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quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Façam o vosso jogo [Mercados Financeiros não criam riqueza]


Façam o vosso jogo

Imagine que você tem dois amigos, ambos viciados em jogo e que se encontram proibidos de entrar em casinos...
Para poderem continuar a satisfazer a sua adicção, reúnem-se à mesa de um café e efectuam uma aposta sobre o preço que a onça de ouro atingirá no dia seguinte.
Os dois possuem expectativas opostas quanto ao comportamento do valor de fecho desse activo no dia seguinte: um aposta que vai subir e o outro aposta que vai descer – tem de ser assim, caso contrário, contra quem iriam os dois apostar?
Como toda e qualquer incerteza tem de implicar uma perda/ganho patrimonial para que se considere que existe risco para os intervenientes, vamos assumir que estes dois amigos vão colocar dinheiro em cima da mesa do café: cada um aposta cem euros.
Qual o resultado deste jogo? No dia seguinte, um deles perderá cem euros e o outro ganhará cem euros. Este jogo designa-se por um jogo de “soma-zero”: os cem euros que um dos amigos ganhar anulará os cem euros que o outro perderá. Em termos agregados, o ganho (ou perda) é zero, ou seja, não foi criado qualquer valor, porque, no início do jogo, cada um tinha cem euros; agora, no final, os duzentos euros estão apenas na mão de um deles.
Compreendeu este jogo? Se sim, e se você se sente confortável com o pressuposto de que nenhum dos dois jogadores possui qualquer informação privilegiada sobre a evolução do preço do ouro, então você acabou de compreender um dos princípios mais elementares da economia financeira.
Parabéns! Mais ainda, você implicitamente considerou que a probabilidade da onça de ouro subir é a mesma probabilidade de descer. Confesse que sim. E você está, grosso modo, certo.
Espero também que você tenha compreendido que, o facto de existir um mercado em que estes dois apostadores (ou milhões deles) arriscam dinheiro não cria, de per se, qualquer riqueza (cria apenas a que deriva de algumas pessoas terem emprego para que esteja assegurado que este “casino” opera convenientemente; este, a troco de uma comissão, providencia o necessário para que tudo corra bem).
Louis Bachelier, em 1900, foi o primeiro investigador a debruçar-se sobre o comportamento do preço dos activos financeiros (mais informação sobre o trabalho pioneiro de Bachelier). Este matemático, na altura visto como muito pouco ortodoxo, concluiu que, para se prever a evolução do preço de um activo financeiro, o comportamento passado do seu preço é irrelevante: apenas interessa o preço que esse activo possui hoje, para estimar qual o preço, que amanhã à mesma hora, esse activo evidenciará.
A forma como o preço oscilou em períodos anteriores não tem qualquer influência para efeitos de estimação do preço futuro. Confuso?
Espero que não mas, ao mesmo tempo, espero que se questione sobre qual o objectivo que este texto pretende atingir; devo confessar não é nada de excepcional: apenas sensibiliza-lo para o facto de uma parte da economia financeira ou, o que é o mesmo, uma parte dos activos financeiros nada dependerem da criação de valor ou a perda de valor de outros activos, os designados “activos reais”, esses sim com capacidade intrínseca para criar valor.
Deter um destes outros activos é tão legítimo como possuir o direito de se sentar com os seus amigos na mesa do café. Mas não se pode, em consciência afirmar muito mais do que isso. A parte da economia financeira que se consubstancia neste tipo de jogos movimentou, em 2015, 1,2 quadriliões de dólares, dez vezes mais do que produto interno bruto do mundo inteiro.

Há inúmeros exemplos destes tipos de activos – conhecidos como derivativos porque o seu valor “deriva” ou depende do comportamento futuro de uma variável. Há de tudo como na farmácia, desde contratos em que investidores apostam sobre o preço futuro de acções de empresas, evolução de taxas de câmbio, do petróleo, do café, óleo de palma, do trigo, do algodão, da prata e, até, do sumo de laranja.
Se você for um empresário que necessita de um destes activos para desenvolver a sua actividade (imagine que, quando se senta à mesa do café, você é na verdade um fabricante de jóias de ouro) então você vai querer saber mais alguma coisa sobre este assunto.
Caso contrário, não há justificação para tal: o “racional” por detrás do comportamento dos preços destes activos é, grosso modo, o mesmo “racional” que o faz apostar que o mês de Agosto de 2019 será mais quente do que o de 2018. Não tendo em consideração o impacto que o aquecimento global poderá ter, lamento dizer-lhe que apenas poderá concluir que as coisas podem igualmente correr bem ou mal.
Tire uma moeda não viciada do bolso, lance-a ao ar e você estará, grosso modo, a jogar o mesmo jogo.
Espero que, depois de ler estas linhas, você consiga reagir em conformidade quando algum “radical de esquerda” se referir a uma parte (sublinho, uma parte) da economia financeira que nos destruiu em 2008, como “economia de casino” e como sendo “uma jogatana”.
A não ser, claro, que você seja daqueles que acreditam que o comportamento desta parte da economia financeira está positivamente correlacionada com o comportamento da economia real. Nesse caso, faça como eu: descanse, retempere energias e goze muito as suas férias.

João Ribeiro
Professor universitário, Doutorado em Finanças.
Investigador na área de avaliação de activos.


Sugestão de Lara Ferraz

***«»***
E, além deste esquema da economia de casino, de pura especulação, ainda há um outro, ao nível dos bancos, em que o banqueiro empresta o que tem (o dinheiro dos depositantes) e o que não tem, criando moeda escritural, já que não é moeda física o que o devedor recebe. Este esquema, que é inerente ao funcionamento dos bancos, tem uma capacidade infinita de se multiplicar, até ao momento em que começam a aparecer as imparidades e os produtos tóxicos (dívidas incobráveis), o que conduz à bancarrota, sendo depois reposta a normalidade do sistema (que continuará a manter-se inalterável) com o dinheiro dos contribuintes.
Alexandre de Castro
10-08-2016

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

A culpa é do Estado?


A culpa é do Estado?

