Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Textos humorísticos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Textos humorísticos. Mostrar todas as mensagens

sábado, 26 de setembro de 2015

PLANO DE ACÇÃO PARA SÓCRATES IR VOTAR...


PLANO DE ACÇÃO PARA SÓCRATES IR VOTAR...

É o problema do costume. Obcecados com os códigos e com as normas jurídicas, os polícias e os juízes demonstram uma flagrante falta de imaginação, perante o improviso [Ver aqui]. O meu esquema, para esta situação, a de Sócrates pretender ir votar para as eleições da Assembleia da República, é muito simples e não transgride a lei eleitoral, que proíbe a presença de força armada num raio de 100 metros, em redor do local onde funciona a assembleia eleitoral, excepto se o respectivo presidente da Mesa a convocar, em face da ocorrência de graves distúrbios. Ora, na minha ideia (eu não sou idiota, atenção!), é isso mesmo que eu proponho.
Combinado previamente com a polícia, o presidente da Mesa organiza uma grande zaragata com uns tipos recrutados no bairro da Cova da Moura, pagos para o efeito com verbas da campanha do PàF (onde será fácil, depois, inventar uma rubrica contabilística para justificar a saída do dinheiro, num processo muito parecido com o do défice virtual do OE 2014, devido ao dinheiro do Estado enfiado no Fundo de Resolução, por causa do Novo Banco). Perante isto, o presidente da Mesa telefona para a polícia, que já se encontra escondida nas imediações, num carro não descaracterizado e com o Sócrates preso e com um saco de serapilheira enfiado na cabeça. Saem do carro e levam o Sócrates, que, naturalmente, ninguém poderá reconhecer, até à assembleia de voto, onde ele, já sem o saco na cabeça, exercerá o seu direito de voto. Neste momento, já os meliantes da Cova da Moura deram à sola para uma determinada rua das redondezas, com muito pouco movimento, onde ficam à espera que alguém lhes vá pagar o dinheirinho combinado, pelo frete.
Depois de Sócrates votar, ele é rapidamente algemado (e um polícia simula uma ferida na testa com tinta vermelha, ao mesmo tempo que oculta o saco de serapilheira num saco de plástico, podendo mesmo ser um saco de plástico do Pingo Doce) e arrastam-no, assim algemado, para o carro da polícia, sob a acusação de que foi ele o responsável pelos distúrbios na assembleia de voto. Entretanto, à chegada da rua onde ficou estacionado o carro da polícia, já se encontram as câmaras da televisões, avisadas sigilosamente por um funcionário judicial anónimo, às ordens do juiz Carlos Alexandre e do procurador Rosário Teixeira.
Se este projecto se concretizar (já enviei a proposta para a Direcção Geral da PSP), vou ter um ataque de riso, quando o advogado de Sócrates, João Araújo, aparecer no telejornal, com aquele ar zangado, a esbracejar e a empurrar as chatas das jornalistas, que lhe irão perguntar, certamente, se o saco era mesmo de serapilheira e se irá fazer mais algum recurso…

