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sexta-feira, 2 de março de 2012

Um Dia Isto Tinha Que Acontecer - por Mia Couto * (Ver Nota)


Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida.
Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações.
A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo. Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.
Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.
Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1.º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.
Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.
Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, ... A vaquinha emagreceu, feneceu, secou.
Foi então que os pais ficaram à rasca.
Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado.
Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais.
São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.
São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!
A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas.
Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.
Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.
Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.
Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.
Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.
Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.
Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.
Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.
Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração?
Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!
Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós).
Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja! que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.
E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!!
Novos e velhos, todos estamos à rasca.
Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.
Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles.
A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la. Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam.
Haverá mais triste prova do nosso falhanço?
Mia Couto, escritor
Amabilidade da Dalia Faceira
***
*Nota do editor: Este texto deve ser lido sob reserva, pois existem fundamentadas dúvidas sobre a atribuição da sua autoria ao escritor moçambicano, Mia Couto. Enviei um mail à Associação Portuguesa de Escritores, cuja cópia se encontra no espaço dos comentários, a solicitar os seus bons ofícios para obter do próprio escritor o seu testemunho, única forma credível para apurar a verdade.
Agradeço ao João Grazina o oportuno alerta, que está expresso no primeiro comentário deste post, ao mesmo tempo que convido o leitor e embrenhar-se nas labirínticas fontes de informação, nele indicadas, a fim de tentar encontrar a verdade.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Notas do meu rodapé: Os novos emigrantes talvez venham a querer esquecer o país que os pariu e que os condenou a pertencerem à "Geração à Rasca"

"Governo resolve o problema mandando os jovens emigrar"
O deputado Paulo Pisco (PS) considerou hoje que o Governo pode não ter uma política de emigração para os jovens portugueses, mas adota uma postura de tentar resolver o desemprego entre esta camada da população "mandando-os emigrar".
Diário de Notícias
***

A emigração, historicamente, sempre foi a válvula de escape dos portugueses mais desafortunados, em tempos de crise económica. A mais importante, aquela que teve um efeito estruturante na economia do país, foi a que ocorreu nos anos sessenta do século passado, e que teve como destino a França e a Alemanha, para onde se deslocou massivamente a maioria dos homens válidos das zonas rurais. O despovoamento do interior, a que esses emigrantes deram origem, nunca mais foi invertido.
Mas, agora, a emigração começa a ser uma alternativa para os jovens técnicos qualificados, que, em Portugal, não encontram saídas profissionais, e aos quais o primeiro-ministro, numa confissão implícita de impotência e de descrença, convida a abandonar o país. É um sinal pouco animador dado por aquele governante, que assim desmente as expetativas otimistas, mil vezes anunciadas, sobre as vantagens futuras das suas políticas de austeridade. Já nem ele acredita que o país possa vir a recuperar, depois da devastação a que está a proceder, a mando da senhora Merkel e em benefício do grande capitalismo financeiro europeu.
Poderemos dizer que, pela primeira vez na nossa história, se assiste à fuga de quadros qualificados, numa escala nunca vista anteriormente. E, neste caso, ocorre uma dupla perda para a economia portuguesa. Por um lado, perde-se o elevado potencial desses quadros, que dariam um contributo significativo para a criação da riqueza nacional, e, por outro lado, e isto não ocorreu nos períodos emigratórios precedentes, perde-se o avultado investimento que o país dispendeu na sua formação. Atinge-se assim o limite do desperdício, que irá ter consequências nefastas no nosso futuro coletivo. Se o ciclo emigratório dos jovens mais qualificados atingir grande dimensão estatística, daqui a dez ou quinze anos, Portugal irá ter falta de massa crítica, já que claudicará a transferência geracional no topo das carreiras profissionais, das públicas e das empresariais, e também ao nível dos respetivos dirigentes. O problema é muito sério, o que não deveria permitir a manifestação de tamanha leviandade por parte de um primeiro-ministro, que se desacredita, quando, no seu discurso, vem estimular a ocorrência deste fenómeno. 
E não colhe validade o argumento, que já anda a ser badalado por aí, pelos papagaios encartados do regime, que este desequilíbrio seria compensado com a incorporação das respectivas remessas de capital na economia portugesa, como aconteceu no século passado. Os jovens quadros que emigrarem irão atrás de um projeto de enraizamento integral nos países de destino, onde constituirão família e onde guardarão as suas poupanças e património, para transmitirem aos seus filhos. Muitos deles, até, talvez venham a querer esquecer o país que os pariu, mas que os condenou a pertencerem à "Geração à Rasca", abandonando-os ao seu destino. 

