quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Conto: enanito - por Ana Cássia Rebelo

El enanito (1)
O meu amigo anão telefonou-me a semana passada de Buenos Aires. Contou-me as novidades. Tivera sucesso na indústria pornográfica. A vida correu-lhe bem durante os primeiros tempos. Mas, depois, teve assim uma espécie de esgotamento, passou a ter dificuldades de hasteamento, custava-lhe muito a enrijecer o instrumento. Ainda lhe deram a tomar uns comprimidos a ver se a coisa se compunha. Porém, no momento da verdade, estava sempre de mangalho encolhido, uma serpente velha, sem serventia alguma. O realizador decidiu tirar-lhe o protagonismo. Meteram-no num filme de furry fandom, cheio de figuras híbridas; ele de figura secundária, usava uma bandolete de crina, calções justinhos de cabedal e botins a fingir de cascos de cavalo. A princípio, não se importou com a mudança: dava descanso ao seu monumental instrumento, estava para ali, só tinha de ser passeado por uma gorducha que usava um chicote com brandura; às vezes, relinchava. O pior é que os botins com forma de casco apertavam-lhe muito os penantes. Eram tão apertados que a determinada altura lhe pareceu que os pés encolhiam, passou a sentir tonturas e, constantemente, uma sensação de desequilíbrio durante a marcha. À noite, tinha pesadelos em que aparecia vestido de quimono, olhos rasgados de chinesinha, os pés minguando, minguando, cada vez mais pequenos, pés de lírio entrapados em sapatos de cetim vermelho. Percebeu que se continuasse a fazer de cavalgadura miniatura, a usar os detestáveis botins, em breve, deixaria de andar. Foi explicar ao realizador que não aguentava tamanhas dores, não estava para ser pónei a vida toda, a bandoleta ainda vá que não vá, agora as botinhas de casco nem pensar, ia-se embora. Julgou que o realizador reconsiderasse, lhe arranjasse outro papel, afinal o seu primeiro filme El enanito e las siete monjas peludas fora um sucesso. Um anão, melhor dizendo, um enanito como ele, tão bem apetrechado, não era nada fácil de encontrar. Para sua surpresa o outro aceitou sem mais a sua demissão. As figuras híbridas já cansavam. Homens touros, centauros, harpias. Estava tudo visto. Era um entusiasta da cultura clássica, decidira fazer uma adaptação livre do asno de ouro e arriscava usar um burro a sério. Já tinha em vista um burro abissínio, raça de robustez provada, erecto, o burro abissínio era animal para ter um pénis com quase cinquenta centímetros de comprimento e vinte de diâmetro. Engoli em seco, confessou do outro lado da linha o meu amigo anão, bem vês, não é fácil ser-se ultrapassado por um burro. E continuou: ainda me senti tentado a pedinchar que me deixassem ficar, nem que fosse a tomar conta do asno, porém, depois lembrei-me de que um homem, mesmo sendo anão, tem o seu orgulho e por isso despedi-me. Estou sem trabalho há mais de dois meses. Volto na próxima semana. Pedia-me, se não fosse muito incómodo, para o ir buscar ao aeroporto. Pensei com os meus botões: estás nas lonas, por isso regressas, vens-me pedir batatinhas depois de me teres partido o coração, ah, meu bijouzinho malandro, a tua sorte é que eu sou uma mulher apaixonada, incapaz de guardar rancor! Não te preocupes, lá estarei para te ir buscar, disse-lhe e desliguei o telefone com o corpo cheio de alegria.

