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quinta-feira, 12 de abril de 2018

Resposta a uma pergunta sobre o texto “A bivalência da coisa”


Resposta a uma pergunta sobre
o texto “A bivalência da coisa”


Num Grupo do facebook, um leitor interessado, reagiu ao meu texto, A bivalência da coisa, também aqui publicado, deixando a seguinte pergunta: Qual a solução?

Respondi assim:

Há várias soluções, A T:

1ª - Se eu tivesse uma bomba atómica, lançava-a no edifício da sede da UE. Cortava-se o mal pela raiz.

2ª - Forçar, da parte do governo português, a renegociação da dívida e a sua reestruturação, perdoando-se parte do seu montante e alongando o prazo da sua total liquidação, para dar folga a Portugal, que assim poderia aumentar o investimento público, de forma a fazer crescer a economia para os quatro e cinco por cento, o que não está a ser conseguido, nem pode estar, porque a dívida contraída às entidades da troika, tal como está estruturada, constitui um verdadeiro garrote para a economia portuguesa.

Não está a pedir-se nada que a então Alemanha Ocidental não tenha pedido aos países vencedores da Segunda Guerra Mundial, em relação ao pagamento das indemnizações de guerra, entretanto transformadas em dívida

Recorde-se que, quando o governo da nossa desgraça assinou o acordo com a troika, o cálculo então feito - para que Portugal conseguisse pagar a dívida até ao prazo estabelecido (2035 para a dívida do FMI e 2036 para a dívida ao BCE e à Comissão Europeia) - apontava para a necessidade da economia portuguesa crescer os tais quatro a cinco por cento, ao ano. Ora, nos últimos três exercícios anuais, o crescimento da economia nem sequer chegou a metade dessa percentagem, nem nunca vai chegar, se não houver dinheiro para mais investimento público.

A não se negociar nada, o esforço orçamental do Estado português terá de ser muito maior, em prejuízo dos salários, das pensões e do Serviço Nacional de Saúde, como, aliás, já está a acontecer com o Orçamento de Estado deste ano. E, com excepção dos anos eleitorais, os orçamentos serão cada vez mais apertados, o que se vai repercutir na descida gradual do nível de vida dos portugueses, no aumento da pobreza e na degradação do Estado Social.

Pergunto: É isto que os portugueses querem? É desta forma cruel que a Europa é amiga de Portugal? É a isto que se chama virar a página, como António Costa anda sempre a dizer?

3ª– Se a primeira hipótese é inviável, impraticável e impossível e a segunda é rejeitada pelos partidos europeístas nacionais, então o melhor é ir à bruxa.
É o que eu também vou fazer.

Alexandre de Castro
2018 04 12

segunda-feira, 26 de março de 2018

Défice orçamental armadilhado…





Défice orçamental armadilhado…


O ministro das Finanças, Mário Centeno, atacou o Eurostat
por ter "preconizado uma decisão errada" ao incluir
o custo com a capitalização da Caixa Geral de
Depósitos (CGD) no défice público de
2017 (em contabilidade nacional), fazendo-o
subir para 3% do produto interno
bruto (PIB). Se o Eurostat não
o tivesse feito, a operação
da CGD iria apenas à dívida
e o défice final seria
de 0,9%.


Tecnicamente o Eurostat tem razão. A injecção, feita pelo accionista Estado, na Caixa Geral de Depósitos, em 2017, no valor de 3.944 milhões de euros, a fim de evitar a sua insolvência, deve ser registada como despesa no Orçamento de Estado daquele ano. E isto, por uma razão muito simples, que nenhum artifício político pode desmentir. É que, desde sempre, quando a Caixa Gera de Depósitos obtinha lucros, os respectivos dividendos, entregues ao accionista Estado, eram contabilizados, em termos orçamentais, como receita. Não se pode, ao mesmo tempo, ter sol na eira e chuva no nabal, nem mudar as regras, ao sabor das conveniências do momento.
No entanto, falta saber se não houve veneno político nesta decisão do Eurostat, destinada a obrigar Portugal a ir mais além na política de austeridade, uma vez que, com esta manobra contabilística, o défice orçamental de 2017 trepa dos 0,9% (já andavam por aí a lançar foguetes) para os três por cento, que é o que vai valer, no futuro, para os burocratas de Bruxelas , que mandam no país - situação que muitos portugueses ainda não perceberam, porque teimam em não querer perceber - poderem impor rígidas barreiras aos gastos do Estado Português, principalmente ao nível da Saúde e da Educação, dois pilares exemplares do nosso Estado Social, que eles e os seus patrões (leia-se Alemanha e França) ainda não conseguiram engolir.

Alexandre de Castro
2018 03 26

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

A Bomba Atómica demográfica


A Bomba Atómica demográfica

Não sei!... Não sei se vai ser possível agradar a Gregos e a Troianos, ou seja, às instâncias europeias e ao projecto da nossa Geringonça.

Portugal, para pagar a dívida, necessitaria de crescer cinco por cento por ano, até 2036, cálculo este que é de 2014, E esse crescimento não se verificou em 2015, em 2016, em 2017, nem vai ocorrer em 2018, segundo o OE. Assim, já se perderam quatro anos, o que quer dizer que a fatia do pagamento da dívida terá de aumentar nos anos seguintes.

O crescimento de 2017 deveu-se muito ao Turismo, mas esse crescimento não é infinito. Há um ponto de saturação que, segundo os especialistas, já foi atingido. E, nos outros sectores da economia, o investimento está a ser colocado em sectores de baixo valor acrescentado e de oferta de emprego mal remunerado, tal com ainda ontem um gabinete da comissão europeia alertou (eles atá são nossos amigos). Com esta ambição rasteira, o crescimento será mínimo.

Mas há um problema super estrutural, de longo prazo, que não está a ser considerado, pois o governo é obrigado, pela conjuntura actual, a governar a curto e a médio prazo, e sempre com um olho no burro e outro no cigano (adivinhe o leitor quem é o burro e quem é o cigano). Trate-se do alarmante défice demográfico, que, tal como um cancro, vai minando a estrutura etária da população portuguesa. Nos próximos dez anos, a natalidade vai sofrer um grande rombo, porque a actual geração de jovens não teve, não tem, nem vai ter condições de vida, que lhe permita ter filhos. Este problema, que estava circunscrito ao mundo rural, por efeito da emigração, passa a ser também um problema das cidades. E com uma demografia adversa, não há economia real que resista. Se repararmos, este pilar, essencial para o desenvolvimento, não está ser considerado. E os nossos governantes, a Merkel e a Comissão Europeia sabem isto, mas assobiam para o lado e metem o lixo debaixo do tapete, e fazem o seguinte raciocínio, quem vier atrás que feche a porta.

