segunda-feira, 13 de novembro de 2017

A síndrome do olho direito - Poema de Maria Azenha...



A síndrome do olho direito


hoje ao sair de casa encontrei algumas pessoas
com um tremor miudinho nas pálpebras
nas lojas onde entravam empregados e outros entes
sofriam da mesma tremura
reparei que o fenómeno estava instalado no olho direito
o que é intrigante é que alguns comentadores políticos
repetiam o charme da tremura do mesmo lado
quando olhavam para a câmara era uma tremedeira.
pensei que era até uma herança da troika
o caso agravou-se porém quando foi dado nota que um 
                                                                                     [homem
para deixar de tremer instalou na cabeça uma gaiola.
sob o efeito da notícia o país começou a escrever
em escrita automática.

hoje quando regresso ao trabalho a primeira coisa que 
                                                                                          [faço
é esconder o olho direito com uma pala.


maria azenha

***«»***

O meu comentário:

Um genial poema caricatural, certeiro e arrasador na forma e no tema, e que elege o lado mais ridículo e mais caricato do cenário político português (e sem esquecer os tempos negros da troika).
A “tremedeira nacional do olho direito”, que a “poeta” sinalizou no título como “A síndrome do olho direito” é uma metáfora riquíssima e talentosa, pela mordacidade que transporta e pelos vários significados políticos que contém. Significados que a “poeta” não necessitou de especificar, pois todos eles se inferem, logo numa primeira leitura. E para engalanar o círculo poético da sátira corrosiva, a “poeta” agrega ao poema o aparecimento de uma nova e inesperada epidemia nacional, que alastrou a um determinado segmento da população portuguesa, que o leitor também rapidamente identifica, e que tem um grau de perigosidade idêntico ao da peste negra, na Idade Média.
Este poema é incisivamente cáustico e demolidor para os traficantes das ilusões saídas em série das fábricas dos sonhos e transformadas em promessas de curta duração, que nunca se cumprem.
E isto é de tal modo verdade, que eu já vi pessoas com gaiolas na cabeça e comentadores dos jornais “a escrever em escrita automática”.
Alexandre de Castro
2017 11 13