El enanito (2)

O regresso do meu amigo animou-me. Costumávamos dar belas passeatas ali pela Almirante Reis, encontrávamo-nos pelo meio-dia na esquina do Banco de Portugal, descíamos a avenida até ao Martim Moniz, comíamos qualquer coisa ao balcão, era, quase sempre, um prego e um copo de vinho verde no quiosque do chinês vesgo, depois, subíamos de novo até ao Intendente à cata de prostitutas, heroinómanos, chulos, alcoólicos, velhas de pele curtida; olhava-os como se fossem objectos preciosos, raridades de feira, tirava notas numa agenda, o meu amigo ria-se do meu entusiasmo, mas não o estranhava, percebia que por ali passava a minha emancipação. No final, acabávamos a tarde na Pensão S. Miguel, no quarto 27, tinha uma cama estreita, que nos chegava; num varandim enferrujado, duas floreiras com petúnias floridas disfarçavam o cheiro de mijo antigo que chegava da rua. Ele, a meio da entretenga, às vezes, dizia gostar de mim sobretudo por eu precisar da miséria dos outros para viver. Toda a gente tem válvulas de escape para aguentar a vida, mas a tua é de uma sofreguidão e tristeza que me comove. Deixava-o fazer análises, que fingisse à vontade ser discípulo de Freud se isso lhe enchia o ego, mas, sempre que se alongava na merdice psicanalítica, pedia-lhe que se calasse e para, com empenho, continuar a desempenhar o seu papel de cobridor. Eram umas tardes deliciosas, assim confortada, custava-me menos regressar ao meu bairro de empregadas brasileiras passeando pela tardinha meninas loiras de sobretudo azul, porsches cayenne rodando em avenidas floridas, como mamutes, gente saindo da mercearia gourmet com sacos cheios de iogurtes biológicos, massas frescas com tinta de choco, abacates, anonas e tomatinhos cereja.
Fiquei, pois, muito animada. Com sorte, voltaria a ter tardes de decadência e indecência para me consolar. Depois, há qualquer coisa no meu amigo anão que me atrai. Quando descemos a avenida de mãos dadas toda a gente nos olha: eu, razoavelmente portentosa - digo-o, sem exagero, por ser a mais pura das verdades -, rabo redondinho, cabelo muito preto, ondulando pelas costas, lábios vermelhos a desabrochar, olhos líquidos de fêmea infeliz; ele, pequenote, arqueado, hedionda cabeçorra, já meio careca, dentes tortos numa boca que saliva excessivamente. Devem achar que formamos um par insólito e estranho. O certo é que roubamos o protagonismo das putas retintas, dos bêbados, dos sem-abrigo que costumam parar à porta do talho do Karim que, jóia de rapaz, ao fim da tarde, faz panelonas de borrego guisado para matar a fome a quem a tem e ganhar o apreço de Alá. Roubar o protagonismo aos indigentes é sempre bom. Enche-me de vaidade e orgulho.
O meu amigo chegou no dia 1 de Maio. Passei uma hora em frente do espelho a escolher a indumentária certa, coisa simples, sem grandes arrebiques de sofisticação, mas que lhe acicatasse o desejo, entumecesse à primeira vista o mais que tudo e o fizesse esquecer o cansaço da viagem. Escolhi um vestido preto, justo, decotado, botas de cano alto. Pedi à minha irmã para cuidar dos miúdos. É que vou buscar o meu enanito ao aeroporto, expliquei. Ela aceitou prontamente, que não me preocupasse, ficaria com eles o tempo que fosse preciso, se precisares da noite para matar as saudades eu cá me arranjo, encomendo uma piza familiar, uma garrafa de dois litros de coca-cola e meto-os a ver filmes de enfiada. Agradeci-lhe. É uma irmã como não há outra, a minha única amiga, faz muita questão que, no meio da maternidade sufocante, arranje tempo para continuar a ser mulher. Quando cheguei ao aeroporto, estranhei um grupo de hare krishnas que para ali estava em cânticos mântricos. Esperei quase uma hora. Sentei-me num banco desconfortável e entretive-me a ver as carecas dos seguidores do guru indiano, tufos solitários de cabelos claros, dotis e kurtas cor de açafrão, dançavam e cantavam com a inépcia própria dos ocidentais tresmalhados. Senti fome, pedi uma empada de galinha e um sumol de laranja num café vazio. Enquanto comia lembrei-me das tardes na Pensão S. Miguel, ali ao lado do talho do Karim. O meu amigo anão, para além de sobredotado nas partes baixas, arrepio-me só de pensar, é um mineteiro muitíssimo experiente, sabe dar à língua, o que não é nada fácil de encontrar. Há homens que a entesam, um horror, fica aquele pedúnculo arroxeado, hirto e triangular, uma pichotinha de gato a fazer parelha com a outra, lambem-nos como se fôssemos um calipo de limão. Não se lambe uma vulva, não se percorrem os pequenos e grandes lábios, como se a língua, em vez de o ser, fosse um cajado de dureza hercúlea. O meu amigo anão nunca tentara metamorfosear sua língua, a sua mantinha a languidez própria e esperada de um músculo que não conhece a fadiga, a leveza do toque, sabia o que fazia e acertava sempre em cheio, nunca precisei de lhe agarrar na cabeça para lhe corrigir a pontaria. Enquanto ele cunilinguiava eu suspirava baixinho, mal se notava o meu prazer; na verdade, nunca fui mulher de exagerar, com urros, gritos e rolar de olhos, os meus folguedos. Atingia o orgasmo com intensidade, mas, ainda assim, nunca me libertava da envolvência. Pela janela aberta chegava o alarido dos miseráveis que, arengando, disputavam o segundo prato de guisado de borrego do Karim.

