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domingo, 21 de outubro de 2018

Considerações sobre o dilema da democracia


Considerações sobre o dilema da democracia

Alexandre Guerra escreveu, no jornal PÚBLICO, de 30 de Setembro último, um artigo muito didáctico e muito bem estruturado, sob o título “O dilema da democracia", em que, no fundo, pretendia encontrar uma explicação para o sucesso das democracias ditas (i)leberais (Rússia e Turquia e outros países), em que, segundo ele, os eleitores, paradoxalmente, e em plena liberdade, têm escolhido normalmente um líder autoritário, uma ocorrência que ele estranha.

Isto acontece, porque o autor, implicitamente, parte do errado princípio de que as democracias liberais dos países ocidentais enquadram o sistema político mais perfeito, o que, para mim, não é verdade. E não é verdade, porque nas chamadas democracias liberais, como as instituídas na Europa e nos EUA, o sistema encontra-se viciado, uma vez que tudo foi concebido, no pós-guerra, para que aos eleitores fossem apresentados dois fortes partidos políticos, um retintamente liberal e o outro ornamentado com uma cosmética socializante, e que apenas divergiriam nos pormenores da governação, sendo, contudo, obrigatoriamente iguais, nos aspectos verdadeiramente estruturantes do poder político e na obstinada aceitação do modelo económico liberal único, anti-socialista e anticomunista.

Assim, através deste enganador processo, os actuais regimes políticos liberais garantem aos detentores do grande capital o controlo indirecto e remoto de toda uma política que os favoreça. E isto não é imediatamente percebido, pela maioria dos eleitores.
Alexandre de Castro.
2018 10 06

domingo, 10 de junho de 2018

Uma viagem sombria com retorno




Uma viagem sombria com retorno

Subitamente, vi-me cercado por um grande exército, de figuras anatomicamente estranhas, cujo comandante me ordenou, com uma altiva rispidez, para eu carregar às costas um pesado saco, cheio de pedras, e, de seguida, entrar num túnel, cujo fim não estava à vista. Visto dali, o túnel era escuro como breu, como são todos os túneis, a não ser os que são iluminados por luz artificial. Mas logo que franqueei a sua grande bocarra, verifiquei que o seu interior tinha uma claridade intensamente vermelha, que me agredia os olhos.

O saco tinha o peso do mundo e as pontas finas das pedras, senti-as como se fossem agulhas, a espetarem-se nas minhas costas, provocando-me dores alucinantes.

O comandante daquele numeroso exército, de figuras estranhas, talvez já habituado a coordenar aquela tarefa, antecipou-se aos meus queixumes, e disse-me que eu iria habituar-me àquelas dores e que deixaria de as sentir, quando atravessasse o Grande Lago, com o saco de pedras às costas. Até encontrar o Grande Lago, teria de suportar aquelas dores, concluiu, com a sua voz dura e agreste.

Mas eu não percebia porque estava neste lugar inóspito e insípido, e também não sabia como tinha chegado até ali. E, o mais grave, é que também já não me recordava de onde viera e não consegui perceber quem era eu, afinal, o que era um sinal evidente de que, por qualquer motivo, perdera a memória e a noção do espaço e do tempo. Por mais que tentasse desenterrar a memória, nenhum dos seus fragmentos, resultantes da sua desintegração, eu consegui encontrar. Estava completamente perdido, naquele mundo, agora mais intensamente vermelho e que, também agora, me parecia circular, e, na minha cabeça, reinava a mais completa confusão.

Cheguei derreado ao Grande Lago e, num impulso violento, larguei o fardo, atirando o saco de pedras para o chão. Para me refrescar, não tive tempo de me atirar à água, que ali, naquele mundo estranho, também era da cor do sangue, pois, subitamente, fui atacado por uma forte convulsão, com o corpo e os braços a tremerem freneticamente, de uma forma descontrolada.


O meu corpo começou a aquecer e percebi que já estava a contrair um grande febrão, que me queimava os neurónios e as entranhas. Gritei, a pedir água. E foi neste momento que vi uma mulher - que, na sua pose e nas suas vestes, se parecia com a mulher de um faraó, do Antigo Egipto - a levantar-se de um trono de ouro, com toda a dignidade imperial, e a começar a descer, com um jarro, apoiado na anca, uma grande escadaria de mármore.

Bebi com uma enorme sofreguidão a água que me era oferecida por aquelas mãos delicadas, e foi quando ela começou a acariciar-me os cabelos revoltos, que eu desmaiei, pensando que tinha morrido.

Acordei para a realidade terrena na cama de um hospital, onde, no limite da negra fronteira, me salvaram a vida, exorcizando o fantasma da morte.

                                                                                                              Alexandre de Castro
2018 06 07

***«»***

O optimismo que exprimi na minha última mensagem, a de 26 de Maio de 2018, no dia seguinte à realização da biópsia à próstata, não passou de uma efémera manifestação de um fogo-fátuo.

Ao princípio da noite, fui acometido por uma forte convulsão, que se manifestou por fortes e incontroláveis tremores do corpo, com os braços a oscilarem a um ritmo veloz e frenético. Fui para a urgência do Hospital de S. José, onde me trataram, para eliminar o tremor, antes de me internarem no Serviço de Urologia, onde permaneci até o dia de ontem.

Tudo isto resultou de uma infecção, ao nível da próstata, provocada por uma bactéria hospitalar, que se infiltrou no meu corpo, durante realização da biópsia. Teria morrido, se me tivesse atrasado, duas ou três horas, a ser submetido a um tratamento com antibióticos específicos, em doses cavalares.

Com a temperatura corporal a ultrapassar a barreira dos 40º C, delirei durante a noite. Não me lembro nada desses momentos, em que perdi a noção do espaço e do tempo. Disseram-me, na manhã seguinte, os três companheiros, com quem compartilhei a mini enfermaria, que, durante a noite, em pleno delírio, falava com imaginários interlocutores e que nomeei, pelo nome os meus sobrinhos-netos, incluindo o que nasceu recentemente, que tem cinco meses, e que leva o meu nome. Disseram-me também que peguei no meu saco, a fim de fugir do hospital.