A continuar esta situação de impasse, a bomba atómica acabará mesmo por rebentar.
Alexandre de Castro
2017 11 14

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

O negócio do ouro do Banco de Portugal




O negócio do ouro do Banco de Portugal

Na página do PORTUGAL GLORIOSO, Sérgio Passos denuncia que, entre 25 de Abril de 1974 e a actualidade, e por uma quantia de cerca de 17 mil milhões de euros, foram vendidas, ao desbarato, 483 toneladas de ouro do Banco de Portugal, tendo sido Vítor Constâncio, enquanto Governador, o campeão dessas vendas, pois só à sua conta, e numa altura em que a cotação do ouro estava baixa, vendeu, até 2009, 224,2 toneladas desse metal, que nos dias de hoje valeriam mais 8.000 milhões de euros, do que valiam em 2009. Tratou-se de um verdadeiro regabofe, com graves repercussões na economia e nas finanças do país, e que levanta algumas apreensões sobre a transparência destas operações, já que, na altura em que Vítor Constâncio intensificou essas vendas, vivia-se sob o consulado de José Sócrates, caracterizado por uma série de escândalos financeiros, que agora estão a ser investigados, pela Justiça.

Eu não sei se, na leviana operação da venda de ouro do Banco de Portugal, houve ou não irregularidades e uma hipotética e intencional má gestão. O que sei é que Vítor Constâncio, alto dirigente do Partido Socialista, acabou por ir ocupar um importante lugar no BCE. Também sei que as nomeações para os cargos europeus não acontecem por mero acaso, e, por vezes, nem por mérito próprio, pois o mais importante é a fidelidade canina aos valores que norteiam a filosofia política e ideológica da União Europeia e à sua praxis, quer a oficial, quer a oculta. E não podemos esquecer que os fretes e os favores também são importantes na contabilidade do sucesso.

Já se sabe que a Alemanha, a principal impulsionadora da moeda única, porque convinha à sua estratégia imperialista, tinha a plena consciência que a vaca sagrada iria, um dia, deixar de dar leite, tal era, em grandeza, a captação dos recursos operada nos países do sul da Europa, através do aprofundamento do mecanismo da troca desigual e do esquema de dar subsídios, com o dinheiro de todos os países membros, aos novos aderentes, para que estes alimentassem a indústria da Alemanha, comprando-lhe os respectivos produtos. Só para dar um exemplo: todo o alcatrão das auto estradas portugueses veio da Alemanha, assim como vieram as máquinas para as construir. E é isto que explica que sessenta e cinco por cento das exportações da Alemanha tenham por destino o espaço europeu, o que, em consequência, levou à queda da quota de mercado das importações, oriundas dos EUA. Perante isto, compreende-se a irritação do senhor Trump que quer baixar a “grimpa” à senhora Merkel e picar aos bocadinhos a UE e, possivelmente, também o euro, a moeda da nossa maldição e perdição.

Esta política predadora conduziu à acumulação de vários desequilíbrios, nos países mais vulneráveis. Os experts e os governantes alemães, assim como os congéneres da França, que actuaram em comandita neste saque, e do qual conseguiram afastar a Grã-Bretanha, sabiam que a grande crise da Europa, devido às contradições matriciais desta política, iria provavelmente conduzir à sua desagregação e ao afundamento do euro. Daí, que tivessem diligenciado, por antecipação, uma alternativa à desvalorização que o euro poderia vir a ter. A melhor maneira de atingir este objectivo consistia em organizar compras maciças de ouro. E foi isto o que fizeram. Logo que rebentou a crise, começaram a aparecer, por todo o país, lojas recolectoras de peças de ouro, que os portugueses (e isto também aconteceu em Espanha, na Itália e na Grécia) começaram a vender.

Todo esse ouro foi fundido e transformado em barras, que seguiram principalmente para a Alemanha, onde foram fazer companhia ao ouro do Banco de Portugal, vendido anteriormente por Vítor Constâncio, quando a sua cotação no mercado era baixa (e isto é que é indesculpável).

Claro que esta venda maciça de ouro do Banco de Portugal, que nunca deveria ter sido efectuada, fragilizou o país, que ficou sem defesas para enfrentar a crise financeira, que veio a seguir. E nestes grandes negócios públicos, quando o Estado perde, há sempre alguém que sai beneficiado.

Alexandre de Castro
2017 02 25

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

O grande problema estrutural da economia portuguesa é o euro…


Portugal “fica mal na fotografia quando comparado com quase todos os países do mundo”, no que diz respeito ao endividamento do Estado e do setor privado, lamenta a agência Fitch. Para que o “rating” suba e saia de “lixo”, terá de haver “mudanças estruturais”, avisa o analista responsável pela notação de risco de Portugal. A Fitch avisa que estará atenta a qualquer solução para a banca (Novo Banco, crédito malparado) que afete as contas públicas.
As declarações foram proferidas por Federico Barriga Salazar, diretor da Fitch, durante a conferência que a agência Fitch realiza anualmente em Lisboa.

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O grande problema estrutural da economia portuguesa é o euro…

O grande problema estrutural na economia portuguesa, e que se transformou num verdadeiro colete de forças, é o euro. E isto, porque esta moeda tem um valor cambial desajustado, relativamente à produtividade da sua economia, o que é um travão ao aumento das exportações. E sem um aumento vigoroso das exportações e do investimento público e privado, Portugal não poderá ver a sua economia crescer, e a criar excedentes para pagar a dívida. Isto é óbvio. Se um comerciante não aumentar as vendas, em relação ao ano anterior, não poderá, para o ano seguinte, aumentar os vencimentos aos seus funcionários, a não ser que aceite ver reduzidos os seus lucros. E não há ninguém, à esquerda e à direita, que ande no mercado para perder dinheiro, antes pelo contrário. E este comerciante, confrontado com a descida de vendas, em relação ao ano anterior, até seria tentando a baixar os salários, se pudesse, para assim salvar o seu lucro. Foi o que fez a troika, em Portugal, ao promover a desvalorização salarial, que chegou aos vinte por cento, na esperança de que, com essa desvalorização, os produtos e serviços ganhariam uma competitividade, que impulsionaria o aumento das exportações. O plano,  que foi gizado pela Alemanha, por conselho dos seus cinco sábios em economia (conselheiros do governo), para que o resgate dos países do sul da Europa não afectasse a estabilidade da moeda única fracassou. Em Portugal, as exportações não cresceram o suficiente. E compreende-se. Portugal, no mercado externo, está a competir com economias de países que produzem o mesmo, a preços mais baixos.
Em face disto, Portugal só tem um caminho de esperança, para recuperar a normalidade, em relação à sua gigantesca dívida. Criar uma moeda própria, que possa desvalorizar, para ganhar competitividade externa, e, ao mesmo tempo, desvincular-se do Tratado Orçamental, para poder gerir, com independência, e de acordo com o estado da economia, o seu Orçamento de Estado.
Alexandre de Castro
2017 01 26