El enanito (3)

Estava eu sentada de novo no banco desconfortável, lendo o livro que trazia dentro da mala, obra aclamada de um escritor suíço morto há pouco, coisa séria, densa, cheia de referências literárias e deambulações intimistas, fazendo um esforço para ler duas frases seguidas e as compreender, quando, finalmente, vi chegar o meu amigo. Vestia bermudas, calçava umas alpercatas coloridas que lhe sobravam nos pés, chinelava, por isso, perdera o pouco cabelo que tinha, chegava cansado, via-se bem, o rosto feio sulcado por muitas rugas finas, percebi que passara as passinhas do algarve lá pelas américas. Trazia pouca coisa, arrastava apenas um trolley médio que rolava devagarinho, chiando, pela rampa da saída e, coisa estranha, um cacho de bananas debaixo do braço. Corri para ele, meu bijouzinho, meu rico enanito, finalmente voltaste; abracei-o e, por hábito doméstico, levantei-o para o pegar ao colo, tal como faço com os meus filhos mais pequenos, senti-o, porém, espernear furiosamente, põe-me no chão, se faz favor, ordenou com uma frieza que não lhe conhecia. Obedeci, envergonhada do meu gesto. Baixei-me e, de cócoras, fechando os olhos, preparei-me para o beijar. Fiquei, no entanto, de boca à banda, o beijo perdido no espaço cosmopolita da aerogare. Sabes, Ana Clara, vim acompanhado, justificou-se. Estranhei a conversa, olhei em redor e não vi ninguém. O meu amigo, antes que pudesse perguntar-lhe pela companhia, começou a andar em direcção ao parque de estacionamento à procura do meu carro. Tenho uma carrinha velha, uma Toyota Hiace cor de ferrugem que dá nas vistas, herdei-a de um tio que era construtor civil e a usava para transportar o pessoal para os prédios que construía na outra banda, Corroios, Seixal e Coina; é uma carrinha antiga, gasta muito gasóleo, deita fumo preto ao arrancar, custa a estacionar e, sobretudo, embaraça os meus filhos quando me vêem chegar ao portão da escola onde uma manada de porsches cayennes espera a saída das crias. Não é uma viatura adequada ao meu bairro, nem sequer à minha rotina, mas não sou capaz de me desfazer dela. Razões sentimentais. Na verdade, gostava muito do meu tio. O meu amigo parou quando finalmente topou com a carrinha estacionada entre um mercedes de estofos de couro e um smart amarelo, conhecia-a bem porque, às vezes, por desfastio, para não enjoarmos da cama estreita do quarto 27 da Pensão S. Miguel, acabávamos a tarde em cabriolices lá dentro. Olhou em volta, com um ar muito comprometido. Só tínhamos dinheiro para uma passagem, explicou e a voz tinha uma quentura, certos arabescos e espirais, que eu também não conhecia. Curvou-se sobre o trolley, fez deslizar o fecho, abriu o saco e mostrou o conteúdo: era uma anã surpreendentemente pequena, vinha encolhida, dobrada sobre o corpo adormecido, parecia um feto aconchegado no ventre materno. Abriu os olhos e saltou do saco com desenvoltura, ajeitou a saia e explicou que trazia as pernas trôpegas de vir encolhida tantas horas dentro da sacola do companheiro. Uma anã proporcionada, sem cabeçorra, sem pernas curtas, sem braços curtos, mínima, ínfima, dava-me pela barriga da perna, muito bonita, cheia de curvas, parecia uma bonequinha. É a minha companheira, chama-se Maria Ivone, mas eu chamo-lhe Moranguita. Conhecia-a numa casa de penhores, onde trabalhava como contorcionista.

