domingo, 24 de janeiro de 2016
O abraço mortal do "euro" e o impasse da economia portuguesa...
Resposta a um leitor, que, em relação a um meu
comentário, deixado na revista VISÃO, afirmou: [Tenha em mente, "os
mercados que nos governam" e emprestam dinheiro para pagar a nossa divida
crónica. Goste ou não, é a realidade].
**
"Os mercados que nos governam" eram os
credores de uma gigantesca dívida pública da Alemanha, gerada pelas pesadas
indemnizações de guerra, exigidas pelos países vencedores das duas guerras
mundiais. Essa dívida da Alemanha foi renegociada e reestruturada em 1953, em Londres (ver aqui), o que levou os credores a
perdoar metade do respectivo montante, a diminuir a taxa de juro e a alargar as
maturidades (a Grécia até ficou a arder, pois a Alemanha deixou de
pagar-lhe o que estava estipulado e até, recentemente, a "Hitler de
saias" recusou a retoma do seu pagamento, da parte que estava em falta, o que ilustra bem como
ela leva muito a sério o respeito pelos sagrados compromissos internacionais,
tão endeusados pelo actual bacoco do Palácio de Belém). Se a Europa quer ajudar
Portugal, a Grécia e, agora, também o Chipre (de quem ninguém fala), tal como a
propaganda da direita alardeava em 2011, não sei como não é possível replicar o
método com as dívidas soberanas destes três países. "Tenha isto em
mente", s.f.f.
Por outro lado, imagine-se que Portugal tinha
uma moeda nacional, com um valor monetário, alinhado com a produtividade da sua
economia. Essa moeda teria um valor de cerca de um terço do valor do euro (lá
se ia o BMW e o Mercedes, topo de gama). O que acontecia: A competitividade da
economia subia, promovendo as exportações, e as importações diminuíam. O saldo
comercial com o exterior passaria a ser francamente positivo, permitindo
amealhar divisas estrangeiras, de valor significativo. É claro que, nos
primeiros três anos, a "coisa" ia doer. Mas doía a todos,
proporcionalmente, e não apenas a alguns, como aconteceu com a aplicação das
calculistas políticas de austeridade da sinistra parelha Passos/Paulo Portas,
acolitados pelo não menos sinistro ministro das Finanças, Vitor Gaspar, de má
memória (que, posteriormente, até foi premiado com um alto cargo no FMI). Este
período de constrangimento seria, pois, de curta duração, uma vez que a
economia iria crescer sustentadamente, a caminho da retoma e valorizando
progressivamente a moeda, sempre de acordo com a taxa de produtividade da
economia. O desemprego teria diminuído, o investimento interno aumentado, os
salários e as pensões melhorados e haveria mais recursos para a Saúde, para
Educação e para a Segurança Social, os três pilares do Estado Social.
Ao traçar este cenário, não estou a inventar
nada. Este modelo económico, ressalvando as diferenças impostas por outras
realidades condicionantes, foi aplicado com sucesso na grande crise financeira
de 1893/95, em que Portugal estava afogado por uma colossal dívida à
Inglaterra, acumulada durante os cinquenta anos anteriores, devido ao esforço
de construir as infraestruturas para a industrialização do país. Um dos
mentores e executantes dessa política foi Ferreira Leite, o bisavô de Manuela
Ferreira Leite. "Tenha em mente isto", s.f.f.
Imagine-se também que, em paralelo com o cenário
anterior, se procedia à nacionalização dos bancos, sem indemnizações. Aquele
argumento, utilizado até à exaustão, quando da sua privatização, na década de
oitenta do século passado, que dizia que os privados geriam melhor os bancos do
que o Estado, já caiu por terra. A boa gestão bancária, por privados, ficou
amplamente demonstrada nos casos BPP, BPN, Millenium, Espírito Santo e BANIF e,
também será demonstrada nos casos que virão a seguir. Com a nacionalização da
banca, acabava-se de vez com a especulação bolsista, cujos ganhos não chegam à
economia real, e também com a "teta" dos offshors e de todas as outras
criativas formas, para proceder à imoral exportação de capitais. Os lucros
proporcionados pelos créditos dos bancos nacionalizados, concedidos ao próprio
Estado, às empresas e às famílias, serviriam para o Estado investir nas infra
estruturas de apoio ao desenvolvimento económico. Tenha em mente também isto.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2016
Vem aí o segundo resgate...
Commerzbank:
“Portugal é a nova criança problemática” da zona euro
De "bom aluno" para a "nova
(velha) criança problemática" da zona euro. Os economistas do influente
Commerzbank dizem que Portugal arrisca ver-se na mesma situação da Grécia. Um
relatório demolidor.
O novo Governo português está a levar a cabo uma
“mudança fundamental da política” que levará a um aumento da dívida e
a uma erosão da competitividade. Num relatório demolidor, o influente
banco alemão Commerzbank diz que rapidamente a situação portuguesa
pode evoluir para algo muito parecido ao que viveu a Grécia no último verão. Se
o rating da agência DBRS cair, Portugal deixará de contar com o
respaldo decisivo das compras de dívida por parte do BCE. A menos que peça um
novo resgate, nota o banco alemão.
***«»***
Ainda, sem sequer António Costa ter começado a
fazer verdadeiramente a sua revoluçãozinha doméstica, e já o buldózer da
Alemanha, qual infernal máquina trituradora, arrancou em força, a fazer a
contra-revolução.
É claro que os mercados (que nos governam) vão
ficar nervosos, não por terem percepcionado anomalias graves na economia
portuguesa e nas suas finanças públicas, mas sim pelo efeito perverso desta
notícia e de outras semelhantes, que irão ser replicadas e ampliadas pela
comunicação social e por uma caterva de comentadores no activo e na reserva,
até que a cabala seja tomada como verdade absoluta. A intenção conspirativa e
sabotadora é evidente. O cerco a Portugal começa a ser montado, ou seja, a
exigência de um segundo resgate. O circo vem depois. A Grécia já vem a caminho.
Tal como disse, já várias vezes, Portugal está atrasado, em relação à Grécia,
apenas um ano, ano e meio.
Polémica na saúde com Eduardo Barroso a bloquear nomeações do ministro para centro hospitalar
Os nomes
estavam escolhidos e os convites feitos. Mas a oposição do cirurgião obrigou
Adalberto Campos a passar ao plano B na nomeação dos novos responsáveis
hospitalares.
