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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

O suplício da contagem do Tempo...


A trabalheira que não deu agarrar o tempo, para o medir! E, mesmo assim, as contas ainda não batem certo. Para acertar a medida do sapato ao tamanho do pé, este ano até vai perder um segundo. Isto, porque não há coincidência, ao nível do micro-segundo, entre o número de segundos, contido no nosso calendário de 365 dias e o tempo real que a Terra demora a dar uma volta completa em torno do Sol.
A existência do ano bissexto, em que Fevereiro aparece no calendário com 29 dias, de quatro em quatro anos, tem a mesma finalidade: a de sincronizar o tempo marcado no calendário com o tempo real de uma translação completa do nosso planeta, à volta do astro-rei. Isto, para que a bota dê com a perdigota ou para que o sapato corresponda à medida do pé. Matematicamente complicado? Muito! Mas a Matemática tem uma capacidade infinita igual à do universo e tanto funciona aqui, na Terra, como funciona em Marte.
Paremos aqui, para pensar no Universo: no seu movimento, na sua origem, na sua existência, na sua grandeza, e, aqui, volte a parar e não canse mais o cérebro, porque não vai lá. É humanamente impossível pensar o que é a grandeza do universo. Há quem fique maravilhado, mas também há quem fique doido. Eu pertenço ao segundo grupo. Mas não desanime se está integrado(a) no meu grupo, pois começa a haver esperança de cura. Os físicos e os astrónomos trabalham nesse sentido, varrendo os céus com os seus potentes telescópios, num afã desesperado para tocar na unha, do dedo polegar da mão direita de Deus, ou da mão esquerda, admitindo que Ele possa ser canhoto. E eu farto-me de pedir a Deus para que Deus seja canhoto, o que é um absurdo, tal como é absurdo pensarmos nisto tudo e acabarmos por ficar a olhar para o vazio. Um vazio horrível, que também assustou os humanoides, quando começaram a articular as primitivas formas de pensamento lógico e abstrato, o que os levou logo a inventar a figura de Deus, que, na altura, eles figuravam, provavelmente, apenas como uma nebulosa difusa e translúcida. Assim, ficaram mais calmos, sempre que ouviam os trovões ou sentiam, de tempos a tempos, a terra a tremer, debaixo dos pés. Felizmente, para nossa sorte, com o correr lento do próprio tempo da evolução da espécie, também inventaram o fogo, a roda, e toda uma série de úteis invenções, até chegarmos aqui, a este texto, e a outros milhares de textos da mesma natureza, para nos interrogarmos, olhando, de forma abrangente, para o nosso longínquo passado e hesitando em olhar para o futuro. Como será? Ainda não ouvi ninguém responder, porque a pergunta também é absurda. Tal como absurda será uma qualquer hipotética resposta.

Alexandre de Castro

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Crónica dos dias contados [a propósito das homenagens a Humberto Delgado]



Crónica dos dias contados
[a propósito das homenagens a Humberto Delgado]