El enanito (4)

Fiquei ensimesmada, a pensar como se conjuga o contorcionismo com o prestamismo, sul-americanices, concluí, coisa de povos que ainda não evoluíram o bastante para chegar ao patamar da seriedade, do rigor, das contas certas, do défice controlado, tamanha liberdade e imaginação já não se usa por cá. Apaixonei-me mal a vi, continuava o meu amigo, vamos casar pela igreja, arranjar empregos, poupar para alugar um T1 e comprar dois passes sociais. Foi então que a sua Moranguita largou a fugir entre os carros, preciso dar às pernas, gritava num espanhol açucarado que me encantou, fonética cheia de modismos, quase parecia italiano, os trópicos nas línguas mãe dão-lhe outro sainete, um travo de rebelião de dígrafos e fonemas, até parece que as letras são gente. Porém, quando a vi em correria descontrolada, feliz por recuperar a marcha, começou a palpitar-me o coração, tal e qual como quando vou de passeio com o meu filho mais pequeno e o patife me larga a mão ao atravessar à rua. Temi que se perdesse ou, pior, tão pequenita, algum condutor, a bagageira cheia de malas, a pressa de chegar a casa, em manobra de arrecuo, a não visse e a atropelasse. A tragédia que seria. O meu amigo, percebendo a minha inquietação, sossegou-me, não te preocupes Ana Clara, a Moranguita está muito habituada, vivia numa urbe furiosa, cheia de chevrolets e cryslers, apesar de pequena, é mulher que nunca passa despercebida. Mudou de assunto com rapidez, nem imaginas a quantidade de pretendentes que tinha por lá, quando a conheci, andava a ser cortejada, mas à séria, com flores, mails dengosos e caixas de bombons recheados com creme de marula, por um protésico que ganhava rios de dinheiro a fazer dentaduras caninas; havia também o padre da sua paróquia, rapaz novo, empenhado na conversão dos infiéis, muito pior do que o protésico dentário, nunca me enganou, eu bem via como se animava quando levava a minha Moranguita para a confissão. Andava a tentar convencê-la a ir na procissão da Nossa Senhora del Bueno Parto, em cima de um estrado de tabuinhas, a fazer as vezes da santa, dizia que seria um quadro vivo da virgem santíssima, coisa nunca vista, havia de comover multidões, trazer a paz aos corações malsãos; tudo sem grande dispêndio, já que era exactamente do tamanho da imagem que estava no altar da igreja, servia-lhe a túnica branca, com cercadura dourada e também o véu que parecia feito de encomenda, não precisava de nenhum arranjo, por outro lado, não pesava mais do que a imagem feita em marfinite, podia usar-se o mesmo estrado de tabuinhas. O padre ainda lhe ofereceu uma caixa de bombons com recheio de creme de avelã. Ela não aceitou, para já, por gostar muito mais de bombons recheados com creme de marula, depois, porque lhe expliquei que não autorizava tamanho disparate, era o que mais faltava a minha Moranguita vestida de santa, a tarde inteira sob o sol abrasador, passeando por calles apinhadas de gente, mãos de velhas más, de bêbados, de tarados recalcados, de mães de família e de empregados bancários, a quererem tocar-lhe o manto para se livrarem da degenerescência e do pecado.

El enanito (5)

Parou um bocadinho. Estava cansado. Ele falava, falava. Eu escutava, escutava. A Moranguita corria, corria. O meu amigo alçou a perninha curta, pôs-se em biquinhos de pés e, antes que pudesse ajudá-lo, dando impulso ao corpo atarracado, sentou-se na bagageira da Hiace. Depois, baixou a voz e explicou-me que resolvera abandonar em definitivo a indústria pornográfica, já não queria ser uma porno star, não estava para isso, não fora só a humilhação de o terem trocado por um burro, chegou o bicho como se fosse uma estrela, vagaroso e arrogante, puxado por uma arreata do mais macio couro, havia uma meda de feno chileno à porta do estúdio, para lhe encher o bandulho depois de cada cena, era sobretudo por estar farto de contracenar com mulheres de estatura maior. Cansava-se muito. As actrizes pornográficas, mais do que as outras, à conta de tanto enchimento e recauchutagem, eram autênticas cavalonas; injectavam-se com silicone, colágeno, às vezes, até com gordura animal, sobretudo de porco, que encomendavam pela internet, chegava um kit com seringa, duas bisnagas de sebo e um livrinho de instruções, não custava nada, só era preciso inspeccionar bem o produto antes da aplicação, às vezes, ganhava verdete, assim umas manchas jaspeadas que indicavam estar fora do prazo de validade. Pois essas mulheres insufladas tinham corpos que eram uma longura, não acabavam, intermináveis como o deserto do Kalahari e gelados como a tundra gronelandesa, nem imaginas, as mamas eram verdadeiras montanhas, as nádegas têm-nas infindáveis, gelatinosas, mas redondas e colossais, as vaginas são secretas, mas no pior sentido, fundas, buracos negros, autênticas cavernas, uma pessoa é capaz de se perder lá dentro e nunca mais ver a luz.