O cirurgião Eduardo Barroso obrigou o ministro
da Saúde a segundas escolhas no convite que tinha feito para substituir a
direção do Centro Hospitalar de Lisboa Central (CHLC). Teresa Sustelo
apresentou a demissão em dezembro, juntamente com outros responsáveis de saúde
da Grande Lisboa, na sequência da morte de um jovem de 29 anos enquanto
aguardava por uma cirurgia no Hospital de São José, mas as objeções do médico
levaram Francisco Ramos a recusar o convite de Adalberto Campos Fernandes.
Os momentos deste filme a cinco tempos – escolha
de nomes, convite, objeção, recusa e segundas escolhas – passam-se entre os
últimos dias de 2015 e a primeira semana e meia de 2016.
Os convites Dois dias antes do Natal, os
presidentes da Administração_Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo
(ARSLVT), do Centro Hospitalar de Lisboa Norte e do CHLC apresentaram a sua
demissão em bloco – estavam todos em final de mandato e, com a morte de David
Duarte a ecoar na comunicação social, decidiram afastar-se de imediato.
Cerca de uma semana depois, o ministro liga a
Francisco Ramos, atual presidente do IPO de Lisboa, e convida-o para o lugar de
Teresa Sustelo na direção do CHLC. Para o lugar de Luís Cunha Ribeiro na
direção da ARSLVT, Adalberto Campos Fernandes terá escolhido Rosa Zorrinho
(mulher do eurodeputado socialista Carlos Zorrinho e atual presidente do
conselho de administração da Saudaçor).
Depois de receber o convite do ministro,
Francisco Ramos começou a preparar a sua equipa. E para a direção clínica do
centro hospitalar, o médico convidou Isabel Fragata. Foi aí que o conselheiro
do ministro interveio.
Ameaças de demissão Ao i, o cirurgião
limita-se a dizer que “é preciso confiar nas escolhas do sr. ministro”. Eduardo
Barroso recusa fazer comentários sobre os nomes apontados por Francisco Ramos,
mas admite que o seu esteve na lista de opções a considerar: “Eu próprio fui
convidado para diretor clínico do centro hospitalar.”
Quando a opção foi outra, Eduardo Barroso,
diretor do Centro Hepatobiliopancreático e de Transplantação do Hospital Curry
Cabral, terá ameaçado demitir-se. “O dr. Eduardo Barroso achou que eu não
merecia ser diretora clínica do hospital, possivelmente porque pensou que,
sendo eu uma mulher de decisão, poderia mexer nos serviços e ameaçar o seu
statu quo”, diz ao i Isabel Fragata, atual diretora do serviço de
anestesiologia e dos blocos centrais.
A posição de Barroso terá sido de tal forma
intransigente que, passados poucos dias de apresentar o convite a Isabel Fraga,
Francisco Ramos volta a ligar--lhe para retirar a proposta.
As consequências não ficaram por aí: o próprio
diretor do IPO decidiu recusar o convite do ministro Adalberto Fernandes. De
acordo com o jornal digital “Observador”, a (segunda) escolha do governante
para a direção do CHLC acabou por recair sobre Ana Escoval. Para o lugar que
caberia a Isabel Fragata, Escoval terá chamado Sousa Guerreiro.
O i não conseguiu obter uma posição de Francisco
Ramos. Apesar de garantir que não tem “ambições políticas”, Isabel Fragata não
esconde a “mágoa” com o episódio, ao mesmo tempo que se mostra surpresa com o
facto de, “num Estado de direito, o dr. Eduardo Barroso poder influenciar
decisões desta maneira”.
Isabel Fragata não aponta razões para o bloqueio
levantado por Barroso ao seu nome. Mas o marido, José Fragata, também ele
cirurgião e diretor da unidade de cirurgia cardiotorácica do Hospital de Santa
Marta, em Lisboa, não nega uma certa “rivalidade” que existirá entre os dois
cirurgiões. E considera mesmo que a posição “tentacular” de Eduardo Barroso “é
um problema que o Estado de direito devia atacar de frente”.
***«»***
O actual ministro da Saúde já foi alvo de uma
acusação, por parte do vice presidente da Federação Nacional dos Médicos
(FNAM), o médico Mário Jorge, por ter
um plano de reforma para o Serviço Nacional de Saúde, inspirado no modelo que
Margaret Thatcher aplicou, nos anos oitenta, na Grã Bretanha, e que
descaracterizou o Serviço de Saúde daquele país, até ali exemplar, ao ponto de
ter inspirado os modelos aplicados em vários países europeus, incluindo
Portugal. Agora, vemo-lo, numa atitude de cobardia política, a vergar-se ao
poderoso lobie maçónico, onde os notáveis do PS têm assento. Ao recuar, na sua
decisão, obedecendo à voz ameaçadora de um troglodita, o ministro da Saúde
mostrou não ter o perfil adequado para ocupar o seu cargo. Espero que se
demita.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2016
Poder económico controla leis e políticos a seu favor, confirma ex-director-geral da Autoridade Tributária
José Azevedo Pereira, antigo director-geral da
Autoridade Tributária, revelou que quase mil multimilionários escapam à teia do
fisco em Portugal. São conhecidos pelas finanças como ‘high-net-worth
individuals’, ou contribuintes de alto rendimento: uma categoria onde estão os que
acumulam mais de 25 milhões de euros de património ou, alternativamente,
recebem mais de 5 milhões de rendimento por ano.
No programa Negócios da Semana, transmitido
na SIC Notícias a 9 de Dezembro (ver vídeo acima), Azevedo Pereira afirmou que “este
tipo de pessoas em Portugal (e também no estrangeiro) influenciam o poder
político, têm fácil acesso aos decisores políticos que fazem as leis – e a
única coisa que as diferentes administrações fiscais podem fazer é trabalhar no
sentido de aplicar a lei.”Mas “se a lei cria os seus próprios alçapões e
mecanismos para proteger alguns destes interesses, não há muito que a
administração fiscal possa fazer. Estas pessoas conseguem com alguma facilidade
fazer ‘lobbying’ e criar mecanismos que as protegem.” Por outras palavras,
o ex-director-geral dos impostos confirma, preto no branco, que os políticos
elaboram as leis com os buracos necessários para os multimilionários escaparem
de forma legal às finanças, enquanto os pobres são espremidos até ao tutano. E
confirma também a total submissão do poder executivo e legislativo ao poder
económico – revelando uma vez mais que a actual democracia é na realidade uma
ditadura camuflada, totalmente manipulada pelos mais poderosos.