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Fico à espera…


Fico à espera…

O grande problema, que já é estrutural, da economia portuguesa é a sua gigantesca dívida soberana. Se nada mudar na Europa, em relação ao sistema monetário, Portugal, para pagar essa dívida e os respectivos juros, terá de ter, durante os próximos vinte anos, um crescimento do PIB, na ordem dos cinco a seis por cento, caso não haja inflação acima dos dois por cento. E para obter esse crescimento, Portugal tem de fazer o seguinte:

1º Aumentar o investimento produtivo, o público e o privado, o nacional e o estrangeiro.

2º Tem de promover a produção bens nacionais, que substituam a importação de produtos congéneres, para diminuir as importações.

3º Tem de aumentar significativamente as exportações, tarefa ciclópica, que se revela impossível, pois com uma moeda de elevado valor cambial, a competitividade externa diminui, face às economias concorrentes.

Ao fim de cinco anos de crise e de uma cega austeridade que se baseou na desvalorização dos salários e das pensões, como meio de aumentar a referida competitividade externa, a melhoria dos índices macro económicos é ridícula e manifestamente insuficiente. A economia anda a passo de caracol, quando seria necessário que corresse a galope, sem parar.

Não há horizonte para o futuro, enquanto Portugal não recuperar o poder monetário e cambial, que perdeu com a acrítica adesão à moeda única, e também o poder orçamental, que também perdeu ao assinar, de cruz, o Tratado Orçamental. Sem estes dois instrumentos estratégicos (moeda e orçamento), nenhum governo será capaz de vencer a crise.

Aqueles - que entre dirigentes políticos, nacionais e europeus, economistas e jornalistas de economia, e simples cidadãos, esbracejam e protestam, quando alguém sugere a saída de Portugal da moeda única e o corte com o espartilho orçamental - que apresentem um credível modelo alternativo, coerentemente ancorado na ciência económica. Que nos digam como é que Portugal vai ganhar excedentes para pagar a dívida?
Fico à espera.
Alexandre de Castro

2017 01 16

sábado, 14 de janeiro de 2017

A equação do aumento do crédito ao consumo poderá não ser boa para o país


No nosso suplemento dedicado à economia real fique a saber isto: o crédito ao consumo está, de novo, a bater recordes - e já atingiu um novo máximo desde a saída da Troika. É uma boa notícia? Depende da perspetiva, mas uma coisa é certa: quando há booms no consumo é porque estamos a ver aumentar as esperanças num futuro melhor.
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A equação do aumento do crédito ao consumo poderá não ser boa para o país

O aumento do crédito ao consumo seria uma notícia satisfatória (não boa, e já se explica porquê), se esse crédito fosse dirigido essencialmente para o consumo interno, ou seja, para a compra de bens e serviços nacionais. Se, pelo contrário, esse crédito se dirige, predominantemente, para a compra de bens finais, estrangeiros, então será uma má notícia, a não ser que o sector produtivo nacional compense o desequilíbrio provocado com o respectivo aumento das exportações, aumento este que está a ser cada vez mais difícil, devido à conjuntura internacional e ao elevado nível de competição dos mercados exportadores. Já a importação de bens intermédios (por exemplo, equipamentos) não seria tão gravosa, pois o desequilíbrio provocado balança comercial, seria compensado nos anos seguintes, com o aumento da produção. Para ser mais directo: o consumo de bens finais, comprados no estrangeiro, constituem-se num constrangimento para o aumento do PIB, já que as importações não entram no seu cálculo, como é evidente.

Mas ainda há um outro motivo, para que a notícia referida nunca possa ser considerada boa. E esse motivo é o endividamento das famílias, que já poderá
estar a ser excessivo, em relação ao nível dos rendimentos auferidos, e que, no futuro, poderá provocar muitos amargos de boca, tal como no passado recente.

A memória das pessoas é curta, e, desgraçadamente, vive-se uma gigantesca onda consumista, atiçada por doses maciças de publicidade.

Claro que, tudo o que se disse aqui, não agradará aos banqueiros, que são os únicos que, nesta perversa cadeia, ganham com o negócio.

Alexandre de Castro

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Pilhagem e agiotagem: dois processos paralelos da política económica e financeira da Europa


O euro foi o principal instrumento da rapina, utilizado pelas instituições da União Europeia. Permitiu a silenciosa aceleração da transferência da riqueza produzida pelos países da periferia (os mais pobres) para as economias dos países do centro (os mais ricos).

Neste curto período da História da moeda única, ainda não é possível fazer uma rigorosa análise dos seus efeitos, mas já há sinais evidentes de que o euro vai ser o coveiro dos países pobres e, por arrastamento, a longo prazo, da própria Europa.

Ainda ninguém me deu uma resposta a uma pergunta que tenho andado a fazer: Por que razão uma crise tão profunda e tão perversa, como é esta, que já dura há sete anos, e cuja resolução não se vislumbra, no horizonte próximo, ainda não teve solução, nem foi ultrapassa? Para mim, a resposta é só uma. Trata-se de uma crise estrutural profunda e não uma daquelas crises cíclicas, comuns ao sistema capitalista, provocadas pelo desequilíbrio macroeconómico do binómio Procura / Oferta, mas que foram sendo resolvidas num curto espaço de tempo (dois ou três anos), recorrendo-se à desvalorização da moeda.

A crise do euro é de outra natureza. É uma crise provocada pelo sistema financeiro, que recorreu à agiotagem numa escala nunca vista, servindo-se do sistema político bipartidário universal (à escala europeia), em que os dois partidos dominantes se esgadanhavam entre si, pela conquista do poder, mas, que estavam perfeitamente sintonizados nas questões fundamentais, como são as  do processo da pilhagem de recursos e o da agiotagem, entretanto postos em marcha.

O Processo da pilhagem e a agiotagem mais não fizeram do que transferir a riqueza produzida pelos países pobres para os países ricos.