Por exemplo, Ana Clara - tanto que gosto de ouvi-lo dizer o meu nome! - para que tenhas uma ideia, numa cena de preliminares lambidelas, das mais subtis às mais porcalhonas, eu levava uma eternidade a chegar do dedinho do pé ao lóbulo da orelha. Amarinhava, lambia, beijava, chegava cansado lá acima, estourado, lábios dormentes; língua seca, sequinha, áspera como um esfregão verde da loiça, o que não é nada bom sinal para quem sofre de sialorreia. Quedei, achando que, pobrezinho, contraíra alguma doença venérea, gonorreia, sífilis, pior, condiloma, imaginei-lhe a genitália cheia de verrugas, lesões, a glande recamada de excrescências cor de terra, ele percebeu a minha preocupação, explicou que não era nada disso, sialorreia, Ana Clara, produzo muita saliva, salivo excessivamente, então tu não sabes que ando sempre com um lencinho no bolso para limpar os cantos da boca?
Era por isso, por causa dessa fadiga, que, por mais estimulantes que lhe dessem a tomar, lhe custava a puxar o gatilho. Ali, no corpo da sua Moranguita, tudo estava mais à mão, concentrado. E, depois, isso é que era mesmo importante, amava-a. Foi aqui que achei que chegava de confissões. Enojou-me ligeiramente a conversa porque não acredito no amor. Acredito no amor parental, filial, fraternal, no amor que se baseia no sangue. Entre um homem e uma mulher não há amor. Há apenas rituais de acasalamento, uns breves, outros longos, capazes de durar a vida inteira. Tenho pois um leve desprezo por quem ama, mais ainda por quem desespera por não amar. Em todo o caso, para não o melindrar, disfarcei o enfado que a conversa me provocava. Pedi-lhe que chamasse a Morangita, tivera tempo mais do que suficiente para desentorpecer as pernas, tardava, ainda tinha de ir buscar os miúdos a Caxias, levar a do meio a uma festa de anos naquele centro comercial novo perto da Falagueira e passar por uma drogaria a comprar ácido muriático para a minha empregada limpar as juntas dos azulejos. Ele a falar-me da anã contorcionista, do burro de ouro, de sialorreia, do seu fracasso nos filmes pornográficos; eu a falar-lhe de filhos, de festas de aniversário em centros comerciais, da limpeza das juntas do chão da minha cozinha. Tive noção do remanso que é a minha vida e, naquela tarde, por breves instantes, senti um saracotear por dentro, vontade de chorar. Existência como a minha não se devia admitir.

El enanito (6)

Pediu-me para o deixar na Almirante Reis. Larguei a melancolia que, assim como a acolho, também a despacho rapidamente, enxoto-a como insecto insignificante que é, muitos anos de depressão dão nisto, é o hábito, ganha-se calo, frieza e distância, uma pessoa aprende a relativizar o sofrimento, não há dor a que a gente não se habitue. Não vais para a Pensão S. Miguel, pois não? perguntei e finquei-lhe um olhar indignado, furibundo, chispante, como que a dizer largo-te já no meio da rua, ali ao pé daquele rapaz que passeia, sem trela e açaime, um pit-bull, se me disseres que a levas para o lugar dos nossos encontros. Não, olha que ideia, vamos ficar na Casa de Hóspedes Mirabel, é um sítio de gente séria, sem putedo, sem máquina de preservativos na entrada, sem lençóis amarelos a cheirar a lixívia, sem caixinhas de toalhetes em cima das mesas de cabeceira, fica um bocadinho mais abaixo, é um prédio azul antes de chegar àquele supermercado chinês onde tu gostas de comprar caldinhos de massa, barras de sésamo e novelas escritas em cantonês para teres a ilusão do mundo de lá. Sosseguei. Passou-me a irritação. A Moranguita chegou. Antes que pudesse dizer alguma coisa, peguei-a ao colo e sentei-a na cadeira do meu filho mais novo, uma isofix da Chico, maravilha de cadeira, comprei-a numa promoção, ainda assim custou quase duzentos euros, mas não me arrependi, material ventilado, reforço lateral, apoio regulado para a cabeça, tem um arnês forrado, imobilidade absoluta, cinco anos de garantia; bati já duas vezes depois de a comprar, o mais velho rebentou com o lábio, a do meio deu um gangão violento, andei durante vários dias com o peito dorido, mas o mais pequeno, instalado no seu trono, nada. Segurança total.
