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domingo, 19 de abril de 2015

Noam Chomsky: "A pior campanha terrorista é a que está a ser orquestrada...




Texto da entrevista:

Noam Chomsky é considerado uma celebridade do mundo intelectual. Um autor prolífico e assumido anarquista, que aos 86 anos de idade não dá sinais de querer abrandar o ritmo. É uma voz ativa na denúncia de várias injustiças, tendo com bastante frequência o Ocidente como alvo.
Quem é Noam Chomsky?
Avram Noam Chomsky nasceu em Filadélfia, nos Estados Unidos, a 7 de dezembro de 1928
Começou a trabalhar no Instituto de Tecnologia de Massachusetts em 1995
É um reputado linguista, filósofo e ativista político
O trabalho que desenvolveu na década de 50 revolucionou o campo da linguística
Destacou-se pelo ativismo contra a guerra do Vietname
Opõe-se às elites reinantes e é um forte crítico dos Estados Unidos e da política externa ocidental
É um respeitado autor, com dezenas de livros publicados
Discutimos estas e outras questões numa entrevista com o reputado linguista, filósofo e ativista político norte-americano, no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos.

Isabelle Kumar, Euronews: Em 2015, o mundo parece um lugar conturbado, mas se pensarmos a nível global, sente-se otimista ou pessimista?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “Estamos a caminhar, a nível global, para um precipício, no qual estamos determinados a cair, e que reduzirá nitidamente as perspetivas de uma sobrevivência decente.”

Isabelle Kumar, Euronews: Que precipício?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “Na verdade existem dois precipícios. Um é a catástrofe ambiental iminente. Não temos muito tempo para lidar com isso e fazemos o percurso errado. O outro aconteceu há cerca de 70 anos, a ameaça de guerra nuclear, o que é interessante. Se fizermos uma retrospetiva é um milagre termos sobrevivido.”

Isabelle Kumar, Euronews: Falemos agora de questões ambientais. Pedimos aos nossos seguidores nas redes sociais para enviarem perguntas e recebemos imensas questões. Enea Agolli pergunta: Quando se depara com a questão ambiental e assume uma postura filosófica, o que tem a dizer em matéria de alterações climáticas?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “A espécie humana existe há cerca de cem mil anos e está agora perante um momento único na história. Esta espécie está numa posição em que decidirá, brevemente, as próximas gerações, se a chamada vida inteligente vingará ou se estamos determinados a destruí-la. Os cientistas reconhecem, surpreendentemente, que a maioria dos combustíveis fósseis têm de ficar no solo se quisermos um futuro decente para os nossos netos. Mas as estruturas institucionais da nossa sociedade fazem pressão para se extrair cada gota. Os efeitos, as consequências humanas, esperados por causa das alterações climáticas, num futuro próximo, são catastróficos e caminhamos para um precipício.”

Isabelle Kumar, Euronews: Em matéria de guerra nuclear constatamos que a possibilidade do acordo iraniano pressupõe que se alcançou uma etapa preliminar. Isso dá-lhe alguma esperança sobre o cenário de se fazer do mundo um lugar mais seguro?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “Sou a favor das negociações no Irão, mas são profundamente imperfeitas. Existem dois estados em tumulto no Médio Oriente que fazem agressões, recorrem à violência, atos terrotistas, atos ilegais, constantemente. Ambos têm um grande potencial nuclear. E as armas nucleares deles não estão a ser tomadas em conta.”

Isabelle Kumar, Euronews: A quem se refere concretamente?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “Aos Estados Unidos e a Israel, os dois maiores estados nucleares do mundo. Existe uma razão para, nas sondagens internacionais, conduzidas por agências de sondagens norte-americanas, os Estados Unidos serem vistos como a maior ameaça à paz mundial por uma margem impressionante. Nenhum outro país chega sequer perto. De certa forma é interessante que os meios de comunicação norte-americanos tenham recusado publicar isto. Mas é um facto.”