Portugal é um país pequeno em termos europeus. Todos conhecem todos ou conhecem alguém que conhece. Não são só as estreitas relações entre políticos e empresários, agora muito na moda, que espartilham a sociedade portuguesa.
A falta de responsabilidade e de responsabilização criam um ambiente de impunidade e um sentimento de injustiça. Em toda a sociedade.
Os titulares de cargos públicos, quer sejam políticos ou técnicos, agem e decidem sempre de consciência tranquila, pois independentemente do resultado das suas decisões sabem que dificilmente serão responsabilizados.
A falta de responsabilidade advém principalmente da falta de responsabilização. A falta de responsabilização por parte dos seus pares, dos seus superiores, das entidades reguladoras e das supervisoras, dos investigadores, das entidades judiciais e, em última análise, dos eleitores.
O sentimento de injustiça alimenta o ambiente de impunidade. Os crimes vários que são praticados contra o bem-comum e contra a vida já nem mexem o ponteiro da (in)justiça. Como diria um ex-Primeiro Ministro: “é a vida…”
O “nacional porreirismo” permite viver anestesiado em vez de vacinado. Cada vez é mais difícil impressionar negativamente os portugueses, que já viram acontecer tudo e de tudo. Várias vezes. E que pouco parecem importar-se.
A sua pouca exigência enquanto utilizadores de serviços públicos e privados, consumidores e eleitores é fruto da sua grande capacidade de adaptação. Certamente grande demais, porque já vai sendo tempo de sair da anestesia e procurar uma vacina para tamanha incapacidade do Estado.
A visão benévola do Estado protector, enquanto garante do bem-estar social e subsidiador de todas as actividades em benefício de todos e de cada um possui inúmeras desvantagens. Talvez a principal delas seja mesmo a desresponsabilização que cada um sente na sua relação com o Estado. Por responsabilização do Estado em relação a tudo.
O problema de responsabilizar o Estado por tudo de bom que nos deve acontecer, é ter que responsabilizar o Estado por tudo de mal que acontece. Sem ser necessário, nem sequer aconselhável, responsabilizar/culpabilizar alguém pelo caminho. Para não ferir susceptibilidades e porque estão todos de consciência tranquila. Como sempre.
Mas parece que agora o objectivo primordial de reforçar a segurança nacional está mais próximo de ser cumprido, pois com a criação de leis anti-piropo, através de penas de prisão para este tipo de criminosos, será mais fácil condenar alguém por tamanha crueldade do que responsabilizar directamente alguém pelas mortes de doentes/pacientes nos hospitais públicos pelo crime de abandono.
Votos de um Ano de 2016 mais exigente. Mas desta vez a sério.
Paulo Barradas

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Concordo com o diagnóstico, mas não concordo com a terapêutica. Não é por o Estado ser mais ou menos "protector", que os cidadãos são menos ou mais exigentes. O grau de exigência tem a ver com factores culturais, essencialmente, e que derivam, por sua vez, dos contextos morais, religiosos, sócio económicos e, naturalmente, políticos, que agem na formatação das consciências individuais, através de um complexo processo de uma sedimentação, de curta, média e longa duração, e que se vai herdando geracionalmente, embora com várias mutações, impostas pelas dinâmicas das novas realidades, derivadas do progresso das sociedades. 
O povo português, porque periférico, em termos históricos, em relação aos centros do progresso e dos conflitos bélicos europeus, foi sempre um povo facilmente domesticável pela acção dos aparelhos ideológicos dos vários poderes, que se completavam na sua missão: o poder religioso, o poder político e o poder económico-financeiro, que sempre recorreram a várias estratégias, para fazerem prevalecer o seu domínio, estratégias que iam da sedução à repressão e à opressão e da cultura da exaltação patriótica e nacionalista - como tentativa consumada de formatar um modelo de identidade colectiva.- à cultura do medo.
Trata-se de um quadro que, em termos sociológicos, é muito complexo, devido ao enorme peso das diferentes variáveis envolvidas, o que dificulta a sua compreensão plena. E é também esta complexidade de factores que impede a mudança rápida das mentalidades dos povos.
AC

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Alemanha brinca com o fogo na Grécia - por José Vítor Malheiros - PÚBLICO


1. Pedro Passos Coelho nunca surpreende. Sempre que existe uma oportunidade para mostrar uma réstea de dignidade pessoal, alguma ténue preocupação com os cidadãos do seu país ou um lampejo de sentido patriótico, Passos Coelho exibe a sua natureza e faz a única coisa que sabe: obedece ao que julga serem os desejos do seu suserano.
Foi assim com a notícia da vitória do Syriza na Grécia, com o anúncio das primeiras posições do Governo grego e foi assim com a proposta grega de uma conferência internacional sobre a dívida. Tudo acontecimentos que qualquer Governo português, independentemente da sua cor política, deveria receber com algum agrado, porque reforçam a nossa posição negocial como credores no seio da União Europeia, mas que Passos Coelho preferiu criticar ecoando os ditames da voz do dono. O Governo grego quer defender a dignidade e a vida dos gregos e Passos Coelho não suporta esse atrevimento. Passos Coelho nem percebe como é que Tsipras não considera uma honra servir os poderosos deste mundo e lamber a sola cardada das suas botas, deleitando-se na volúpia da submissão. Passos Coelho não é mais papista que o Papa: é apenas mais alemão do que Angela Merkel e mais obsceno do que Miguel de Vasconcelos.

jvmalheiros@gmail.com

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O desvario subserviente de Passos Coelho é de uma indignidade chocante. Tirando o período da dominação espanhola, dos Filipes, em que a fidalguia indígena queria ser mais castelhana do que portuguesa, nunca houve um governante português que, tal como Passos Coelho está a fazer, promovesse a sabujice ao estatuto de teoria de Estado e que transformasse a bajulação, aos inamistosos governantes estrangeiros, num argumento político de primeira grandeza. Passos Coelho está a percorrer a curta distância que separa o nojo do vómito. E tudo isto com uma vergonhosa desfaçatez!...

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Notas do meu rodapé: Os equívocos de Alberto Martins e do seu PS (revisto)


