sábado, 2 de julho de 2016

Referendar a Europa


Referendar a Europa

Começa a ser evidente que o sentimento de pertença à União Europeia começa a abrir brechas. O resultado do referendo na Grã-Bretanha e uma sondagem recente, na República Checa, a revelar uma fraca adesão da população à permanência na UE, assim o demonstra.
“Na República Checa, segundo uma sondagem de abril, a satisfação com a adesão à União Europeia, que aconteceu em 2004, diminuiu para 25%, abaixo dos 32% registados no ano passado”, assinalava o jornal Diário de Notícias, o que levou o Presidente Milos Zeman a pedir um referendo.
Passada a euforia dos primeiros tempos, cheia das promessas dos "amanhãs que cantam", começa a instalar-se um sentimento de descrença e de pessimismo, plenamente justificado, perante a incapacidade dos dirigentes políticos europeus de encontrar soluções eficazes e duradouras para resolver as crises, que, e ao contrário do que dizem os europeístas fanáticos, já são estruturais e não conjunturais.
O presidente checo, ao defender um referendo sobre a continuação da permanência do seu país na UE, e para o qual não tem poderes para o convocar, está a apontar o caminho certo que todos os países membros deveriam começar a percorrer: referendar a Europa. E valido esta ideia, embora esteja consciente dos perigos e de alguns aspectos negativos das pulsões referendárias. Para esta questão fundamental, este será o único processo (o outro será o processo revolucionário) de quebrar o cerco armadilhado das eleições para os parlamentos nacionais, em que o sistema tem dois grandes partidos - federados, financiados e harmonizados doutrinariamente, a nível europeu, pelas suas respectivas internacionais – e que se apresentam ao eleitorado como sendo partidos antagónicos, mas que, na realidade, são idênticos no essencial. É nesta condição de cumplicidades ocultas que ambos  cumprem o ritual da alternância do poder, servindo um para governar e o outro para captar o descontentamento popular, limitando assim o espaço de manobra dos verdadeiros partidos de esquerda.
Num referendo sobre uma grande questão política fracturante, e tal como aconteceu na Grã-Bretanha, o eleitorado tem tendência em segmentar-se transversalmente em dois blocos, minando e limitando assim a acção dos partidos do sistema da alternância, que têm mais dificuldade em controlar os seus tradicionais espaços eleitorais.
Na Grã-Bretanha, no referendo sobre a UE, esta transversalidade referida até atingiu em cheio os deputados do parlamento, em que cada partido, o conservador e o trabalhista, se fragmentou, nas duas opções que estavam a ser escrutinadas. Pode dizer-se que os directórios partidários, por manifesta incapacidade ou por uma premeditada inércia, não seguraram os seus eleitorados tradicionais.
Pretender teimosamente construir um grande edifício, como é o da União Europeia e o do seu subgrupo dos países do euro, sobre um terreno movediço, que está a perder consistência e solidez, conduzirá à sua fatal derrocada, com terríveis consequências económicas e sociais.
Querer unir e federar a Europa é uma utopia. Nem pelas armas, Carlos Magno, Napoleão ou Hitler a conseguiram unir. Por profundas razões históricas e pelas diversidades linguísticas, a Europa é um mosaico de nações, com as quais os respectivos povos se identificam. Só assim se compreende que o continente mais pequeno do mundo, em área, seja aquele que mais países soberanos possui.
Na Europa, o sentimento mais identitário é o sentimento nacional e não o continental.
AC
2016 JUL 02