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Notas do meu rodapé: É necessário encontrar novas lideranças para Portugal

Alguns subscritores pertencem ao movimento
Geração à Rasca (Daniel Rocha)

Miguel Cardina: “O património cívico e simbólico do 25 de Abril está em erosão”
Preocupações do presente com uma referência do passado. Um grupo de 74 portugueses nascidos depois de 1974 assinou um Manifesto para que a revolução de Abril não seja esquecida.
É preciso “manter vivo o património cívico e simbólico do 25 de Abril que está em erosão”, justifica Miguel Cardina, historiador, e um dos subscritores do texto intitulado “O inevitável é inviável”.
Na lista (que não se quis compor de notáveis) constam nomes como o dos humoristas Ricardo Araújo Pereira, Jel, Marta Rebelo, ex-deputada do PS, mas também elementos do movimento Geração à Rasca e muitos anónimos – médicos, engenheiros e estudantes.
PÚBLICO
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Já aqui se escreveu que o actual regime estava moribundo. Morreu com a entrada no país do FMI, a coberto do apoio hipócrita da UE, e vai ser enterrado pelo PS e pelo PSD, sendo José Sócrates o coveiro e Passos Coelho o primeiro ajudante. 
Para aqueles que sublinham os benefícios das anteriores intervenções do FMI em Portugal, nos finais dos anos setenta e no início dos anos oitenta, é necessário dizer-lhes que o contexto internacional era diferente, pois a economia mundial crescia de uma forma acentuada e sustentada. Na actualidade, a volatilidade é a única certeza. A Europa está em crise, a sua moeda única ameaçada e, no horizonte, perfila-se uma outra crise mundial, que, desta vez, não poupará as economias emergentes. As causas que a irão desencadear são as mesmas que provocaram a crise iniciada em 2008. Nenhuma das medidas de fundo, acordadas tacitamente nas reuniões do G20, tiveram sequência prática. O grande capital financeiro não perdeu a sua intocabilidade, continuando, através da economia especulativa, a sua acção predadora sobre a economia produtiva. Os governos, com o argumento da imperiosa necessidade de garantir a estabilidade dos bancos, encarregaram-se de os subsidiar com o dinheiro dos contribuintes, aplicando aquele lema de lhes poder proporcionar a privatização dos lucros e a socialização (nacionalização) dos prejuízos. Países como Portugal, Grécia e Irlanda, sujeitos já à mão dura do FMI, não resistirão à hecatombe, se a nova crise mundial, entretanto, eclodir.
É na perspectiva deste cenário sombrio, que os direitos sociais dos portugueses, conquistados e garantidos depois do 25 de Abril, estão em perigo. Os sacrifícios impostos pelo governo socialista em 2010 foram completamente inúteis, já que o quadro orçamental e o quadro da dívida, em vez de melhorarem em relação a 2009, sofreram uma regressão, em resultado da contabilidade criativa do governo, que queria esconder os compromissos financeiros com o BPN e BPP e também com as Parcerias Público Privadas. Não tenhamos dúvidas. Para garantir a consolidação, até 2013, dos objectivos pretendidos pela UE, em relação ao défice orçamental e em relação à dívida pública, o FMI vai estrangular as políticas sociais no âmbito da Saúde, da Segurança Social e da Educação.
E com o edifício social desmantelado, já não se poderá falar do 25 de Abril. Falar-se-á antes do 24 de Abril. 
Compete à nova geração, a chamada Geração à Rasca, inverter, de uma forma radical, o curso dos acontecimentos, assim como a minha geração o fez antes do 25 de Abril, e que, agora, não regateará o seu apoio à mudança que se impõe. E é de política que eu estou a falar, da mesma política que os capitães de Abril também tiveram de falar, antes de o MFA desencadear o golpe revolucionário vitorioso. Ao movimento da Geração à Rasca exige-se algo mais do que a discussão da oportunidade de um referendo ou da exigência de legislação específica em relação à precariedade. Os barões dos partidos dominantes, já bem treinados por anos e anos de demagogia e de mentiras, adquiriram competências para conseguir inutilizar silenciosamente qualquer ideia generosa, que lhes chegue às mãos. Não é pois com o PS ou o PSD, ou os dois partidos juntos, que a mudança ocorrerá, já que os seus dirigentes são uma cópia grotesca da brigada do reumático marcelista.
É necessário encontrar novas lideranças para Portugal.
http://publico.pt/Política/miguel-cardina-o-patrimonio-civico-e-simbolico-do-25-de-abril-esta-em-erosao_1491159

