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domingo, 12 de junho de 2011
Um Poema ao Acaso: trazes um rumor - Miguel Pires Cabral
trazes um rumor
Trazes um rumor escondido entre os lábios.
As palavras ocultas, arrumadas pelo medo
inerte do espaço. Objectos desorientados
pela mesma desrazão dos dias, os olhos
fechados nas sombras dos objectos. Trazes:
um cheiro de amor, um aroma doce de rosas
silvestres e um vestido (que vejo claramente),
como uma espécie de poluição entre a cor e o
aroma campestre de um corpo suado por dentro.
Espalhava-se como um rumor de amor esse teu
vestido, desde o alto dos muros até ao alto dos
sorrisos abertos como flores emprestadas de boca
em boca. Uma espécie de rumor espalhado pela
força dos dedos, as marcas profundas dos anéis.
E agora que regressas, trazes murmúrios:
um rumor frio que esmagas entre os dentes e as águas
profundas do teu pensamento. Um eco calado na boca
como a alta saliva seca pela surdez muda das palavras¬.
Uma porta aberta para um abismo que trazes por dentro.
Um alto mar revolto por nada, ou um todo sal que ficará
......................................................[sempre – por dizer.
Miguel Pires Cabral
http://barbituricodaalma.blogspot.com/2011/05/trazes-um-rumor.html
terça-feira, 19 de abril de 2011
Um Poema ao Acaso: fmi - douro tinto - Miguel Pires Cabral
fmi - douro
Cansa-me esta treta ou espécie de cegueira.
Depois a merda é sempre a mesma, quiçá
uma sigla com peso a mais; [mais ainda que
a cotação «rating» ou seu real significado].
Desligo a tv [sem som há mais de 3 horas]
e centro-me na batalha do dia que hoje foi.
Não trago nada de novo para vos contar
caros amigos, o sentido é sempre o mesmo,
e o espírito esse, torna-se repetitivo. Não julgo
que me deva deteriorar por determinadas
interacções sócio-económicas das quais padeço.
Aliás, tenho uma espécie de índole difícil
que ainda assim, por aqui anda tão perdida:
quanto a dos outros que se perdem – pelo
caminho – para me ler. Cigarros e um vinho
tinto [douro superior] é tudo quanto tenho
para vos oferecer meus caros «devedores»,
para que a morte nos separe de uma forma
mais simpática, pode ser?
Miguel Pires Cabral
http://barbituricodaalma.blogspot.com/2011/04/douro-tinto.html
quinta-feira, 14 de abril de 2011
Um Poema ao Acaso: inércia - Miguel Pires Cabral
inércia
Avanço pela noite
contra o desbotar branco das fotografias.
Conheço «de cor» este lugar, este país,
esta espécie de inércia histórica
que nos abraça familiar
desde a mais longínqua infância.
Por vezes penso que não te pertenço
que não te desejo
que não deveria ter nascido aqui.
Por isso avanço contra inércia,
contra a cidade, contra o reino da apatia.
E as palavras a arder – contra os limites do futuro.
Miguel Pires Cabral
***
Nota do editor: A propósito deste poema, deixei escrito no blogue do autor o seguinte comentário:
Caro Miguel:
Este belo poema traduz bem o sentimento da descença e do esfumar da esperança da nossa identidade colectiva.Todos nós estamos a perceber que alguma coisa está a morrer e não sabemos ainda se vai voltar a nascer. E é por isso que todas as palavras ardem "contra os limites do futuro".E é também por isso que todos começamos a pensar que não pertencemos a este país, que nos aparece em fotografias desfocadas e desbotadas.
Que eu saiba, o Miguel é o primeiro poeta a abordar esta lancinante angústia do momento presente, recolocando-a no patamar da atávica inércia de todos os tempos da nossa História.
Vou publicar este seu poema no meu blogue, o Alpendre da Lua.
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Um Poema ao Acaso: recurso - Miguel Pires Cabral
recursoVenho por este meio recorrer
ao âmbito natural das coisas.
Ao sentimento frio que nos recomeça
nocturno, desde o vazio da noite – nas ruas.
Um ou outro sorriso que gastamos
junto ao balcão de um bar
ou outro cenário qualquer.
E nunca é tarde demais para distrair o medo
uma mesma direcção, uma mesma partilha,
ao que chamamos de ânsia ou modo vida.
É urgente ditarmos as regras ao desalinho
é urgente cobrar às palavras uma ordem natural
das coisas, aceita-las como se fossem só nossas.
Como uma mancha escrita que deixamos presa
no papel, um recurso cravado pela nossa passagem.
Venho pois, por este meio recorrer,
Venho pois, por este meio recorrer,
– em folha azul de 25 linhas –
a uma jurisprudência que em boa verdade
não existe. A um reconhecimento
não existe. A um reconhecimento
que em boa fé não procuro, diria em suma que:
procuro o consentimento que existe
entre o lume cruzado dos teus olhos.
Venho recorrer de um mesmo limite
entre o lume cruzado dos teus olhos.
Venho recorrer de um mesmo limite
que nos (de)fere a cada momento.
Ao esquecimento que se apaga junto
ao vazio de um copo, ao abandono
lento que nos sobra – neste recurso
perpetrado – junto ao balcão.
Miguel Pires Cabral
http://barbituricodaalma.blogspot.com/2010/11/recurso.html
Miguel Pires Cabral
domingo, 24 de outubro de 2010
Um Poema ao Acaso: frio - Miguel Pires Cabral
frio
Oh não te vou mentir! O ar frio
trespassava-me os dedos rasgados,
Oh não te vou mentir! O ar frio
trespassava-me os dedos rasgados,
orifícios na carne que não sentia.
A janela aberta e eu descalço,
a olhar o vazio, o precipício na janela
dos outros. Este lugar não me pertence
tampouco o buraco que me separa
da fronte do resto.
Oh! Como sinto falta dos nossos
recados escritos. Tínhamos dificuldade
em comunicar, lembras-te?
Uma herança que recebeste, dizem-me,
não sei bem. Sinto a falta desse frio
longínquo tempo, o teu olhar terno
mas distante, como o limite onde
esbarrávamos sem querer.
Oh! Como sinto falta dos nossos
recados escritos. Tínhamos dificuldade
em comunicar, lembras-te?
Uma herança que recebeste, dizem-me,
não sei bem. Sinto a falta desse frio
longínquo tempo, o teu olhar terno
mas distante, como o limite onde
esbarrávamos sem querer.
A nossa casa tinha um quintal
com flores e uma rara combinação
para amar. Em que nos transformamos?
Quem é este nós afinal? Consigo odiar-te
enquanto te amo, consigo embalar
o desengano de um sono que tarda,
segurar as mãos contra o rosto,
verter-me dentro do vazio em que fomos.
Não te vou mentir,
com flores e uma rara combinação
para amar. Em que nos transformamos?
Quem é este nós afinal? Consigo odiar-te
enquanto te amo, consigo embalar
o desengano de um sono que tarda,
segurar as mãos contra o rosto,
verter-me dentro do vazio em que fomos.
Não te vou mentir,
quero sair do poema agora,
não sou mais eu quem te fala,
sou a voz crua da distância
que nos desprendeu.
Sou um beijo de morte
que me afaga manhã cedo,
o rosto mais triste e frio
da tua insónia.
Miguel Pires Cabral
Miguel Pires Cabral
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