Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia de Al Berto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia de Al Berto. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Al Berto - Há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida




há-de flutuar uma cidade...


há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu... como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentado à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no
coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade
 
Al Berto

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Poema: Pernoitas em Mim - por Al Berto


Pernoitas em Mim

pernoitas em mim 
e se por acaso te toco a memória... amas
ou finges morrer 

pressinto o aroma luminoso dos fogos 
escuto o rumor da terra molhada 
a fala queimada das estrelas 

é noite ainda 
o corpo ausente instala-se vagarosamente 
envelheço com a nómada solidão das aves 

já não possuo a brancura oculta das palavras 
e nenhum lume irrompe para beberes 

Al Berto, in 'Rumor dos Fogos'

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Um Poema ao Acaso: Uma Paixão - Al Berto

Uma Paixão

Visita-me enquanto não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com teu rosto de Modigliani suicidado
.
tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores
vem
.
ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos
vem
.
antes que desperte em mim o grito
de alguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro
perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzos
olhos escancarados para a infindável água
vem
..
com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te
.
Al Berto