terça-feira, 19 de abril de 2011

Notas do meu rodapé: É à Geração à Rasca que compete agir


A resignação é uma característica do povo português, que foi moldada por trezentos anos de Inquisição e quarenta de salazarismo. A História da Europa sempre lhe passou ao lado. Nos tempos modernos, nunca fez uma revolução. Limitou-se a apoiá-las. E, mesmo assim, deixou-as sempre a meio do caminho, sem as completar. Em Portugal, as elites são medíocres. Não têm capacidade de iniciativa, nem visão estratégica, e limitam-se a seguir figurinos importados, que, quando chegam, já se encontram ultrapassados.
A minha esperança volta-se para a actual geração, à qual etariamente eu não pertenço, e que adoptou a designação de “Geração à Rasca”. Só ela pode desinfestar o país da clique política dominante, que transformou o Estado numa coutada dos grandes interesses privados, se, entretanto, ela souber tirar partido da sua potencial força, que o actual poder político, displicentemente, procurou desvalorizar, embora intimamente lhe reconhecesse o perigo, já que nenhum regime poderá sobreviver se a juventude desertar. Imagine-se o grande rombo no prestígio do regime e o grande susto por essa Europa fora, se os 300 mil manifestantes de 12 de Março votassem em branco. Seria um escândalo monumental, que nenhuma demagogia poderia iludir.
Mas, se não for encontrado, até às eleições, um consensual objectivo político comum, alicerçado numa motivação forte, abrangente e aglutinadora, destinada a esvaziar o actual regime, que já não tem nada a ver com a generosa revolução de Abril, esbate-se e afunda-se o genuíno movimento, que se exprimiu vigorosamente em 12 de Março. Esse objectivo poderia muito bem ser o do boicote claro aos partidos do arco governamental, o PSD e, principalmente o PS, os únicos responsáveis por esta profunda crise económica, política e social. Uma campanha a apelar ao voto em branco, dirigida aos aderentes do movimento Geração à Rasca, que anteriormente neles votaram, iria provocar alterações profundas no espectro partidário e obrigaria à escolha de novas políticas, que defendessem os interesses dos portugueses e restaurassem a dignidade do país.
Ao castigar, desta for original, o PS e o PSD – por terem aceitado, sem pestanejar, as absurdas exigências de Bruxelas, e de se sujeitarem a colocar-se de joelhos aos pés da troika UE-FMI-BCE, que vem governar ditatorialmente o país – as próximas eleições iriam perder toda a legitimidade política.
Atraiçoando a Pátria, as direcções políticas desses dois partidos fizeram escandalosas vénias e humilhantes genuflexões aos peões de brega do capitalismo financeiro internacional. A entrada do FMI em Portugal constitui uma descarada e inaceitável ingerência, que ofende a independência nacional. Os portugueses não podem ser as vítimas das profundas contradições do capitalismo selvagem e especulativo. Os banqueiros e os grandes accionistas dos fundos de investimentos e das multinacionais já arrecadaram os lucros, querendo agora endossar os prejuízos da sua agiotagem predadora para terceiros.
Eu também vou lutar contra esta prepotência, pois não quero que o meu filho e os filhos dos portugueses da minha geração continuem a ser uma geração à rasca.

domingo, 13 de março de 2011

Texto de Zeca Afonso sobre os jovens



"Os jovens, e digo, os jovens de todas as classes, estão um pouco à mercê de um sistema que não conta com eles, mas que hipocritamente fala deles - o 25 de Abril não foi feito para esta sociedade, para aquilo que estamos agora a viver.
Aqueles que ajudaram a fazer o 25 de Abril, imaginaram uma sociedade muito diferente da actual, que está a ser oferecida aos jovens.
Os jovens deparam-se com problemas tão graves, ou talvez mais graves do que aqueles que nós tivemos que enfrentar - o desemprego, por exemplo. E, por vezes, não têm recursos, porque o sistema ultrapassa-os, o sistema oprime-os, criando-lhes uma aparência de liberdade. Eu creio que a única atitude foi aquela que nós tivemos - por nós, eu refiro-me à minha geração - de recusa frontal, de recusa inteligente, se possível até pela insubordinação, se possível até pela subversão do modelo de sociedade que lhes está a ser oferecido, com o fundamento da liberdade democrática, com o fundamento do respeito pelos direitos dos cidadãos. É de facto uma sociedade, que é imposta aos jovens de hoje, telguiada de longe por qualquer FMI, por qualquer deus banqueiro.
Tal como nós, eles têm que a combater, têm que na destruir, têm de a enfrentar com todas as suas forças, organizando-se para criarem a sociedade que têm em mente.
Zeca Afonso - 1984

sábado, 12 de março de 2011

Protesto Geração à Rasca juntou entre 160 e 280 mil pessoas só em Lisboa e Porto



Milhares de pessoas saíram hoje às ruas em várias cidade do país e transformaram o Protesto Geração à Rasca numa manifestação de todas as idades, todos os grupos, todas as palavras de ordem. A organização fala em 200 mil pessoas em Lisboa e 80 mil no Porto.
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Em 11 cidades, o Protesto Geração à Rasca juntou milhares nas ruas contra a precariedade. A organização fala em 300 mil de Norte a Sul. Só em Lisboa e Porto, foram cerca de 280 mil. Um traço comum em todas elas: uma manifestação de gerações, com gente de todos os quadrantes políticos.
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“A luta também é festa porque é pacifica. Todos nós somos gente de paz que só quer uma vida melhor. Que quer um emprego. Quer que o Governo nos olhe como gente. Que olhe para os nossos velhos que estão a morrer à fome. Que nos olhe como gente e não como números. Veja, não estão aqui só precários. Está aqui Portugal inteiro. A rua é nossa e o Governo tem de nos ouvir”, diz Catarina Pereira, 19 anos, estudante de direito.

Magalhães de Campos, 79 anos, vendedor reformado, quer um futuro para a juventude. Diana Simões, 19 anos, estudante de Direito, não quer empregos precários, nem recibos verdes. Alcino Pereira, 27 anos, carpinteiro no desemprego, quer um emprego. Estas são as razões de alguns dos manifestantes que abriram o desfile em Lisboa, que foi ganhando corpo à medida que o protesto descia a Avenida.
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O desfile foi animado por palavras de ordem como "com precariedade não há liberdade", "fora com os ladrões" e "Portugal, Portugal, Portugal".
PÚBLICO

Mar de gente contra trabalho precário

Correio da Manhã

Manifestação Geração à Rasca - Lisboa

Geração à Rasca: O meu manifesto de protesto...