Eu tinha apenas catorze anos de idade, quando vi pela primeira vez o General Sem Medo. Foi em Lamego, cidade por onde passou, a caminho de Viseu, onde se realizou um comício da sua candidatura à Presidência da República. Juntamente, com outra malta do liceu, fui assistir à sua chegada, ao Largo dos Combatentes da Primeira Guerra Mundial, onde colocou um ramo de flores na base do imponente monumento ao Soldado Desconhecido. Já não me lembro bem se ele apareceu fardado e se teve direito a uma Guarda de Honra, formada por militares do Regimento de Infantaria Nº 9, aquartelado na cidade. Lembro-me sim, da presença de uma delegação oficial daquela instituição militar, composta pelo comandante da unidade e por mais alguns oficiais de elevada patente, que envergavam o uniforme nº1, sinal da importância do ato, no cânone militar. Tratava-se de um general…
Percebeu-se o embaraço do comandante do regimento, quando, depois da continência devida e de um cumprimento de mão, conversou brevemente com Humberto Delgado. A medo, alguns populares bateram palmas. O Medo!... É verdade, o medo!.. Medo de ser preso, medo de perder o emprego, caso se tratasse de funcionários do Estado. E foi esse mesmo justificado medo que levou algumas pessoas a não se exporem naquela receção, entre elas alguns notáveis da cidade, republicanos oposicionistas de longa data e oposicionistas recentes, que perceberam ser Delgado o homem certo para enfrentar a soberba do sinistro Salazar, perceção esta que se formou, a partir do momento em que o general, em resposta a uma pergunta de um jornalista, na conferência de imprensa de apresentação da sua candidatura, no café Gelo, em Lisboa, lançou para o ar aquela frase assassina, em relação ao ditador. “Obviamente, demito-o”.
Foi a primeira vez que Salazar caiu da cadeira, pois aquela frase era uma afronta, que ele sentiu para além do mundo cinzento da política. Foi o seu orgulho, que ficou ferido de morte. De tal forma, que se vingou ferozmente, dando ordem à PIDE para assassinar o general.
Aquele grupo de oposicionistas, para fugir à vigilância dos esbirros, deslocou-se de automóvel, pela estrada que liga Lamego a Viseu, para um sítio previamente combinado, antes de se chegar a Castro D’ Aire, e tendo aí esperado o General Sem Medo, para o abraçar e lhe manifestar o seu indefectível apoio. Num desses abraços, é apanhado o Dr. Abrantes de Cunha, reitor do liceu e meu professor de Português, professor que eu admirei muito, pois foi pela sua ação pedagógica e didática, que eu aprendi a Gramática e os fundamentos da Literatura Portuguesa. Mais tarde vim a reencontrá-lo no Casino Estoril.
A fotografia daquele fatídico abraço ao general Humberto Delgado, tirada por um fotógrafo profissional da cidade, que a expôs, juntamente com outras, na montra da sua loja, eriçou imediatamente os esbirros, que rapidamente a retiraram, tendo-a guardado como prova do delito. Passados poucos dias, o Dr Abrantes da Cunha era irradiado. Foi demitido das funções de reitor e foi transferido para o liceu da Covilhã.
Este episódio foi o acontecimento mais doloroso, que eu relatei no meu romance, “O Bando do Liceu”, um romance que me deu um grande prazer em o escrever.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Foi há 100 anos que aconteceu "Natal", na guerra...


Foi há 100 anos!... Foi há 100 anos, no primeiro Natal da Primeira Grande Guerra, que o instinto do Homem se elevou ao patamar da fraternidade, ultrapassando a animosidade gerada por um violento conflito armado, que ensanguentou e destruiu o miolo da Europa, causando uma mortandade inimaginável. Saindo das trincheiras, onde viviam miseravelmente como toupeiras, os soldados alemães, ingleses e francesas, ressuscitando o espírito do Natal, vivido nas suas vidas e nos locais das suas origens, resolveram todos confraternizar na terra de ninguém, abraçando-se, trocando entre si presentes e comida e, esquecendo o violento estrondo dos canhões e o matraquear cadenciado das metralhadoras, começaram a cantar as melodias emocionantes do Natal. Para "matar" o frio e fazer esquecer o tempo, jogaram entre si renhidas partidas de futebol. Os generais de ambos os lados ficaram furiosos com aquela subversão "sentimental", expressa na impensável e surpreendente confraternização entre soldados que pertenciam a exércitos inimigos, ao ponto de, nos anos seguintes, a proibirem terminantemente.
Naquele inverno de 1914, na quadra natalícia que aproxima e emociona parte da Humanidade, o coração falou mais alto do que as balas das espingardas.
Alexandre de Castro

domingo, 12 de outubro de 2014

Nuno Crato e Paula Teixeira da Cruz: dois novos autores que vão brilhar no panorama literário português



