo europeu, como se fossem verdadeiras companhias majestáticas e que vem sonegar direitos aos trabalhadores europeus, entre outras malfeitorias, que ainda não são conhecidas. Com uma Europa em ebulição política, e a viver um período de crispação, será difícil a conclusão do processo. E ainda bem…

Quanto à Rússia, se a evolução e as conveniências estratégicas assim o determinarem, alinhará com a Grã-Bretanha, a quem, até, poderá compensar os efeitos de algumas das perdas comerciais dos britânicos com a Europa, começado a importar muitos dos seus produtos.

Não nos esqueçamos que o país de Sua Majestade ganhou os mares em Trafalgar e venceu Napoleão em Waterloo. E a Armada Invencível e os exércitos napoleónicos eram temíveis!

E a Alemanha perdeu as duas guerras que, no século XX, desencadeou na Europa. E o Kaiser Guilherme II e Hitler também eram temíveis e considerados invencíveis.

Alexandre de Castro
2016 07 06