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sábado, 1 de janeiro de 2011

Um Poema ao Acaso: RÉVEILLON de Fernando Pinto do Amaral

RÉVEILLON

Cada ano que passa te apetece
voltar atrás, fingir que ainda conheces
esse músculo exausto mas sempre literário
a que outros como tu insistem em chamar
o coração.

Quando bebes a taça de champagne
ou mastigas sem muita convicção
as doze passas tão protocolares,
é esse o teu desejo: que o próximo ano
te ensine a escutar outra vez,
pra lá das gargalhadas ou dos bip-bips
das mensagens que chegam via telemóvel,
o som das doze badaladas
desse relógio agora quase morto
mas ainda dentro do teu peito.

Cada ano que passa digeres
doze passas iguais às da infância
como se os anos não passassem
e o coração obedecesse ainda
aos primeiros desejos - mas repara
que é apenas um músculo e está cansado:
sístoles e diástoles hão-de repetir-se
talvez por mais uns anos
atravessando réveillons como este
até não haver nada para desejares.

Fernando Pinto do Amaral,
"Pena Suspensa"

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Um Poema ao Acaso: Cardiologia - Fernando Pinto do Amaral

Nadir Afonso

Cardiologia

Talvez na sua vida o maior estímulo
fosse a curiosidade.

Era o motor de tudo: aproximava-se
de todas as mulheres que conhecia,
mas só lhe interessavam os seus corações.

Cultivava com método essa obsessão
e tal como as crianças costumam fazer
aos brinquedos preferidos,
também ele queria vê-los por dentro,
saber ao certo como funcionavam,
desfibrar lentamente cada esperança,
dissecar com um rigor quase científico
cada angústia ou desejo inconfessável
até saborear o gosto sempre novo
de cada uma dessas células.

Após cada experiência, observava
aqueles corações já desmontados
e, por não conseguir juntar as peças,
guardava-as uma a uma no seu peito.
Era um lugar seguro
e com tantos pedaços de outras vidas
na sua pulsação descompassada
podia enfim acreditar
que tinha também ele um coração.

Fernando Pinto do Amaral
Poemas Escolhidos (1990-2007)