No dia seguinte, a confusão na minha cabeça era muita e perdi a memória recente. Quando vinha para o corredor, para ir à casa de banho, perdia-me no caminho de regresso (uns três metros de distância, apenas). Numa das vezes, entrei na mini enfermaria, onde se encontravam quatro mulheres, que começaram a gritar e a tocar todas as campainhas de alarme, para chamar os enfermeiros e as enfermeiras.

Tenho a consciência que incomodei muito os meus três companheiros de camarata, pois não os deixei dormir sossegadamente, que era o que eles precisavam, pois estavam a recuperar de intervenções cirúrgicas.

Ao quarto dia de internamento, a temperatura regressou à normalidade, o que era imperioso acontecer, para eu poder ter alta e regressar a casa.

Naqueles pensamentos solitários, sobre o meu estado de saúde, alarmava-me com a terrível hipótese de poder perder a capacidade de escrever. Mas a ausência de lesões cerebrais, assumidas por um TAC, entretanto realizado, tranquilizou-me. E, na verdade, este texto, que estou a escrever, mostra que a minha capacidade de escrita não foi afectada.

                                                                                                              Alexandre de Castro
2018 06 07

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Ary dos Santos - As Portas Que Abril Abriu





As Portas Que Abril Abriu

Não posso deixar de emocionar-me até às lágrimas e com um grande nó a atar-me a garganta, ao ouvir a vigorosa voz de Ary dos Santos, a declamar, com força e emoção, o seu grandioso poema, "As Portas Que Abril Abriu", que é o grande poema da Revolução de Abril e, revolução essa, que o povo, com toda a sua criatividade, logo baptizou como a Revolução dos Cravos, tal foi a profusão de cravos que alastrou pelas ruas de Lisboa, como se tratasse de um fenómeno de geração espontânea, e que começaram a engalanar os canos das espingardas e as coberturas dos tanques.

Fica-nos na memória todo o romantismo que esta revolução inspirou à minha geração, que a viveu em profundidade, com muito amor e com muita convicção, alimentando aquela esperança de que, com o derrube do caduco regime fascista, iríamos construir um país novo.

E essa esperança ainda não morreu, nem pode morrer.

[Por motivos de força maior, não poderei estar presente no desfile da avenida, que, por sinal, se chama da Liberdade. Cantem por mim a "Grândola, Vila Morena".

Alexandre de Castro
2018 04 25

segunda-feira, 12 de março de 2018

Soberbio Dali




Depois de Dali e de Picasso, nada passou a ser igual no universo da Pintura.
A transgressão do cânone é o motor das revoluções, sejam elas artísticas, políticas, sociais, económicas, tecnológicas ou de outra natureza. Por isso, não aceitemos nada como definitivo, nem nos acomodemos à inércia da nossa mente, que nos convida preguiçosamente a ofuscar a nossa clarividência.

Alexandre de Castro
2018 03 11

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Eva devia ter sido mais ou menos assim...


Eva devia ter sido mais ou menos assim...

Eva deveria ter sido mais ou menos assim, não sendo, pois, de admirar que Adão resvalasse para a tentação da carne, tentação esta representada pudicamente no texto bíblico por uma maçã. Só não sei por que razão Deus se terá arrependido de criar a criatura e de não ter tido o divino atrevimento de a eliminar da face da Terra, construindo assim um mundo muito mais desinteressante, mais a seu gosto.
Alexandre de Castro
2007 Julho

sábado, 22 de julho de 2017

A Origem das Religiões (*)


A Origem das Religiões (*)

Estamos na presença de um texto rigoroso, que procura tentar compreender a complexa relação entre o Homem e a Religião. E o autor define, logo no início, o campo da sua visão, com o qual concordo, quando diz que "a religiosidade, como geralmente a entendemos, vivida por espíritos conservadores, é uma limitadora das possibilidades humanas". Mas, além das vivências actuais, baseadas nas Religiões do Livro, que, no Ocidente, aprofundaram, desde a sua origem, essa capacidade limitadora da mente dos crentes, o que possibilitou a sua avançada forma de institucionalização, temos de encontrar, através da Antropologia, a razão primeira dessa enraizada pré-disposição do Homem para se sujeitar acriticamente a uma tal situação de subjugação.
Dou como garantido que a crença numa entidade superior começou com os primeiros grunhidos da Humanidade. Ou seja, associou-se naturalmente ao desenvolvimento dos mais primitivos pensamentos dos Homo sapiens, pensamentos ainda lineares e esquemáticos, e das primeiras tentativas de articular sons guturais, com os quais pretendiam comunicar. E nesses primeiros pensamentos,  embora muito concentrados à volta das questões da sua subsistência, surgiu naturalmente a primeira pergunta sobre a sua própria identidade e a identidade de quem construíra o mundo visível a seus olhos, processo esse que durou milhares de anos, o tempo suficiente para projectarem a mente para o Além, para uma entidade invisível superior. Nascera a crença... Mais uns milhares de anos, mais à frente, quando a organização social evoluiu para as formas superiores da sua hierarquização, aceitando um líder que se impunha pelo seu poder, é que se inicia o processo da institucionalização da crença. O próprio poder político necessitava, para se legitimar, do novo poder que surgia, o poder religioso, normalmente concentrado no líder, que rapidamente sentiu a necessidade de ser acolitado por clérigos obedientes.
E assim chegamos ao Judaísmo, ao Cristianismo e ao Islamismo, a marcarem o tempo da História, e constituindo-se em objecto e pretexto de muitas guerras.
Alexandre de Castro

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Raízes - "Boiada" _ Uma Nota sobre etnografia



BOIADA

(MINHO)

Labra boi e torna a labrar
Pedei ao Senhor que nos benha ajudar
Ei ei ei boi a labrar ei
Ei boi a labrar
Ei, ei

Que dais a quem os bai ver
Ó Senhora do Alibio
Que dais a quem bos bai ber
Bom terreiro p’ra dançar
Água fresca p’ra beber
Ó Senhora do Alibio
Que dais a quem bos bai ber

Senhora tão pequenina
Ó Senhora do Alíbio
Senhora tão pequenina
Comadre da minha mãe
Senhora minha madrinha
Ó Senhora do Alíbio
Senhora tão pequenina