Azevedo Pereira assegurou também que “por
via de regra, nos países onde a respectiva tributação é levada mais a sério, os
contribuintes de alto rendimento são uma parcela muito significativa do IRS
cobrado, chegando a representar 20 a 25% da tributação. Em Portugal, não chegam
a meio por cento.” Portugal é um país onde, nos últimos anos, dezenas de
milhares de famílias carenciadas tiveram as suas casas penhoradas – na prática
roubadas – pelo fisco, muitas vezes por pequenas dívidas, aumentos criminosos
de impostos ou mesmo por falta de informação das próprias finanças; ao mesmo
tempo que primeiros-ministros como José Sócrates ou Passos
Coelho criaram sucessivos perdões fiscais para os mais ricos movimentarem
livremente as suas fortunas secretas no estrangeiro.
Todos estes factos são infinitamente mais graves
do que, por exemplo, o caso da chamada ‘lista VIP’: um sistema que
monitoriza o acesso de funcionários das finanças aos dados privados de figuras
públicas (e que será mantido pelo actual governo). No entanto, não recebem nem
um milionésimo da atenção. Um ex-director dos impostos assume em directo na
televisão que o poder económico controla as leis e os políticos a seu favor – e
os meios de comunicação social ditos ‘de referência’olham para o lado. Elisabete
Miranda, redactora do Jornal de Negócios, foi uma das poucas excepções, escrevendo que “o antigo
director-geral dos impostos prestou um importante serviço público. Só é pena
que tenha demorado oito anos a começar a falar e que, oito anos depois, a
Autoridade Tributária continue a ser uma estrutura opaca, que silencia
informação estatística fundamental para se fazerem debates informados, e que
subtrai do conhecimento geral todas as valiosas interpretações que adopta.”
***«»***
Bem diz Jerónimo de Sousa, que não há falta de
dinheiro para pagar o Estado Social. O que é necessário é ir buscá-lo, onde ele
está.
Os perdões fiscais, a que se refere a notícia,
estão enquadrados no que se designa eufemisticamente por Regime Excecional de
Regularização Tributária: houve três RERT na última década, que amnistiaram
quase seis mil milhões de euros que estavam irregularmente depositados no
estrangeiro, grande parte dos quais na Suíça.
Perante isto, podemos considerar Portugal como
um verdadeiro paraíso fiscal, para os seus milionários.
terça-feira, 5 de janeiro de 2016
Uma descida ao inferno...
![]() |
| O Inferno de Dante | Botticelli |
Uma
descida ao inferno...
Ainda não se atingiu o pico da procura, que,
normalmente, ocorre nesta época do ano, e já os hospitais estão a entrar em
ruptura. Os portugueses começam a pagar mais uma factura, e esta bem pesada e
dolorosa, de quatro anos de uma política assassina, de um governo de direita,
que nos dizia constantemente estar apostado em salvar a Pátria. E, para já, o
actual governo não pode fazer mais do que recorrer ao improviso, para poder
tapar buracos. O relato desta notícia é
verdadeiramente pavoroso. É como descer ao inferno de Dante!
sábado, 2 de janeiro de 2016
Illusion – Henry Brown Fuller 1895
Nem será tanto a glorificação do esplendor do
nu, aquilo que o autor nos propõe. Talvez o mais importante, em termos de
técnica pictórica, seja a subtil precisão da captação do movimento do “instante”,
entre a formulação gestual de um pedido e a expressão terna da sua recusa. É
esta impressão da ideia de movimento, a animar duas estáticas figuras humanas,
que a pintura ganha grandeza e notoriedade. Tracemos várias rectas paralelas imaginárias, a partir do ombro e da cabeça da criança, até à esfera translúcida e até à cabeça da mulher, e aí descobriremos o “truque” do autor. É nesse espaço que se
concentra a força da representação do movimento com que a pintura ganha vida. É
este, pois, o ponto central da pintura, o seu eixo estruturante, uma pintura que
se enquadra no cânone da corrente artística do Realismo.
Para provocar um maior deslumbramento no
espectador, mas assumindo o risco de não poder errar na descrição anatómica
figurativa, o que seria fatal, o autor opta por preencher todo o iluminado
espaço do primeiro plano com as duas figuras humanas, deixando difuso e
escurecido, intencionalmente, o plano de fundo. O efeito, em termos de conjunto,
é notável. O nu atinge o seu máximo esplendor, ao mesmo tempo que o espectador
é envolvido num ambiente aristocrático, aqui identificado e sinalizado, de uma
forma discreta, pelo mármore da balaustrada e do peitoril da varanda.
Em 1895, data da execução desta pintura, a
corrente do Realismo, na literatura e nas artes, aproximava-se do fim. A
seguir, iria assistir-se à grande revolução do modernismo, nas suas múltiplas
expressões, em que se abandona a ideia da representação e da captação do mundo
real. As artes passarão a ser comandadas pela “febril” e criativa imaginação
dos seus autores e pela descoberta de novas formas e de novas leituras.
AC
quarta-feira, 30 de dezembro de 2015
A culpa é do Estado?
A culpa é
do Estado?
Portugal é um país pequeno em termos europeus.
Todos conhecem todos ou conhecem alguém que conhece. Não são só as estreitas
relações entre políticos e empresários, agora muito na moda, que espartilham a
sociedade portuguesa.
A falta de responsabilidade e de
responsabilização criam um ambiente de impunidade e um sentimento de injustiça.
Em toda a sociedade.
Os titulares de cargos públicos, quer sejam
políticos ou técnicos, agem e decidem sempre de consciência tranquila, pois
independentemente do resultado das suas decisões sabem que dificilmente serão
responsabilizados.
A falta de responsabilidade advém principalmente
da falta de responsabilização. A falta de responsabilização por parte dos seus
pares, dos seus superiores, das entidades reguladoras e das supervisoras, dos
investigadores, das entidades judiciais e, em última análise, dos eleitores.