A pilhagem iniciou-se nas últimas duas décadas do século passado, com as ajudas comunitárias, que até pareciam um acto altruísta de generosidade e de solidariedade, por parte da Europa rica. As pessoas foram enganadas, julgando que estavam a receber ajudas desinteressadas. Não estavam. Todo esse dinheiro, que jorrou da torneira da Europa, destinava-se obrigatoriamente a um certo tipo de investimentos, investimentos estes que levaram naturalmente, devido à intencional abertura das fronteiras, os países receptores a importar equipamentos, matérias-primas e produtos acabados dos países ricos, principalmente da Alemanha e da França. Um exemplo ilustrativo: todo o alcatrão utilizado na construção das auto estradas portuguesas veio da Alemanha. A maior parte dos equipamentos para as milhares de empresas de construção civil, que se formaram em Portugal, após à adesão ao euro, tiveram a mesma origem. Como se disse anteriormente, a prévia e intencional abertura das fronteiras, para formar o espaço europeu, e a consequente extinção de pautas aduaneiras, facilitaram este circuito, que muito beneficiou a Alemanha e a França, que viram aumentar em flecha as suas exportações. Com esta oculta política económica de conveniência, a Alemanha chegou a exportara para o espaço europeu sessenta e cinco por cento do total das suas exportações, o que mostra a importância que o mercado europeu tem para a sua economia.  

Por sua vez, a agiotagem exerceu-se ao nível da dívida, que se alimentou do pretexto de que cada português (grego ou espanhol) deveria ter casa própria, pois então. Os grandes bancos alemães e franceses, ajudados pelo BCE, que manteve as taxas de juro intencionalmente baixas, através do controle da inflação, começaram a seduzir os bancos dos países periféricos para forçarem, entre as classes médias, o crédito para habitação própria e para a aquisição de bens de consumo, que eram verdadeiras galinhas de ovos de ouro. Os bancos do centro emprestavam dinheiro aos bancos dos países da periferia e estes emprestavam aos incautos consumidores. Foi uma festa, que acabou em tragédia. A bolha especulativa tinha de rebentar, com tanto crédito concedido ao desbarato. E o posterior incumprimento dos devedores seguiu o percurso inverso do capital emprestado. Os clientes deixaram de pagar aos bancos dos países da periferia, e estes deixaram de pagar aos bancos da Alemanha e da França. O resto da história já o leitor a conhece. A Europa vive assim num estado de pré-falência do seu sistema financeiro.

No entanto, devo acrescentar o seguinte: os dividendos do accionistas dos  bancos ficaram garantidos, com a cobrança dos juros. Calcula-se que cada empréstimo foi premeditadamente concebido e calculado, para que, a meio do tempo da vigência do contracto, em juros e amortizações, o capital emprestado fosse totalmente reabsorvido pelo banco, ficando o tempo contratual restante a gerar apenas lucros. Grande negócio.

Tudo isto não é novidade, pelo menos ao nível das ajudas. Foi o que fizeram os Estados Unidos à Europa, após as duas guerras mundiais do século passado, principalmente após a segunda guerra, que deixou a economia europeia de rastos e Alemanha com as suas infra-estruturas completamente destruídas. O Plano Marshall injectou na Europa muitos milhões de dólares para a reconstrução das infra-estruturas produtivas e do parque habitacional, dinheiro esse que serviu de suporte financeiro aos países europeus para importarem maquinaria industrial, automóveis e outros veículos motorizados, além de bens de consumo, de que a Europa estava carenciada. Na realidade, a Europa foi muito beneficiada com estas ajudas, mas também é certo que os EUA beneficiaram muito mais com o fulgurante aumento das suas exportações, ao ponto de se transformarem na primeira potência mundial.

Mas, ao contrário do está a acontecer na Europa, o Plano Marshall não impunha aos países europeus restrições económicas de qualquer ordem, nem impôs nenhuma moeda única transatlântica, até porque os EUA pretendiam criar no ocidente europeu economias robustas, que permitissem aumentar o poder de compra da população, a fim de travar o contágio da ideologia comunista, que alastrava entre o operariado e o mundo intelectual.

E é nesta perspectiva, a da análise dos grandes ciclos da História, que podem compreender-se melhor os acontecimentos do presente.  
Alexandre de Castro

domingo, 1 de janeiro de 2017

As melhoras da morte...


A crise parece longe. A crer nas transações efetuadas nos terminais multibanco na véspera de Natal. Cansados de festejar o natal a contar os tostões, os portugueses este ano saíram à rua dispostos a tirar a barriga de misérias. Entre 25 de novembro e 24 de dezembro levantaram nas caixas multibanco espalhadas pelo país 2,397 mil milhões de euros, mais 100 milhões de euros que em igual período do ano passado. Lentamente começam a dar razão a Mário Centeno, o homem que acreditava na alavancagem da economia a partir do consumo. Os sinais de que não o querem deixar ficar estão aí nos dados da SIBS, a empresa que gere a rede multibanco, agora divulgados.
PAULA FERREIRA.
Jornal de Notícias
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As melhoras da morte...

O aumento do consumo das famílias portuguesas, no ano corrente, que teve a sua máxima expressão na época natalícia, seria, na realidade, uma óptima notícia, se esse consumo tivesse sido dirigido, maioritariamente, para os bens, com elevada incorporação de matérias-primas e de trabalho nacionais. Mas, julgo que não é o caso, a avaliar, grosseiramente, pela comparação da evolução das importações e das exportações, com as primeiras a crescerem mais do que as segundas, o que vai agravar a balança comercial do país, aumentando a situação deficitária. Esta estratégia, a de privilegiar o aumento do consumo, como factor predominante, para impulsionar o aumento do PIB, não poderá ser mantida por muitos mais anos, a não ser que os desequilíbrios, que venham a ser gerados, venham a ser compensados com o proporcional aumento das exportações e do investimento, uma hipótese que apresenta muitas incertezas, devido ao clima político e económico internacional e ao ambiente de crise permanente na Europa.

Por outro lado, este aumento do consumo deveu-se mais à libertação das poupanças (ter dinheiro no banco começou a ser perigoso) do que ao aumento real dos salários, que foi diminuto.

Feita a análise, segundo esta perspectiva, julgo que não podem deitar-se muitos foguetes, porque a crise ainda não acabou, a colossal dívida externa não diminuiu e a austeridade troikiana, levada a cabo pelo governo da direita, ainda vai demorar algum tempo a ser totalmente removida (se for). Se nada for decidido em relação à reestruturação da dívida à troika, e se Portugal continuar amarrado à moeda única, não tenho dúvidas que o cerco dos credores manter-se-à, com a Comissão Europeia à cabeça, a morder-nos as canelas. Isto, claro, no caso da actual estrutura do poder da política europeia passar incólume às vicissitudes das eleições da Alemanha e da França, no próximo ano.

