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quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

A extrema leveza da unidade da esquerda...


Como pode ler-se abaixo, a aventura 3D terminou tal como começou, por iniciativa dos próprios. Não há convergência possível quando uma das partes, ainda por cima aquela que formalmente não existe, propõe à outra que prescinda da sua existência a seu favor. A impossibilidade completa-se quando, a juntar ao primeiro absurdo, se verifica que à frente de uma convergência que servisse o objectivo de unir as esquerdas está a carreira política de alguém que comprovadamente tem facilidade em rasgar o contrato eleitoral que se estabelece pelo voto entre eleitos e eleitores. Entre o 3D e o Livre, o 3D escolheu o Livre. A direcção do Bloco limitou-se a recusar o inaceitável. E saíram todos, saímos todos a perder.
***«»***
Há vida política para além dos partidos, mas não pode haver política sem os partidos. Os mentores do do Movimento 3D queriam, ao mesmo tempo, sol na eira e chuva no nabal. Queriam, em igualdade de condições e de circunstâncias, pendurar-se num partido já constituído e que tem compromissos estabelecidos com os seus militantes e simpatizantes, e, ao mesmo tempo, não queriam assumir os riscos de serem um partido político, a vir a ser testado pelo eleitorado. Se essa coligação viesse a ter êxito eleitoral, poderiam sempre reclamá-lo para si. Se a coligação falhasse, a culpa seria do Bloco de Esquerda.
Por outro lado, todas estas movimentações de uma certa esquerda esquecem um elemento estruturante essencial. Não pode haver unidade de esquerda sem a participação do PCP, um partido que pauta a sua credibilidade pela coerência das suas posições políticas e pelo facto de reunir em si as três condições básicas para ser um verdadeiro partido político de alternativa, pois tem uma ideologia definida, um programa claro e transparente e uma forte organização, assente numa dedicada militância. O resto da esquerda anda à deriva, a procurar pouso.
AC

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Meco : as provas que apontam para ritual de praxe

*
É a verdade o que esta corajosa mãe pretende, já que não podem restituir-lhe a vida da filha. É a verdade o que todos nós queremos, para que a ignomínia e a tragédia não se repitam. Queremos saber quais os poderes ocultos que se escondem por detrás desta sofisticada máquina das praxes académicas das universidades privadas, que procuram alienar e manietar, para fins pouco claros, os jovens universitários. Começam a surgir muitas dúvidas e muitas perguntas inquietantes, ainda sem resposta, sobre a natureza e os objetivos destas práticas iniciáticas, que têm na base organizações secretas e obscuras e, pelos vistos, tenebrosas.
AC

sábado, 25 de janeiro de 2014

Professor da Universidade do Minho 'praxado' por alunos


Professor da Universidade do Minho 'praxado' por alunos
Numa abordagem a uma turma que se encontrava em praxe, na Universidade do Minho, um docente ouviu a pergunta “O que é o caralho?” ser-lhe colocada por um ‘doutor’. Como conta o Diário de Notícias, a ‘praxe’ ao professor só terminou quando o mesmo chamou os seguranças.

***«»***
A praxe académica está a transformar-se numa paranóia coletiva, cruel, boçal e animalesca. Fruto de uma demência monstruosa e delirante, que se apoderou dos nossos jovens universitários, a praxe está a ser assumida como uma cultura de rituais satânicos e bárbaros, emoldurados num quadro de extrema violência física e psicológica. Com a imaginação à solta, cada jovem veterano dá largas à sua criatividade, inventando cenários de tortura originais, nem que, para conseguir o orgasmo sádico, se recorra a práticas atentatórias da dignidade das suas vítimas, e pondo em perigo a sua saúde e até a própria vida.
Enganou-se quem falou de uma Geração à Rasca. A atual geração universitária é a geração da cerveja e da praxe.
Que tipo de sociedade está a ser formada?
AC

"Quando o governo ataca as funções sociais do Estado, ataca a democracia e a Constituição" - João Oliveira (PCP)