O sentimento de injustiça alimenta o ambiente de
impunidade. Os crimes vários que são praticados contra o bem-comum e contra a
vida já nem mexem o ponteiro da (in)justiça. Como diria um ex-Primeiro
Ministro: “é a vida…”
O “nacional porreirismo” permite viver
anestesiado em vez de vacinado. Cada vez é mais difícil impressionar
negativamente os portugueses, que já viram acontecer tudo e de tudo. Várias
vezes. E que pouco parecem importar-se.
A sua pouca exigência enquanto utilizadores de
serviços públicos e privados, consumidores e eleitores é fruto da sua grande
capacidade de adaptação. Certamente grande demais, porque já vai sendo tempo de
sair da anestesia e procurar uma vacina para tamanha incapacidade do Estado.
A visão benévola do Estado protector, enquanto
garante do bem-estar social e subsidiador de todas as actividades em benefício
de todos e de cada um possui inúmeras desvantagens. Talvez a principal delas
seja mesmo a desresponsabilização que cada um sente na sua relação com o
Estado. Por responsabilização do Estado em relação a tudo.
O problema de responsabilizar o Estado por tudo
de bom que nos deve acontecer, é ter que responsabilizar o Estado por tudo de
mal que acontece. Sem ser necessário, nem sequer aconselhável,
responsabilizar/culpabilizar alguém pelo caminho. Para não ferir
susceptibilidades e porque estão todos de consciência tranquila. Como sempre.
Mas parece que agora o objectivo primordial de
reforçar a segurança nacional está mais próximo de ser cumprido, pois com a
criação de leis anti-piropo, através de penas de prisão para este tipo de
criminosos, será mais fácil condenar alguém por tamanha crueldade do que
responsabilizar directamente alguém pelas mortes de doentes/pacientes nos
hospitais públicos pelo crime de abandono.
Votos de um Ano de 2016 mais exigente. Mas desta
vez a sério.
Paulo Barradas
Paulo Barradas
***«»***
Concordo com o diagnóstico, mas não concordo com
a terapêutica. Não é por o Estado ser mais ou menos "protector", que
os cidadãos são menos ou mais exigentes. O grau de exigência tem a ver com
factores culturais, essencialmente, e que derivam, por sua vez, dos contextos
morais, religiosos, sócio económicos e, naturalmente, políticos, que agem na
formatação das consciências individuais, através de um complexo processo de uma
sedimentação, de curta, média e longa duração, e que se vai herdando
geracionalmente, embora com várias mutações, impostas pelas dinâmicas das novas
realidades, derivadas do progresso das sociedades.
O povo português, porque periférico, em termos
históricos, em relação aos centros do progresso e dos conflitos bélicos
europeus, foi sempre um povo facilmente domesticável pela acção dos aparelhos ideológicos
dos vários poderes, que se completavam na sua missão: o poder religioso, o
poder político e o poder económico-financeiro, que sempre recorreram a várias
estratégias, para fazerem prevalecer o seu domínio, estratégias que iam da
sedução à repressão e à opressão e da cultura da exaltação patriótica e
nacionalista - como tentativa consumada de formatar um modelo de identidade
colectiva.- à cultura do medo.
Trata-se de um quadro que, em termos
sociológicos, é muito complexo, devido ao enorme peso das diferentes variáveis
envolvidas, o que dificulta a sua compreensão plena. E é também esta
complexidade de factores que impede a mudança rápida das mentalidades dos povos.
AC
segunda-feira, 28 de dezembro de 2015
Hora Magna | a Rogel Samuel
Hora Magna |
a Rogel Samuel
Publicado em 27 de dezembro de 2015
Fala! Santo
Silêncio de minha Vida,
Orquídea
recôndita de meu espírito,
De onde uma
nota mística deseja brotar…
Fala ! Santo
Espírito que habita
O santo
silêncio de meu Silêncio Santo!
Fala !
Para lá das
profundidades ,
Para lá das
águas santas da Santa Árvore,!
Em minha Noite escura
Procuro as
luzes de Teresa d’Ávila e
De Francisco
de Assis,
Bem como as
de S. João da Cruz!
Fala !
Porque a
minha vida precisa da tua Voz Santa
Preludiada
pelo Santo Silêncio na sinfonia das Luas!
Porque eu
anseio e careço ,
Súbita como
um relâmpago,
Algo em Ti
que me cubra
Na Voz de um
idioma transcendente!
Que seja como
uma montanha branca
Coroada de neve e música !
Coroada de neve e música !
Que o Passado, o Presente e o Futuro,
Os três
enigmas do tempo sob o olhar da Esfinge,
Sejam Sol de
um só acorde !
Fala! Porque minha vida é Símbolo
Da mágica
Rosa Invisível!
Da Magna Rosa
de 5 pétalas ocultas
Que não são
deste mundo!
Fala! Porque
por detrás das pétalas
Outras se
abrem,
E ainda mais
outras que não acabam …
E eu morro e
viajo e resvalo lentamente para o Santo Nada!
E a viagem
ascende pelo corpo que me transcende
E em ziguezague
serpenteia a doce melodia do Fogo!
Fala!
Voz diáfana
em meu silêncio de Aliança
Em pétalas da
Arca da Esperança
Que espera
pelo Noivo em sua Palavra doce!
Fala! Santo Espírito de minha vida !
Desperta
minha Alma no Sanctum Sanctorum
Para além dos
véus das pétalas ilusórias!
Princesa adormecida ! Espera por Ele!
Espera!
Espera
sempre!
Espera
pacientemente pelo beijo do Santo Silêncio
Em sua taça
de mármore argênteo!
E rompe a
própria cercadura de pranto e Neve
E se volve
Pedra, que toca em seu próprio Corpo,
Porque Nele
está a Rosa, A Estrela imaculada,
A que
Esplende.
A Hora Magna!
© maria
azenha
in “ O Santo Nada”, 2015.
(Poesia
inédita)
domingo, 27 de dezembro de 2015
Hora Magna | a Rogel Samuel
Hora Magna | a Rogel Samuel
Publicado em 27 de dezembro de 2015
Fala! Santo Silêncio de minha Vida,
Orquídea recôndita de meu espírito,
De onde uma nota mística deseja brotar…
Fala ! Santo Espírito que habita
O santo silêncio de meu Silêncio Santo!
Fala !
Para lá das profundidades ,
Para lá das águas santas da Santa Árvore,!
