quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Morreu Ana Hatherly [Poema: Príncipe ]


Príncipe 

Era de noite quando eu bati à tua porta 
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir
e não me conheceste. 
Era de noite 
são mil e umas 
as noites em que bato à tua porta 
e tu vens abrir 
e não me reconheces 
porque eu jamais bato à tua porta. 
Contudo 
quando eu batia à tua porta 
e tu vieste abrir
os teus olhos de repente 
viram-me 
pela primeira vez 
como sempre de cada vez é a primeira

a derradeira 
instância do momento de eu surgir 
e tu veres-me.
Era de noite quando eu bati à tua porta 
e tu vieste abrir 
e viste-me 
como um náufrago sussurrando qualquer coisa 
que ninguém compreendeu. 
Mas era de noite 
e por isso 
tu soubeste que era eu 
e vieste abrir-te 
na escuridão da tua casa. 
Ah era de noite 
e de súbito tudo era apenas 
lábios pálpebras intumescências 
cobrindo o corpo de flutuantes volteios 
de palpitações trémulas adejando pelo rosto. 
Beijava os teus olhos por dentro 
beijava os teus olhos pensados 
beijava-te pensando 
e estendia a mão sobre o meu pensamento 
corria para ti 
minha praia jamais alcançada 
impossibilidade desejada 
de apenas poder pensar-te. 

São mil e umas 
as noites em que não bato à tua porta 
e vens abrir-me 

Ana Hatherly _ in "Um Calculador de Improbabilidades

***«»***
Morreu Ana Hatherly
Escritora, artista plástica e cineasta, Ana Hartherly integrou, ao nível da poesia, o movimento experimentalista, o concretismo, que surgiu no Brasil, de forma estruturada (publicou-se um manifesto), em meados do século passado, tendo-se expandido para a Europa, onde veio a potenciar a afirmação de vários poetas, que procuravam ultrapassar o modernismo.
Ana Hartherly foi a primeira autora portuguesa a escrever um poema “concreto”, uma forma de escrever poesia, em que o poema perde o conceito absoluto (não vale só por si), antes se articula, para ganhar uma maior expressividade, com outras formas artísticas ou com outros formas comunicacionais, entretanto inventadas, como seja a folha de papel ou o mural, onde ele é escrito de forma não convencional (dispersão desordenada, com uma disposição inteligível e esteticamente conseguida, dos vocábulos, frases e caracteres).
Na prosa, Ana Hartherly escreveu, entre outros “O Mestre” e o conto “No Restaurante”, que tiveram várias edições em Portugal e no Brasil e em mais de uma dezena de países.
Como académica (era professora catedrática da Universidade Nova de Lisboa), destacou-se também ao nível do ensaio.
Alexandre de Castro