Isabelle Kumar, Euronews: Não tem o presidente Barack Obama em grande conta. Este acordo fá-lo pensar melhor de Obama? O facto de estar a tentar reduzir a ameaça de guerra nuclear?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “Na verdade, ele apenas iniciou um programa avultado de modernização do sistema de armamento nuclear dos Estados Unidos, o que significa expandir esse sistema. Essa é uma das razões pela qual o famoso Relógio do Juízo Final, estabelecido pelo Boletim dos Cientistas Atómicos, ficou, há apenas algumas semanas, dois minutos mais próximo da meia-noite. A meia-noite representa a destruição total. É o mais próximo que estamos desse ponto em três décadas, desde os primeiros anos de Reagan, quando existia um medo enorme de guerra.”

Isabelle Kumar, Euronews: Referiu os Estados Unidos e Israel a propósito do Irão. Agora o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu não quer, obviamente, que o acordo nuclear funcione e diz.

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “Interessante. Deveríamos perguntar porquê?”

Isabelle Kumar, Euronews: Porquê?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “Sabemos porquê. O Irão tem despesas militares bastante baixas, mesmo perante os padrões da região. A doutrina estratégica do Irão é defensiva, concebida para distanciar um ataque o tempo suficiente até ao início da diplomacia. E os Estados Unidos e Israel, os dois estados trapaceiros, não querem tolerar um estorvo. Nenhum analista estratégico com uma função cerebral acredita que o Irão usaria uma arma nuclear. Mesmo que estivesse preparado para tal, o país seria vaporizado e não há indicação de que os clérigos dirigentes queiram ver tudo o que têm destruído.”

Isabelle Kumar, Euronews: Uma última questão, sobre esta matéria, chegou-nos através das redes sociais. Morten A. Andersen pergunta: “Acredita que os Estados Unidos alguma vez chegariam a um acordo que fosse perigoso para Israel desde logo?”

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “Os Estados Unidos fazem ações constantes que são perigosas para Israel, bastante sérias. Nomeadamente ao apoiar a política israelita. Nos últimos 40 anos, a maior ameaça a Israel são as próprias políticas. Se retrocedermos 40 anos, até 1970, Israel era um dos países mais respeitados e admirados do mundo. Existiam muitas atitudes favoráveis. Agora é dos países mais temidos e que geram antipatia de todo o mundo. No início dos anos 70 Israel tomou uma decisão. Tinham essa hipótese e decidiram pela expansão em vez da segurança e isso acarreta consequências perigosas. Consequências que eram óbvias na altura. Escrevi sobre isso e outras pessoas também o fizeram. Se se prefere a expansão em vez da segurança, caminha-se para a degeneração interna, raiva, oposição, isolamento e, possivelmente, para a destruição. Ao suportar tais políticas, os Estados Unidos contribuem para as ameaças com que Israel se depara.”

Isabelle Kumar, Euronews: O que me leva ao tema de terrorismo. Porque é verdadeiramente uma mancha global e algumas pessoas dirão que se trata de uma consequência da política dos Estados Unidos em relação ao terrorismo em todo o mundo. Até que ponto os Estados Unidos e respetivos aliados são responsáveis pelo que assistimos neste momento, em termos de ataques terroristas em todo o mundo?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “É preciso lembrar que a pior campanha terrorista em todo o mundo é, de longe, a que está a ser orquestrada em Washington. É a campanha global de assassinatos. Nunca houve uma campanha terrorista a essa escala.”

Isabelle Kumar, Euronews: O que quer dizer quando se refere a campanha global de assassinatos?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “O programa de drones é um exemplo disso. Em muitas partes do mundo, os Estados Unidos estão a conduzir sistematicamente, publicamente, abertamente – não existe segredo algum sobre o que estou a dizer, todos o sabemos – campanhas para assassinar pessoas que o governo do Estados Unidos suspeita tentarem fazer mal a alguém um certo dia. De facto é, como referiu, uma campanha gerada pelo terror. Quando se bombardeia uma aldeia no Iémen e matamos alguém – atingido, ou não, a pessoa visada e também outras pessoas de um determinado bairro – como pensa que reagirão? Irão vingar-se.”