Labra boi labra por trás da capela
Pica e repica na baca amarela
Ei ei ei boi labrar ei
Ei boi a labrar
Ei, ei

Tudo é caminho e chão
P’ra Senhora do Alíbio
Tudo é caminho e chão
Tudo são crabos e rosas
“Prantados” por minha mão
P’ra Senhora do Alíbio
Tudo é caminho e chão

O bosso mosteiro cheira
Ó Senhora do Alíbio
O bosso mosteiro cheira
Cheira a crabo cheira a rosa
Ao botão de laranjeira
Ó Senhora do Alíbio
O bosso mosteiro cheira

Labra boi labra por trás do arado
O nosso labrador
Merece um cigarro
Ei ei ei a labrar ei
Ei boi a labrar
Ei, ei

Eu já estou alibiado
Ó Senhora do Alíbio
Eu já estou alibiado
Duma fala que me deste
Eu fiquei desenganado
Ó Senhora do Alíbio
Eu já estou alibiado

In Raízes G. A. C.

***«»***
Eu não sei em que estado se encontra o trabalho de uma recolha sistematizada do património imaterial português. Também não sei se o Ministério da Cultura dedica a devida atenção à investigação, recolha, tratamento e divulgação do imenso material etnográfico que ainda existe nos territórios, geograficamente mais profundos, do país, e que, com a desertificação humana e com a penetração dos meios audiovisuais e das novas tecnologias, está ameaçado de extinção. Falta-me também informação sobre a investigação académica das universidades, que ministram cursos de Antropologia Social, e se essa investigação está articulada com planos consistentes, já existentes, ou se se remetem, de uma forma elitista, ao mundo fechado dos seus saberes, obedecendo mais aos seus interesses institucionais e voluntaristas.

O que sei é que, num trabalho desta importância e envergadura, é necessária uma colaboração dos vários agentes culturais, não ignorando as iniciativas locais e particulares, que não podem ser excluídas.

Um plano central do Ministério da Cultura, negociado entre todos os vários agentes, vocacionados para esta área do conhecimento, é necessário. Um plano central, metodicamente bem organizado e bem estruturado, em relação aos objectivos, aos meios materiais necessários, ao financiamento justo e equilibrado, e ao controle da execução e dos resultados. Tem de ser um plano rigoroso, mas que não seja asfixiante, com os excessos de burocracias paralisantes e que permita e estimule as capacidades de iniciativa e de criatividade dos agentes culturais locais. Apenas um exemplo para explicitar melhor esta última ideia. Se num determinado lugar do país, ignorado ou esquecido pelos poderes centrais institucionais, pretender-se revigorar aspectos do seu património imaterial, o plano deve contemplar, de uma forma aberta, a deslocação de personalidades académicas que possam dar o seu contributo científico.

E as escolas? Que eu saiba (e eu sei pouco) não existem nos currículos escolares referências ao estudo elementar sobre o património cultural imaterial, pois o ensino está inteiramente vocacionado para o conhecimento utilitarista.
Se Portugal continuar a perder este riquíssimo património, ficará mais pobre, porque perderá a sua memória. E para saber quem somos, devemos saber de onde viemos e como viemos.

Estou a falar de cultura e não de adereços culturais, para mostrar aos turistas. Não estou a falar de futebol, que já parece ser um desígnio nacional, para mostrar lá fora que também somos grandes. Por estas vias enviesadas, o melhor que podemos ser, é grandes anões. 

Alexandre de Castro
2017 04 27

quarta-feira, 30 de março de 2016

A História daquela Sexta-feira negra, a que os cristãos chamam Santa [Conto]


A História daquela Sexta-feira negra, a que os cristãos chamam Santa

Há pouco, vi um pequeno filme que parodiava a Última Ceia, um filme de uma comicidade modesta e, até, de duvidoso gosto. Tomei o seguinte apontamento, que me veio à cabeça, naquele momento: "Afinal, aquilo foi tudo combinado". E comecei a imaginar que a história poderia ter sido outra, mais a meu gosto.
Não eram doze, mas treze, o número de pessoas que se reuniram com Jesus, num cenáculo de Jerusalém, para aquela famosa patuscada. Aos doze discípulos, juntou-se Maria Madalena, que teve de esconder-se debaixo da mesa, para não ficar na fotografia oficial, uma vez que as mulheres estavam excluídas destas reuniões, destinadas apenas a homens de barbas. Em jeito de compensação, no dia seguinte, e antes de ter sido preso, Jesus foi com Maria Madalena fazer um piquenique, num pequeno bosque, nos arredores da cidade, onde ainda tiveram tempo de cheirar as flores campestres, que já estavam a desabrochar, naquela Primavera, que, naquele ano, chegou muito quente. E foi num pequeno lago, que havia ali, que Maria Madalena deu o Último Banho" a Jesus, facto que foi ocultado pelos apóstolos, quando escreveram os Evangelhos, e isto porque lhes convinha apresentar Jesus aos crentes, como um ser totalmente assexuado. Como Maria Madalena estava muito fragilizada, porque, devido ao calor, teve três desmaios, Jesus foi a uma aldeia próxima e alugou, numa loja, uma bicicleta, a um fariseu, aluguer esse que nunca chegou a ser pago, e que,  por iniciativa dos respectivos e sucessivos herdeiros, ainda hoje anda em disputa nos tribunais eclesiásticos. E foi de bicicleta que ambos regressaram a Jerusalém, ele a pedalar e ela sentada no assento sobre a roda traseira. Foi já perto do Templo que uma patrulha de soldados romanos os mandou parar, tendo Jesus sido preso, por não ter licença de condução, passada pela autoridade administrativa romana. Os sacerdotes, que da escadaria do Templo presenciaram o incidente, e como não perdoavam a Jesus o facto de Ele se considerar o Messias, enviado por Jeová, souberam aproveitar a oportuna ocasião para o tramar, sublevando os judeus mais radicais e acusando o “impostor” de promiscuidade. E é com esta acusação que Jesus é levado à presença do cônsul Pilatos, que lavou as mãos e assobiou para o lado, sendo, então, a populaça enfurecida a condená-lo à crucificação.
Durante aquele tormentoso percurso até a gólgota, Jesus, carregando o pesado madeiro, sucumbiu três vezes, e, numa dessas quedas, foi Maria Madalena que lhe limpou a cara, suja de sangue e de terra, com um pano de linho, onde ficaram marcadas, como se fosse um negativo de uma fotografia a preto e branco, as linhas do rosto, onde sobressaiam os olhos a evidenciar grande sofrimento, e a coroa de espinhos, que a populaça, divertida, lhe enfiou na cabeça, como se, naqueles conturbados tempos, já existisse Carnaval.
Morreu trespassado por uma lança de um soldado romano, e nunca se chegou a saber se aquilo foi um gesto de misericórdia, para abreviar o sofrimento do condenado, ou se foi a manifestação de um automatismo, adquirido na guerra, em que, depois da batalha vencida, se assassinavam os feridos graves, a sangue frio.
Maria Madalena é que nunca mais retirou os olhos daquele rosto, um rosto que, ainda naquela manhã, ela vira iluminado por um clarão, que só a alegria do prazer dá, quando ambos cheiravam as flores campestres, no bosque. E ali ficou, sozinha, depois de os familiares e os seguidores de Jesus terem debandado, quando começou a anoitecer.
Julga-se que foi ela que retirou o corpo de Jesus da cruz, não se sabendo onde o sepultou. Também ninguém mais a viu. Ainda hoje, nas noites de lua cheia, se ouvem os seus gritos, a fazerem eco na cerca de muralhas da cidade. Mas ninguém quer ouvir estes gritos, porque Maria Madalena tornou-se incómoda para a História Universal das Verdades Eternas e Indiscutíveis, livro que se transformou no documento fundador do Internacionalismo Cristão, instituído por Paulo de Tarso, na sequência daquele clarão deslumbrante, que rasgou o Céu e iluminou a Terra, na Estrada de Damasco. 
Alexandre de Castro
Lisboa, Março de 2016