Tenho muito respeito por Alberto Martins, até porque ele foi um dos líderes carismáticos das lutas académicas contra o fascismo e contra a Guerra Colonial, em 1969. Mas não posso concordar com ele, quando, agora, numa sua intervenção na campanha eleitoral do PS, vem atacar o PCP e o BE, desafiando-os, de uma forma implícita, a combater unicamente o inimigo principal, a coligação PSD/CDS, e a não enfraquecer, como aconteceu num passado recente, o partido que, na sua opinião, se encontra em melhores condições de derrotar a política de direita. Quando Alberto Martins afirma que “é a altura já de [PCP e BE] darem a volta aos erros cometidos” e que “eles quando votaram a favor de uma moção de censura ao governo do PS [de José Sócrates] abriram a porta a esta direita”, ele deveria ter a consciência de que quem acabou por abrir a porta à direita foi precisamente o próprio PS, com a sua política de ataque aos desempregados, reformados e pensionistas (os célebres PEC’s), o que conduziu à humilhante derrota nas eleições legislativas seguintes. Tivesse o governo de Sócrates governado a favor do povo e, de certeza, o eleitorado não o teria penalizado, em favor da direita, que teve a habilidade de enganar mais uma vez os portugueses com promessas falsas. Alberto Martins troca assim a hierarquia e a ordem dos termos da causalidade, tomando a causa por efeitos e os efeitos por causa.
Eu sei que o PCP vai ser uma vítima (como é costume) de um ataque cerrado e mal intencionado dos dirigentes socialistas, que não lhe perdoam o facto de ser o único partido que, com coerência, denuncia o cego europeísmo do PS (que o PSD não pode denunciar, naturalmente), um europeísmo que se manifesta na sua pronta adesão a todas as iniciativas europeias de carácter federalista e que são, por isso mesmo, limitadoras da soberania nacional dos estados membros. Um partido que está comprometido com a troika e que concordou com o Tratado Orçamental - um documento estruturante que vem limitar o poder orçamental dos países da zona euro (que já antes, com a adesão à moeda única, haviam perdido o poder monetário e o poder cambial) - não pode vir agora dizer que vai inverter o ciclo da austeridade, que já está programado para o futuro. Assim como não pode, devido à sua insignificância no quadro europeu, comum à dos outros partidos portugueses, influenciar os partidos da sua família política, na sua maioria já convertidos a um neoliberalismo de fachada socializante.
E esta denúncia do PCP não vem de agora. Já remonta à época da adesão de Portugal à então CEE, e, posteriormente, à da adesão à moeda única.
O PCP teve a lucidez de perceber (e é isto que os dirigentes socialistas não perdoam) que a Europa rica iria dar-nos uns rebuçados envenenados. Deram-nos carradas de dinheiro para construir auto estradas e outras obras públicas, o que exigia comprar-lhes caríssimos equipamentos para a construção civil e outros materiais de engenharia, o que beneficiou a indústria pesada da Alemanha e da França; excluíram o nosso país da PAC (Política Agrícola Comum) no primeiro Quadro Comunitário a que Portugal teve direito, para facilitar as importações de produtos agrícolas espanhóis e franceses, objetivo este que também norteou a decisão de conceder subsídios aos agricultores portugueses para arrancarem vinha e olival. Também os armadores foram seduzidos com os tais rebuçados envenenados para destruir os seus barcos de pesca, favorecendo-se assim  o mercado exportador da indústria pesqueira espanhola.
Foi com estas políticas dos nossos amiguinhos europeus, consideradas altruístas e solidárias pelos dirigentes do PS e do PSD, e que prosseguiram nas décadas seguintes, com a promoção de empréstimos fáceis dos seus bancos nacionais aos bancos portugueses, para estes endividarem as famílias e as empresas, que se chegou a este período de desespero. Com a ocorrência da bolha imobiliária (lixo de créditos mal parados), que ia rebentando com o euro, uma outra manobra “solidária” e “altruísta” foi engendrada pela Alemanha. Para salvar os seus próprios bancos, à beira da falência, e utilizando no seu interesse a UE, o BCE e o FMI (a troika), a Alemanha influenciou decisivamente a aplicação de uma brutal política de austeridade nos países da periferia intervencionados, a fim de se operar a transferência dos encargos da crise para as respetivas dívidas soberanas, aliviando-se assim a enorme pressão especulativa sobre o euro.
E é devido a esta solidariedade europeia, tão enaltecida pelos europeístas dos partidos do arco da agressão (a que eu chamo arco da traição), que Portugal tem agora uma dívida pública colossal, que é impagável, e um nível de desemprego estrutural, que se vai manter por muitos e longos anos, se Portugal, entretanto, não provocar uma verdadeira rutura política com a Europa predadora. E Alberto Martins, embora diga que “a disciplina orçamental pode conviver com a dinamização da economia e o crescimento”, não consegue, contudo, explicar, assim como nenhum outro dirigente socialista, como isso será possível, quando já é admitido pela maioria dos economistas que sem uma renegociação e reestruturação da dívida pública (perdão de parte da dívida, baixa da taxa de juro e alongamento das maturidades), não haverá margem para o crescimento económico.
E é a este nível que reside a falácia do PS, que o PCP, com inteira razão, denuncia.

domingo, 6 de abril de 2014

Que esperar dos nossos credores? - por António Catita


À exceção dos partidos da coligação e seus adeptos, há uma convicção generalizada de que é urgente renegociar as condições da nossa dívida.
Não será porém fácil demover os credores, ligados intimamente, como estão, aos grandes interesses económicos que dominam toda a política ocidental. (...) Li uma entrevista com Marisa Matias, deputada com assento no Parlamento Europeu. Foi como relatora desse órgão que participou em reuniões com o Banco Central Europeu, de cuja administração obteve uma resposta muito eloquente: As medidas impostas a Portugal alcançaram um "indicador positivo", a baixa do custo do trabalho no País. Tão honesta resposta revela bem a estratégia global da troika e portanto dos altos interesses económico-financeiros que nos governam: baixar ao máximo os níveis salariais dos países não industrializados, para que as empresas dos poderosos tenham à sua disposição, em países permanentemente dependentes, um manancial de mão-de-obra baratíssima.
António Catita
***«»***/***»***
Cercados pela economia dos EUA, com um maior valor acrescentado, e pelas economias dos países asiáticos, principalmente a da China, com baixos custos salariais, as economias mais robustas da Europa, com a da Alemanha à cabeça, estão a promover aceleradamente, através da austeridade, a baixa dos custos unitários do trabalho nos países do sul da Europa. Ou através da migração de trabalhadores dos países mais pobres ou, no futuro próximo, deslocalizando meios de produção para as economias destes países, os países ricos vão ver assim aumentada a sua competitividade. 
Com esta reestruturação económica à escala europeia, os desequilíbrios entre os países ricos e os países pobres tenderá a agravar-se. Não serão as remessas dos emigrantes, que, a curto e a médio prazo, virão atenuar os desequilíbrios de médio e longo prazo, provocados aos países da periferia, dos quais se destacam, principalmente, as futuras quedas da natalidade, que irão marcar um destino duradouro de uma pobreza endémica e de um acentuado subdesenvolvimento.

domingo, 30 de março de 2014

Queremos criar empregos? Saiamos do euro e da UE - por Joan Tafalla


Tal como em Portugal, em Espanha o desemprego é uma consequência direta  da crise de uma Europa que abandonou o discurso da solidariedade e do crescimento e o substituiu pela política do saque aos países da periferia.
Através deste estudo de Joan Tafalla, percebe-se que se trata de um fenómenos estrutural, ligado às contradições do capitalismo, e não de um efeito conjuntural.
Ver aqui.

quinta-feira, 27 de março de 2014

O medo como arma política


Ele foi o medo da bancarrota, o medo da falência da Segurança Social, o medo do fim do Estado social, o medo dos retrocessos nos direitos e nos avanços civilizacionais e o medo permanente suscitado pelo anúncio de medidas muitíssimo negativas para depois serem aplicadas menos umas décimas de austeridade. O objetivo é o de gerar a resignação, o conformismo e o alívio por o corte realizado ser ligeiramente abaixo do previsto. Podia ter sido pior, pensam alguns.
Outra das linhas do medo é a do fomento das divisões entre os portugueses tendo por base a inveja e a denúncia de alegados privilégios, enquanto as grandes fortunas aumentam mais de 14% em 2013. Colocar os mais jovens contra os idosos, os trabalhadores do setor privado contra os funcionários públicos, os que têm apoios sociais contra os que não têm, os do interior contra os do litoral, sempre numa lógica divisionista insuscetível de gerar qualquer mobilização dos portugueses para saírem da crise.
Outra das linhas do medo é a da consagração da incerteza como a tónica que pontua a vida de milhares de portugueses, incerteza em relação aos rendimentos do trabalho, às reformas e às pensões, incerteza em relação aos serviços prestados pelo Estado e incerteza generalizada em relação ao futuro. Medo que não chegue, medo que não tenha ou simplesmente medo. O Governo desregulou as nossas vidas, numa espécie de mimetização com o funcionamento da globalização e numa deriva de aproximação aos modelos de sociedade com respostas de protecção social mais débeis, conformadas com a colocação de cidadãos na rota da exclusão social e da pobreza.
António Galamba
***»*** ***«»***
A política da subliminar difusão e instalação do medo tem os mesmos efeitos perversos das políticas de terra queimada.
Salazar criou a PIDE e desencadiou uma violenta repressão silenciosa para amedrontar os portugueses. Passos Coelho, um aventureiro sem escrúpulos e sem moral, escolheu a iminente ameaça do caos, a divisão entre as classes sociais e os grupos profissionais  e a incerteza sobre futuro, cujo invisível modelo foi inspirado nos  manuais de tortura da CIA. Desmoralizar primeiro, dividir a seguir, para depois impunemente atacar.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Ucrânia: À Europa, Saiu o Tiro Pela Culatra

 

Putine passou de bestial a besta em menos de 24 horas. De grande estrela organizadora dos Jogos Olímpicos de Sotchi, autêntica medalha de ouro da modalidade de contra-terrorismo, capa de variadíssimas publicações ocidentais durante quinze dias, Putine passou a ser o urso que ameaça devorar o mundo. Há, claro, em tudo isto (como diria Mark Twain a propósito das notícias sobre a sua morte), algum exagero e também alguma má-fé e muita ignorância.