Assim, eu direi que a festa consumista deste ano assemelha-se mais às melhoras da morte.

Alexandre de Castro

sábado, 11 de junho de 2016

Os problemas estruturais da economia portuguesa e os caminhos a percorrer

A economia portuguesa está muito dependente do contributo  da
Procura Interna (consumo) e desde 2014 encontra-se estagnada

Os problemas estruturais da economia portuguesa e os caminhos a percorrer

Para resolver os problemas estruturais da economia, Portugal, mantendo-se ou não na área do euro, tem de orientar a sua estratégia em dois pilares: por um lado, promover intensivamente as exportações e, por outro lado, produzir bens que substituam importações. O objectivo é ganhar excedentes, perante o exterior, e aumentar a receita fiscal para possibilitar, sem um pesado esforço orçamental e sem mais medidas de austeridade, pagar a gigantesca dívida pública, que terá de ser reestruturada, inevitavelmente. 

Em relação ao aumento do consumo, [o consumo também conta para a formação do PIB] o governo teria de ter dois aspectos em consideração: que esse aumento do consumo não viesse a aumentar a procura de bens e serviços importados e que, por razões de equidade e de justiça social, o aumento desse consumo derivasse da melhoria dos rendimentos da classe média e da população mais desfavorecida. O aumento do consumo iria promover também mais receita fiscal, evitando-se o agravamento dos impostos, que já são muito pesados e que já provocam o funcionamento da economia.

Mas, para conseguir este desiderato, é necessário investimento, o público e o privado, que dinamize a economia. Infelizmente, verifica-se que o investimento continua a ser raquítico, e insuficiente para sustentar o crescimento económico. As empresas estão descapitalizadas e o crédito bancário, devido à insolvência dos bancos nacionais, é difícil e problemático. O actual governo está a fazer o que pode. A aposta na reabilitação urbana, apoiada pelo Estado, vai reanimar um pouco a recuperação da construção civil - que, no passado, foi o grande motor da economia - o que vai atrair investimento e criar emprego. 

Não se vê no horizonte a recuperação do investimento, por parte da iniciativa privada, que seria essencial para investir na produção de bens, que substituíssem as importações, bem como na produção de bens para o mercado externo e que, através da inovação, aumentassem, de uma forma significativa, o valor acrescentado. E Portugal necessita, como de pão para a boca, de aumentar as exportações, a um nível médio de cinco por cento ao ano Mas, sem investimento, pouco se poderá fazer na criação de riqueza e no desenvolvimento do país.

É neste quadro de pensamento (o de a economia portuguesa não conseguir crescer nos próximos anos) que funciona o comportamento da Comissão Europeia (um órgão da UE domesticado pela Alemanha), ao pretender aplicar severas sanções a Portugal, através de um procedimento por défice orçamental excessivo, ao mesmo tempo que quer impor mais cortes nas pensões e mais desvalorizações salariais, o que vai levar, tal como já tenho dito, Portugal a percorrer o calvário de sofrimento da Grécia. Desde 2010, a desvalorização salarial atingiu os vinte por cento, o que já é dramático, mas a Comissão Europeia quer que atinja os trinta por cento, o que, a verificar-se, será uma catástrofe. 

Claro que, se Portugal tivesse uma moeda própria, para poder desvalorizá-la no interesse da sua economia, a fim de aumentar as exportações, tudo seria mais fácil, mais rápido e menos doloroso a longo prazo. E este é o principal problema estrutural da economia portuguesa, um verdadeiro nó górdio, que precisa de um Alexandre Magno, que o decepe com a espada.
Alexandre de Castro
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Curiosidade: Leia aqui a célebre lenda do nó górdio.

Publicado em "Abril de Novo Magazine", por deferência dos seus editores.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Jerónimo de Sousa quer nova moeda portuguesa


Jerónimo de Sousa quer nova moeda portuguesa

Numa sessão pública intitulada A libertação do país da submissão ao Euro, condição para o desenvolvimento e soberania nacional, Jerónimo de Sousa, ladeado pelos economistas João Ferreira do Amaral e Jorge Bateira, entre outros, identificou a banca sob controlo público, a renegociação da dívida e a saída do euro como prioridades para o desenvolvimento soberano de Portugal.
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Não há outra alternativa. Se já foi um grande erro Portugal aderir ao euro, maior erro será se não sair. Se Portugal tivesse uma moeda própria, alinhada com a produtividade da sua economia, as exportações de bens e serviços triplicariam, no espaço de quatro ou cinco anos, permitindo assim obter excedentes para ir pagando a dívida, dívida que também terá de ser reestruturada. 
Se não for assim, Portugal caminhará para o desastre.

terça-feira, 17 de maio de 2016

Resposta aos delírios estatísticos do director do Observador...


Seis meses de geringonça, modo de usar

O que está a correr pior é, sem surpresa, a economia. Porque sucedeu exactamente o contrário do prometido. O ritmo de crescimento económico abrandou. Não foram criados empregos, antes foram destruídos postos de trabalho. O investimento estancou. E o consumo, o prometido “motor” da retoma, não dá suficientes sinais de vida.
José Manuel Fernandes

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Aplique José Manuel Fernandes os mesmos critérios de análise política e o mesmo perfil de elementos estatísticos aos quatro anos de governação PSD/CDS e compreenderá quem é que destruiu a economia, quem é que promoveu o desemprego e a emigração dos jovens e quem é que golpeou a Educação e o Serviço Nacional de Saúde. E, pelo caminho, talvez fosse interessante olhar para os números da Dívida Pública, contraída através do Memorando de Entendimento com a Troika, que o PSD estimulou e também alegremente subscreveu. 
Esquece-se José Manuel Fernandes que a maioria das medidas adoptadas pelos governos tem efeitos a médio e longo prazo e que os resultados recolhidos das estatísticas, referentes aos quatro meses deste ano, são consequência do desastre provocado pela governação da coligação de direita, durante quatro anos. Ou não será assim?...