Isabelle Kumar, Euronews: Descreve os Estados Unidos como o estado terrorista conducente. Como é que fica a Europa no meio de tudo isto?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “É uma boa pergunta. Recentemente, por exemplo, realizou-se um estudo. Julgo que foi feito pela Fundação Open Society. A pior foram de tortura é a rendição. Rendição significa capturar uma pessoa sobre a qual temos suspeitas e enviá-la ao ditador favorito, talvez Assad, Khadafi ou Mubarak, para que essa pessoa seja torturada, a troco de se conseguir algum elemento. É uma rendição extraordinária. O estudo fala dos países participantes. Desde logo, naturalmente, as ditaduras do Médio Oriente, porque foi para esses locais que se enviaram pessoas, e, depois, a Europa. Grande parte da Europa participou. Inglaterra, Suécia, outros países. Na verdade, apenas há uma região do mundo em que ninguém participou: a América Latina. A América Latina tornou-se agora mais independente em relação ao controlo dos Estados Unidos. Há relativamente pouco tempo, quando estava sob controlo dos Estados Unidos, era o centro mundial de tortura. Agora não participou na pior forma de tortura, que é a rendição. A Europa participou. Se o mestre ruge, os lacaios encolhem-se.”

Isabelle Kumar, Euronews: Então a Europa é um lacaio dos Estados Unidos?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “Definitivamente. São demasiado cobardes para assumir uma posição independente.”

Isabelle Kumar, Euronews: Onde é que Vladimir Putin se encaixa no meio de tudo isto? É apontado como uma das maiores ameaças à segurança. É verdade?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “Como a maioria dos líderes, ele é uma ameaça para o próprio povo. Fez ações ilegais, naturalmente, mas descrevê-lo como um monstro louco que sofre de doença cerebral e tem Alzheimer, além de ser uma criatura maligna, é fanatismo ao estilo orwelliano. Quero dizer, independentemente do que se pensar das políticas que adota, são compreensíveis. A ideia de que a Ucrânia pode integrar uma aliança militar ocidental seria inaceitável para qualquer líder russo. Isto remonta a 1990, quando se deu o colapso da União Soviética. Houve uma questão sobre o que aconteceria à NATO. Gorbachov permitiu à Alemanha unificar-se e integrar a NATO. Foi uma concessão bastante notável com um quid pro quo: que a NATO não se expandisse um milímetro para o leste. Essa foi a frase usada.”

Isabelle Kumar, Euronews: Então a Rússia foi alvo de provocação?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “O que aconteceu? A NATO moveu-se para a Alemanha do Leste e depois Bill Clinton expandiu a NATO diretamente até às fronteiras da Rússia. Agora, com o novo governo ucraniano, estabelecido depois da queda do anterior, o Parlamento votou por 300 votos contra 8, ou algo assim, a adesão à NATO.”

Isabelle Kumar, Euronews: Mas pode perceber-se porque querem juntar-se à NATO, porque é que o governo de Petro Porochenko olharia para isto, provavelmente, como uma forma de proteger o país?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “Não, não, não. Não é proteger o país. A Crimeia foi tomada depois da queda do governo. E isto não é proteger a Ucrânia, é ameaçar a Ucrânia com uma guerra maior. Isso não é proteção. A questão é que se trata de uma ameaça estratégica séria à Rússia, a que qualquer líder russo teria de reagir. Percebe-se bem.”

Isabelle Kumar, Euronews: Se olharmos, no entanto, para a situação na Europa, existe também um outro fenómeno interessante que se está a passar. Estamos a ver a Grécia a mover-se para leste, potencialmente, com o Governo do Syriza. Também estamos ver o Podemos a ganhar poder em Espanha, na Hungria verifica-se o mesmo cenário. Considera que existe um potencial para a Europa começar a alinhar mais em função dos interesses russos?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “Repare no que está a acontecer. A Hungria tem uma situação completamente diferente. O Syriza ganhou força na base de uma vaga popular, que disse que a Grécia não se devia sujeitar mais a políticas de Bruxelas e aos bancos alemães, que estão a destruir o país. O efeito destas políticas foi, na verdade, aumentar a dívida da Grécia em relação à produção de riqueza. Provavelmente, metade dos jovens estão no desemprego, 40% da população vive abaixo do limiar da pobreza e Grécia está a ser destruída.”

Isabelle Kumar, Euronews: Então a dívida deve ser perdoada?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “Sim, como aconteceu com a Alemanha. Em 1953, a Europa perdoou grande parte da dívida alemã, de forma a que a Alemanha se pudesse reconstruir dos danos provocados pela guerra.”

Isabelle Kumar, Euronews: E em relação aos outros países europeus?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “Deve acontecer o mesmo.”