As razões geopolíticas do afrontamento na “terra da fronteira” (significado literal de Ucrânia) são conhecidas de todos os que se interessam (mesmo pouco que seja) pela geopolítica. Mario Draghi confessou, a propósito, há uns dias, que a geopolítica era algo que estava para lá do alcance de “um pobre banqueiro central”… Mas esqueceu-se de referir (ou não sabia) que nenhum banqueiro central (pobre ou não…) está para além do alcance da geopolítica.

George Friedman, para só citar um nome conhecido dos leitores do “IE”, há anos que vinha a antecipar, em público, os actuais acontecimentos da Ucrânia (e outros da Europa e da Rússia) e, ao longo de 2013, lançou vários alertas sobre o problema. Portanto, esta crise, como todas as crises, era antecipável e a prova é que houve quem a antecipasse, como o nosso referido amigo George Friedman.
Não há, portanto, aqui nenhuma surpresa (Friedman explicou há um ano como a reacção de Putine só poderia ser a que agora… foi!) e se algum dirigente político ocidental se diz surpreendido, então, só está a comprovar que não tem competência para o cargo que ocupa. Mas isso também já se sabia…

Que a Crimeia queira ser russa também não é um facto que possa surpreender, tendo em conta a história dos últimos séculos e a conjuntura estratégica das últimas décadas. Nem é, de resto, caso raro e muito menos único. Assim, de repente, para não falar da defunta Checoslováquia, nem da falecida Jugoslávia e outros Kosovos, bastará lembrar a velha guerra da Irlanda e, mais recente, a Escócia a querer separar-se do Reino Unido, a Flandres que quer sair da Bélgica, a Valónia que admite integrar-se na França, a Lombardia que não quer ser italiana e, mais perto de nós, o País Basco e a Catalunha que gritam não ser Espanha e pretendem viver a sua própria vida. E a Alemanha deverá olhar também um pouco para aquilo que é… O estado politicamente mais arcaico e frágil da Europa, permanentemente ameaçado de uma implosão que só a ocupação militar americana mantinha fora da agenda e que agora só o sucesso económico disfarça, a Alemanha ter em qualquer altura a sua Crimeia na…Baviera.

A Crimeia não é, portanto surpresa alguma, nem sequer uma história rara. Que as chancelarias da União Europeia sucumbam a um fatal cocktail de arrogância e ignorância, polvilhado de preguiça, é outra história, que tão pouco é rara mas, sim, muito comum. Que, tendo sucumbido a esse cocktail fatal, as chancelarias europeias sejam surpreendidas, pelo normal evoluir das dinâmicas que desencadeiam, tão pouco tem nada de surpreendente. Que estejam agora a ser assediadas pelos banqueiros que, levianamente e com muito desprezo pela geopolítica, se “expuseram” na Rússia mas sobretudo na Ucrânia (onde a exposição ascende a dezenas de milhares de milhões…) também não surpreende. Aliás, seria o contrário que surpreenderia. Tal como surpreenderia que a União Europeia não mobilize já umas dezenas de milhares de milhões (do
dinheiro dos contribuintes, claro) para correr “ajudar” (a fundo perdido) a Ucrânia a pagar aos bancos europeus, para que estes não percam os seus fundos. O dinheiro, aliás, nem avistará terras da Ucrânia, passará directamente dos bolsos dos contribuintes para os cofres dos bancos. Claro, tudo isto precisa de um discurso justificativo e até apologético. A guerra económica dos bancos pela recuperação dos seus fundos precisa de uma boa guerra de informação… E ela aí está que já transformou em ouro devorador a medalha olímpica do contra-terrorismo de Sotchi. Até os editoriais de um “Economist”, outrora tão lúcido, cheiram a propaganda barata…

A questão estratégica, porém, é outra. A Rússia é o jovem Estado que sucedeu à União Soviética (embora tenha perdido territórios e populações). Como jovem Estado está a iniciar o seu percurso e tem escolhas estratégicas a fazer. Escolhas que ditarão o seu futuro imediato e a longo prazo. Por exemplo, dizer que a Rússia deve escolher a democracia à ocidental é uma frase feita e totalmente
vazia. Oca. A Rússia, para escolher e construir a democracia à ocidental, precisa de ter um horizonte de integração no mundo euro-atlântico. De sentir e ver que essa integração não só é possível como é a melhor aposta em termos de desenvolvimento e segurança do jovem Estado russo. Ora, a “crise” da Ucrânia constitui-se em trauma para a Rússia que percepciona este conflito como a vontade da Alemanha, enquadrada por outros europeus e apoiada por Washington, de desestabilizar as fronteiras russas, instalar-se aí e obter o controlo do Mar Negro, barrando a Moscovo a sua única via de acesso ao Mediterrâneo. Bem ou mal, a Rússia percepciona a Ucrânia como um Estado-tampão essencial à sua defesa. Isso é um facto. Um facto real e estratégico que, sendo tal, não pode ser ignorado, como o foi pelas chancelarias europeias. Moscovo considera que, dada a sua geografia e a sua história, a transformação
da Ucrânia num Estado sob influência de Berlim (com ou sem apoio de Washington) é uma gravíssima ameaça à sua segurança nacional e, como tal, não pode ser tolerável e, muito menos, tolerado. A reacção de Putine só podia, portanto, ter a natureza que teve…

A sua recentíssima declaração de que pretende uma “solução diplomática”, mais do que apaziguadora pode ser muito preocupante e tem várias leituras possíveis mas concordantes e mesmo complementares.

Primeiro, Putine sente que já está montado um sistema suficiente de forças na Crimeia e que, resolvido esse problema de terreno, é agora tempo de começar a “conversar”;

Segundo, Putine não acredita em “soluções diplomáticas” mas as forças no terreno, tanto na Crimeia como em todo o leste da Ucrânia, são já suficientes para aguentar embates com as milícias e as tropas deste governo anti-russo de Kiev;

Terceiro, não havendo soluções diplomáticas (e, obviamente, quanto menos elas forem possíveis mais ele chamará por elas…), Putine aceita uma “guerra prolongada” na Ucrânia (à imagem da ex-Jugoslávia), em que não empenhará tropas mas municiará abundantemente as milícias pró-russas, pelo menos enquanto não  houver intervenções estrangeiras;
Quarto, uma tal guerra civil na Ucrânia, uma estratégia de caos, desestabilizará não só a Ucrânia mas toda a região, será um imenso sarilho para a União Europeia, prejudicará gravemente os interesses americanos no Irão, Síria, Iraque, Afeganistão e outros, tornará o Mediterrâneo oriental uma autêntica zona de guerra, será uma bela vacina para outros Estados ex-soviéticos que apresentem veleidades anti russas e, last but not least, isto afastará, por décadas, Moscovo do mundo euro-atlântico colocando-o numa posição de radical desconfiança estratégica de todo o Ocidente e, particularmente, de Berlim;
Quinto, esta “estratégia caos” choca de frente com os interesses europeus de um próspero mercado de 45 milhões de consumidores ucranianos mas não belisca o interesse russo de ter na Ucrânia um Estado-tampão, que pode perfeitamente ser o campo de ruínas resultante de uma arrasadora guerra civil.