quarta-feira, 14 de março de 2012

Foda-se - por Millôr Fernandes


O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de "foda-se!" que ela diz. Existe algo mais libertário do que o conceito do "foda-se!"?
O "foda-se!" aumenta a minha auto-estima, torna-me uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Liberta-me.
"Não quer sair comigo?! - então, foda-se!"
"Vai querer mesmo decidir essa merda sozinho(a)?! - então, foda-se!"
O direito ao "foda-se!" deveria estar assegurado na Constituição. Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para dotar o nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade os nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo a fazer a sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia.
"Comó caralho", por exemplo. Que expressão traduz melhor a ideia de muita quantidade que "comó caralho"? "Comó caralho" tende para o infinito, é quase uma expressão matemática.
A Via Láctea tem estrelas comó caralho!
O Sol está quente comó caralho!
O universo é antigo comó caralho!
Eu gosto do meu clube comó caralho!
O gajo é parvo comó caralho!
Entendes?
No género do "comó caralho", mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso "nem que e fodas!". Nem o "Não, não e não!" e tão pouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade "Não, nem pensar!" o substituem. O "nem que te fodas!" é irretorquível e liquida o assunto. Liberta-te, com a consciência tranquila, para outras actividades de maior interesse na tua vida.
Aquele filho pintelho de 17 anos atormenta-te pedindo o carro para ir surfar na praia? Não percas tempo nem paciência. Solta logo um definitivo:
"Huguinho, presta atenção, filho querido, nem que te fodas!".
O impertinente aprende logo a lição e vai para o Centro Comercial encontrar-se com os amigos, sem qualquer problema, e tu fechas os olhos e voltas a curtir o CD (...)
Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um "Puta que pariu!", ou o seu correlativo "Pu-ta-que-o-pa-riu!", falado assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba. Diante de uma notícia irritante, qualquer "puta-que-o-pariu!", dito assim, põe-te outra vez nos eixos. Os teus neurónios têm o devido tempo e clima para se reorganizarem e encontrarem a atitude que te permitirá dar um merecido troco ou livrares-te de maiores dores de cabeça.
E o que dizer do nosso famoso "vai levar no cu!"? E a sua maravilhosa e reforçadora derivação "vai levar no olho do cu!"? Já imaginaste o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: "Chega! Vai levar no olho do cu!"?
Pronto, tu retomaste as rédeas da tua vida, a tua auto-estima. Desabotoas a camisa e sais à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.
E seria tremendamente injusto não registar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: "Fodeu-se!". E a sua derivação, mais avassaladora ainda: "Já se fodeu!". Conheces definição mais exacta, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusivé, que uma vez proferida insere o seu autor num providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim como quando estás a sem documentos do carro, sem carta de condução e ouves uma sirene de polícia atrás de ti a mandar-te parar. O que dizes? "Já me fodi!"
Ou quando te apercebes que és de um país em que quase nada funciona, o desemprego não baixa, os impostos são altos, a saúde, a educação e … a justiça são de baixa qualidade, os empresários são de pouca qualidade e procuram o lucro fácil e em pouco tempo, as reformas têm que baixar, o tempo para a desejada reforma tem que aumentar … tu pensas “Já me fodi!”
Então:
Liberdade,
Igualdade,
Fraternidade
e
foda-se!!!
Mas não desespere:
Este país … ainda vai ser “um país do caralho!”
Atente no que lhe digo!
Amabilidade do Olímpio Alegre Pinto, que enviou um grande Fod@-se.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Ano novo, vida nossa - por José Soeiro


«Bateram as 12 badaladas e anunciaram que tínhamos ficado em 2011. Na televisão, um comentador explicava: "Seria uma irresponsabilidade mudar de ano agora, em plena crise." O colega de debate, especialista em finanças cronológicas, concordava: "Não estamos em tempo de comprar novos calendários, as pessoas têm de compreender que é preciso fazer sacrifícios."
Claro que nem toda a gente aceitou pacificamente a ideia. Milhares de jovens que iam fazer 18 anos em 2012 organizaram manifestações pelo direito ao futuro: "Não queremos ficar com as nossas vidas congeladas", gritavam nas ruas. Movimentos de cidadãos fizeram uma jornada contra o "recuo hsitórico" que significava voltar ao passado. Houve uma greve por um novo calendário e por melhores condições de vida. Clandestinamente, alguns começaram a produzir calendários alternativos e a funcionar com as datas de 2012. O Governo explicou que era "totalmente inviável" mudar de ano. Sugeriu que os jovens emigrassem. Perante os protestos, ameaçou prender quem tentasse fazer um ano novo à revelia do acordo estabelecido com parceiros internacionais.
De repente, as praças foram ocupadas pela gente. Fizeram-se músicas, contos, poemas, filmes sobre os futuros possíveis: como seria um ano novo? As pessoas começavam a criar aquilo de que falavam. Aguentaram semanas na rua, numa lenta impaciência. Até que um dia o poder viu-se impotente: já não restava ninguém em 2011.»
José Soeiro
PÚBLICO