Um novo mundo nasce no campo da ficção literária - o mundo Kafka-Cratiano. Nesta novela sobre a colocação dos professores, o absurdo da existência revela-se em círculos concêntricos de contradições irredutíveis. Nuno, o Crato, consegue adensar o pesadelo, vivido pelas suas múltiplas personagens, utilizando na narrativa, com genial mestria, os ingredientes dos distúrbios  provocados por uma plataforma informática, em que se introduziu uma fórmula matemática errada. O leitor, ao deixar-se envolver pelo ambiente opressivo da trama novelística, fica suspenso, com a curiosidade aguçada, sempre à espera do momento fatal, em que venha a ocorrer o suicídio coletivo das personagens. Mas Crato, que leu certamente os clássicos, e mais precisamente Homero, não se esqueceu, talvez inspirado nas aventuras de Ulisses, de introduzir no texto uma marca épica de heroísmo e de abnegação, ao criar aquela torturada personagem, um professor, que tem de percorrer semanalmente o país de lés a lés para dar aulas em 75 escolas diferentes. 
Também Paula Teixeira da Cruz se inspirou no livro mais célebre de Kafka, "O Processo", para escrever a sua novela "A anarquia da Justiça", embora não tivesse conseguido, ao contrário de Crato, construir aquele ambiente opressivo e denso, que tritura as consciências. E isto, porque a autora escolheu para personagens os papéis amarelecidos dos processos judiciais,  em vez de pessoas, ao mesmo tempo que,  e aqui, agora ao contrário de Kafka, colocou os juízes e os oficiais de justiça no papel dos "bonzinhos da fita". Em "A Anarquia da Justiça", o leitor não vê as vítimas. Apenas as pode imaginar no seu sofrimento. O que o leitor vê, e bem, através da enorme capacidade narrativa da autora, é a dança onírica e errática dos processos judiciais, que voam sem rumo e numa rebeldia constante, de um lado para o outro, na atmosfera etérea e caprichosa das nuvens internáuticas. Sem qualquer destino, porque subverteram as indicações da ordem de marcha, que lhes tinha sido dada, e apenas entregues aos desígnios secretos das aleatórias leis do caos, aqueles processos eletrónicos acabarem por aterrar nos sítios mais insólitos, como, por exemplo, nas sanitas destinadas ao uso exclusivo dos magistrados judiciais.  
Crato e Teixeira da Cruz vieram dar um novo alento à nova literatura portuguesa, quer pela originalidade temática e do processo narrativo, quer pela aprimorada inovação estilística. E isto, num momento em que rareiam escritores de exceção.
AC 

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Crónica: Provocação a um benfiquista e o exótico discurso sexual dos patos bravos


Caro Bruno:
Agora não vou falar-lhe do Benfica, para não o atormentar mais. Já basta o que basta.
Hoje, quero felicitá-lo por ter escolhido, para um dos momentos do seu lazer, o maravilhoso parque da Quinta das Conchas e da Quinta dos Lilases, ao Lumiar. É um local paradisíaco. Ali, na parte mais elevada, revestida por uma abundante vegetação selvagem, ainda se podem ver algumas pequenas aves que escolheram aquele espaço para nidificação, o que é um autêntico milagre numa cidade, onde impera a ditadura do cimento e do automóvel. Lembro-me de ter feito algumas reportagens para o nosso saudoso jornal, na altura em que aquele espaço verde esteve ameaçado pela gula dos patos bravos, que andaram a construir, a norte, a urbanização da Alta de Lisboa. Ainda conseguiram destruir o muro da cerca original, para derrubar algumas árvores centenárias e proceder ao esbulho de uma franja de terreno, pertencente ao parque, um crime que ficou impune.
Esses patos bravos e esses promotores imobiliários também tentaram abrir uma rua, para fazer a ligação directa da urbanização à avenida das Linhas de Torres, intento que foi travado, devido à corajosa luta da comissão de  moradores do Lumiar. Evitou-se assim o esquartejamento das duas quintas e, consequentemente, a destruição daquele espaço verde, pois, a partir dali, ficaria aberto o caminho para as árvores serem substituídas pelo tijolo e pelo cimento.
Estes patos bravos são assim. Não podem ver na cidade uma nesga de terreno, que não pensem logo em construir condomínios. Há quem diga até que os patos bravos têm potentes orgasmos quando olham para um arranha-céus, coisa que não lhes acontece quando fodem com as suas mulheres, o que os leva, em desespero de causa, a procurarem as putas nos bares de alterne da Duque de Loulé e da Luciano Cordeiro, o único sítio onde podem fazer crer que a sua potência sexual é equivalente à da potência dos motores dos seus automóveis topo de gama, invariavelmente da marca Mercedes e Audi, e que ficam caoticamente estacionados nos passeios daquelas artérias, numa manifestação pirosa de ostentação.
Só naqueles espaços obscuros da noite de Lisboa é que conseguem satisfazer as suas bizarras fantasias, e não só as de âmbito sexual, constando até, por aí, que, a mais bizarra, é aquela em que um famoso empreiteiro exige das meninas, a troco de uma nota de cem euros por cabeça, que o considerem presidente do glorioso, encenação esta que apenas ocorre, já perto da madrugada, quando ele já está encharcado em whisky.
Um abraço