Publicado também aqui.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Pablo Picasso


Picasso fez uma revolução total na pintura. Uma ruptura radical com o passado e, de tal modo profunda e incisiva, que marcou não só a sua própria geração, mas, principalmente, todas as gerações que lhe sucederam, até à actualidade. Não há nenhum pintor da modernidade que não se inspire nas forma pictóricas, inventadas por Picasso.
Embora isto já tivesse sido tentado timidamente por pintores que o antecederam no tempo, foi com Picasso que a pintura deixou de ser uma representação do espaço real visível, para se transformar numa vibrante expressão criativa da imaginação, transmitida à tela. Para isso arriscou cortar com o cânone, recorrendo, em relação à forma, à distorção dos objectos e das figuras humanas, nestas principalmente ao nível da intervenção nos rostos (o espaço anatómico por ele preferido para fazer as suas experiências de representação, na procura de expressões geniais, bem vincadas)  e no recurso  às formas arredondadas dos corpos e ao jogos da desproporção das dimensões. Isto permitiu-lhe ganhar liberdade criativa (já que não pretendia captar o real) para poder jogar com o efeito das cores, principalmente as cores fortes e garridas, que acabavam por dominar o espaço visual do espectador.
Como se tivesse regressado à Idade Média, Picasso ignorou, na maioria dos seus trabalhos, a terceira dimensão, a da profundidade, para que o primeiro plano ganhasse relevo e importância. Seguiu um processo contrário ao do seu contemporâneo e compatriota, Salvador Dali (outro grande pintor), que, precisamente, preferiu a terceira dimensão para dar azo, através da desproporção das figuras, à sua imaginação febril e fantasmagórica.
Picasso ganhou a imortalidade. E vai ser difícil, nos próximos tempos, que um novo génio surja para lhe roubar a influência que continua a ter nos pintores da actualidade. Só se surgir uma revolução, recorrendo ao digital. Mas isso talvez não seja já pintura. Poderá ser outra coisa.

Alexandre de Castro  
4 de Novembro de 2015
***«»***



Carta a Picasso

(A propósito da pintura “Les Demoiselles d’ Avignon”)*

Não sei se as fodeste, antes de as pintares
para lhes matar o erotismo e a beleza
sei que não te enforcaste atrás da tela
como previra Derain
a carne rósea está lá, bem esquadrinhada,
sob o fundo azul da tua matriz original
e em explosivo esplendor,
resultado da tua arte,
mas espartilhada na frieza
das linhas firmes
rasgadas a régua e a esquadro.
Os rostos foram talhados a machado
e só os olhos brilham
em esquadrias angulosas
e não sei se há naqueles olhares
um qualquer desapiedado desprezo
ou algum apelo ou desagravo
ou até uma incisiva acusação,
pois ternura e afectos são coisas que lá não vejo.
Eu sei que te inspiraste em formas arcaicas
embora negues a herança negróide
do nariz de todas elas
mas quero dizer-te, Picasso,
com esta geometria descentrada
salvaste a pintura e a Humanidade
e soubeste afirmar a arte como mentira
tal como Plínio afirmou
a propósito daquele pintor romano
que pintou uvas tão perfeitas
que até os pássaros as foram debicar.
E, para comer, tu apenas nos deixaste
no fundo da tela
o cacho de uvas, a pêra, a maçã,
e uma talhada de melancia.
És um forreta, Picasso,
e agora já sei que as fodeste, antes de as pintares.

Alexandre de Castro

Ourém, Abril de 2009

* Célebre pintura de 1907, que inaugurou a corrente cubista.

sábado, 26 de setembro de 2015

PLANO DE ACÇÃO PARA SÓCRATES IR VOTAR...


PLANO DE ACÇÃO PARA SÓCRATES IR VOTAR...

