Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Barack Obama. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Barack Obama. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Obama: Uma polémica distinção com o Prémio Nobel da Paz...



A atribuição do Prémio Nobel da Paz ao actual presidente dos Estados Unidos, Barak Obama, está, naturalmente, a levantar uma grande polémica, com muitas personalidades a denunciarem a falta de consistência da justificação apresentada pelo respectivo comité.
Na realidade, a argumentação sustentou-se num perfil curricular, onde apenas existem, vagamente, formulações teóricas de projectos sedutores e manifestações reiteradas de boas e saudáveis intenções, faltando ainda analisar, num futuro próximo, os respectivos resultados finais.
É certo que a metodologia utilizada pelo comité norueguês do Nobel da Paz, assim como a escolha dos seus critérios, enquadram parcialmente esta situação, já que o seu fundador, Alfred Nobel, e apenas para este prémio, pretendeu valorizar e estimular as nobres intenções dos esforços em prol da Paz, dispensando da análise, caso ainda não tivessem ocorrido, os eventuais resultados. E só assim foi possível distinguir personalidades e instituições que lutaram denodadamente por um mundo mais pacífico e solidário, sem que tivessem tido a felicidade de conseguir esse desiderato. O Nobel da Paz é, pois, um prémio com características próprias, já que, em função da disposição testementária do seu fundador, "ele poderá ser atribuído a pessoas ou organizações que estejam envolvidas num processo de resolução de problemas, em vez de apenas distinguir aqueles que já atingiram os seus objectivos em alguma área específica".
Mas se a distinção atribuída a Obama não pode ser criticada, através desta perspectiva, o mesmo não se poderá dizer em relação à consistência da valorização dos processos a favor da paz, em que ele se envolveu. Pelo contrário, algumas das suas acções diplomáticas caracterizam-se por alguma ambiguidade, como aconteceu na aproximação tentada em relação à Rússia, e até na condenável duplicidade, como aconteceu em relação ao golpe de Estado nas Honduras.
Independentemente da auréola de simpatia que envolve Obama, é sabido que um presidente dos Estados Unidos nunca pode contrariar os interesses dominantes das oligarquias económico-financeiras, e estes interesses não se enquadram no perfil que Alfred Nobel desenhou e instituiu para os candidatos ao Prémio Nobel da Paz, embora num passado recente, em 1978, o comité tivesse escandalizado o mundo ao distinguir o sinistro antigo primeiro ministro de Israel, Menachen Begin,um perigoso terrorista do grupo judeu Irgun, responsável pelo atentado à bomba do Hotel King David, em Jesuralém, na altura a central administrativa e militar dos britânicos, durante o Mandato Britânico da Palestina, um atentado que fez 91 mortos.
Também Henry Kissinger, o secretário de Estado de Nixon e de Ford, provocou amargos de boca ao comité Nobel da Paz, ao desmentir posteriormente os atributos pacifistas que lhe atribuiram, em 1973, pelo seu contributo na negociação do Tratado de Paz no Vietnam, por ter protagonizado, pouco tempo depois, o apoio ao golpe sanguinário de Pinochet, no Chile, e à invasão de Timor pela ditadura de Suharto, da Indonésia, acções estas que, à luz do Direito Internacional, o deveriam remeter para a condição de um criminoso de guerra.
Obama passa a ser o quarto presidente dos Estados Unidos a receber o Prémio Nobel da Paz, o que é revelador de uma certa parcialidade em relação aos dirigentes políticos da maior potência do mundo. Antes dele, foram distinguidos Jimmy Carter, em 2002, Thomaz Woodrow Wilson, em 1919, e Theodore Rooselvet, em 1906.

domingo, 12 de julho de 2009

Notas do meu rodapé: O efeito magnético da imagem de Obama em África ou o regresso às origens


Estando a política intimamente ligada à economia, é natural, a nível da sua expressão externa, que os políticos avancem à frente dos negociantes, a fim de desbravarem e aplainarem o caminho e removerem os obstáculos existentes. E é nesta perspectiva que a visita a África do presidente Barack Obama tem de ser equacionada, não se negando, no entanto, a autenticidade da enorme carga emocional que vai apoderar-se dele, nem a genuidade das suas palavras, quando se dirige a todo o continente, reclamando o revigoramento institucional da democracia e a ostracização dos ditadores, para que se vença a batalha do desenvolvimento e a luta contra a fome e a doença. Palavras oportunas estas, já mil vezes repetidas por muitos políticos ocidentais e por alguns presidentes americanos, mas que, ditas pelo primeiro presidente negro da maior potência do mundo, têm um outro significado, que não pode ser ignorado.

E não existem dúvidas sobre os efeitos da força apelativa da imagem pública de Obama, num continente que foi submetido ao peso da escravatura, exportada para o Novo Mundo nos cavernosos porões dos navios, e tratada como uma mera mercadoria. Compreendo a emoção de Obama na visita ao Castelo de Cape Coast, a última estação, em terras africanas, do roteiro do calvário dos escravos negros. Naquele museu da memória da História, Obama sentiu certamente o sentimento da revolta e da amargura, e o seu sangue não deveria ter ficado quieto. A modernidade e o progresso do Ocidente civilizado ainda têm de pagar uma pesada factura aos povos africanos. E esse não é apenas um sentimento de Obama. É um sentimento de todos nós.
Mas esta visita e o desenho do seu roteiro não surgiram por acaso, nem foram fruto de um impulso sentimental de Obama. A visita corresponde à necessidade estratégica dos Estados Unidos de começar a expansão das suas influências políticas dominantes num continente, até ali relativamente ignorado pelos seus antecessores. Exceptuando a corajosa intervenção política de Kennedy, na primeira parte do seu mandato, a favor da descolonização e da independência das colónias portuguesas, foi necessário esperar cinquenta anos para que a África passasse a figurar, para o bem e para o mal, nos planos de Washington, já que o seu principal rival económico, a China, já por ali assentou arraiais, quer assegurando fornecimentos de petróleo, quer criando mais um mercado para as suas exportações e quer, ainda, fixando em alguns países empreendedoras comunidades nacionais.

A África, uma vez cicatrizadas as feridas das fratricidas guerras civis e das guerras étnicas, irá, a longo prazo, substituir a China na produção de mercadorias de baixo custo, já que se presume que o gigante asiático, nos próximos quarenta anos, subirá vários patamares, evoluindo para uma economia de maior valor acrescentado, com a incorporação de mais conhecimento e de mais tecnologia.

Por outro lado, as riquezas minerais da África são enormes, o que fez dela, durante a segunda revolução industrial, um continente cobiçado por todas as potências coloniais. A mesma potencialidade se poderá adivinhar na agricultura, um sector que poderá expandir-se exponencialmente com a pressão do projectado aumento da procura global de alimentos. Este desiderato só poderá ser alcançado com a mudança que a terceira geração de dirigentes e de quadros técnicos, formados após a independência de cada Estado, venha a introduzir no processo político e económico africano, tendo por modelo a África do Sul.

É neste quadro prospectivo, que os Estados Unidos começaram a interessar-se pela África e é neste contexto que surge a necessidade de explorar o magnético efeito de Obama.