Desci a Gago Coutinho devagar. Íamos em silêncio. A Moranguita dormitava lá atrás; pelo retrovisor, reparei que um quelóide avermelhado, lagartinha fibrosa, lhe marcava o peito. Sempre que vejo uma cicatriz, o relevo monstruoso, sinal de abertura, tenho vontade de lhe tocar. Uma cicatriz escarifica, é marca de imperfeição, tumefacção permanente, reconduz-nos à nossa fragilidade e insignificância. Fui o resto do caminho a espiar-lhe a rasgadura do corpo. O meu amigo, sentado ao meu lado, emudecera. De vez em quando, limpava os cantos da boca com um lenço de papel. Chegámos por fim aos Anjos, estacionei a Hiace em frente de um prédio pintado de azul claro, varandas de ferro, janelas de alumínio com venezianas amarelas. A Casa de Hóspedes Maribel era ali. Já no passeio, o meu amigo pediu-me emprestados quinhentos euros, que me pagaria assim que pudesse, era só para os primeiros tempos. Passei-lhe um cheque. Deu-me um beijo no rosto, és uma amiga impecável, Ana Clara, explicou, perdigotando, a adjectivação ficou-me a latejar na pele. Depois, pondo um ar sério, ofereceu-me o tal cacho de bananas, eram bananas especiais, não tinham nada a ver com as bananas chiquita que crescem em plantações infindáveis e são regadas com chuva de antibióticos e insecticidas, nada disso, fora apanhá-las mesmo antes de ir para aeroporto ao quintal do seu amigo Pablo, descendente directo de mapuches e olmecas, eram mágicas, quem as comia ganhava poderes esotéricos, a nefanda capacidade de adivinhar o futuro. Agradeci o presente, muito obrigada, tu sabes bem o que gosto de bananas. Começava a preocupar-me o delírio do meu amigo. Andei o resto da tarde de passeio com o cacho de bananas mágicas. Cheguei a Caxias passava das dez. Tive vergonha de confessar à minha irmã que o enanito do meu coração me trocara por outra. Mal me viram os miúdos enrolaram-se nas minhas pernas, veio-me assim uma sensação de estrangulamento e desmerecimento, de ingratidão insuportável, tanto que eu gostava de ser uma fêmea como deve ser, falando de criancinhas de manhã à noite, o meu João tem um coração de ouro, a minha Dá tem cinco a tudo e toca violino, o meu Joaquim canta todas as canções do Chico Buarque. Levei-os para casa. No dia seguinte, pedi à empregada que panasse as bananas mágicas com pão ralado e as fritasse em azeite para acompanhar um pedaço de picanha nacional. Sempre é mais barata. A minha filha gostou muito e, ao contrário do que é habitual, nessa noite, pediu para repetir o jantar.