MANIFESTO DE PROTESTO *
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A demissão deste governo tem de passar a ser uma exigência nacional. É o governo mais inepto desde o reinado de D. Sebastião. Estes governantes, principalmente o primeiro-ministro e o ministro das Finanças, não são pessoas de bem. Institucionalizaram a mentira, dando-lhe um estatuto de Estado. Enganaram os jovens, condenando-os à precariedade. Sacrificaram os desempregados e os idosos. Com a sua política suicida, estão a provocar o empobrecimento da maioria da população, possibilitando, ao mesmo tempo, o enriquecimento de uma minoria de privilegiados.
É urgente mudar de políticas e de actores políticos, e são os jovens que têm de fazer a revolução necessária, porque é deles a construção do futuro.
Lisboa, 12 de Março de 2011
Alexandre Lopes de Castro
Jornalista

* Para entregar aos promotores da Manifestação da Geração à Rasca

sexta-feira, 11 de março de 2011

Notas do meu rodapé: Cavaco Silva deu um grande apoio à "Geração à Rasca"


Na sua tomada de posse, Cavaco Silva apropriou-se indevidamente do discurso da esquerda. Percebe-se que o duro ataque dirigido ao governo, embora fundamentado e verdadeiro, ultrapassou os limites da contenção a que um Presidente da República deve submeter-se e obedeceu ao calculismo da sua ambição política, que consiste em transformar o palácio de Belém no centro de operações da oposição ao governo de José Sócrates. Quando afirmou que "impõe-se ao Presidente definir linhas de orientação e de rumos para a economia nacional", Cavaco Silva disse ao país o que pretendia fazer neste seu segundo mandato. E não é sua função, tal como claramente prescreve a Constituição, o de estabelecer linhas de orientação ao governo.
Perante o profundo descontentamento que grassa no país, e que é transversal ao eleitorado de todo o espectro partidário, incluindo o do Partido Socialista, Cavaco Silva, um homem de direita, escolheu as palavras certas para agradar a todos, capitalizando assim um trunfo importante, que vai fazer esquecer o seu passado, o mais recente e o mais remoto. Inclusivamente, colou-se ao movimento dos jovens da "Geração à Rasca", que dele receberam um importante estímulo para a sua manifestação de amanhã. Aqueles jovens indecisos, devido a um alinhamento ideológico e partidário mais conservador, e que, eventualmente, julgariam que se trataria de uma manifestação organizada pela esquerda, receberam o desejado sinal para avançar também.
Com a juventude nas ruas e com uma série de greves, que se avizinham, o centro da política foge do Parlamento e de S. Bento e passa para outros cenários, onde a demagogia de José Sócrates já não produz efeitos. Percebe-se, e isto já aqui foi dito várias vezes, que a partir de amanhã, a política vai jogar-se noutro tabuleiro, muito desfavorável à continuidade da política predadora, conduzida por este governo.
José Sócrates vai passar uma Quaresma muito difícil. Eu já tenho preparada para ele a Última Ceia", onde também vai aparecer um Judas. A crucificação (política, bem entendido) já não é comigo. É certo que faltam os milagres, que ele não fez, mas que os seus apóstolos irão inventar, embora venham a dar um realce particular ao seu único verdadeiro milagre, o da multiplicação da dívida, que suplanta, em grandeza, aquele que ocorreu com os pães, há mais de dois mil anos.
http://publico.pt/Política/cavaco-silva-arrasador-para-governo_1483973