É o problema do costume. Obcecados com os códigos e com as normas jurídicas, os polícias e os juízes demonstram uma flagrante falta de imaginação, perante o improviso [Ver aqui]. O meu esquema, para esta situação, a de Sócrates pretender ir votar para as eleições da Assembleia da República, é muito simples e não transgride a lei eleitoral, que proíbe a presença de força armada num raio de 100 metros, em redor do local onde funciona a assembleia eleitoral, excepto se o respectivo presidente da Mesa a convocar, em face da ocorrência de graves distúrbios. Ora, na minha ideia (eu não sou idiota, atenção!), é isso mesmo que eu proponho.
Combinado previamente com a polícia, o presidente da Mesa organiza uma grande zaragata com uns tipos recrutados no bairro da Cova da Moura, pagos para o efeito com verbas da campanha do PàF (onde será fácil, depois, inventar uma rubrica contabilística para justificar a saída do dinheiro, num processo muito parecido com o do défice virtual do OE 2014, devido ao dinheiro do Estado enfiado no Fundo de Resolução, por causa do Novo Banco). Perante isto, o presidente da Mesa telefona para a polícia, que já se encontra escondida nas imediações, num carro não descaracterizado e com o Sócrates preso e com um saco de serapilheira enfiado na cabeça. Saem do carro e levam o Sócrates, que, naturalmente, ninguém poderá reconhecer, até à assembleia de voto, onde ele, já sem o saco na cabeça, exercerá o seu direito de voto. Neste momento, já os meliantes da Cova da Moura deram à sola para uma determinada rua das redondezas, com muito pouco movimento, onde ficam à espera que alguém lhes vá pagar o dinheirinho combinado, pelo frete.
Depois de Sócrates votar, ele é rapidamente algemado (e um polícia simula uma ferida na testa com tinta vermelha, ao mesmo tempo que oculta o saco de serapilheira num saco de plástico, podendo mesmo ser um saco de plástico do Pingo Doce) e arrastam-no, assim algemado, para o carro da polícia, sob a acusação de que foi ele o responsável pelos distúrbios na assembleia de voto. Entretanto, à chegada da rua onde ficou estacionado o carro da polícia, já se encontram as câmaras da televisões, avisadas sigilosamente por um funcionário judicial anónimo, às ordens do juiz Carlos Alexandre e do procurador Rosário Teixeira.
Se este projecto se concretizar (já enviei a proposta para a Direcção Geral da PSP), vou ter um ataque de riso, quando o advogado de Sócrates, João Araújo, aparecer no telejornal, com aquele ar zangado, a esbracejar e a empurrar as chatas das jornalistas, que lhe irão perguntar, certamente, se o saco era mesmo de serapilheira e se irá fazer mais algum recurso…

domingo, 2 de agosto de 2015

Notas do meu rodapé: Temos de encontrar e conquistar uma nova Ceuta...


Temos de encontrar e conquistar uma nova Ceuta... Não para construir outro império nem para escravizar outros homens, mas para nos libertarmos do imperialismo alemão e deixarmos de ser escravos do capitalismo financeiro europeu. Uma nova Ceuta, que nos devolva a dignidade perdida e recupere a nossa auto-estima como povo. 
Está provado que não será na Europa que iremos encontrar o nosso desígnio colectivo, a não ser que essa Europa mude radicalmente de paradigmas.
Se D. Afonso Henriques, o rei fundador, venceu pela astúcia e pela bravura os leoneses e os mouros, ao mesmo tempo que consolidava politicamente as suas vitórias militares (ele foi também um grande estadista), D. João I, o fundador da nova dinastia que se formou, revolucionariamente, em consequência da grande crise de 1383-1385, foi um rei visionário, que percebeu a tempo a necessidade do seu reino ganhar uma nova força política e económica, expandindo-se e enriquecendo-se fora do contexto ibérico, onde não passava de um parceiro menor. A conquista de Ceuta foi a salvação do Portugal de então, e que sobreviveu até hoje (exceptuando os sessenta anos do domínio espanhol).
Passados seiscentos anos, e em contextos naturalmente diferentes, coloca-se novamente o problema da nossa sustentabilidade como país e da nossa identidade como povo. Perdido o império caduco e obsoleto, que, na sua agonia final, só trouxe problemas ao povo português e, particularmente, à minha geração, que foi obrigada a fazer a Guerra Colonial, Portugal, para sobreviver à humilhação, que só a revolução de Abril resgatou, entregou-se de braços abertos a uma Europa sedutora e moderna, mas da qual alguns de nós, eu incluído, tínhamos algumas razões para dela desconfiar. A anestesia da modernidade - aquela modernidade, cuja faceta mais ridícula foi aquela apressada corrida à compra das chapas de matrícula com as estrelinhas amarelas, para ostentar em automóveis obsoletos - durou quarenta anos, envolvendo duas gerações de portugueses. Em termos históricos, foi pouco tempo, mas deu para atingir o clímax do deslumbramento. Já participámos no Tratado de Maastricht, que fundou a a União Económica e Financeira da Europa e adoptou a moeda única. Poucos perceberam o alçapão que estava escondido debaixo dos nossos pés. Poucos perceberam (e até eram menosprezados por perceberem) que o euro tinha sido nivelado por cima, para servir as economias dos países ricos da Europa, principalmente a Alemanha e a França. Poucos perceberam, que, escondido no euro, estava a germinar a pulsão imperialista da Alemanha, que, para se impor no contexto global, necessitava de dominar política e economicamente a Europa. Veio a crise de 2008, e a Alemanha conseguiu camuflar a bolha especulativa dos bancos, concebendo um hábil estratagema, apoiado no falacioso argumento das dívidas públicas elevadas dos países do sul. O objectivo de forçar um maior endividamento público desses países, foi a fórmula encontrada para transferir as dívidas dos bancos e o valor dos seus produtos tóxicos para as dívidas públicas dos países intervencionados, impondo como garantia de retorno o produto proveniente da austeridade, que se vai perpetuar por longos anos. Ainda hoje, e apesar da crise grega ter posto a nu as intenções imperialistas da Alemanha, existe muita gente que não percebeu o esquema e vai votar nos intermediários políticos indígenas dos seus algozes.
Portugal (e também a Grécia) encontra-se na perigosa encruzilhada, em que o caminho que lhe está a ser imposto, é o do declínio irreversível, da pobreza, que virá a ser endémica, e da perda de tudo aquilo que ainda tem valor. Tudo irá para o sorvedouro da dívida. É necessário reagir. É necessário encontrar governantes da têmpera de D. Afonso Henriques e de D. João I (a que juntamos as figuras de D. João II e do Marquês do Pombal). Se estes talentosos e patrióticos estadistas ressuscitassem, iriam corar de vergonha com a situação degradante do país que ajudaram a construir. Dariam um murro na mesa e expulsariam do Templo os fariseus. É isso que temos de fazer, para iniciar o processo de regeneração.
Alexandre de Castro

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

O suplício da contagem do Tempo...