A Bruxelas, na Ucrânia, já está visto que lhe saiu o tiro pela culatra… Os estragos que isso provocará é o que ainda iremos ver. Como tudo isto pode ser visto, enquadrado e explorado no quadro da estratégia nacional portuguesa é algo a que só quem souber o que essa estratégia nacional poderá dar alguma resposta…
Inteligência Económica
10/03/2014

Amabilidade de Diamantino  Silva

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Opinião: Queremos um país decente - por Paulo Ferreira

Para que a memória não se apague!

“O texto que sustenta a manchete da edição de domingo do "Jornal de Notícias" é o exemplo mais chocante dessa realidade. É difícil imaginar pior. O que a jornalista Inês Schreck escreveu não é um murro no nosso coletivo estômago: é um valente soco nas fundações de um país que abana e ameaça cair. É uma vergonha.
Cito-a: "Há cada vez mais doentes oncológicos em grandes dificuldades económicas. Não têm dinheiro nem para comer, pondo em risco a própria recuperação. Os pedidos de ajuda disparam". Estamos, portanto, a deixar morrer pessoas com cancro que não têm dinheiro para se alimentar, ou para pagar as consultas e os medicamentos de que necessitam.
Cito o presidente do Núcleo Regional do Norte da Liga Portuguesa contra o Cancro: "Há famílias inteiras que, de um dia para o outro, ficam na miséria, porque o cancro atingiu o único elemento [do agregado familiar] que trabalhava".
Cito o retrato dramático de uma dessas famílias: o pai está inválido e desempregado, a mãe tem um cancro raro e hereditário em estado avançado e duas filhas menores a seu cargo, sendo que uma delas também é doente oncológica. Todos vivem agarrados a uma pensão que não chega aos 300 euros.
Cito, em conclusão, um país que se entretém  com o "reviralhismo de café". Cito um país que deve envergonhar-se de si próprio. Que não é decente”.
Paulo Ferreira

***«»***
Contudo, há muitos portugueses que não se escandalizam nem sentem qualquer tipo de vergonha!
Os nazis queimaram os judeus nos fornos crematórios. Este governo infame condena a uma morte silenciosa e dolorosa idosos pobres, portadores de doenças oncológicas. O crime, em ambos os casos, é da mesma natureza. E não pode ter perdão!... 

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Eclipse sem amor!...Quanto tens, quanto vales, nada tens, nada vales!

Eclipse sem amor

Quando falamos de politica, de economia, da crise e do Estado Social, normalmente, procede-se a uma análise holística, considerando a plenitude da realidade integral, o que é necessário, mas omitindo-se uma outra abordagem, que se apoia na noção de que o todo é a soma das partes.
Numa recente intervenção minha, num outro espaço, a propósito das políticas assassinas que estão a ser desenvolvidas, tendo como alvo os idosos pobres e remediados, recebi uma missiva de uma leitora, a colocar a questão numa outra perspetiva, que não deixa de ser pertinente e verdadeira, e que eu, como causa, remeto para a cultura de egoísmo, que o sistema foi inculcando nas pessoas.
Trata-se de um grito, que nasceu do silêncio da solidão. É um protesto sentido, ao qual eu quero, aqui, dar amplitude e ressonância. Estes testemunhos individuais são muito importantes, se, no meio de toda a nossa racionalidade e intelectualidade, quisermos perceber o que está a passar-se no nosso país.


Eis o texto:

Caro Alexandre:
Pois eu sinto mais que tristeza, vergonha e revolta.
Fui atirada para a mais completa miséria pela falta de valores morais de algumas pessoas e pela doença que ando a combater faz anos.
Hoje vejo-me sem nada, doente e desgastada e, pior que tudo, rodeada de gente  mais que ignorante, pois é gente sem formação e sem valores humanos.
Fala-se muito de povo, mas eu, que vivo no meio desse povo, tenho visto do que são capazes.
Pouca ou nenhuma solidariedade, pouca ou nenhuma noção do que são direitos humanos, muita indiferença pelo sofrimento alheio, muita arrogância misturada com o egoísmo puro e duro.
Só para ter noção do que falo, no prédio onde resido (prédio camarário) eu e a senhora, que mora no andar por cima de mim, ambas temos dificuldades motoras.
Na entrada do prédio existem umas escadas e um espaço útil suficiente que daria para a construção de uma rampa suave para a entrada do prédio.
Este edifício que tem mais de 40 anos, não tem elevador.
Quer eu quer a minha vizinha somos quase prisioneiras, nas nossas casas.
Pois na terça feira passada, durante a reunião de moradores do prédio com a representante da Câmara, falei sobre a hipótese de se construir a tal rampa suave para nos ser menos difícil o acesso, já que temos ainda de subir as escadas interiores do prédio, embora no interior exista um corrimão que nos auxilia um pouco.
Resposta de uma das moradoras (residente no rés do chão): era o que mais faltava! Já agora porque é que não pede também um elevador? Suba as escadas que só lhe faz é bem. Não se vai construir uma rampa só por causa de uma ou duas pessoas!
Respondi-lhe: E porque não? Porque você tem hoje duas boas pernas para subir dois lances de escada, mas amanhã mesmo pode acontecer-lhe ficar agarrada a uma cadeira de rodas e nessa altura quero vê-la a pedir ajuda a alguém e a receber de resposta que não tem direito algum a sair de casa.

É com este "povo" com que eu sou confrontada todos os dias.

Hoje mesmo nos CTT's, uma senhora achou por bem sentar-se ao meu lado num dos bancos e empurrar-me de tal maneira que quase me fazia cair ao chão.
Nem mesmo vendo-me de bengala se deu ao trabalho de procurar um lugar onde sentar-se sem me atropelar.
Empurra-se um doente para a valeta, não se pára nas passadeiras, se estiver a chover somos literalmente banhados em água suja pelos condutores, reclama-se se alguém com mobilidade reduzida demora a atravessar a passadeira de peões, não se dá lugar nos transportes públicos, reclama-se de tratamento prioritário a deficientes motores e invisuais, estacionam-se os carros nos lugares marcados para deficientes, goza-se com a desgraça dos que caíram na miséria por culpa das belas reformas do estado social e não se ajudam os mais carenciados de forma a preservar a nossa dignidade.

Da distribuição de "ajuda alimentar" nem falo, porque aquilo que assisto e sofro na pele é de tal forma gritante que, se começar a descrever, dava, não um filme, mas um seriado.

Enfim.

Já antes de mim, um senhor que dava pelo nome de Vitor Hugo, escreveu uma bela obra que representa e bem o que é o povo na sua real veracidade. A obra chama-se "Os miseráveis" e nela vê-se o retrato do que é o povo-povo, produto de uma sociedade onde o único valor é o do capital.

Quanto tens, quanto vales, nada tens, nada vales!