Comentário que deixei no Observador.
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Comentário posterior

Acabei de ler o Macroscópio de hoje, de José Manuel Fernandes. Tal como neste artigo, "Seis meses de geringonça...", ele volta ao delírio das estatísticas, aplicando-lhes o seu olhar enviesado e feroz, o que o leva a torcer e a retorcer os números, para que eles reflictam o que a sua "partidite" reclama. Se houvesse da sua parte mais isenção e se, previamente, ele consultasse os dados estatísticos do Eurostat, chegaria facilmente à conclusão que todos os países do euro, com uma ou duas excepções, viram as suas exportações a diminuir, contrariando as previsões, assim como aconteceu aos números do PIB. É preciso considerar que houve uma diminuição da procura global, e, no caso português, e para sermos justos e isentos, temos de considerar que as exportações de Portugal se ressentiram com a queda da procura da economia de Angola, que hoje se debate com a baixa do preço de petróleo, o pulmão da sua economia. 
Esta modalidade de ler as estatísticas, sem as contextualizar com as envolventes externas, faz-me lembrar o que se passou com a evolução das taxas de juro da Dívida Pública. A partir do início de 2014, e depois de uma subida em flecha, os juros começaram a baixar ao mesmo ritmo com que subiram. Logo os arautos das verdades definitivas, os comentadores direitinhas (não sei se JMF foi um deles) desataram, em júbilo, a cantar hossanas ao governo de Passos Coelho, para, numa manobra de ilusionismo, tirarem da cartola o argumento conclusivo de que a acção do governo estava a ser positiva e que os sacrifícios impostos aos portugueses estavam a dar resultados. Os incautos, os distraídos e os ignorantes acreditaram. No entanto, os mais atrevidos e os mais curiosos não se conformaram com o laconismo dos irmãos e primos políticos de JMF e descobriram a marosca. Olharam para o que se passava com os juros das dívidas de Espanha, Itália, Grécia e Irlanda. Todas elas, embora com valores diferentes, tinham o mesmo perfil evolutivo, o mesmo percurso paralelo. Em gráfico, as curvas respeitantes a cada país considerado tinham a forma de uma campânula, com o seu vértice na mesma linha vertical, o que quer dizer que elas começaram a descer ao mesmo tempo, evidenciando o mesmo paralelismo, verificado na subida. Conclusão: a descida dos juros da dívida soberana portuguesa teve a ver, essencialmente, com a envolvente externa, no caso, as manobras especulativas dos investidores nas bolsas de valores, e muito pouco com os cantados méritos do governo. 
A saga prossegue agora com o PIB e o défice. O método de iludir a realidade é o mesmo. Nada há a fazer para nos livrarmos da intoxicação mediática.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

ICH BIN EIN BERLINER PT


Vídeo enviado pelo meu amigo / irmão Jorge M. Ribeiro

Portugal vai ficar sem anéis e sem dedos...

Um dia, daqui por alguns anos, quando se fizer o balanço das relações económicas no espaço europeu, chegaremos à conclusão de que o saldo será negativo para Portugal e muito favorável para a economia alemã.
É certo que os dinheiros dos fundos europeus, em que a maior tranche pertenceu à Alemanha, foram decisivos para o desenvolvimento das infraestruturas de Portugal. Mas também é certo que muitos dos equipamentos, como, por exemplo, a maquinaria pesada paras as industrias e para a construção civil,  assim como material de guerra (submarinos), foram importados da Alemanha. Até o alcatrão para as auto estradas veio todo da Alemanha. A economia alemão cresceu à custa das exportações para os países da periferia - Portugal, Grécia e, em menor escala, a Itália.
Também, a nível financeiro, funcionou um esquema predador, que permitiu transferir riqueza dos países da periferia para a Alemanha. Entre amortizações e juros, os bancos alemães reembolsaram grande parte do dinheiro que emprestaram aos bancos portugueses, para estes emprestarem aos jovens, a fim de comprarem casa própria. Como o esquema começou a falhar, devido aos incumprimentos das famílias, a Alemanha socorreu-se da troika, para impor a austeridade, o que veio permitir que a dívida privada dos bancos fosse transferida para a dívida pública, pelo engenhoso processo de forçar o endividamento do Estado português, perante as entidades europeias e o FMI. Será o dinheiro da austeridade que, através de um complexo sistema de operações financeiras, irá limpar parte dos produtos tóxicos dos grandes bancos alemães. A outra parte será paga com o dinheiro das privatizações.
Deste modo, Portugal vai ficar sem anéis e sem dedos.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Vieira Lopes, presidente da CCP. ‘‘Estamos muito longe da recuperação económica”

João Vieira Lopes, Presidente da Confederação 
do Comércio e Serviços de Portugal

O Orçamento do Estado para 2016 dá alguns passos no sentido certo, mas está ainda longe de representar o virar de página porque as empresas suspiram. A opinião é do presidente da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal, João Vieira Lopes, que lamenta que o país continue a não definir um modelo económico sustentável e que valorize a importância dos serviços.
Expresso  [Ver aqui]

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Vieira Lopes tem razão, ao afirmar que "Portugal não tem modelo ou estratégia económica". Mas eu diria mais: Portugal nunca poderá delinear qualquer plano estratégico para a sua economia, enquanto estiver amarrado pelo garrote da moeda única e às exigências draconianas da União Europeia, do BCE e do FMI, condicionalismos estes que afectam negativamente a sua competitividade no espaço extra europeu, o único que, nas condições actuais, pode potenciar um crescimento vigoroso das exportações. É uma utopia acreditar que Portugal possa sobrevier, enquanto continuar a trilhar caminhos sabiamente armadilhados, pelos seus falsos amigos.
AC

domingo, 24 de janeiro de 2016

O abraço mortal do "euro" e o impasse da economia portuguesa...