A trabalheira que não deu agarrar o tempo, para o medir! E, mesmo assim, as contas ainda não batem certo. Para acertar a medida do sapato ao tamanho do pé, este ano até vai perder um segundo. Isto, porque não há coincidência, ao nível do micro-segundo, entre o número de segundos, contido no nosso calendário de 365 dias e o tempo real que a Terra demora a dar uma volta completa em torno do Sol.
A existência do ano bissexto, em que Fevereiro aparece no calendário com 29 dias, de quatro em quatro anos, tem a mesma finalidade: a de sincronizar o tempo marcado no calendário com o tempo real de uma translação completa do nosso planeta, à volta do astro-rei. Isto, para que a bota dê com a perdigota ou para que o sapato corresponda à medida do pé. Matematicamente complicado? Muito! Mas a Matemática tem uma capacidade infinita igual à do universo e tanto funciona aqui, na Terra, como funciona em Marte.
Paremos aqui, para pensar no Universo: no seu movimento, na sua origem, na sua existência, na sua grandeza, e, aqui, volte a parar e não canse mais o cérebro, porque não vai lá. É humanamente impossível pensar o que é a grandeza do universo. Há quem fique maravilhado, mas também há quem fique doido. Eu pertenço ao segundo grupo. Mas não desanime se está integrado(a) no meu grupo, pois começa a haver esperança de cura. Os físicos e os astrónomos trabalham nesse sentido, varrendo os céus com os seus potentes telescópios, num afã desesperado para tocar na unha, do dedo polegar da mão direita de Deus, ou da mão esquerda, admitindo que Ele possa ser canhoto. E eu farto-me de pedir a Deus para que Deus seja canhoto, o que é um absurdo, tal como é absurdo pensarmos nisto tudo e acabarmos por ficar a olhar para o vazio. Um vazio horrível, que também assustou os humanoides, quando começaram a articular as primitivas formas de pensamento lógico e abstrato, o que os levou logo a inventar a figura de Deus, que, na altura, eles figuravam, provavelmente, apenas como uma nebulosa difusa e translúcida. Assim, ficaram mais calmos, sempre que ouviam os trovões ou sentiam, de tempos a tempos, a terra a tremer, debaixo dos pés. Felizmente, para nossa sorte, com o correr lento do próprio tempo da evolução da espécie, também inventaram o fogo, a roda, e toda uma série de úteis invenções, até chegarmos aqui, a este texto, e a outros milhares de textos da mesma natureza, para nos interrogarmos, olhando, de forma abrangente, para o nosso longínquo passado e hesitando em olhar para o futuro. Como será? Ainda não ouvi ninguém responder, porque a pergunta também é absurda. Tal como absurda será uma qualquer hipotética resposta.

Alexandre de Castro

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Crónica dos dias contados [a propósito das homenagens a Humberto Delgado]



Crónica dos dias contados
[a propósito das homenagens a Humberto Delgado]

Eu tinha apenas catorze anos de idade, quando vi pela primeira vez o General Sem Medo. Foi em Lamego, cidade por onde passou, a caminho de Viseu, onde se realizou um comício da sua candidatura à Presidência da República. Juntamente, com outra malta do liceu, fui assistir à sua chegada, ao Largo dos Combatentes da Primeira Guerra Mundial, onde colocou um ramo de flores na base do imponente monumento ao Soldado Desconhecido. Já não me lembro bem se ele apareceu fardado e se teve direito a uma Guarda de Honra, formada por militares do Regimento de Infantaria Nº 9, aquartelado na cidade. Lembro-me sim, da presença de uma delegação oficial daquela instituição militar, composta pelo comandante da unidade e por mais alguns oficiais de elevada patente, que envergavam o uniforme nº1, sinal da importância do ato, no cânone militar. Tratava-se de um general…
Percebeu-se o embaraço do comandante do regimento, quando, depois da continência devida e de um cumprimento de mão, conversou brevemente com Humberto Delgado. A medo, alguns populares bateram palmas. O Medo!... É verdade, o medo!.. Medo de ser preso, medo de perder o emprego, caso se tratasse de funcionários do Estado. E foi esse mesmo justificado medo que levou algumas pessoas a não se exporem naquela receção, entre elas alguns notáveis da cidade, republicanos oposicionistas de longa data e oposicionistas recentes, que perceberam ser Delgado o homem certo para enfrentar a soberba do sinistro Salazar, perceção esta que se formou, a partir do momento em que o general, em resposta a uma pergunta de um jornalista, na conferência de imprensa de apresentação da sua candidatura, no café Gelo, em Lisboa, lançou para o ar aquela frase assassina, em relação ao ditador. “Obviamente, demito-o”.
Foi a primeira vez que Salazar caiu da cadeira, pois aquela frase era uma afronta, que ele sentiu para além do mundo cinzento da política. Foi o seu orgulho, que ficou ferido de morte. De tal forma, que se vingou ferozmente, dando ordem à PIDE para assassinar o general.
Aquele grupo de oposicionistas, para fugir à vigilância dos esbirros, deslocou-se de automóvel, pela estrada que liga Lamego a Viseu, para um sítio previamente combinado, antes de se chegar a Castro D’ Aire, e tendo aí esperado o General Sem Medo, para o abraçar e lhe manifestar o seu indefectível apoio. Num desses abraços, é apanhado o Dr. Abrantes de Cunha, reitor do liceu e meu professor de Português, professor que eu admirei muito, pois foi pela sua ação pedagógica e didática, que eu aprendi a Gramática e os fundamentos da Literatura Portuguesa. Mais tarde vim a reencontrá-lo no Casino Estoril.
A fotografia daquele fatídico abraço ao general Humberto Delgado, tirada por um fotógrafo profissional da cidade, que a expôs, juntamente com outras, na montra da sua loja, eriçou imediatamente os esbirros, que rapidamente a retiraram, tendo-a guardado como prova do delito. Passados poucos dias, o Dr Abrantes da Cunha era irradiado. Foi demitido das funções de reitor e foi transferido para o liceu da Covilhã.
Este episódio foi o acontecimento mais doloroso, que eu relatei no meu romance, “O Bando do Liceu”, um romance que me deu um grande prazer em o escrever.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Testamento Político de D. Luía da Cunha [antecedido por um comentário]