Alexandre de Castro

Lisboa, Setembro de 2011

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Crónica: Um pesadelo para esquecer


Transcrição de um comentário que deixei numa página da internt, onde me tenho envolvido em acesas discussões políticas: 


Eu, ontem à noite, proporcionei aos leitores deste grupo, a leitura deste poema, para que tivessem bons sonhos. Mas, afinal, quem teve um sonho mau, fui eu. Foi um daqueles pesadelos, que nos sacodem o sono e nos deixam patéticos, ao acordar, enquanto, lentamente, tateamos a claridade da realidade. Tinha sonhado, e isto não é ficção, que o PS de Seguro e o PSD de Passos, depois de despedirem Paulo Portas, por o considerarem um empecilho, tinham chegado a um acordo patriótico para salvar a Pátria. A fim de evitarem as eleições prometidas por Cavaco, em Junho de 2014, que só vinham a atrapalhar os contornos da negociata, resolveram dividir o poder, não através de uma coligação, mas através da divisão do seu exercício, numa escala temporal. O PSD governava até Junho de 2014 e o PS, de 2014 até 2015, até ao final da legislatura, comprometendo-se os dois partidos a fazer o necessário para reduzir o défice orçamental até ao limite imposto pela troika. No comunicado em que anunciavam triunfalmente o estabelecimento deste acordo patriótico, também diziam que "os sacrifícios seriam suportados por todos os portugueses, sem excepção, custe o que custar e doa a quem doer" (lembro-me que, nesta passagem do desenrolar do sonho, desatei a rir às gargalhadas), e acrescentavam a seguir que em 2016 a economia começaria a crescer a um ritmo vertiginoso (aqui, quase que me urinava a rir, o que teria acontecido se, entretanto, não tivesse acordado). Respirei de alívio, quando, na consulta imediata às notícias da net, constatei que o sonho não correspondia à realidade. Mas se, por uma qualquer maldição, isto vier a confirmar-se, pedirei a todos os santinhos do céu que me façam sonhar com a chave do próximo euromilhões.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Crónica: A guerra não é entre os povos, que não a desejam, mas sim entre os poderosos, que a decretam...

Soldados alemães e briânicos saíram das trincheiras para confraternizar
e jogar futebol, em Dezembro de 1914, celebrando assim o Natal.
Trégua de Natal
É o termo usado para descrever o armistício informal ocorrido ao longo da Frente Ocidental no Natal de 1914, durante a Primeira Guerra Mundial. Durante a semana que antecedeu o Natal, soldados alemães e britânicos entoaram canções e trocaram saudações festivas entre suas trincheiras; na ocasião, a tensão foi reduzida ao ponto dos soldados de ambos os lados trocarem presentes entre si. Na véspera de Natal e no Dia de Natal, aqueles soldados - bem como soldados de unidades francesas, ainda que em menor número - aventuraram-se na "terra de ninguém", onde se encontraram, trocaram alimentos e presentes, e entoaram cantos natalícios ao longo de diversos encontros. As tropas de ambos os lados também foram amigáveis o suficiente para jogarem partidas de futebol.
A trégua é vista como um momento simbólico de paz e de humanidade no meio de um dos eventos mais violentos da história moderna, mas não foi universal: em algumas frentes de combate, a luta continuou durante todo o dia, enquanto em outras foi feito apenas o trabalho de recolher os corpos. No ano seguinte, algumas unidades estavam dispostas ao cessar-fogo durante o Natal, mas a trégua não foi tão divulgada como em 1914, devido em parte às ordens dos altos comandos de ambos os lados que proibiram tal confraternização. Em 1916, após as sangrentas batalhas de Somme e Verdun e com o início do uso generalizado de gás venenoso, os soldados de ambos os lados cada vez menos enxergavam seus adversários como humanos, e a trégua de Natal não voltou a ser realizada.
A história foi contada no filme "Joyeux Noël - Feliz Natal" de 2005.
Texto e imagem da página do Facebook de Imagens Históricas
Amabilidade de Mari Trindade, que o sugeriu e indicou.