quarta-feira, 9 de março de 2011

Opinião: Assim, logo na passada.... - por Gertrudes da Silva

Assim, logo na passada…

Ninguém me encomendou nada, nem me passaram qualquer procuração. Mas mexe comigo. E aí estou eu, de imediato, a fazer aquilo que ainda sei fazer melhor, que é refilar, porque ladrar também será demais.
É que acho um piadão a estes experts da política e da geoestratégia internacionais, que assim, duma penada, em quatro meias colunas e meia dúzia de asserções fazem o enquadramento e traçam os destinos do que se está agora a passar pelo mundo.
De varapau e mão certeira, duma cajadada, põem fora de combate a Al-Qaeda e o Bin Laden, dão por assunto encerrado o abandono, senão mesmo a venda dos amigos de ainda agora há bocadinho a troco de uns míseros barris de petróleo e uns poucos de metros cúbicos de gás natural, e ainda afirmam, de forma categórica, que sabem perfeitamente o que os jovens e outros menos jovens revolucionários do mundo dito muçulmano querem, coisa de que eles, os revoltosos, se calhar, ainda andam e andarão à procura.
Depois, como parece que não podia deixar de ser, é uma no cravo e outra na ferradura. Sim, porque o que eles querem de verdade, dizem, é a liberdade, o direito de falar, de criticar e de optar, e não propriamente uma democracia como a nossa; eles hão-de inventar uma diferente; o Estado até que bem pode ser confessional, tudo bem, mas no qual as pessoas possam viver em liberdade, ponto final. Socialismo, seja de que espécie for, é que não. Não, não: o que eles pensam que querem é mesmo o capitalismo, e aqui como nos computadores, nos telemóveis e nos televisores, só do da última geração, ou moda, como quiserem, que anda por aí, esse mesmo, o tal que dizem que é neoliberal.
Porque socialismo, soviético, chinês, norte-coreano, cubano ou mesmo das modalidades mais soft do Hugo Chavez ou do Kadaffi, todos eles já deram o que tinham a dar, e não foi lá grande coisa.
Parece que, isto na opinião do editorial do jornal “Público” de 6 de Março, essa coisa do socialismo e do comunismo já não fazem hoje sentido algum. Só aqui, em Portugal, ora vejam, inexplicavelmente ou não – poderá ser da “congénita” ignorância ou estupidez do nosso povo e de meia dúzia de cabeças pensantes que alguém rodou e virou completa e irremediavelmente ao contrário –, ainda para aí resistem uns poucos de milhares de criaturas, cada vez em menor número – ufa! –, que vão mantendo vivo aquele sonho, utopia ou religião, tudo isto contra todas as «evidências da História», esquecendo-se o articulista, ou não sabendo mesmo, que as evidências em História são um material muito perigoso, com que todo o cuidado é pouco.
Quanto aos jovens comunistas que eles, em jeito de reportagem, abordaram “com a melhor das intenções” por ocasião da passagem do 90º aniversário do PCP, só podem ser é maluquinhos, por ainda acreditarem num partido que «logo nas primeiras linhas do seu programa» apresenta «como objectivos supremos a construção do socialismo e do comunismo», o que, continua o editorialista, «no mundo real só produziu inomináveis tragédias», esquecendo-se, também aqui, que a Igreja Católica, bem mais velha e, por conseguinte, mais sábia, tem a sua história manchada de coisas bem horrorosas, e nem por isso nos damos ao desplante de chamar mentecaptos ou maluquinhos aos milhões dos seus seguidores por todo esse mundo.
Com todo este fraseado, mal escrito e pior pensado, é perfeitamente legítimo, se isto interessar a alguém, que se me pergunte, a gora a mim, então o que é que eu penso sobre o que na margem sul do Mediterrâneo se está a passar. E eu responderei, de pronto, que sinceramente não sei. Poderia até tentar explicar; porque explicar é fácil. O difícil é a gente perceber.
Vêem-se ali traços de motivações tão, tão semelhantes aos que andam por aí no meio de nós, sim, em Portugal e no resto do mundo, que facilmente poderíamos ser levados a sacar da chave que tudo parece abrir, essa coisa a que puseram o nome de globalização, nesta caso, da má, porque há também uma globalização dos que já inventaram, a este propósito, uma nova teoria: a de uma globalização boa e uma globalização má; e eu, para me poupar, vou pensando que há uma única globalização que socialista ou comunista está-se bem a ver que não é, mas retintamente (embora a palavra não seja para aqui a mais adequada), neo-capitalista e neo-imperialista, falando, inclusive, à escala mundial, e não será por acaso, uma mesma e única língua, que esperanto não é.
E nesses traços de larvares motivações podem também vislumbrar-se alguns laivos do Maio de 68, em França, pois muitos dos que nos aparecem em frente das mobilizações de todos os descontentamentos, e são tantos, são licenciados ou estudantes universitários que no final dos cursos só encontram um muro pintado de branco, empregos a condizer é que não.
Bem, as coisas, mais ou menos, estão neste pé, que nós em boa verdade ainda estamos longe de saber qual é. Mas algo de novo e, se calhar, absolutamente necessário, parece vir aí. Pois então que venha!...
Os partidos, os partidos do sistema que, no fundo, todos são, que se cuidem, porque começam a aparecer e a vingar por aí outras agremiações, essas, sim, novas formas de organizar e mobilizar, seja através dos facebooks ou dos twiters, ou então, e também, cá mais por casa, coisas como a Ana dos “Deolinda” a cantar “Parva que sou…” e com os mais recentes e ainda quentinhos “Homens da Luta”, a teimarem que “A vida é alegria”; os quais, para espanto e escândalo de todos os papalvos do politicamente correcto ganharam aqui o Festival da Canção para a Eurovisão e, vamos ver, se calhar, não se vão ficar por aqui.
Quem por aqui se fica sou eu, e para que não continuem a carimbar-me de pessimista como noutros tempos me carimbaram doutra coisa, aqui deixo um pensamento que ouvi atribuído ao presidente Simon Perez de Israel, que reza mais ou menos assim:
«Se sabido é que tanto os optimistas como os pessimista todos acabam por morrer, então porque não viver a vida com optimismo?»
Gertrudes da Silva, escritor
Viseu, 07MAR2011
Nota do editor: É da responsabilidade do editor do Alpendre da Lua o acrescento da designação do ofício a que Gertrudes da Silva actualmente se dedica com brilhantismo, e que ele, por modéstia, omite nos textos que tem enviado para publicação.