Em minha Noite escura
Procuro as luzes de Teresa d’Ávila e
De Francisco de Assis,
Bem como as de S. João da Cruz!
Fala !
Porque a minha vida precisa da tua Voz Santa
Preludiada pelo Santo Silêncio na sinfonia das Luas!
Porque eu anseio e careço ,
Súbita como um relâmpago,
Algo em Ti que me cubra
Na Voz de um idioma transcendente!
Que seja como uma montanha branca
Coroada de neve e música !
Coroada de neve e música !
Que o Passado, o Presente e o Futuro,
Os três enigmas do tempo sob o olhar da Esfinge,
Sejam Sol de um só acorde !
Fala! Porque minha vida é Símbolo
Da mágica Rosa Invisível!
Da Magna Rosa de 5 pétalas ocultas
Que não são deste mundo!
Fala! Porque por detrás das pétalas
Outras se abrem,
E ainda mais outras que não acabam …
E eu morro e viajo e resvalo lentamente para o Santo
Nada!
E a viagem ascende pelo corpo que me transcende
E em ziguezague serpenteia a doce melodia do Fogo!
Fala!
Voz diáfana em meu silêncio de Aliança
Em pétalas da Arca da Esperança
Que espera pelo Noivo em sua Palavra doce!
Fala! Santo Espírito de minha vida !
Desperta minha Alma no Sanctum Sanctorum
Para além dos véus das pétalas ilusórias!
Princesa adormecida ! Espera por Ele!
Espera!
Espera sempre!
Espera pacientemente pelo beijo do Santo Silêncio
Em sua taça de mármore argênteo!
E rompe a própria cercadura de pranto e Neve
E se volve Pedra, que toca em seu próprio Corpo,
Porque Nele está a Rosa, A Estrela imaculada,
A que Esplende.
A Hora Magna!
© maria azenha
in “ O Santo Nada”, 2015.
(Poesia inédita)
quarta-feira, 23 de dezembro de 2015
BOAS FESTAS...
Gosto de escrever frases curtas que digam tudo: Boas Festas para todos os leitores, seguidores e colaboradores do Alpendre da Lua...
terça-feira, 22 de dezembro de 2015
Salário Mínimo versus Produtividade na UE
![]() |
| Fonte: Eurostat |
![]() |
| Fonte: Eurostat |
Salário
mínimo em Portugal é metade do da Alemanha
Acordo
político que está a ser negociado pelo PS, PCP e BE contempla a subida do
salário mínimo em Portugal. Neste momento, face ao poder de compra, ele é
metade em Portugal do que é na Alemanha. Mas a produtividade lá é 40% superior
à de cá
O
salário mínimo nacional é metade em Portugal do que é na Alemanha, em paridades
de poder de compra - ou seja, considerando o poder de compra que o salário
permite face ao custo de vida de cada país.
Tendo
em conta este critério, a Alemanha tem aliás o segundo maior salário mínimo da
zona euro, sendo apenas superado pelo do Luxemburgo, que é 120% superior ao
nosso. Bélgica, Holanda e França têm salários mínimos quase 90% mais altos que
o português.
Esta
comparação é feita numa altura em que o debate político à esquerda avança com o
tema do aumento do salário mínimo em cima da mesa. Embora ainda não se conheçam
os termos do acordo (ou dos acordos), tanto o Bloco de Esquerda como o PCP
quiseram impor ao PS um salário mínimo de €600 mensais, quase mais 20% do que
os atuais €505 mensais. Catarina Martins, líder do BE, já disse que o aumento
poderia ser faseado, em longo de vários anos, presumivelmente os quatro de uma
legislatura. Estas negociações decorrem para BE e PCP viabilizem um governo PS,
liderado por António Costa.
Portugal
tem um salário mínimo de €505 mensais, pago 14 vezes por ano. Ajustando esse
valor para 12 meses (multplicando pois por 14 e dividindo por 12) e corrigindo
o nível de poder de poder de compra na zona euro, esse salário corresponde a
€726. Aplicando o mesmo racional aos salários mínimos dos demais países, para
efeitos de comparação, verifica-se que Portugal está no fim da lista entre
países da zona euro.
Para
comparar salários, é preciso também comparar níveis de produtividade. É isso
aliás que muitos empresários e associações empresariais têm dito nos últimos
dias: que um aumento do salário mínimo implicará mais custos nas empresas, o
que pode levar a perda de competitividade nos mercados externos e a redução do
número de trabalhadores. Daí que o discurso seja frequentemente o de fazer
alinhar aumentos de salários com melhorias de produtividade.
Uma
das formas de avaliar a produtividade é calcular o PIB por pessoa empregada
(portanto deixando de fora do cálculo os desempregados). Ora, nesse critério, e
segundo o Eurostat, Portugal apresente uma das mais baixas produtividades da
União Europeia (é o 20º país dos 28).
Apenas
sete países da União Europeia têm produtividade inferior à de Portugal. O
Luxemburgo lidera o "ranking", estando a Alemanha em 12º lugar. O
produto por trabalhador germânico é quase 40% superior ao do português.
Fonte:
Eurostat
segunda-feira, 21 de dezembro de 2015
Opinião: Há um fantasma que continua a esvoaçar no Ministério da Saúde _ por Mário Jorge Neves
![]() |
| Mário Jorge Neves _ Médico e dirigente sindical |
Há um
fantasma que continua a esvoaçar no Ministério da Saúde
Ao longo dos anos as situações contraditórias a
nível das políticas governamentais de saúde têm-se sucedido, assumindo muitas
vezes formas inesperadas e até surpreendentes.
As organizações dos profissionais de saúde,
apesar das adversidades dos processos políticos e das medidas altamente lesivas
dos interesses laborais, têm conseguido, nos aspectos essenciais, enfrentar com
determinação essas políticas e esses círculos de interesses que acabam sempre
por se adaptar às novas situações e aos novos actores do Poder político.
Depois de 4 anos de obsessão privatizadora e
neoliberal por parte do anterior governo, onde as políticas sociais foram
erigidas como inimigos a abater e em que o Estado Social foi duramente
golpeado, esperava-se que o novo ciclo político e governativo abrisse uma
janela de esperança e se apresentasse, de forma decidida, para romper com as
anteriores políticas e com os anteriores actores, designadamente na área da
Saúde.