Dignidade, direitos humanos, solidariedade, são tudo palavras muito bonitas, mas não passam disso: palavras.

Faltam actos, faltam valores e falta acima de tudo empatia e noção de que para se cair na pobreza total, basta um segundo!
LS

domingo, 20 de outubro de 2013

Estado Social: UMA QUESTÃO DE CLASSE


UMA QUESTÃO DE CLASSE

Saúde e a Educação são áreas com demasiado potencial lucrativo para ficar fora do alcance do mercado. O Grupo Mello Saúde, um dos principais beneficiários da privatização dos serviços de saúde, definiu o sector como “o negócio do século XXI”. Assim, o Governo Passos Coelho continua e concretiza o vetusto sonho da direita portuguesa: a destruição do SNS e a privatização da prestação de serviços de saúde.
Tanto a Saúde como a Educação são sectores sob um garrote orçamental desde há muito tempo, com as transferências do Estado a minguar de ano para ano, o que contribuiu para o endividamento do SNS, a degradação dos serviços que ele presta, bem como a deterioração do ensino público.
Este OE não é nenhuma originalidade. O Ensino Básico e Secundário vai sofrer cortes na ordem dos 8%, o Ensino Superior 4% e a Saúde 3,8%. Estamos a falar de sectores que funcionam com inúmeras anomalias mesmo com os níveis de financiamento actuais. Como em todo o sector público, o grosso deste sub-financiamento vai incidir sobre a redução de pessoal e cortes nos salários. Não é apenas o futuro dos profissionais do sector que é posto em cheque, mas da esmagadora maioria da população que depende destes serviços para aceder a tratamentos médicos ou a uma formação profissional de qualidade.
Mas será que toda a gente perde com esta investida governamental sobre a Saúde e a Educação? Claro que não. Também aqui, o Governo imprime um toque da sua classe.
Os proprietários de estabelecimentos de ensino privado são dos poucos que não se podem queixar deste OE, visto que as transferências orçamentais para este negócio vão subir. Por outro lado, os gastos com as PPP’s, grande parte dos quais tendo lugar precisamente no âmbito da Saúde, vão duplicar no próximo ano. Portanto, com a destruição da Saúde e Educação Públicas, ganham os mesmos de sempre: a banca e os grupos económicos parasitas, que vivem à custa da teta do Estado.
Tiago Silva
In Sentidos Distintos


***«»***
Encontrei este texto na página de Teresa Almeida. Deixei-lhe o seguinte comentário, que reproduzo aqui:

“Comece a jogar no euromilhões, porque está a acertar em tudo. 
Na realidade, está em marcha o processo do desmantelamento do SNS e da educação pública para ir entregando aos privados a parte mais lucrativa, pela via referida no texto de Tiago Silva, a do aumento da concessão de subsídios governamentais. Trata-se de um processo silencioso de privatizações dos setores mais rentáveis dos dois pilares do Estado Social.
O desmantelamento da Segurança Social, para entregar o negócio às seguradoras, virá a seguir. Fez muito bem em divulgar esta magna questão no espaço público da internet, onde muita gente aind anda entretida a discutir o sexo dos anjos.
Como disse anteriormente, a seguir virá o desmantelamento da Segurança Social, um negócio altamente rentável para entregar às seguradoras, completando-se assim a destruição do Estado Social, cuja importância é fundamental, não só pelos serviços que presta à população, mas também pelo efeito calibrador da distribuição da riqueza, atenuando assim as desigualdades sociais. Não consigo imaginar este país sem Estado Social. Se isso vier a acontecer, Portugal regressará aos níveis de pobreza dos anos 30/40 do século passado. 
E esta ofensiva contra o Estado Social não se concentra apenas nos países que estão a ser sujeitos à escravatura da troika. Ela vai prolongar-se por toda a Europa. Na França, pela mão do Partido Socialista (quem diria?!), o plano vai começar a ser implementado. O capitalismo financeiro internacional pretende nivelar tudo pelo pensamento único da cartilha doutrinária do neoliberalismo”.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Minhas notas:Espera-nos um futuro sombrio...


Diz a dolorosa experiência da Europa e da América Latina que, quando a democracia parlamentar não mais consegue defender os interesses do capitalismo, o capitalismo inventa e promove um regime totalitário. Com a crise a galopar e, brevemente, a expandir-se por toda a Europa, tal como muitos especialistas prevêem, a História poderá repetir-se, embora sob novas e sofisticadas formas. Mas também irão eclodir muitas revoltas e revoluções, quando o estômago começar a acertar as horas pela roda dessa mesma História. As grandes mudanças sociais e políticas, ocorridas no passado, foram sempre antecedidas por períodos conturbados, tal como o atual, e que já eram sinais anunciadores de novos e dramáticos futuros, que a maioria dos coevos não entendeu, tal como hoje muitos dos nossos contemporâneos não entendem ou não querem entender o que agora está a passar-se.
Anuncia-se um novo tempo, que não será o fim do tempo, mas que será o início de um outro, que não pode adivinhar-se. No entanto, o sofrimento dos povos será enorme, e isso já é quase uma certeza. Aliás, esse sofrimento já começou. Ainda não deram conta?

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Notas do meu rodapé: Uma narrativa que é necessário reescrever...

Fernando Pessoa: do poema A Mensagem

A minha amiga, Maria Gomes, transcreveu na sua página da internet, com grande oportunidade e sagacidade, um trecho de um texto, de Vergílio Ferreira, o nosso escritor do existencialismo, que dizia assim:

" Já há oito séculos, meu povo, escreves
A história para os outros.
É tempo agora de escreveres a tua."

Ocorreu-me deixar-lhe o seguinte comentário:

"Premonitório! Quase profético! Ainda não conseguimos escrever a nossa verdadeira história, aquela narrativa redentora da nossa idiossincrasia, para que possamos afirmarmos-nos livres e independentes, estado que, na realidade, ainda não atingimos. Na História Moderna fomos sempre dominados. No século XIX, a Inglaterra emprestava-nos dinheiro, com juros, para lhe comprarmos maquinaria industrial, para o caminho de ferro e para as fábricas. No século XX, comprámos ideologias aos americanos, que nos intoxicaram com produtos sub-culturais. No século XXI, a Europa escravizou-nos com a dívida, ganhando mais-valias, e agora empresta-nos dinheiro, a juros, para a pagarmos, arrastando-nos para a indigência.
Tudo isto é muito pesado e ignóbil, para um povo que contribuiu decisivamente para a modernidade (sem se modernizar atempadamente a si próprio, em cada época histórica), e que construiu a primeira globalização intercontinental, ao quebrar, com génio e audácia, o isolamento da Europa, face ao mítico e rico Oriente". 