D. Luís da Cunha
(Busto em mármore deJan Baptist Xavery)

O testamento político de D. Luís da Cunha é um dos textos políticos doutrinários mais importantes da História de Portugal. Nele, o aristocrata e diplomata, o homem culto e com uma clara visão estratégica, define a nova concepção do poder político para Portugal, importando e adaptando sabiamente as ideias que já estavam a ser implementadas na Europa no século XVIII: um poder autoritário, centrado na figura do monarca, mas que, ao assumir-se como agente conciliador dos interesses contraditórios das várias classes sociais, promovesse o avanço económico, fomentasse a formação de elites esclarecidas e melhorasse o bem-estar geral da população (de acordo com o contexto dominante e a escala de valores da época).
Foi neste caldo político e cultural da Europa de setecentos que ocorreu o advento da primeira revolução industrial e se fomentou o aparecimento de novas concepções do comércio nacional e internacional (a globalização daquele tempo). Foi também durante a época do Iluminismo que começaram a surgir, com os enciclopedistas, as novas ideias liberais, abrindo-se assim o caminho para a grande Revolução Francesa.
D. Luís da Cunha, ao propôr o nome do futuro Marquês do Pombal ao príncipe herdeiro, D. José, para ministro do Reino, e aconselhando uma investidura com ampla delegação de poderes, estava a sugerir a assumpção da figura do “déspota esclarecido”, que, com a razão da Luzes e uma vontade política assente numa férrea autoridade, conduzisse o atrasado e empobrecido Reino pela senda do progresso. E Pombal desempenhou bem esse papel, apesar de ter recorrido a métodos brutais para impor a sua vontade. Mas, com a morte do Rei e com a subida ao trono da beata D. Maria I, o clero e a nobreza – portadores de um atavismo secular, de que ainda hoje sobram resquícios na sociedade portuguesa, impenitentemente avessos ao progresso económico e social, curtos de vista e de inteligência, e avaramente instaladas no cómodo e favorável sistema de rendas, que extorquiam às classes laboriosas – depressa derrubaram Sebastião José de Mello, humilhando-o publicamente, através da sua grotesca exposição aos insultos de uma populaça enfurecida, devidamente açulada dos púlpitos, para o efeito, e acabando por o desterrar para as suas terras de Pombal, onde viria a falecer.
Portugal regrediu novamente, afundando-se no seu endémico e secular marasmo e ostracismo.
O importante texto de D. Luís da Cunha também permite compreender a história política, económica e diplomática do século XVIII, a do Reino e a da Europa. É um documento longo, que se aconselha a ler faseadamente, para, ao mesmo tempo, se poder saborear o magnífico manejo da língua portuguesa por parte do autor, digno herdeiro de Vieira, na elegância e rigor das frases, na lógica discursiva e na profundidade e amplitude das ideias expressas.
Como diplomata, registe-se a sua astúcia e determinação, bem ilustrada no episódio em que o cardeal-ministro Alberoni, de Espanha, lhe voltou ostensivamente as costas durante uma audiência. D. Luís da Cunha não desarmou. Avaliando a fragilidade do governo de Madrid, a braços com um uma guerra com a França, exigiu vigorosamente públicas desculpas pela ofensa feita, na sua pessoa, ao governo de Portugal, e ameaçou com o corte de relações diplomáricas, o que logo foi entendido, pelos espanhóis, como uma ameaça velada ao estabelecimento de uma aliança de Portugal com a inimiga França. D. Luís da Cunha acabou por obter a rectificação do incidente, assim vergando a espinha do cardeal-ministro e domesticando a arrogância da orgulhosa Espanha.
Verney, Ribeiro Sanches, Luís da Cunha e o Marquês do Pombal foram, em Portugal, as figuras marcantes do século das Luzes, figuras estas que, depois, tiveram o seu contrapeso, já no final do século, no sinistro Pina Manique, o célebre Intendente-Geral, que via pedreiros-livres por baixo de todas as pedras das calçadas.
Ocorreu-me esta ideia, a de ressuscitar o documento de D. Luís da Cunha (documento e personalidade, ambos mal conhecidos pela opinião pública) e de tecer breves considerações sobre o Portugal do século XVIII, no momento em que decorre a farsa televisiva da eleição do melhor português de sempre, e onde se assistiu à glorificação de mafiosos célebres, de futebolistas e fadistas analfabetos e de antigos governantes bolorentos, de má memória, e ignorando-se muitas personalidades ilustres que, no passado, dignificaram o País.
Eu, por mim, votei no Zé do Telhado, lendário salteador de Entre-Douro e Minho, cuja imagem melhor retrata este país. Para mais, este bandoleiro simpático tinha por hábito redistribuir uma parte do pecúlio dos seus saques pela gente pobre e necessitada. Também Camilo Castelo-Branco, que o conheceu, e sobre ele escreveu, não foi insensível à sua aura.