A escolha do actual titular ministerial desta
área mereceu da minha parte um comentário público num jornal diário,
considerando-a uma opção infeliz, tanto mais que o actual governo se apresentou
como de esquerda e em ruptura com o passado governativo imediatamente anterior.
Embora tenha sublinhado que a minha opinião era
de carácter exclusivamente pessoal e de a própria notícia ter até salvaguardado
esse aspecto, surge sempre alguém a considerar que sendo eu um dirigente
sindical é sempre difícil evitar que as declarações pessoais não possam
comprometer a organização sindical de que se é dirigente e que é sempre difícil
separar as opiniões pessoais das de dirigente.
É óbvio que um cidadão por ser dirigente
sindical não passa a estar impedido de emitir as suas opiniões pessoais,
relegado para uma cidadania de 2ª classe e a não poder exercer o livre
pensamento e crítica.
Ao contrário daquilo que durante vários anos foi
apregoado à falta de outros argumentos credíveis, a FNAM sempre foi uma
organização plural com diversas sensibilidades e uma firme adversária do
pensamento único. Independentemente das posições que os órgãos dirigentes da
FNAM tomarem, nunca aceitarei estar inibido em expressar livremente as minhas
opiniões.
É neste contexto que não posso deixar de abordar
o recente discurso do Secretário de Estado Adjunto da Saúde, Dr. Fernando
Araújo, efectuado em 16/12/2015, na apresentação pública de 3 coordenadores
para a reforma do SNS.
O discurso, não sendo extenso, contem diversas
abordagens habituais em quase todos os conteúdos programáticos de grande parte
dos governos, possui ideias genéricas sobre problemas há muito identificados e
até quantificados, mas existe um parágrafo que pela sua enorme gravidade
político-ideológica merece a elaboração deste artigo de opinião.
Ora, o referido parágrafo, referindo uma das
propostas ministeriais, diz o seguinte: “ Um Sistema Integrado de Gestão do
Acesso, que facilite o acesso e a liberdade de escolha dos utentes no Serviço
Nacional de Saúde, nomeadamente no que diz respeito a áreas onde a espera ainda
é significativa, criando e estimulando um mercado interno no Serviço Nacional
de Saúde;
“ Lendo isto, a surpresa é total, desde logo por
ter sido proferido pelo referido secretário de estado que eu não julgava
rendido a este tipo de ideologia e, por outro lado, porque há largos anos que
não havia uma equipa ministerial da saúde que se apresentasse, sem
subterfúgios, numa lógica de recuperação político-ideológica da tralha dos
conceitos neoliberais mais fundamentalistas e radicais que foram desenvolvidos
durante a década de 1980 por Margareth Thatcher, na Grã-Bretanha, para
desencadear a destruição do respectivo Serviço Nacional de Saúde (NHS).
Em 1989, o governo conservador de Margaret
Thatcher apresentou um documento orientador da reforma do sistema de saúde com
o título “Trabalhando para os doentes”. Este documento tornou-se mais conhecido
pela designação de “White Paper”.
Nas suas considerações gerais, era afirmado que
ele visava: o “fortalecimento do NHS”; “colocar o doente acima de qualquer
interesse”; “o governo mantém e não mudará os princípios sobre os quais o NHS
foi erigido”; o “NHS continuará aberto a todos e financiado pelas contribuições
fiscais”; e que “cada vez mais gente se dá conta de que nova injecção de mais
dinheiro não é, por si só, uma resposta”.
Como objectivos gerais foram colocados os
seguintes: “oferecer aos doentes, independentemente do seu lugar de residência,
melhores cuidados de saúde e maior possibilidade de escolha dos serviços
disponíveis”; “gerar maior satisfação e incentivos para os profissionais do NHS
que demonstrem responder satisfatoriamente às necessidades e preferências dos
doentes a seu cargo”.
Para permitir que os hospitais que prestassem
melhores serviços aos seus utentes tivessem acesso aos investimentos
financeiros de que necessitavam, o dinheiro para tratarem os doentes poderia
“cruzar” as então fronteiras administrativas entre os distritos.
Nesse sentido, todos os hospitais do NHS seriam
livres de oferecer os seus serviços tanto ao sector público como ao privado.
Deste modo, o dinheiro acederia, diziam eles, com maior fluidez onde fosse
prestada a actividade assistencial e onde ela se realizasse melhor (estas
disposições definem o principio do “dinheiro que segue o doente”).
Entretanto, foram criados os chamados orçamentos
para os “group practices”, justificados como uma forma de ajudar os médicos
clínicos gerais a melhorarem a prestação de serviços aos seus utentes.
Os médicos clínicos gerais poderiam solicitar os
seus orçamentos ao NHS, que seriam por si administrados para comprarem
directamente aos hospitais que entendessem um pacote definido de serviços
hospitalares para os seus utentes. O conceito nuclear deste “White Paper” foi a
separação das funções de prestador e financiador, nomeadamente através da
separação dos hospitais que prestam os serviços e das autoridades de saúde e os
clínicos gerais que lhes compravam esses serviços.
Em torno desta medida, foi também argumentado
que se os papéis estivessem separados, as agências financiadoras teriam a
possibilidade de efectuar um exame mais cuidadoso das prioridades e
necessidades dos doentes e das populações, e uma avaliação mais cuidadosa e
independente. Libertas das pressões imediatas de gerir hospitais e das pressões
políticas de interesses de grupos profissionais de saúde, poderiam ser
efectuadas avaliações mais críticas e tomadas decisões mais racionais.
Deste modo, e ainda segundo os argumentos
oficiais, as agências fornecedoras poderiam ficar aptas para competirem umas
com as outras pelos negócios das agências financiadoras/compradoras. No
essencial, a separação entre compra e prestação era parte do modelo de reforma
assente no “mercado interno” necessário para introduzir a atribuição de
recursos baseada na competição entre prestadores e formalizado através de
contratos, em que essa atribuição estaria ligada, cada vez mais, ao volume de
actividade e aos custos e menos aos gastos históricos .
O White Paper integrou todas as concepções
politicas e ideológicas da chamada “competição gerida” que é outro dos chavões
neoliberais da política privatizadora na saúde, num processo de importação do
modelo dos EUA. Aliás, é por demais elucidativo que o ideólogo da competição
gerida, o americano Alain Enthoven, intimamente ligado aos interesses das HMO´s,
tenha sido o responsável directo pela elaboração e implementação do White
Paper, acompanhado por uma numerosa equipa de largas dezenas colaboradores do
seu país.