***«»***
Na Guerra, tal como nas grandes catástrofes, surgem sempre os heróis, a maioria anónimos, que se destacam pela manifestação dos elevados sentimentos da fraternidade, da solidariedade e da humanidade. O caso aqui relatado demonstra bem que a guerra não é entre os povos, que não a desejam, mas sim entre os poderosos, que a decretam. Os jovens soldados alemães, britânicos e franceses, na arriscada confraternazição natalícia a que se entregaram na época do Natal de 1914 (o primeiro ano da Primeira Grande Guerra Mundial) manifestaram os sentimentos dos seus respetivos povos.
Ao ler este texto, recordei-me imediatamente de José Maria Batista, entretanto falecido, que entrevistei para o jornal A Capital, em Outubro de 2001, na sua residência, em Campo de Ourique, Lisboa, com o objetivo de recolher o depoimento do último soldado vivo do Corpo Expedicionário Português da Primeira Grande Guerra Mundial, e que um ano depois me inspirou a nota, que no mesmo jornal escrevi, a propósito de mais um aniversário do armistício, e que em baixo transcrevo. A história que José Maria Batista me contou é emocionante. O soldado alemão ainda manteve a sua arma apontada para o matar, mas, no último momento, num ato de grande generosidade e humanidade, desistiu do seu intento, talvez porque tivesse pensado que estava na presença de um homem igual a ele....

* *
Crónica em A Capital

"José Maria Batista é o último sobrevivente da Grande Guerra 1914-18, tendo participado na célebre batalha de La Lyz, em 9 de Abril de 1917, onde foi feito prisioneiro pelas tropas alemãs, naquela altura ainda confiantes na vitória final.
Numa entrevista a A Capital, em 31 de Outubro de 2001, José Maria Batista descreveu com emoção o momento em que, ferido com um estilhaço de uma granada e sem se poder mexer, um soldado alemão o desarmou e lhe apontou a sua arma para o matar, para depois, num gesto de grande humanidade para com o prisioneiro de guerra e elevando-se acima da barbárie da guerra, compartilhar com ele a água do seu cantil e dividir os seus últimos dois cigarros, que restavam. E foi nesse momento, em que perdeu a liberdade e compreendeu o que eram os sentimentos de humanidade e de fraternidade, que José Maria Batista, segundo disse, "tomou consciência  daquela guerra e daquele inferno", que assombrou o mundo e endoideceu Deus.
Depois do cativeiro, da libertação, e do armistício, que se comemorou ontem, José Maria Batista regressou a Portugal e voltou a abraçar a vida de ferroviário, a sua paixão de sempre.
Pelo caminho, o reconhecimento recente. Em 1998, pelas mãos do embaixador de França em Portugal, foi condecorado com o grau de Cavaleiro da Legião de Honra, condecoração essa que exibe com orgulho".
Alexandre de Castro
Jornal A Capital
11 de Novembro de 2002

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Portugal na década de 1960

***
A Lisboa, que aparece neste filme, é a Lisboa que eu comecei a habitar, há mais de quatro décadas, e da qual nunca mais me separei. Confesso que aprendi a gostar muito dela, embora por vezes lhe rogasse pragas (e ainda rogo) do tamanho de um terramoto. Também, nem sempre lhe fui fiel. Gostei de outras cidades. Mas Lisboa tem um travo especial, um perfume que nos enfeitiça os olhos. Talvez seja o espelho prateado do grande estuário, que lhe reflecte uma luminosidade única.
Na altura, o Rossio era o verdadeiro centro da urbe, o sítio da peregrinação diária ao café Martinho. Era o café da malta nova. Era o café, onde se ia, quando queríamos encontrar um amigo, e que acabávamos sempre por o descobrir por ali. Nas noites de Verão, o Rossio parecia uma romaria, tanta era a gente que ali se cruzava, a saborear a brisa que chegava do rio, a beber uma cerveja no café Gelo ou um verde branco na Tendinha. E as miúdas, santo deus, que começaram a ter ordem de soltura até às dez da noite, a exibirem o princípio de uma liberdade, que nunca mais chegava, e que se vestiam como se fossem para um baile. Sempre em grupo - pois uma mulher sozinha, por ali, àquela hora da noite, não era consentido pela rigidez da moral burguesa da época - passeavam lentamente pelos largos passeios, de braço dado, cochichavam e riam, miravam-se nas montras para verem se o penteado, curto e abaulado, característico dos anos sessenta, continuava armado.
Era a Lisboa da minha memória, da qual já me despedi, e que, agora, com alguma emoção, revi neste filme, que me chegou às mãos, através do meu amigo João Fráguas. A Lisboa de hoje é outra, mais cosmopolita, menos provinciana, e, talvez, menos solidária.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Coisas que eu escrevi: A vida desalmada de Jorge Burriços