Alexandre de Castro
Fevereiro de 2007

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

A propósito do Testamento Político de D. Luís da Cunha

D. Luís da Cunha
(Busto em mármore deJan Baptist Xavery)
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O testamento político de D. Luís da Cunha é um dos textos políticos doutrinários mais importantes da História de Portugal. Nele, o aristocrata e diplomata, o homem culto e com uma clara visão estratégica, define a nova concepção do poder político para Portugal, importando e adaptando sabiamente as ideias que já estavam a ser implementadas na Europa no século XVIII: um poder autoritário, centrado na figura do monarca, mas que, ao assumir-se como agente conciliador dos interesses contraditórios das várias classes sociais, promovesse o avanço económico, fomentasse a formação de elites esclarecidas e melhorasse o bem-estar geral da população (de acordo com o contexto dominante e a escala de valores da época).
Foi neste caldo político e cultural da Europa de setecentos que ocorreu o advento da primeira revolução industrial e se fomentou o aparecimento de novas concepções do comércio nacional e internacional (a globalização daquele tempo). Foi também durante a época do Iluminismo que começaram a surgir, com os enciclopedistas, as novas ideias liberais, abrindo-se assim o caminho para a grande Revolução Francesa.
D. Luís da Cunha, ao propôr o nome do futuro Marquês do Pombal ao príncipe herdeiro, D. José, para ministro do Reino, e aconselhando uma investidura com ampla delegação de poderes, estava a sugerir a assumpção da figura do “déspota esclarecido”, que, com a razão da Luzes e uma vontade política assente numa férrea autoridade, conduzisse o atrasado e empobrecido Reino pela senda do progresso. E Pombal desempenhou bem esse papel, apesar de ter recorrido a métodos brutais para impor a sua vontade. Mas, com a morte do Rei e com a subida ao trono da beata D. Maria I, o clero e a nobreza – portadores de um atavismo secular, de que ainda hoje sobram resquícios na sociedade portuguesa, impenitentemente avessos ao progresso económico e social, curtos de vista e de inteligência, e avaramente instaladas no cómodo e favorável sistema de rendas, que extorquiam às classes laboriosas – depressa derrubaram Sebastião José de Mello, humilhando-o publicamente, através da sua grotesca exposição aos insultos de uma populaça enfurecida, devidamente açulada dos púlpitos, para o efeito, e acabando por o desterrar para as suas terras de Pombal, onde viria a falecer.
Portugal regrediu novamente, afundando-se no seu endémico e secular marasmo e ostracismo.
O importante texto de D. Luís da Cunha também permite compreender a história política, económica e diplomática do século XVIII, a do Reino e a da Europa. É um documento longo, que se aconselha a ler faseadamente, para, ao mesmo tempo, se poder saborear o magnífico manejo da língua portuguesa por parte do autor, digno herdeiro de Vieira, na elegância e rigor das frases, na lógica discursiva e na profundidade e amplitude das ideias expressas.
Como diplomata, registe-se a sua astúcia e determinação, bem ilustrada no episódio em que o cardeal-ministro Alberoni, de Espanha, lhe voltou ostensivamente as costas durante uma audiência. D. Luís da Cunha não desarmou. Avaliando a fragilidade do governo de Madrid, a braços com um uma guerra com a França, exigiu vigorosamente públicas desculpas pela ofensa feita, na sua pessoa, ao governo de Portugal, e ameaçou com o corte de relações diplomáricas, o que logo foi entendido, pelos espanhóis, como uma ameaça velada ao estabelecimento de uma aliança de Portugal com a inimiga França. D. Luís da Cunha acabou por obter a rectificação do incidente, assim vergando a espinha do cardeal-ministro e domesticando a arrogância da orgulhosa Espanha.
Verney, Ribeiro Sanches, Luís da Cunha e o Marquês do Pombal foram, em Portugal, as figuras marcantes do século das Luzes, figuras estas que, depois, tiveram o seu contrapeso, já no final do século, no sinistro Pina Manique, o célebre Intendente-Geral, que via pedreiros-livres por baixo de todas as pedras das calçadas.
Ocorreu-me esta ideia, a de ressuscitar o documento de D. Luís da Cunha (documento e personalidade, ambos mal conhecidos pela opinião pública) e de tecer breves considerações sobre o Portugal do século XVIII, no momento em que decorre a farsa televisiva da eleição do melhor português de sempre, e onde se assistiu à glorificação de mafiosos célebres, futebolistas e fadistas analfabetos e antigos governantes bolorentos e de má memória e ignorar muitas personalidades ilustres que dignificaram o País.
Eu, por mim, votei no Zé do Telhado, lendário salteador de Entre-Douro e Minho, cuja imagem melhor retrata este país. Para mais, este bandoleiro simpático tinha por hábito redistribuir uma parte do pecúlio dos seus saques pela gente pobre e necessitada. Também Camilo Castelo-Branco, que o conheceu, e sobre ele escreveu, não foi insensível à sua aura.

Alexandre de Castro
Fevereiro de 2007
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Nos próximos dias, serão publicadas, em separado. as três partes que compõem o "Testamento Político de D. Luís da Cunha".

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

TREGUA DE NAVIDAD EN 1914 DURANTE LA 1ª GUERRA MUNDIAL - NARRADO POR IKE...




Não era necessário inventar o Inferno, para meter medo aos homens... O Inferno apareceu nas trincheiras da Flandres, pela mão dos próprios homens...
As tréguas informais e espontâneas, que os soldados de ambos os lados do conflito armado selaram na terra de ninguém, no Natal de 1914, devem fazer-nos refletir sobre a iniquidade e o absurdo da guerra.
Só há dois tipos de guerra que se auto-justificam: A guerra de legítima defesa e aquela que, no limite, se desencadeia para a conquista das liberdades dos povos.   

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Foi há 100 anos que aconteceu "Natal", na guerra...


Foi há 100 anos!... Foi há 100 anos, no primeiro Natal da Primeira Grande Guerra, que o instinto do Homem se elevou ao patamar da fraternidade, ultrapassando a animosidade gerada por um violento conflito armado, que ensanguentou e destruiu o miolo da Europa, causando uma mortandade inimaginável. Saindo das trincheiras, onde viviam miseravelmente como toupeiras, os soldados alemães, ingleses e francesas, ressuscitando o espírito do Natal, vivido nas suas vidas e nos locais das suas origens, resolveram todos confraternizar na terra de ninguém, abraçando-se, trocando entre si presentes e comida e, esquecendo o violento estrondo dos canhões e o matraquear cadenciado das metralhadoras, começaram a cantar as melodias emocionantes do Natal. Para "matar" o frio e fazer esquecer o tempo, jogaram entre si renhidas partidas de futebol. Os generais de ambos os lados ficaram furiosos com aquela subversão "sentimental", expressa na impensável e surpreendente confraternização entre soldados que pertenciam a exércitos inimigos, ao ponto de, nos anos seguintes, a proibirem terminantemente.
Naquele inverno de 1914, na quadra natalícia que aproxima e emociona parte da Humanidade, o coração falou mais alto do que as balas das espingardas.
Alexandre de Castro