As questões que acabo de referir não são meras
análises especulativas, mas trata-se da enumeração de factos concretos da
conhecida e dramática situação de destruição do NHS britânico ao longo das
últimas décadas.
Como vimos, todos os argumentos publicitários
para procurar dissimular os verdadeiros objectivos destruidores do NHS por
Thatcher e evitar uma imediata contestação da respectiva opinião pública,
começavam logo por afirmar de forma altissonante que o seu governo iria manter
e não mudaria os princípios sobre os quais o NHS tinha sido erigido e passados
poucos anos a “demolição” furiosa desse mesmo NHS tinha sido desencadeada,
atingindo os seus aspectos mais basilares.
Também por cá, os inimigos do Serviço Nacional
de Saúde vão soletrando abundantemente a sigla SNS para melhor dissimular o
seus objectivos inconfessáveis de o esvaziarem e finalmente decretarem o seu
óbito.
O que é chocante é que um governo que se tornou
possível por um largo entendimento entre as várias componentes da esquerda
portuguesa venha recuperar ao fim de três décadas um conjunto de conceitos e um
modelo que foram responsáveis por uma acção ideológica e de múltiplas medidas
políticas que conduziram ao desastre aquele que foi durante largo tempo
considerado internacionalmente como o melhor serviço público de saúde e dotado
dos melhores indicadores.
Vir falar da livre escolha dos doentes em
abstracto e da criação do famigerado “mercado interno” é desde logo uma
garantia de que o SNS continuará a ser fustigado por políticas adversas e que
as perspectivas que começam a vislumbrar-se só podem causar a mais viva
inquietação aqueles que têm dedicado a sua intervenção cívica na defesa
dinâmica deste insubstituível direito constitucional.
É que a defesa dinâmica do SNS não é defender
tudo o que está e como está, mas introduzir mecanismos concretos e articulados
para redinamizar a sua função social e humanista, encontrando respostas sempre
novas aos contínuos problemas novos que o vão desafiando na sua missão
civilizacional e de contributo para a coesão social.
Não será difícil adivinhar que o “fantasma” da
Thatcher que alguns governos anteriores, a começar pelo último, tanto
idolatraram conduzirá a muitos resultados possíveis, mas há um que seguramente
não visa assegurar: a defesa e a revitalização do SNS como instrumento do
direito geral, universal e tendencialmente gratuito à Saúde.
Resta saber como reagirão os partidos e as
organizações sociais à esquerda do actual governo, sendo certo que com a
existência já deste cartão de visita numa das áreas sociais mais emblemáticas
da nossa vida quotidiana não lhes será fácil coabitarem com a negação das suas
propostas na área da Saúde.
O “fantasma” neoliberal continua a assombrar os
corredores da Avª João Crisóstomo ?
Mário Jorge Neves
Médico e dirigente sindical
domingo, 20 de dezembro de 2015
Em Espanha, perderam os partidos da alternância e ganharam os partidos emergentes...
Parece que, de Espanha, veio um bom vento...
Esperemos que também venha um bom casamento...
Politicamente (não aritmeticamente), o Podemos
foi o grande vencedor das eleições espanholas. O PSOE foi o grande derrotado. O
PP, apesar de ser o partido mais votado, também perdeu. Perdeu a maioria
absoluta e arrisca-se a ser excluído, pelas outras forças partidárias, de uma
qualquer solução governativa.
O PP perdeu um terço de deputados, em relação às
eleições de 2011, e o PSOE teve o pior resultado de sempre. O castigo infligido
pelos eleitores aos partidos da alternância foi severo. Os espanhóis, claramente,
votaram contra a austeridade e contra o enfeudamento da Espanha, em relação às instâncias europeias.
TAP um negócio feito por um bando de criminosos... por Rui Mateus
TAP um negócio feito por um bando de
criminosos...
"Nunca ninguém acreditou que o português da
Barraqueiro, Humberto Pedrosa, fosse realmente o principal dono na sociedade
que comprou a TAP. Só o Governo nacional, pouco dado a honestidades, o aceitou.
Agora os jornais contam os pormenores. Humberto
Pedrosa tem realmente 51% das acções da tal sociedade adquirente da TAP, e o
americano-brasileiro Davis Neeleman apenas 49%. Mas, afinal, isto é em número
total de umas acções de diferente valor. Na verdade, as acções de Pedrosa, de
menor valor, representam apenas 5% da sociedade."
No passado mês de Novembro afirmava-se a dado
passo, no jornal Luta Popular online: "O roubo da TAP está finalmente
consumado. O caderno de encargos para a privatização da TAP não passou de uma
fraude do governo de traição nacional Coelho/Portas para enganar os
trabalhadores da TAP e roubar o povo Português. Afinal, não há nenhum encargo
que onere o comprador privado, o consórcio Atlantic Gateway.
Os bancos, credores da TAP, só aceitaram a
privatização na condição de o estado português assumir o risco pela dívida, que
deveria ter sido assumido pelo consórcio comprador.
A TAP foi privatizada a favor de um consórcio
constituído à pressa – o Atlantic Gateway – que não dispõe nem de capitais
próprios, nem de crédito bancário em parte nenhuma do mundo. O consórcio
comprador tem uma estratégia bem definida, que sempre denunciámos mas ninguém
parecia querer acreditar: entrar na TAP, vender os aviões, vender as rotas,
vender os prédios e os terrenos, e deixar as dívidas nos bancos para o Estado
português pagar.
O consórcio Atlantic Gateway é uma sociedade
parasita e parasitária: veio para liquidar a TAP, vendendo o património da
companhia aérea portuguesa, embolsando o produto da venda, deixando os
trabalhadores sem emprego e encarregando o Estado, quer dizer, o erário
público, isto é, os contribuintes, de pagar as dívidas.
O negócio da privatização da TAP é um negócio
ruinoso e criminoso: o privado vende o activo e fica com o dinheiro; os
trabalhadores da TAP ficam desempregados; o povo português paga a dívida. A TAP
desaparece.
As vendas já começaram. Com efeito, a TAP já
colocou à venda os terrenos do chamado reduto da TAP, que envolvem a sede, os
escritórios e as oficinas da companhia, junto ao aeroporto da Portela."