Resposta a um leitor, que, em relação a um meu comentário, deixado na revista VISÃO, afirmou: [Tenha em mente, "os mercados que nos governam" e emprestam dinheiro para pagar a nossa divida crónica. Goste ou não, é a realidade].
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"Os mercados que nos governam" eram os credores de uma gigantesca dívida pública da Alemanha, gerada pelas pesadas indemnizações de guerra, exigidas pelos países vencedores das duas guerras mundiais. Essa dívida da Alemanha foi renegociada e reestruturada em 1953, em Londres (ver aqui), o que levou os credores a perdoar metade do respectivo montante, a diminuir a taxa de juro e a alargar as maturidades (a Grécia até ficou a arder, pois a Alemanha deixou de pagar-lhe o que estava estipulado e até, recentemente, a "Hitler de saias" recusou a retoma do seu pagamento, da parte que estava em falta, o que ilustra bem como ela leva muito a sério o respeito pelos sagrados compromissos internacionais, tão endeusados pelo actual bacoco do Palácio de Belém). Se a Europa quer ajudar Portugal, a Grécia e, agora, também o Chipre (de quem ninguém fala), tal como a propaganda da direita alardeava em 2011, não sei como não é possível replicar o método com as dívidas soberanas destes três países. "Tenha isto em mente", s.f.f.
Por outro lado, imagine-se que Portugal tinha uma moeda nacional, com um valor monetário, alinhado com a produtividade da sua economia. Essa moeda teria um valor de cerca de um terço do valor do euro (lá se ia o BMW e o Mercedes, topo de gama). O que acontecia: A competitividade da economia subia, promovendo as exportações, e as importações diminuíam. O saldo comercial com o exterior passaria a ser francamente positivo, permitindo amealhar divisas estrangeiras, de valor significativo. É claro que, nos primeiros três anos, a "coisa" ia doer. Mas doía a todos, proporcionalmente, e não apenas a alguns, como aconteceu com a aplicação das calculistas políticas de austeridade da sinistra parelha Passos/Paulo Portas, acolitados pelo não menos sinistro ministro das Finanças, Vitor Gaspar, de má memória (que, posteriormente, até foi premiado com um alto cargo no FMI). Este período de constrangimento seria, pois, de curta duração, uma vez que a economia iria crescer sustentadamente, a caminho da retoma e valorizando progressivamente a moeda, sempre de acordo com a taxa de produtividade da economia. O desemprego teria diminuído, o investimento interno aumentado, os salários e as pensões melhorados e haveria mais recursos para a Saúde, para Educação e para a Segurança Social, os três pilares do Estado Social. 
Ao traçar este cenário, não estou a inventar nada. Este modelo económico, ressalvando as diferenças impostas por outras realidades condicionantes, foi aplicado com sucesso na grande crise financeira de 1893/95, em que Portugal estava afogado por uma colossal dívida à Inglaterra, acumulada durante os cinquenta anos anteriores, devido ao esforço de construir as infraestruturas para a industrialização do país. Um dos mentores e executantes dessa política foi Ferreira Leite, o bisavô de Manuela Ferreira Leite. "Tenha em mente isto", s.f.f.
Imagine-se também que, em paralelo com o cenário anterior, se procedia à nacionalização dos bancos, sem indemnizações. Aquele argumento, utilizado até à exaustão, quando da sua privatização, na década de oitenta do século passado, que dizia que os privados geriam melhor os bancos do que o Estado, já caiu por terra. A boa gestão bancária, por privados, ficou amplamente demonstrada nos casos BPP, BPN, Millenium, Espírito Santo e BANIF e, também será demonstrada nos casos que virão a seguir. Com a nacionalização da banca, acabava-se de vez com a especulação bolsista, cujos ganhos não chegam à economia real, e também com a "teta" dos offshors e de todas as outras criativas formas, para proceder à imoral exportação de capitais. Os lucros proporcionados pelos créditos dos bancos nacionalizados, concedidos ao próprio Estado, às empresas e às famílias, serviriam para o Estado investir nas infra estruturas de apoio ao desenvolvimento económico. Tenha em mente também isto.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Vem aí o segundo resgate...


Commerzbank: “Portugal é a nova criança problemática” da zona euro

De "bom aluno" para a "nova (velha) criança problemática" da zona euro. Os economistas do influente Commerzbank dizem que Portugal arrisca ver-se na mesma situação da Grécia. Um relatório demolidor.
O novo Governo português está a levar a cabo uma “mudança fundamental da política” que levará a um aumento da dívida e a uma erosão da competitividade. Num relatório demolidor, o influente banco alemão Commerzbank diz que rapidamente a situação portuguesa pode evoluir para algo muito parecido ao que viveu a Grécia no último verão. Se o rating da agência DBRS cair, Portugal deixará de contar com o respaldo decisivo das compras de dívida por parte do BCE. A menos que peça um novo resgate, nota o banco alemão.

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Ainda, sem sequer António Costa ter começado a fazer verdadeiramente a sua revoluçãozinha doméstica, e já o buldózer da Alemanha, qual infernal máquina trituradora, arrancou em força, a fazer a contra-revolução.
É claro que os mercados (que nos governam) vão ficar nervosos, não por terem percepcionado anomalias graves na economia portuguesa e nas suas finanças públicas, mas sim pelo efeito perverso desta notícia e de outras semelhantes, que irão ser replicadas e ampliadas pela comunicação social e por uma caterva de comentadores no activo e na reserva, até que a cabala seja tomada como verdade absoluta. A intenção conspirativa e sabotadora é evidente. O cerco a Portugal começa a ser montado, ou seja, a exigência de um segundo resgate. O circo vem depois. A Grécia já vem a caminho. Tal como disse, já várias vezes, Portugal está atrasado, em relação à Grécia, apenas um ano, ano e meio.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Poder económico controla leis e políticos a seu favor, confirma ex-director-geral da Autoridade Tributária




José Azevedo Pereira, antigo director-geral da Autoridade Tributária, revelou que quase mil multimilionários escapam à teia do fisco em Portugal. São conhecidos pelas finanças como ‘high-net-worth individuals’, ou contribuintes de alto rendimento: uma categoria onde estão os que acumulam mais de 25 milhões de euros de património ou, alternativamente, recebem mais de 5 milhões de rendimento por ano.
No programa Negócios da Semana, transmitido na SIC Notícias a 9 de Dezembro (ver vídeo acima), Azevedo Pereira afirmou que “este tipo de pessoas em Portugal (e também no estrangeiro) influenciam o poder político, têm fácil acesso aos decisores políticos que fazem as leis – e a única coisa que as diferentes administrações fiscais podem fazer é trabalhar no sentido de aplicar a lei.”Mas “se a lei cria os seus próprios alçapões e mecanismos para proteger alguns destes interesses, não há muito que a administração fiscal possa fazer. Estas pessoas conseguem com alguma facilidade fazer ‘lobbying’ e criar mecanismos que as protegem.” Por outras palavras, o ex-director-geral dos impostos confirma, preto no branco, que os políticos elaboram as leis com os buracos necessários para os multimilionários escaparem de forma legal às finanças, enquanto os pobres são espremidos até ao tutano. E confirma também a total submissão do poder executivo e legislativo ao poder económico – revelando uma vez mais que a actual democracia é na realidade uma ditadura camuflada, totalmente manipulada pelos mais poderosos.
Azevedo Pereira assegurou também que “por via de regra, nos países onde a respectiva tributação é levada mais a sério, os contribuintes de alto rendimento são uma parcela muito significativa do IRS cobrado, chegando a representar 20 a 25% da tributação. Em Portugal, não chegam a meio por cento.” Portugal é um país onde, nos últimos anos, dezenas de milhares de famílias carenciadas tiveram as suas casas penhoradas – na prática roubadas – pelo fisco, muitas vezes por pequenas dívidas, aumentos criminosos de impostos ou mesmo por falta de informação das próprias finanças; ao mesmo tempo que primeiros-ministros como José Sócrates ou Passos Coelho criaram sucessivos perdões fiscais para os mais ricos movimentarem livremente as suas fortunas secretas no estrangeiro.
Todos estes factos são infinitamente mais graves do que, por exemplo, o caso da chamada ‘lista VIP’: um sistema que monitoriza o acesso de funcionários das finanças aos dados privados de figuras públicas (e que será mantido pelo actual governo). No entanto, não recebem nem um milionésimo da atenção. Um ex-director dos impostos assume em directo na televisão que o poder económico controla as leis e os políticos a seu favor – e os meios de comunicação social ditos ‘de referência’olham para o lado. Elisabete Miranda, redactora do Jornal de Negócios, foi uma das poucas excepções, escrevendo que “o antigo director-geral dos impostos prestou um importante serviço público. Só é pena que tenha demorado oito anos a começar a falar e que, oito anos depois, a Autoridade Tributária continue a ser uma estrutura opaca, que silencia informação estatística fundamental para se fazerem debates informados, e que subtrai do conhecimento geral todas as valiosas interpretações que adopta.”