terça-feira, 8 de março de 2011

A Geração à Rasca começa a estragar os jantarinhos de Sócrates

Vídeo colocado no YouTube pelo utilizador sceptrus que mostra o momento em que o discurso de Sócrates é interrompido
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Enquanto mandava os gorilas da sua segurança pessoal malhar nos jovens, que estavam ali por direito próprio, pois pagaram o respectivo jantar, José Sócrates refugiou-se no argumento pueril de que "é Carnaval e ninguém leva a mal".
O diagnóstico está feito. Tal como já aqui afirmámos, a juventude actual, que encontrou uma designação feliz para definir-se, "A Geração à Rasca", já virou as costas aos políticos, àqueles que têm ou tiveram responsabilidades governativas, pois descobriram o engodo dos discursos, das promessas eleitorais e de todos os formalismos de um regime que desgastou a própria democracia, através do compadrio, da corrupção, do nepotismo, da desonestidade, da falta de rigor, da incompetência e da mentira. Da mentira, dizemos bem, pois tem sido a mentira o terreno fértil onde têm prosperado os políticos sem carácter, que eu designo por aventureiros, e que há uns anos descobriram que a política, através dos partidos da área do poder, era o melhor meio para enriquecer e ganhar estatuto.
Perante esta juventude que não tem futuro, a demagogia eleiçoeira de quem conduz o país para o inferno, prometendo o paraíso, já não resgata a degradação de um regime que atraiçoou a generosidade da revolução de Abril, pois não consegue dar resposta aos anseios legítimos dessa mesma juventude, que rejeita a precariedade, que lhe querem oferecer.
E a História avançou sempre com a juventude, pois é ela que tem de construir o futuro, que já vem aí.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Notas do meu rodapé: Os jovens da Croácia dão o pontapé de saída da revolta na Europa

Jovens manifestantes em Zagreb
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Milhares pedem a renúncia do governo croata em Zagreb
Mais de 5.000 pessoas saíram na noite desta quarta-feira (02/03/11) às ruas do centro de Zagreb em uma manifestação pacífica para pedir a renúncia do governo dirigido pela conservadora Jadranka Kosor.
A manifestação foi organizada por meio do Facebook por um grupo de cidadãos descontentes com a situação económica, o desemprego e a corrupção.
FOLHA.com - 02/03/11
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"Revolta Facebook" move milhares de jovens contra governo
A Croácia está a confrontar-se com uma vaga de protestos anti-governamentais sem precedentes e que, segundo as autoridades, pode pôr em causa a fase final processo de adesão do país à União Europeia (UE).
Para terça-feira já foi convocada uma nova manifestação para o centro de Zagreb, num movimento quase ininterrupto iniciado há cerca de duas semanas através da rede social Facebook, e que alastrou a diversas cidades do país, que declarou a independência da extinta Jugoslávia em Junho de 1991. Os protestos, difusos e contraditórios mas com a participação de dezenas de milhares de pessoas, sobretudo jovens, têm como alvo o governo da União Democrática Croata (HDZ, conservador) e a primeira-ministra Jadranka Kosor. Os manifestantes têm queimado bandeiras da União Europeia (UE), mas a coerência política da contestação permanece por definir. Palavras de ordem contra "as privatizações, o capitalismo e a UE", a denúncia da HDZ "que está a espoliar a Croácia" ou a "demissão imediata de Jadranka" têm sido as principais exigências dos milhares de jovens que têm ocupado as ruas da principais cidades croatas.
Diário de Notícias (Hoje)
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Novamente os jovens!... Novamente o Facebook!... O pioneirismo da Tunísia e, principalmente, do Egipto começa a dar frutos noutras paragens. O movimento ainda vai no seu início, mas é possível que o rastilho alastre e vá atear o fogo a outros territórios onde a lenha, velha e seca, necessita de ser queimada.
Neste movimento de massas, espontâneo e, aparentemente, um pouco caótico, existem elementos comuns, que merecem uma leitura política e sociológica. De nada vale aos porta-vozes do establishment pretenderem desvalorizar este inédito fenómeno da História Contemporânea, quando se sabe que as castanhas podem rapidamente rebentar na boca dos governantes. Quando o ditador tunisino fugiu precipitadamente do país e quando a revolta contra Mubarak começou no Egipto, a Jordânia e outros ditaduras árabes apressaram-se a comprar cereais e a baixar os preços do pão. O regime ditatorial angolano de José Eduardo dos Santos, suportado por um partido que se prostituiu, antecipou-se a um incipiente movimento de protesto, organizando uma manifestação fantoche com os militantes mais previlegiados pelo sistema, os funcionários públicos de Luanda e dos municípios envolventes.
Os chefes políticos descobriram rapidamente o perigo do Facebook para a sobrevivência dos seus regimes, e não admira que, no futuro, não comecem a impor limitações à sua utilização, em nome da ordem estabelecida.
Na realidade, o Facebook constituiu-se no instrumento aglutinador e mobilizador de todos esses jovens, o grupo social mais prejudicado pela acção predadora das políticas neoliberais, comandadas pelo capitalismo financeiro, já organizado em rede, a nível do planeta. Este é o primeiro elemento comum, que acima se referiu. O segundo elemento identificador, também comum a todos estes neófitos movimentos, é a situação precária dos jovens no mundo do trabalho, e que eles não querem aceitar. Eles já perceberam que os actuais modelos políticos estão gastos e ultrapassados e em fétida putrefacção, não conseguindo já ultrapassar as suas próprias contradições. Apesar de suportados pelo sufrágio universal, os sistemas políticos encontraram formas de sobreviver, através da corrupção do Estado, do compadrio, oriundo das seitas secretas, que alimentam os partidos, e da acção das multinacionais e das grandes empresas, que, por via indirecta, influenciam a seu favor as decisões dos governos. Um jovem de hoje olha para a política e só vê um pântano fedorento, cheio de crocodilos a espreitarem a sua oportunidade para atacar as vítimas indefesas.