Só existe uma saída aos trabalhadores da TAP,
erguer-se, com todas as formas de luta ao seu alcance, contra este latrocínio e
contra esta ladroagem. E terão, sem dúvida, o apoio de todo o povo português,
porque só assim conseguirão impor a reversão da privatização desta empresa
estratégica, ao governo actual e aos seus aliados. Reversão essa que deve ser
na totalidade.
Rui Mateus [Facebook]
Amabilidade de Lara Raquel Caldeira Ferraz
Edith Piaf nasceu há 100 anos...
Édith Piaf - Ne me quitte
A grande cantora Édith Piaf, que marcou indelevelmente a canção francesa, no século passado, e que se afirmou como um símbolo da França e, principalmente, da cidade de Paris, nasceu, nesta cidade, em 15 de Dezembro de 1915. A sua vida não foi fácil. Como criança, conheceu a miséria, e, já no auge da fama e na recta final da sua carreira, passou por uma vida atribulada, com os dramas sentimentais e os graves problemas de saúde a provocarem-lhe grandes sofrimentos. Deixou-nos no vinil a sua voz inconfundível e as suas imortais canções, que ainda brilham no imaginário da França e na memória de todos aqueles que ainda a conheceram em vida, como é o meu caso.
Veja aqui, no Expresso, um breve, mas elucidativo, apontamento biográfico da diva.
sábado, 19 de dezembro de 2015
Mais de 2,2 milhões de portugueses vivem em privação material
Mais de 2,2 milhões de pessoas vivem atualmente
em privação material em Portugal, segundo um inquérito do Instituto Nacional de
Estatística, que aponta uma redução de cerca de 425 mil pessoas a viver nesta
situação face a 2014.
Os dados constam do Inquérito às Condições
de Vida e Rendimento das Famílias realizado anualmente pelo Instituto Nacional
de Estatística (INE) sobre rendimentos do ano anterior das famílias residentes
em Portugal.
***«»***
O Inquérito às Condições de Vida e Rendimento
das Famílias talvez seja o melhor instrumento estatístico para fazer o retrato,
a preto e branco, do panorama social do país, porque, essencialmente, fala de
pessoas e dos seus problemas. Isto, claro, não invalida a necessidade e a
utilidade dos outros indicadores macro económicos, dos quais a governação não
pode prescindir.
O que aquele inquérito nos mostra é que o
retrato social do país, em 2015, está bem negro, embora tenha melhorado
ligeiramente em relação ao ano anterior, o que era expectável, devido ao facto
de 2015 ser um ano de eleições. Foi uma ligeira melhoria meramente conjuntural
e não estrutural. E enquanto não se enfrentarem, com determinação, as entorses
da economia portuguesa, que é obrigada a ter de viver com uma moeda
hipervalorizada em relação à produtividade, o que exige uma mudança de
políticas, a inversão do panorama social do país, que aquele inquérito
reflecte, não ocorrerá tão cedo, antes irá agravar-se.
terça-feira, 15 de dezembro de 2015
quinta-feira, 10 de dezembro de 2015
terça-feira, 8 de dezembro de 2015
Poeta Ashraf Fayadh condenado à morte por apostasia, na Arábia Saudita…
![]() |
Ashraf Fayadh _
pintura de Mona Kareem
|
“O petróleo é inofensivo...” Assim começa um
poema de Fayadh, o saudita condenado à morte
Ashraf Fayadh tem 35 anos e foi condenado à
morte por um tribunal saudita. Poetas, escritores e organizações de Direitos
Humanos pedem clemência e a comutação da pena do homem que cantou as “gotas da
chuva”
“O
petróleo é inofensivo, exceto no rastro de pobreza que deixa para trás”, assim
começa um poema de Ashraf Fayadh, 35 anos, poeta de origem palestiniana
condenado à morte por apostasia na Arábia Saudita.
***«»***
Que as "gotas da chuva"(*) lavem a
desonra de um reino, que ainda não se libertou da escuridão das trevas
medievais e cujo brilho da ostentação do dinheiro do ouro negro não consegue
esconder... Levantem-se os homens contra a ignomínia de mandar matar em nome de
um Deus, que outros homens querem bárbaro e assassino. Que as areias
abrasadoras do deserto queimem os olhos de quem assim pensa. A cegueira da Fé
só consegue ver a luz das catacumbas da morte...
AC
(*) "gotas de chuva" é uma expressão de um poema de Ashraf Fayadh.
(*) "gotas de chuva" é uma expressão de um poema de Ashraf Fayadh.
**
Já experimentámos o fascismo das botas cardadas,
que inventou o medo e a fábrica da morte em Auschwitz; vivemos alegremente o
silencioso fascismo financeiro, nascido das entranhas fedorentas do dinheiro; e
agora estamos a ser confrontados com um novo tipo de fascismo, o fascismo
religioso, o da traiçoeira bomba jihadista e o da ditadura da Fé. Os três não
se diferenciam na sua natureza perversa, nos seus métodos hediondos e nos seus
propósitos totalitários. Os três juntos querem dominar o Céu e a Terra e as
nossas consciências. Têm um ódio visceral à Liberdade e têm medo do nosso
pensamento.
AC
domingo, 6 de dezembro de 2015
Sauvons le poète Ashraf Fayad condamné pour apostasie par l'Arabie Saoudite
![]() |
Le poète
palestinien Ashraf Fayad
|
Sauvons le poète Ashraf Fayad condamné pour
apostasie par l'Arabie Saoudite
Quem mata um poeta, em nome de Deus, está a
matar o próprio Deus...
A idade das trevas e da escuridão ainda habita
no coração daqueles homens que se inspiram nos livros sagrados para fazerem
leis demoníacas e sanguinárias contra a liberdade de pensamento.
A condenação à morte do poeta Ashaf Fayad, por
apostasia, é um acto monstruoso e ignóbil, que, a concretizar-se, irá renegar
os valores civilizacionais do nosso tempo.
Salvar a vida e conseguir a libertação de Ashaf
Fayad é um imperativo urgente da nossa consciência, a individual e a colectiva,
a fim de nos podermos resgatar da barbárie.
Alexandre de Castro
Subscrever:
Comentários (Atom)



