Jorge Burriços, olhos vidrados pelo efeito dos dois bagaços bebidos, logo de manhã, no café da praça, aguarda pacientemente o seu lugar na longa fila de espera para marcar uma consulta encomendada no centro de saúde de Sacavém. Ocupa o meio de fila, o que indicia ter chegado por volta das seis horas da manhã, e aguarda pacientemente que um diligente funcionário franqueie a porta às mais de oitenta pessoas que ordenadamente marcam a sua posição de chegada através de uma senha de presença.
Mas, Jorge Burriços, mal alcança a almejada senha, esgueira-se pela porta e vai direitinho entregá-la a casa do cliente que lhe encomendou aquele serviço. Cobra cinco euros pelo incómodo da chuva, do vento, do frio e do tempo de espera. Desta vez até tirou duas senhas, recorrendo a um hábil estratagema, e este serviço vai render-lhe 10 euros para gastar no festival de álcool a que se entrega diariamente. “Apanho duas bebedeiras por dia”, afirmou convicto, assumindo a sua relação viciada com o álcool, embora por vezes o dissimule num pacote de leite.
Foi por causa do álcool que desfez o seu casamento, engendrado pela tia que o criou, e “que o queria ver arrumado e com juízo antes de morrer”. No meio de mais uma embriaguez que lhe atiçou a coragem, disse à mulher, num rompante, para se ir embora com o filho e a filha, pois a vida para ele “resumia-se ao álcool e às putas”. Deu-lhe dinheiro suficiente para comprar um andar, acordou uma pensão, e, Jorge Burrico, ficou com a vida livre para se entregar à boémia, na qual esbanjou perdulariamente a choruda herança de seu pai, que esteve cativa nas mãos da sua tia-tutora até à sua maioridade. Sucessivamente, à medida que o vício progredia e requeria mais requinte, aumentava a voragem da delapidação dos bens herdados. E nessa vertigem, desfez-se do estabelecimento do pai, onde se teceu parte da fortuna, e de cinco andares de habitação. “Só não vendo um andar”, afirma, lançando um desafio à curiosidade do interlocutor, através daquele olhar vesgo. E responde, mal reprimindo o gozo de lhe adivinharem uma réstia de submissão aos princípios da boa gestão de bens patrimoniais: “Só não vendo o andar das minhas pernas”.
E é entre mais dois golos de bagaço, “para aquecer, que a manhã está fria”, que confessa o estratagema do negócio das senhas de marcação de consultas médicas no centro de saúde, negócio este que não iguala em subtileza a venda da sua carta de condução e do seu bilhete de identidade a um cigano, que queria ser cidadão encartado, ou a plena assumpção do papel de testemunha perante o Registo Civil de um casamento de conveniência, para efeitos de aquisição de nacionalidade, entre um indiano e uma portuguesa.
E se lhe apontam o comportamento incorrecto dos seus estratagemas, incluindo o da marcação de consultas no centro de saúde ou a venda aos restaurantes de embalagens de leite e de carne, à beira da expiração do respectivo prazo de validade, recolhidas nos contentores de um grande hipermercado de Sacavém, responde serenamente que ao longo da sua vida também já teve muitos actos de generosidade para com o seu semelhante. E no meio dos vapores de mais outro bagaço, este emborcado num travo, recorda a oferta de 100 contos, há mais de 20 anos, a uma prostituta do Intendente, que lhe confessara no meio do fogo dos amores comprados, “ter-se metido na vida” para amealhar algum dinheiro “para uma operação aos olhos do filho, em Espanha”.
E quando Jorge Burriços se atrevia a descrever a saga de uma louca paixão por uma linda cigana, com quem fugiu, e a consequente perseguição, com intuitos vingativos, que lhe foi movida pelos familiares desonrados, que não admitiam casamentos fora do clã, a voz da dona do café avisou: “Jorge, amanhã vais marcar-me uma consulta ao centro”.
Com o negócio selado para o dia seguinte, Jorge Burriços, atravessou a praça com destino ao mercado, onde os seus amigos ciganos lhe garantem “alguns biscates”.
***
Este texto, publicado no jornal A Capital, em 25 de Janeiro de 2003, constituiu um nota à margem de uma reportagem no centro de saúde de Sacavém, onde procurei retratar, tal como fiz nos centros de saúde de Sintra e de Paço d'Arcos, o emergente problema da falta de médicos de família nas zonas limítrofes de Lisboa, o que obrigava os utentes a marcar posição muito cedo para se inscreverem na consulta do médico de turno. Testemunhei o sofrimento de idosos doentes à espera da sua vez, numa fila interminável, sofrendo resignadamente na pele as inclemências da invernia, que era o preço que tinham de pagar para usufruirem de um direito que a Constituição da República lhes outorgou. Fui o primeiro jornalista a levantar o assunto na comunicação social, mas as minhas reportagens não comoveram os poderes instituídos. Hoje, em 2011, a falta de médicos de família constitui a maior entorse do funcionamento do Serviço Nacional de Saúde.