Isabelle Kumar, Euronews: Então Portugal e Espanha devem ver a dívida perdoada?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “Quem incorreu em dívida? A quem se deve? Em parte, a dívida foi contraída por ditadores. Na Grécia, foi a ditadura fascista, que os Estados Unidos apoiaram, quem contraiu grande parte da dívida. Julgo que a dívida foi mais brutal do que a ditadura brutal, aquilo a que se chama no direito internacional “odiosa dívida”, que tem de ser paga. E trata-se de um princípio introduzido no direito internacional pelos Estados Unidos, quando lhes interessava que assim fosse. Muito do resto da dívida, o que se chama pagamentos à Grécia, consiste, na verdade, em pagamentos aos bancos, alemães e franceses, que decidiram fazer empréstimos extremamente arriscados com juros não muito elevados e que agora estão a ser confrontados com o facto de poderem não ter o dinheiro de volta.”

Isabelle Kumar, Euronews: Gil Gribaudo, um dos nossos seguidores nas redes sociais, pergunta: Como é que a Europa se vai transformar contra as mudanças existenciais com que se depara? Porque se e certo que existe a crise económica também é certo que existe um recrudescimento do nacionalismo, e também descreveu algumas linhas, que falharam, que foram criadas pela Europa fora. Como é que vemos a transformação da própria Europa?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “A Europa tem problemas sérios. Alguns problemas resultam de políticas económicas concebidas pelos burocratas, em Bruxelas, a Comissão Europeia, etc., sob pressão da NATO e dos grandes bancos, principalmente alemães. Estas políticas têm algum sentido do ponto de vista de quem as concebeu. Porque é certo que querem receber de volta o dinheiro que apostaram em empréstimos de risco e investimentos. A outra coisa é que estas políticas estão a provocar a erosão do Estado-providência, que nunca gostaram. Mas o Estado-providência é um dos maiores contributos da Europa para a sociedade moderna. Os ricos e poderosos nunca gostaram disso e o facto de estas políticas estarem a provocar a erosão é bom do ponto de vista dessas pessoas. Existe um outro problema na Europa. É que é extremamente racista. Sempre senti que a Europa é, provavelmente, mais racista do que os Estados Unidos. Não era tão visível na Europa porque a população europeia, no passado, tendia a ser bastante homogénea. Se todos forem loiros e de olhos azuis, não se parecerá racista, mas assim que a população começa a mudar, o racismo começa-se a fazer notar. Muito depressa. E isso é um problema cultural sério na Europa.”

Isabelle Kumar, Euronews: Robert Light, outro dos nossos seguidores nas redes sociais, pergunta: O que lhe dá esperança?

Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político: “Falámos sobre várias coisas que me fazem ter esperança. A independência da América Latina, por exemplo. Tem um significado histórico. Nos encontros hemisféricos recentes, os Estados Unidos estiveram completamente isolados. É uma mudança radical em relação há 10 ou 20 anos, quando os Estados Unidos dominavam [as questões latino-americanas]. Na verdade, a razão porque Obama teve certos gestos em relação a Cuba foi para tentar superar o isolamento dos Estados Unidos. São os Estados Unidos que estão isolados, não é Cuba. E provavelmente falharão. Veremos. Os sinais de otimismo na Europa são o Syriza e o Podemos. Esperamos assistir, no fim, a um levantamento popular contra as políticas económicas e sociais esmagadoras e destrutivas, que resultam da burocracia e dos bancos. Isso dá esperança. Devia dar.”