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Bem diz Jerónimo de Sousa, que não há falta de dinheiro para pagar o Estado Social. O que é necessário é ir buscá-lo, onde ele está.
Os perdões fiscais, a que se refere a notícia, estão enquadrados no que se designa eufemisticamente por Regime Excecional de Regularização Tributária: houve três RERT na última década, que amnistiaram quase seis mil milhões de euros que estavam irregularmente depositados no estrangeiro, grande parte dos quais na Suíça. 
Perante isto, podemos considerar Portugal como um verdadeiro paraíso fiscal, para os seus milionários.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Mais de 2,2 milhões de portugueses vivem em privação material


Mais de 2,2 milhões de pessoas vivem atualmente em privação material em Portugal, segundo um inquérito do Instituto Nacional de Estatística, que aponta uma redução de cerca de 425 mil pessoas a viver nesta situação face a 2014.
 Os dados constam do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento das Famílias realizado anualmente pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) sobre rendimentos do ano anterior das famílias residentes em Portugal.

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O Inquérito às Condições de Vida e Rendimento das Famílias talvez seja o melhor instrumento estatístico para fazer o retrato, a preto e branco, do panorama social do país, porque, essencialmente, fala de pessoas e dos seus problemas. Isto, claro, não invalida a necessidade e a utilidade dos outros indicadores macro económicos, dos quais a governação não pode prescindir. 
O que aquele inquérito nos mostra é que o retrato social do país, em 2015, está bem negro, embora tenha melhorado ligeiramente em relação ao ano anterior, o que era expectável, devido ao facto de 2015 ser um ano de eleições. Foi uma ligeira melhoria meramente conjuntural e não estrutural. E enquanto não se enfrentarem, com determinação, as entorses da economia portuguesa, que é obrigada a ter de viver com uma moeda hipervalorizada em relação à produtividade, o que exige uma mudança de políticas, a inversão do panorama social do país, que aquele inquérito reflecte, não ocorrerá tão cedo, antes irá agravar-se.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Bruxelas diz que ainda há espaço para aumentar impostos em Portugal


Bruxelas diz que ainda há espaço para aumentar impostos em Portugal

País ainda pode recorrer a "impostos distorcivos" e mais "amigos do crescimento", como impostos sobre o consumo ou ambientais.

A menos de uma semana das eleições legislativas, a Comissão Europeia revela um relatório de 2015 sobre reformas fiscais nos Estados-membros onde defende que os Estados-membros que têm uma carga tributária relativamente baixa (grupo no qual inclui Portugal), podem recorrer a um aumento dos impostos sobre o consumo ou impostos ambientais.
Bruxelas considera que o País já tem uma "carga fiscal relativamente elevada" sobre o trabalho, pelo que deve transferir parte desse "fardo" para impostos "menos distorcivos", exemplificando com impostos sobre o consumo, impostos recorrentes sobre propriedade e taxas ambientais.
Recorde-se que os contribuintes sentiram o "enorme aumentos de impostos" em 2013, em que os escalões de IRS foram significativamente alterados, o que fez aumentar a carga fiscal sobre os rendimentos do trabalho. Este ano entrou em vigor a reforma do IRS, que vem privilegiar sobretudo as famílias com filhos. No entanto, os escalões mantiveram-se inalterados.
Por outro lado, foi também implementada a chamada fiscalidade verde, com um aumento dos impostos ambientais e a criação da taxa do carbono ou sobre os sacos de plástico, por exemplo.
Além disso, Portugal foi identificado como um caso de "potencial necessidade de reduzir a carga fiscal" para o elemento do casal que menos vencimento retira do seu trabalho. Segundo o relatório, o vencimento do membro do casal que mais ganha está em linha com o salário médio auferido no país, enquanto o elemento que menos ganha aufere apenas 67% da média nacional.
Além de Portugal, há mais de uma dezena de países que o relatório coloca em pé de igualdade com o País, entre os quais Alemanha, França, Itália, Holanda, Bélgica, Finlândia ou Suécia.

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Digam lá para Bruxelas que eu não tenho mais espaço, pois a minha casa apenas tem três assoalhadas, e as paredes já estão cheias com as marcas da austeridade...
Essa dos impostos "distorcivos" é moda nova na linguagem cifrada, sofisticada e esquizofrénica, usada pelos tecnocratas de Bruxelas. Depois de dar muitas voltas ao toutiço, julgo que já percebi o que eles querem dizer. Então é assim: Se um trabalhador pagar num ano um certo valor em impostos sobre o consumo, fica-lhe mais barato do que se pagar o mesmo valor no IRS. Na tabuada de Bruxelas, que é que conta, dois mais dois não são quatro. São três. O Governo tem de fazer rapidamente uma lei de convergência da tabuada, para acertar o passo com a bitola de Bruxelas. É que, se assim não for, os portugueses ficam cada vez mais "distorcidos". Já perceberam o significado da nova palavra tecnocrática? Depois de publicada a lei de convergência das tabuadas, passaremos a dizer: Vão-se distorcer!...

Nota: Este post foi publicado às 15 horas de hoje, dia 29 de Setembro, tendo sido também publicado na minha página do Facebook no dia anterior, às 23 horas.

 Nota: Comecei a estudar a questão, no ponto de vista lexical e epistemológico, e cheguei à conclusão que a expressão "impostos distorcivos", que os tecnocratas de Bruxelas estão agora a querer impor, através do seu discurso político, deriva, em linha recta, do conceito "software distorcivo", criado na Alemanha pela Volkswagen. Está tudo explicado.