domingo, 15 de novembro de 2009

Réplica da crónica dos bons malandros...



Quando os investigadores do processo Face Oculta se aperceberam que, naquela alegre cavaqueira telefónica, o interlocutor de Armando Vara era, nem mais nem menos, o primeiro ministro de Portugal, José Sócrates, não poderiam ter dito, estamos fodidos, é o primeiro ministro, nem sequer poderiam ter interrompido a escuta legal, que estavam fazendo, tal como gostaria o zeloso presidente do Supremo Tribunal da Justiça, e de imediato meter-se na conversa para dizerem, esperem aí seus cabrões, que vamos pedir autorização superior para poder escutar o primeiro ministro, opção esta que lhes pareceu ser a mais correcta, o que os levou, logo de seguida, a procurar o procurador responsável do inquérito, a quem contaram, alarmados ou a espumar de contentamento, não se sabe, o inesperado incidente, insólito como os demais, envolvendo a criatura, já que nunca se tinha visto um primeiro ministro, em perfeito juízo, a prometer favores a um amigo de longa data, mas que, agora, apesar da sua promoção meteórica a vice-presidente do maior banco privado português, depois de ter sido um humilde caixa de balcão do maior banco do país, anda metido em negócios escuros com um célebre sucateiro, que parece estar a corromper quem, no Partido Socialista, se atravesse com sentido de oportunidade no seu caminho e lhe possa facilitar os interesses e a progressão dos seus negócios. O procurador titular e o juiz de instrução, logo ali, depois de também eles terem ouvido o que os inspectores ouviram, mergulharam a fundo no emaranhado código do processo penal, um código de má fama, já que, segundo as más línguas, teria sido feito à medida das necessidades do processo Casa Pia, não fosse dar-se o caso de vir a ser provada inequivocamente a culpa de algum alto dirigente daquele partido dos trabalhadores, perante a brutal acusação de andar a apalpar cus a meninos e a dedicar-se ociosamente à prática da sodomia e do fellatio, e depois do tal mergulho dos magistrados, como se disse anteriormente, a virar e a revirar as folhas do calhamaço, andando da frente para trás e de trás para frente, clamaram triunfantes, o que sossegou os inspectores judiciais, vamos fodê-lo, e, num frenesim, desataram a extrair certidões do processo, destinado à abertura de um outro inquérito autónomo, que enviaram para o chefe máximo da investigação, que é, como se sabe, o Procurador Geral da República, cargo este que, segundo opinou um distinto advogado da nossa praça, e agora bastonário da respectiva corporação representativa, tem tanto poder como tem a raínha de Inglaterra, o que é uma forma eufemística de dizer que não tem poder nenhum, já que o verdadeiro poder da cega justiça se encontra no presidente do Supremo, esse sim, verdadeiro imperador da lei, com poderes excepcionais, até para mandar escutar os detentores dos três mais importantes cargos do Estado, a saber, presidente da República, presidente da Assembleia da República e o primeiro ministro. E o dito presidente, nunca perdendo a pose majestática quando comunica com os portugueses, através de um comunicado, passe o pleonasmo, mas que não consegue fazer um discurso verbal escorreito, quando interpelado pelos jornalistas, ao ponto de já ter entrado no anedotário nacional, aquela sua famosa frase, temos de pensar se não teremos de repensar a investigação judicial, frase esta que diz muito sobre a idiossincrasia do sujeito, disse que não estava para ali virado e num acto a condizer, com o seu estatuto de César, mandou destruir as gravações de todas aquelas escutas telefónicas, sem se dar conta, de tanto pensar e repensar na melhor maneira de foder os magistrados do Ministério Público, por quem ele cultiva um ódio mais maligno e mortal do que o ódio que Sócrates vota aos jornalistas, que estava a mandar destruir provas importantes, respeitantes a um sujeito, já constituído como arguido no processo, e que estava legalmente a ser escutado, o que prova que o dito presidente, tal como Deus, vê o Direito por linhas tortas, preocupando-se mais pelo cumprimento dos formalismos, que a leitura linear dos códigos proporciona, do que pela procura da verdade dos factos, que é a mais nobre missão da Justiça.
Alexandre de Castro