terça-feira, 21 de maio de 2013

Reis Novais sobre a "selvajaria" - Jugular

Sugestão de João Fráguas e Joaquim Pereira da Silva
*
As políticas austeritárias começaram a entrar em declínio e encontram-se completamente desacreditadas. Já são muito poucos aqueles que as defendem. E isto por duas razões: por um lado, essas políticas têm vindo a revelar-se  contraproducentes, pois, nos países que as adotaram, os objetivos propostos não estão a ser alcançados, verificando-se o falhanço de todas as previsões. Na Irlanda, na Grécia e em Portugal, o que se constata é que a cura é muito bem pior do que a doença, pois as respetivas economias sucumbiram ao peso das medidas de austeridade sobre o consumo privado e a despesa do Estado. Por outro lado, a nível académico, os economistas neoliberais deixaram de se ouvir, perante a evidência dos erros metodológicos e de análise dos estudos de investigação que sustentavam a tese de que uma dívida excessiva seria um verdadeiro travão para o crescimento económico, tese esta que é desmentida, por exemplo, pelo caso do elevadíssimo endividamento da Alemanha, no pós-guerra, que lhe serviu, juntamente com o da acumulação de défices orçamentais, para iniciar a recuperação da sua economia. 
Restam os políticos ortodoxos e empedernidos, que não querem dar-se por vencidos e pretendem esgotar todos os meios, mesmo os mais absurdos, na esperança de que a situação se inverta.  Uma esperança que será inglória. Entretanto, os povos vão continuar a sofrer todas as nefastas consequências da aplicação cega destas políticas, com algumas das suas respetivas medidas a atingirem as raias do absurdo. É o caso, entre nós, da medida prevista para aplicar aos funcionários públicos do quadro de mobilidade especial, que, ao fim de 18 meses de inatividade, deixarão de receber qualquer remuneração, por parte do Estado, embora continuem com o vínculo laboral inalterado. É uma situação verdadeiramente kafkeana, que não abona, tal é a desorientação e o desnorte dos governantes, a favor da sanidade mental dos seus autores e promotores.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

O homem é livre no momento em que ele deseja ser.

*
Esta viragem sub-reptícia do paradigma ocorreu num curto período de tempo de duas gerações, sem que as pessoas se tenham dado conta dos perigos embrionários, que estavam a germinar no miolo do sistema financeiro internacional. Como já aqui dissemos, está a nascer um novo tipo de colonialismo, que já não exige a administração direta do território colonizado nem a sua ocupação militar, e a uma nova forma de escravatura sem a privação da liberdade individual, pois cada homem continua a ter a liberdade de ser pobre. E este colonialismo e esta escravatura vão ser implantados através do domínio planetário das grandes potências financeiras, que também não poupará os trabalhadores dos países mais ricos.
É evidente que este não será o fim da História, que na realidade só poderá acontecer, quando o Homem deixar de existir à face da Terra. Será certamente um novo princípio de uma nova alvorada, em que o Homem saberá usar a força da razão para recuperar a dignidade perdida. Até lá, muito sangue irá correr, muitos homens, mulheres e crianças vão morrer, ceifados pela fome e pela doença, numa escala nunca vista. Será esse o preço a pagar para que as sociedades voltem a ser governadas com Justiça, Liberdade, Equidade e Democracia, que é precisamente o que já está a faltar.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Notas do meu rodapé: A culpa não pode morrer solteira...


O PS enreda-se na sua condição de subscritor do memorando, dizendo tudo e o seu contrário, incapaz de assumir claramente, sem hesitações nem ambiguidades, a ruptura com este rumo e a urgência da demissão deste Governo.
Margarida Coelho
Membro da Comissão Política do Comité Central do PCP
PÚBLICO (ver aqui)
***«»***
E o problema já não é apenas o governo do PSD/CDS, que insiste em levar por diante a destruição da economia do país, conforme os desejos da Hitler de saias, que não se comove com o sofrimento a que gregos e portugueses estão ser sujeitos, com as danosas políticas de austeridade. O problema também é do Partido Socialista, cúmplice e solidário com o Memorando da Traição, e que, agora, na oposição, não consegue descartar. António José Seguro limita-se a vociferar protestos, de estilo panfletário, falando farisaicamente ao coração dos portugueses, mas sem se comprometer com projetos concretos, ao mesmo tempo que os engana, fazendo-os acreditar que é possível inverter a situação no quadro de entendimento com a troika.
O Partido Socialista tem tantas responsabilidades quanto o PSD, na calamitosa situação do país. Foram estes dois partidos que, em traiçoeira alternância,  exerceram o poder durante os trinta e seis anos de governos constitucionais. Foram estes dois partidos que aceitaram sem pestanejar as condições da troika, num ato de submissão vergonhoso, e ignorando os avisos de gente honrada e sabedora, que afirmava ser a receita preconizada contrária aos interesses nacionais, e que não iria garantir a resolução da crise. 

sábado, 23 de fevereiro de 2013

A questão do Relvas é do Relvas, mas não é do Relvas... - por Carlos Matos Gomes


A questão do Relvas. A questão do Relvas é do Relvas, mas não é do Relvas. O Relvas é como os calos. A culpa dos calos é dos pés, mas é também dos sapatos e de quem os calça. Quero eu dizer: a culpa é do Relvas, porque o Relvas é uma erva daninha (nasceu assim, é da sua natureza). Dá caganeira, comichão, visões, dores. O Relvas, tendo esta essência malsã, não serve para fazer chá. A culpa dos males causados pelo Relvas é do Relvas, neste sentido. Mas é também de quem faz chá com o Relvas. Isto é, quem convida o Relvas para ir falar a um clube de pensadores, nem as pensa! Quem convida o Relvas para ir falar a uma universidade a sério, nem as pensa. Isto é, a culpa dos vómitos no clube de pensadores e no ISCTE, é dos pensadores que não pensam o que os portugueses pensam do Relvas e dos comunicadores que não percebem a imagem que os portugueses têm do Relvas.
Carlos Matos Gomes
Escritor

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Opinião: O 31 de Janeiro de 1891 - por Carlos Esperança

Fotografia do Movimento Revolucionário 5 de Outubro
O 31 de Janeiro de 1891

Em Portugal, nos finais do século XIX, na ausência de soluções para a crise económica, social e política, a monarquia agonizava. Depois da conferência de Berlim, em 1885, o projeto português de ligar Angola a Moçambique colidiu com o plano inglês de ligar o Cairo ao Cabo (África do Sul).
A disputa do território africano que ficaria conhecido por mapa cor-de-rosa culminou com o Ultimatum, imposição do império inglês a Portugal, tão humilhante que inflamou o fervor republicano e o ódio ao trono e à Inglaterra.
Os ideais republicanos continuaram a seduzir os portugueses e a ganhar força à medida que a monarquia se esgotava, a pobreza aumentava e o sentimento coletivo, de vergonha e ressentimento, se acentuava.
«A Portuguesa» foi o hino que surgiu do rancor generalizado que cada vez mais se identificou com as aspirações republicanas que germinavam nos quartéis, na maçonaria e nos meios académicos. O Partido Republicano, até aí pouco expressivo, cresceu em adesões e consistência.
Entre os militares destacavam-se os sargentos no fervor republicano donde viria a surgir a primeira tentativa de implantação da República. Coube ao Porto a honra desse ensaio falhado que contou com alguns oficiais em que se distinguiu o alferes Malheiro e, ainda, o capitão Leitão e o tenente Coelho.
Com a banda da Guarda-Fiscal à frente, os militares republicanos avançaram ao som de «A Portuguesa» e assaltaram o antigo edifício da Câmara do Porto de cuja varanda, perante o entusiasmo da população que se juntou ao movimento, se ouviu o discurso de um dos lideres civis da revolta, Alves da Veiga, que proclamou a República.
Falhado o objetivo de ocupar o Quartel-General e o edifício do telégrafo, donde se anunciaria a todo o País a proclamação da República e a deposição da Monarquia, o movimento soçobrou perante a Guarda Municipal.
A semente dos revoltosos de 31 de Janeiro de 1891 frutificou em 5 de Outubro de 1910. Eles foram protagonistas de uma derrota que esteve na origem da vitória que triunfaria quase duas décadas depois.
Foi há 122 anos mas a memória histórica dos protagonistas do 31 de Janeiro está viva e é dever honrá-la.
O MR5O comemora amanhã, em Mira, com um jantar aberto a todos os republicanos, a data do sonho que teve de esperar. E… o sonho comanda a vida e… a História.
Viva o 31 de Janeiro!
Viva a República!
Carlos Esperança
Publicado na página do Facebook do Movimento Republicano 5 de Outubro.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Opinião: UM CANHÃO PELO CU - O texto que está a incendiar Espanha- por José Millas


