Mãe
Naquele
último momento
tentaste
confessar-me um segredo,
um
segredo qualquer
guardado
uma vida inteira
e
que eu não entendi
porque
a tua fala desesperada
ficou
suspensa
nos
lábios imobilizados.
Só
os teus olhos alarmados
mexiam
de ânsia e de medo.
Mas
não sei se seria realmente um segredo
o
que me querias dizer
ou
apenas um último lamento
ou
até, quem sabe,
a
recordação daquelas tardes de Junho,
quando
eu ainda era criança,
em
que te deitavas comigo
(enrolados
num cobertor de papa)
com
medo das trovoadas.
-
É Deus que está a ralhar – dizias-me,
enquanto
me apertavas com carinho,
para
me proteger.
Talvez,
também, quando, um dia, me perdi de ti,
por
um breve instante,
e
perguntei, depois de te reencontrar,
se
eras realmente a mesma mãe,
se
não eras outra, igual à primeira,
de
um mundo que, por momentos,
eu
imaginei duplicado, em coisas e pessoas,
e
que, agora, sei que esse mundo não existe,
porque
tu já morreste
e
eu não vejo nem tenho outra mãe.
Alexandre de Castro
Lisboa, Maio de
2007
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Perfazem-se, hoje, vinte e sete anos, sobre o falecimento de minha mãe, que ocorreu no Hospital dos Capuchos.
O poema reflecte os últimos momentos da sua vida.