terça-feira, 19 de junho de 2012

Conto: Quem nasce torto nunca se endireita

Na minha aldeia, no Alto Douro Vinhateiro, houve um homem, um pobre camponês, que enriqueceu subitamente com o negócio do volfrâmio, um negócio altamente lucrativo, que floresceu durante o período da Segunda Guerra Mundial. Liberto da miséria, que lhe enegrecera a vida, e com arca e a carteira a abarrotar de notas de conto, resolveu vingar-se do destino, e começou a exibir com estudada e exuberante ostentação, o que agora se designa por sinais exteriores de riqueza. Mandou fazer fatos por medida no alfaiate da vila de Carrazeda de Ansiães e, pela primeira vez, começou a usar sapatos engraxados. Fazer o nó da gravata era para ele uma autêntica tortura, que só era compensada, a seguir, com o prazer lúdico de colocar no bolso da lapela do casaco a caneta de tinta permanente, que lhe custara os olhos da cara, mas que viera a revelar-se completamente inútil na sua mão, quando manobrada canhestramente pelos dedos grossos e nodosos, já calejados pelo duro trabalho da enxada.
Nas feiras da vila, passeava-se de maneira ostensiva, copiando os tiques dos ricaços. Ficou célebre o seu enorme arroto, depois de um lauto almoço no melhor restaurante da vila.
Para fazer sobressair a sua notoriedade, fez constar que iria fazer uma viagem ao Porto, cidade mítica no seu imaginário, embora não fizesse a mínima ideia da sua localização geográfica. Nem sequer sabia se era longe ou se era perto. Apenas sabia que a viagem não podia ser feita a pé, o que obrigava a utilizar o comboio. E assim foi. Num belo dia, meteu-se num carro de aluguer, que o transportou até à estação do Tua. Comprou o bilhete de 1ª classe, que era a classe preferida pela gente abastada, e, quando pousou o pé no estribo da carruagem, pensou para os seus botões que também estava a subir mais um degrau na escala social.
Dentro da carruagem, o silêncio era absoluto, ao contrário do que acontecia nas carruagens de 3ª classe, que até galinhas levavam debaixo dos bancos de madeira, devidamente atadas pelos pés. Sentou-se ao lado de um passageiro, que lia atentamente o jornal, e dando uma olhadela de relance por toda a carruagem, apercebeu-se de que a maioria dos restantes passageiros também se entregava ao prazer da leitura. Tal como a ideia lhe veio de repente à cabeça, também o impulso de se levantar para ir lá fora comprar um jornal foi instantâneo. Já de regresso, voltou a sentar-se no seu lugar, e empinou o jornal na frente dos seus olhos, para o começar a ler.
O passageiro do lado, entre um olhar de espanto e um sufoco reprimido para dominar o riso, resolveu amavelmente intervir:
- Desculpe, cavalheiro, por interrompê-lo. Verifico que está a ler o jornal às avessas!
O homem, apanhado assim de surpresa, por tal interpelação, fechou repentinamente as folhas do jornal, como se estivesse a dar uma palmada, estremeceu num pequeno esticão do corpo e das pernas, sinal que nele significava arrojada determinação, e retorquiu, sem gaguejar:
- Pois, o difícil é lê-lo às avessas. Lê-lo direito, toda a gente o lê...
Alexandre de Castro
Lisboa, Junho de 2012