terça-feira, 30 de junho de 2009

Crónica: Três caricaturas numa nota só...

Plano Tecnológico


Há frases que vale pena reter

Há frases que vale pena reter, tal é a força carreada pela sua expressividade e clareza e pelo seu significado profundo. Esta, a que vou referir, pertence ao presidente da Junta de Freguesia de Castanheira do Vouga, uma freguesia perdida, do concelho de Águeda, encostada ao sopé da serra do Caramulo, e que se celebrizou recentemente, por ter sido ali que ocorreu o único boicote à realização da votação para o Parlamento Europeu, em protesto pela extrema dificuldade de acesso à banda larga da internet. Disse Vítor Silva, depois de denunciar as sucessivas declarações do primeiro-ministro, a garantir aos portugueses o acesso universal à banda larga: “Só para pagar impostos é que somos todos iguais”.
A Portugal Telecom não saiu bem na fotografia, pois foi acusada de se submeter apenas à lógica do lucro, já que o retorno do investimento a realizar, para ligar o sinal naquela zona, dificilmente estaria garantido pelos poucos utentes existentes, entre os 750 habitantes que ali residem, Só que, esses utentes são os jovens das escolas, a quem a distribuição do Magalhães pouco veio a acrescentar, no sentido de tirarem pleno partido da utilização da internet.
E Sócrates, hábil na sua manobra de fazer das fraquezas forças, exultou quando soube do motivo deste protesto, reconvertendo-o numa prova inquestionável do êxito e da aceitação do seu Plano Tecnológico. Chegou mesmo a afirmar que aquele boicote, pelos motivos invocados, teria sido a única boa notícia recebida na noite das eleições.
No dia seguinte, sabe-se lá por que razões, já a administração da PT estava a ligar ao presidente da junta, a quem até ali tinha olimpicamente desprezado e ignorado, a comprometer-se com a resolução do problema e o restabelecimento da plena normalidade, no prazo de 90 dias. Fazendo as contas, a banda larga vai chegar mesmo em cima das eleições legislativas. Sempre são, em tempos de vacas magras, mais uns 630 votinhos.
Para melhor garantir o sucesso, quer do Plano Tecnológico, quer do Magalhães, quer da captação daqueles votos, o próprio ministro das Obras Públicas, Mário Lino, telefonou, uma semana depois, ao presidente da junta, que nunca na sua vida se tinha sentido tão importante, a perguntar-lhe “se a PT já se tinha posto em campo” e, ao mesmo tempo, a lamentar o facto de o seu interlocutor não o ter contactado há mais tempo, para que aquela anomalia fosse rapidamente superada, recado este que nos leva a avisar todos os presidentes de junta, para que, imediatamente, comecem a telefonar ao ministro, a pedir a estrada, o fontanário, a escola, mais tudo aquilo que entendam necessário para o bem das suas populações, pois o ministro, pelo menos até Outubro, está disposto a dar tudo. É só aproveitar. No entanto, não deverão pedir mais empregos, pois o primeiro-ministro já prometeu tantos, que não sei se haverá portugueses que cheguem para os preencher.
Às caricaturas da PT, de Sócrates e de Mário Lino, as três anunciadas em título, juntemos-lhe uma outra, para o ramalhete ficar mais bonito. Segundo noticiou o PÚBLICO, nos 31 quilómetros quadrados, por onde se dispersa o território da freguesia de Castanheira do Vouga, “não há um metro de saneamento instalado”.
Vivó a internet!... Vivó Magalhães!… Vivó o Plano Tecnológico!... Vivó o PS!… Vivó o PSD!... (que é o partido a que pertence o presidente da Junta de Freguesia de Castanheira do Vouga)… Abaixo o saneamento básico…