El enanito (7)
Depois de dias de hesitação, vou, não vou, vou, não vou, voltei à Almirante Reis. Pouca, nenhuma, a vontade de encontrar o meu amigo e a sua Moranguita. Custa-me a felicidade dos outros. Lisboa não é a minha cidade, nunca será, mas a Almirante Reis é a minha rua. Metamorfoseio-me se estou quinze dias sem lá ir. Começa a pele a secar, ganho impingens pruriginosas, coço-as até sangrar, os pêlos do buço crescem mais depressa, muito pretos e arrepiados, incham-me os olhos, até a voz se altera, perde robustez, fica um esganiço que se enrola nas palavras. Na quarta-feira, acordei com duas manchas alaranjadas no braço direito, resolvi meter um dia de férias. Larguei os miúdos na escola, o mais pequenino disse-me um segredo ao ouvido, e rumei à Almirante Reis. Fui descendo a avenida devagar. Mal cheguei à esquina com a Antero de Quental, encontrei o meu amigo, vestia uma bata ensanguentada, vinha de fazer uma entrega na Marisqueira do Lis, mas tinha tempo para uma bebida. Sentámo-nos na esplanada do chinês vesgo, cá fora, a gozar o fresco do mês de Outubro, eu a matar saudades da indigência, ele, perninhas bambas, baloiçando, sem chegar ao chão, a contar-me as novidades. Arranjei trabalho no talho do Karim. Ele tinha, como ajudante, um costa marfinense, uma besta grande, fazia para aí dez de mim, quatro dentes de ouro, evaporou-se de um dia para o outro, levou três frangos do campo, uma palete de codornizes e uma carcaça de vaca ainda por desmanchar. Deixou o Karim numa aflição. Ofereci-me para o ajudar. Ele aceitou e mandou fazer um estrado para eu chegar ao balcão; anda tão satisfeito com o meu trabalho que até já encomendou a um artífice lá da terra dele, cuteleiro do melhor que há, um estojo de facas para o retalhe de animais de pequeno porte: patos, coelhos, frangos, galinhas.
A Moranguita, continuou, é que ainda não encontrou trabalho. Vai fazendo uns biscates. Entretém-se a fazer croché, é muito habilidosa, umas mãos de oiro, faz pegas, bolsinhas para os telemóveis, vende-as na entrada do metro. Anda a bordar uma toalha, toda a ponto richelieu, encomenda de uma finória qualquer, encavalita-se em cima de um bastidor especial que comprámos na Rua da Conceição, passa a noite naquilo. Também ajuda a limpar o altar da Igreja dos Anjos uma vez por semana. Para além de contorcionista, é exímia trepadora, mete-se em buraquinhos, nichos de santas, amarinha por ali acima, parece um sagui, leva uma flanela embebida em óleo de linhaça, deixa tudo num brinquinho. O padre, um velho jesuíta, diz que nunca teve a igreja tão limpa, os rostos dos santos andam luzidios e os ornatos da talha dourada parecem feitos de sol e luz. Parou um pouco. Limpou a saliva que se acumulara na comissura dos lábios e cumprimentou uma matulona que ia a passar. Sabes, nos dias em que faz a limpeza aos santinhos, à noite, quando se deita, ainda leva aquele cheiro perfumado, cheiro de mirra, incenso, um cheiro muito oriental. Enfio o nariz nos pentelhinhos, andam tão macios, e perece que estou numa medina magrebina, cestos cheios de tâmaras, latoeiros, homens de cócoras fumando, como lagartas azuis, narguilés. Cheirá-la nesses dias basta-me. Depois, abruptamente, deu um salto, fez uma momice que me pareceu escusada, e despediu-se, desculpa, mas tenho de voltar ao trabalho que o Karim prometeu que, se houvesse pouco clientela, me ensinava a desossar uma galinha.
Dei-lhe um abraço, bebi mais um sumol e pedi a conta. Voltei a subir a Almirante Reis. Olhando a montra de uma sapataria, encontrei-me do outro lado, achei-me feia como um xarroco, primitiva como um rascasso, plana como uma tremelga. Estava eu na habitual comiseração, quando alguém me chamou. Olhei e vi um velho abonecado, lenço de seda, casaco assertoado, apoiado num andarilho de quatro pés. Reconheci-o imediatamente. Era o velho do açafate de fruta, o quase defunto da empregada brasileira, o miserável que me escorraçara sem dó nem piedade do seu apartamento sombrio da Passos Manuel, furioso com a minha iliteracia, como se pode viver, gritou-me naquela tarde, sem conhecer o decandentismo e o vitalismo moderno? Tivera uma franca melhoria, a brasileira dera-lhe a experimentar um chá de flor de fava, estava muito melhor, já não usava algália, largara de vez a literatura, tomava apenas o vigamed e o tryptanol para o coração. Estou como novo, rematou, vou ali abaixo à procura de carninha, alcatra, chambão do bom, tenho comido do melhor. Escutei-o em silêncio. Depois - não sei explicar porque o fiz - perguntei-lhe se lhe apetecia a minha companhia. Disse que sim. Pegou no andarilho de alumínio, largou um pingo de baba e pôs-se a andar a meu lado muito devagar.
Ana Cássia Rebelo
Do blogue ana de amsterdam