sexta-feira, 4 de março de 2011

PCP vai estar na manifestação da “Geração à rasca”

O secretário-geral do PCP Jerónimo de Sousa afirma que o partido vai estar na manifestação do movimento de precários “Geração à rasca”, marcada para dia 12 em vários pontos do país. E afirma mesmo que o partido foi convidado a participar.
Em entrevista ao Diário de Notícias e TSF, por ocasião dos 90 anos do PCP, Jerónimo de Sousa afirma que, apesar de apartidário, o movimento “Geração á rasca” não é anti-partidos e que a luta do PCP contra a precariedade laboral justifica a presença nas marchas.
PÚBLICO
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O Partido Comunista Português compreendeu bem o grande significado político desta gigantesca onda de protesto que está a crescer no país, e tomou a decisão certa na hora certa.
É que, não era possível, neste momento, a nenhum partido de esquerda, isoladamente, desencadear um movimento transversal a toda a sociedade com estas proporções, e que, possivelmente, irá constituir-se em fonte de inspiração para a necessária contestação às políticas suicidas do governo de José Sócrates, que, já se percebeu, não se comove nada com os sacrifícios desiguais que está a impor aos portugueses, para conseguir manter-se no poder a todo o custo. Ele sabe, tal como Kahdafi, que, quando cair do poder, se vão levantar todas as tempestades, dos ventos que andou a semear, desatando-se, assim, todos os nós das amarras das suas duvidosas cumplicidades, as pessoais e as políticas. O tempo não apaga a memória.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Notas do meu rodapé: A Geração à Rasca à procura da sua identidade

João, Alexandre e Paula
Fotografia do PÚBLICO
Um desempregado, um bolseiro e uma estagiária inventaram o Protesto da Geração à Rasca
João, Paula e Alexandre formaram-se em Coimbra e passaram por associações de estudantes. Dois desencantaram-se com os partidos a que pertenciam.
Os jornais e as televisões acompanham o fenómeno. Em menos de três semanas, milhares fizeram saber que pretendem aderir ao Protesto da Geração à Rasca (ontem eram mais de 27 mil). Sem que tenha sido gasto um tostão para promovê-lo. "Acho que é uma coisa completamente nova o que está a acontecer", diz João. "Nós, desempregados, "quinhentos-euristas" e outros mal remunerados, escravos disfarçados, subcontratados, contratados a prazo, falsos trabalhadores independentes, trabalhadores intermitentes, estagiários, bolseiros, trabalhadores-estudantes, estudantes, mães, pais e filhos de Portugal. Protestamos" - assim começa o manifesto colocado online.
PÚBLICO
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Com o seu instinto de animal político, José Sócrates, talvez com os olhos postos no Egipto e na Tunísia, apercebeu-se rapidamente que a manifestação marcada par 12 de Março e promovida e mobilizada por três jovens, através da rede do Facebook, não poderia ser ignorada ao nível dos seus efeitos políticos, que prometem ser devastadores para a credebilidade do governo. Não podia seguir o caminho da afronta, não podia fabricar nenhum alibi sobre o acarinhado tema da perseguição pessoal, não podia dizer que tudo aquilo era obra dos jornalistas, que o perseguiam, não podia acusar de maniqueísmo os partidos da oposição, e não poderia vir a desvalorizar a manifestação, como costuma fazer em relação às manifestações da CGTP, se ela vier a constituir-se no grande acontecimento político do ano. Daí, ter avançado, na sessão quinzenal da Assembleia da República com o governo, com aquela tirada dos 50 mil estágios remunerados, ao mesmo tempo que atirava a cenoura, prometendo a integração desses estagiários na Segurança Social para efeitos contributivos e de contagem de tempo de serviço.
Tal como aconteceu com Mubarak, Khadafi e Ben Ali, José Sócrates não acordou a tempo para apagar o fogo que ele ateou no caldeirão da sociedade. Os jovens agradecem as migalhas, mas não vão deixar enganar-se com a desgastada demagogia de um primeiro-ministro, que, habituado, perante uma opinião pública acomodatícia, a transformar, com relativo êxito, os revezes em sucessos e as derrotas em vitórias, julgaria provocar um efeito desmobilizador com as suas promessas. Julgo que tiveram um efeito complatamente contrário. Os jovens, a maioria sem ideologia e sem convicções políticas, já perceberam que estão a lidar com um homem que não dá o que promete, que promete o que não pode dar e que por vezes a promessa conduz ao seu contrário.
Através do Facebook, os jovens perceberam que não estão sozinhos. Descobriram que a angústia e o desespero de não terem emprego ou ou apenas terem empregos precários, sem direitos, não era um problema isolado de cada um deles, mas que se alargava a toda uma geração, e que era estrutural. Foi o suficiente para cada um deles, isoladamente, ganhar força e confiança no movimento que está a nascer, e que, possivelmente, não irá esgotar-se ao final da tarde do dia 12 de Março.
Afinal de contas, o 25 de Abril também nasceu de um grupo de jovens, estes militares, que também não sabiam nada de política, mas que derrubaram um odioso regime, que se julgava eterno.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

A Geração à Rasca já tem Hino...