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

O mau jornalismo televisivo de Mário Crespo

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Mário Crespo é um péssimo jornalista. Ainda não aprendeu que, no decorrer de uma entrevista, a boa prática profissional exige ao jornalista uma reserva prudente quanto à emissão das suas próprias opiniões, pois o objetivo é recolher a opinião do entrevistado, que é aquilo que interessa ao público, sendo por isso que a sua presença se justifica. O jornalista deve anular-se e dar o palco ao entrevistado. Deve limitar-se a enquadrar o tema com inteligência e criatividade e fazer as perguntas com objetividade. Se for sagaz, deve fazer perguntas armadilhadas para explorar eventuais contradições do entrevistado. Mas Mário Crespo, enrola-se nas suas palavras, e assume-se como comentador. Aos entrevistados, seus correligionários ideológicos, espreguiça-se untuosamente, num canhestro servilismo, fazendo perguntas bondosas e inocentes. Aos entrevistados que não lêem pela sua cartilha política, faz perguntas impertinentes e capciosas. Se Mário Crespo pretende exercer a função de comentador político, terá de criar o seu próprio espaço de opinião, bem marcado e bem definido. Aí, pode dizer o que muito bem entender.
Mas, além de ser um mau jornalista, Mário Crespo não percebe nada de economia. Destila venenosamente os estereótipos da direita neoliberal, delicia-se ronceiramente com os lugares comuns que debita, na presunção de que são pensamentos brilhantes. Nesta entrevista ao dirigente da CGTP, Arménio Carlos, percebeu-se que não sabe o que é a taxa de produtividade, focalizando-a exclusivamente no fator trabalho. Não sabe que os grandes motores para o aumento da taxa de produtividade assentam no investimento, na inovação tecnológica e na melhoria do sistema de gestão e de comercialização, que são os principais fatores que promovem o aumento do PIB.
Salvou-se nesta entrevista o desempenho de Arménio Carlos, que deu uma lição ao ignorante jornalista.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Entrevista de Boaventura de Sousa Santos ao jornal "i"...

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Amabilidade do Diamantino Silva, que enviou o documento
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É uma entrevista desassombrada. O ilustre sociólogo Boaventura de Sousa Santos tem uma visão correcta sobre as causas e a evolução da actual crise e das suas previsíveis consequências. No entanto, eu não aceito lá muito bem a tese que sustenta a ideia de que este ataque ao euro se destina a defender a posição do dólar, como moeda internacional de pagamento, embora o resultado, na prática, venha a ser esse. A especulação em torno das dívidas soberanas é igual à especulação utilizada em todos os negócios existentes nas bolsas de valores, e estes credores não fazem fretes aos políticos e, normalmente, tal como o dinheiro, também não têm Pátria. Neste jogo, eles procuram essencialmente dois objectivos. Em primeiro lugar, assegurar o retorno do capital emprestado. Em segundo lugar, ganhar o mais possível, aproveitando as oportunidades do mercado e as fragilidades dos devedores, sem se preocuparem minimamente com as tragédias que possam provocar (e, pelos vistos, nem os governantes se preocupam). Para eles é indiferente a moeda com que negoceiam. Se o euro passasse a ser a moeda preferida para os pagamentos internacionais, eles imediatamente convertiriam os seus dólares em euros, e seria esta moeda que eles iriam adoptar nos seus negócios. É pois redutor resumir esta ofensiva contra os países europeus da periferia como uma mera manobra especulativa para destruir o euro. Para assegurar o retorno, os credores avaliam muito bem as condições de solvibilidade e as perspectivas de crescimento económico dos países que vendem a sua dívida soberana. E todos sabemos que os países da Europa do Sul e a Irlanda apresentam grandes dificuldades, porque todos eles gastaram mais do que aquilo que produziram. Os défices orçamentais crónicos e os défices comerciais e das balanças de pagamentos, que exigem cada vez mais endividamento externo, acabam por lançar o pânico nos credores, que têm receio de perder o seu dinheiro, o que os leva a aumentar os respectivos juros. Mas não é só a nível orçamental que a avaliação de cada país é efectuada. Para eles também é importante saber se um determinado país está em condições de promover um crescimento económico sustentado, de modo a assegurar os compromissos financeiros assumidos E, como sabemos, em Portugal, no actual quadro, não se vislumbra nenhuma janela de oportunidade, que assegure aquele desiderato, a não ser através de uma grande baixa ao nível de salários, o que nos conduziria à situação imediatamente anterior à adesão à União Europeia. Portugal está a pagar a insanidade dos políticos dos últimos trinta anos e o parasitismo da maioria dos empresários. Uns e outros não souberam lançar projectos inovadores e arrojados que catapultassem Portugal para a rampa do desenvolvimento sustentado. Néscios, oportunistas e irresponsáveis (alguns corruptos), não aproveitaram as janelas de oportunidades da globalização, condenando, assim, o povo português a ter de sofrer as consequências negativas dessa mesma globalização.