O seguinte texto foi publicado recentemente no El País, tendo-se tornado absolutamente viral em Espanha. Reflecte sobre o terrorismo financeiro e a captura económica. Chama as coisas pelos seus nomes e faz uma análise sobre o capitalismo actual que está a incendiar não só Espanha como todo o mundo. O título é "Um canhão pelo cú", e é escrito por Juan José Millas.

Um canhão pelo cú
Se percebemos bem - e não é fácil, porque somos um bocado tontos -, a economia financeira é a economia real do senhor feudal sobre o servo, do amo sobre o escravo, da metrópole sobre a colónia, do capitalista manchesteriano sobre o trabalhador explorado. A economia financeira é o inimigo da classe da economia real, com a qual brinca como um porco ocidental com corpo de criança num bordel asiático.
Esse porco filho da puta pode, por exemplo, fazer com que a tua produção de trigo se valorize ou desvalorize dois anos antes de sequer ser semeada. Na verdade, pode comprar-te, sem que tu saibas da operação, uma colheita inexistente e vendê-la a um terceiro, que a venderá a um quarto e este a um quinto, e pode conseguir, de acordo com os seus interesses, que durante esse processo delirante o preço desse trigo quimérico dispare ou se afunde sem que tu ganhes mais caso suba, apesar de te deixar na merda se descer.
Se o preço baixar demasiado, talvez não te compense semear, mas ficarás endividado sem ter o que comer ou beber para o resto da tua vida e podes até ser preso ou condenado à forca por isso, dependendo da região geográfica em que estejas - e não há nenhuma segura. É disso que trata a economia financeira.
Para exemplificar, estamos a falar da colheita de um indivíduo, mas o que o porco filho da puta compra geralmente é um país inteiro e ao preço da chuva, um país com todos os cidadãos dentro, digamos que com gente real que se levanta realmente às seis da manhã e se deita à meia-noite. Um país que, da perspectiva do terrorista financeiro, não é mais do que um jogo de tabuleiro no qual um conjunto de bonecos Playmobil andam de um lado para o outro como se movem os peões no Jogo da Glória.
A primeira operação do terrorista financeiro sobre a sua vítima é a do terrorista convencional: o tiro na nuca. Ou seja, retira-lhe todo o carácter de pessoa, coisifica-a. Uma vez convertida em coisa, pouco importa se tem filhos ou pais, se acordou com febre, se está a divorciar-se ou se não dormiu porque está a preparar-se para uma competição. Nada disso conta para a economia financeira ou para o terrorista económico que acaba de pôr o dedo sobre o mapa, sobre um país - este, por acaso -, e diz "compro" ou "vendo" com a impunidade com que se joga Monopólio e se compra ou vende propriedades imobiliárias a fingir.
Quando o terrorista financeiro compra ou vende, converte em irreal o trabalho genuíno dos milhares ou milhões de pessoas que antes de irem trabalhar deixaram na creche pública - onde estas ainda existem - os filhos, também eles produto de consumo desse exército de cabrões protegidos pelos governos de meio mundo mas sobre protegidos, desde logo, por essa coisa a que chamamos Europa ou União Europeia ou, mais simplesmente, Alemanha, para cujos cofres estão a ser desviados neste preciso momento, enquanto lê estas linhas, milhares de milhões de euros que estavam nos nossos cofres.
E não são desviados num movimento racional, justo ou legítimo, são-no num movimento especulativo promovido por Merkel com a cumplicidade de todos os governos da chamada zona euro.
Tu e eu, com a nossa febre, os nossos filhos sem creche ou sem trabalho, o nosso pai doente e sem ajudas, com os nossos sofrimentos morais ou as nossas alegrias sentimentais, tu e eu já fomos coisificados por Draghi, por Lagarde, por Merkel, já não temos as qualidades humanas que nos tornam dignos da empatia dos nossos semelhantes. Somos simples mercadoria que pode ser expulsa do lar de idosos, do hospital, da escola pública, tornámo-nos algo desprezível, como esse pobre tipo a quem o terrorista, por antonomásia, está prestes a dar um tiro na nuca em nome de Deus ou da pátria.
A ti e a mim, estão a pôr nos carris do comboio uma bomba diária chamada prémio de risco, por exemplo, ou juros a sete anos, em nome da economia financeira. Avançamos com rupturas diárias, massacres diários, e há autores materiais desses atentados e responsáveis intelectuais dessas acções terroristas que passam impunes entre outras razões porque os terroristas vão a eleições e até ganham, e porque há atrás deles importantes grupos mediáticos que legitimam os movimentos especulativos de que somos vítimas.
A economia financeira, se começamos a perceber, significa que quem te comprou aquela colheita inexistente era um cabrão com os documentos certos. Terias tu liberdade para não vender? De forma alguma. Tê-la-ia comprado ao teu vizinho ou ao vizinho deste. A actividade principal da economia financeira consiste em alterar o preço das coisas, crime proibido quando acontece em pequena escala, mas encorajado pelas autoridades quando os valores são tamanhos que transbordam dos gráficos.
Aqui se modifica o preço das nossas vidas todos os dias sem que ninguém resolva o problema, ou mais, enviando as autoridades para cima de quem tenta fazê-lo. E, por Deus, as autoridades empenham-se a fundo para proteger esse filho da puta que te vendeu, recorrendo a um esquema legalmente permitido, um produto financeiro, ou seja, um objecto irreal no qual tu investiste, na melhor das hipóteses, toda a poupança real da tua vida. Vendeu fumaça, o grande porco, apoiado pelas leis do Estado que são as leis da economia financeira, já que estão ao seu serviço.
Na economia real, para que uma alface nasça, há que semeá-la e cuidar dela e dar-lhe o tempo necessário para se desenvolver. Depois, há que a colher, claro, e embalar e distribuir e facturar a 30, 60 ou 90 dias. Uma quantidade imensa de tempo e de energia para obter uns cêntimos que terás de dividir com o Estado, através dos impostos, para pagar os serviços comuns que agora nos são retirados porque a economia financeira tropeçou e há que tirá-la do buraco. A economia financeira não se contenta com a mais-valia do capitalismo clássico, precisa também do nosso sangue e está nele, por isso brinca com a nossa saúde pública e com a nossa educação e com a nossa justiça da mesma forma que um terrorista doentio, passo a redundância, brinca enfiando o cano da sua pistola no rabo do sequestrado.
Há já quatro anos que nos metem esse cano pelo rabo. E com a cumplicidade dos nossos.
Juan José Millas

Amabilidade de João Fráguas.