Parva que sou - Deolinda, Telejornal

Notas do meu rodapé: É preciso ouvir a Geração à Rasca

Protesto da Geração "À Rasca"
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Acolhi com muita reserva a informação de um amigo, a dizer-me que, através do Facebook, circulava uma convocatória para duas grandes manifestações, a realizar simultâneamente em Lisboa e no Porto. Embora o quadro reivindicativo me parecesse justo, não pude deixar de criticar a ausência da indicação do respectivo remetente. Como os promotores de tal iniciativa não apareciam identificados, as minhas dúvidas sobre a justeza da iniciativa eram grandes, o que me levou a ignorar o assunto.
No entanto, o Expresso divulgou um vídeo, onde os promotores aparecem a dar a cara. A minha opinião mudou. A avaliar pelo seu discurso, trata-se de jovens bem formados, que representam uma geração a quem está a ser negado o futuro, e que já perderam a esperança nos partidos clássicos, à direita e à esquerda. Na realidade, o actual regime, já esclerosado, não consegue tirar o país da grande crise, que, os dois partidos, com responsabilidades governamentais, não conseguiram prever, não souberam resolver, nem serão capazes de ultrapassar, tais são as contradições a percorrer todo o sistema político, em que já só os políticos acreditam. O povo já não os ouve, e estes jovens resolverem avançar para uma manifestação, sem espartilhos partidários, embora honestamente confessem que não são contra os partidos.
É claro que não será esta manifestação que irá mudar imediatamente as coisas. Mas a sua importância reside no facto de darem a saber que o actual regime já não poderá contar com eles. Isto vem dar razão à minha tese do esgotamento do actual sistema político, que não irá sobreviver por muito tempo, tal como já referi neste espaço. E a ruptura vai ser feita por estes jovens deserdados e frustrados, que vão romper o ciclo geracional, que era indispensável para a sobrevivência do regime, e até, a do país.
Mas os jovens têm razão. Têm razão, porque foram enganados. Os partidos, os políticos e os governantes não podem queixar-se, nem poderão assobiar para o ar, e, muito menos, acusá-los de irresponsabilidade ou de divisionismo, e de outras coisas mais. O Médio Oriente está a demonstrar às sociedades ocidentais o que representa o descontentamento dos jovens. Alguma coisa vai mudar, embora ninguém saiba o quê. Há dias, num dos meus artigos, citei um sociólogo eminente, que afirmou, há uns anos atrás, que a revolução do futuro seria feita pelos jovens descontestes e marginalizados pelo sistema e não pelos partidos clássicos, nem pelas classes médias. Ele tinha razão.
No próximo dia 12 de Março, o país vai assistir às primeiras manifestações de massas, organizadas fora do âmbito partidário ou sindical. Não é uma manifestação espontânea e avulsa. A organização é uma réplica das grandes manifestações do Egipto, que se serviu da rede do Facebook e conseguiu fazer cair um velho ditador. O eixo estruturante da mobilização é o apelo ao protesto dos jovens e de todos aqueles que o sistema está a excluir da sociedade. A manifestação não tem lugares marcados, nem obedece a nenhuma ritualização. É uma novidade. Se redundar num fracasso, fica sinalizado o secular sentimento de resignação do povo português, o que irá dar mais força ao obsoleto sistema político, que continuará a actuar com total impunidade e confiando na presunção que a História não os julgará. Se a manifestação arrastar multidões, a situação tornar-se-á imprevisível, como foram todas as situações que mudaram o rumo dos povos.
Em Portugal, alguma coisa irá acontecer nos próximos tempos. Oxalá que não seja uma coisa má.

As caras por trás do "Protesto da Geração à Rasca" - Expresso

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São um grupo de amigos, todos licenciados em Relações Internacionais. Findos os cursos e respetivos mestrados, vivem todos na indefinição profissional. Uns estão a cumprir bolsas e estágios profissionais de curta duração, outros estão desempregados. Cansados à partida da sombra da precariedade que poderá ditar os seus futuros, decidiram dizer "basta!". E via Facebook lançaram o desafio: levar à rua um protesto contra a vida "à rasca". Dia 12 de março tencionam desfilar na Avenida da Liberdade, em Lisboa, e na Praça da Batalha, no Porto. E não estão sozinhos: mais de 20 mil pessoas já aderiram ao protesto. Alexandre de Sousa Carvalho, Paula Gil, João Labrincha e António Frazão dão a cara pelo "Protesto Geração à Rasca" , mas são apenas alguns dos rostos por trás da gigante organização do protesto. De forma "laica, pacífica e apartidária" desafiam todos os "desempregados, 'quinhentoseuristas' e outros mal remunerados, escravos disfarçados, subcontratados, contratados a prazo, falsos trabalhadores independentes, trabalhadores intermitentes, estagiários, bolseiros, trabalhadores-estudantes, estudantes, mães, pais e filhos de Portugal" a participarem no protesto.
EXPRESSO
Ver o vídeo nesta ligação:
http://clix.expresso.pt/as-caras-por-tras-do-protesto-da-geracao-a-rasca=f633712