*
Ver aqui a versão escrita do discurso

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

A pensar no II Congresso Internacional Marx


«Há 170 anos, Marx escrevia os famosos Manuscritos Económico-Filosóficos de 1844. No quadro de um materialismo novo em elaboração, era o arranque de uma longa investigação da estrutura económica da sociedade que viria a resultar, em 1867, na publicação do Livro Primeiro da sua obra magna, O Capital. Há 100 anos, começava a I Guerra Mundial, guerra conduzida em nome do lucro e de uma nova partilha do mundo pelas potências imperialistas. No dia 18 de Janeiro de 1934, há 80 anos, os operários da Marinha Grande, opondo-se à fascização dos sindicatos, tornaram-se senhores do poder, ainda que apenas por algumas horas. A 25 de Abril de 1974, faz agora 40 anos, tombava em Portugal a ditadura fascista e os trabalhadores davam início a um processo revolucionário apontado ao socialismo.
Depois do assinalável sucesso do I Congresso, em 2012, é este conjunto de efemérides, assim como a violenta crise cíclica de acumulação do capitalismo e a consequente intensificação das lutas dos trabalhadores, que, em 2014, formam o contexto do II Congresso Internacional Marx em Maio. Assinalamos estas datas e os acontecimentos por elas evocados não com a intenção de nos encerrarmos no passado, à procura de uma fórmula mágica para os combates de hoje e do futuro, mas com o triplo objectivo da compreensão do mundo actual, da comemoração e do alerta.
A obra de Marx e o marxismo continuam a ser, do nosso ponto de vista, os mais penetrantes instrumentos de análise do real. O caminho percorrido por Marx até ao desvendamento da lei da mais-valia, âmago do capitalismo, ofereceu às ciências particulares novas perspectivas de fundo e novos campos de pesquisa. A própria filosofia ganhou novas pernas e outros trilhos para andar.
Por tudo isto, no II Congresso Internacional Marx em Maio voltaremos a contar com a participação de filósofos, de historiadores, de economistas, de sociólogos, de físicos, de geógrafos, de sindicalistas, de militantes e activistas sociais e políticos. Estes quadrantes de investigação e intervenção não se justapõem extrinsecamente, a sua razão de ser reside na própria envergadura e amplitude do trabalho de Karl Marx, na unidade multifacetada do marxismo.
Face aos ataques à racionalidade, à ciência e à cultura que acompanham, como complemento, as políticas de regressão social acelerada dos últimos anos, continuaremos a procurar cultivar um pensar ancorado numa racionalidade crítica e dialéctica».

II Congresso Internacional Marx em Maio 8, 9 e 10 de Maio de 2014
Anfiteatro I da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
ENTRADA LIVRE
Mais informações muito em breve.

Notas à margem: A vitória de Pirro


Escreveu o jornal i: Apesar de alguns indicadores económicos positivos [o défice orçamamental de 2013, a ultrapassar ligeiramente os objetivos da troika], Freitas do Amaral considerou que "as melhorias são muito pequenas" e comparou: "É como se uma pessoa estivesse com 40 de febre e se fizesse uma festa por passar para 39,8". Pediu, por isso, aos portugueses que nas próximas eleições saibam "aplicar o castigo justo" ao atual Governo.
E eu acrescento: se deixar de dar de comer ao meu filho, daqui por dois anos até posso comprar um Mercedes.
Não houve da parte do governo nenhum mérito neste resultado das contas públicas, que não assentou em medidas sustentáveis para o futuro. Ele foi conseguido à custa do aumento das receitas do IRS, não porque em 2013 tivesse havido um aumento dos rendimentos dos trabalhadores e dos pensionistas, mas sim, porque o governo, acentuando a austeridade, aumentou as taxas de incidência daquele imposto. E este cenário, um novo aumento das taxas de IRS, não vai ser possível no futuro, o que leva o governo a querer transformar em definitivos os cortes provisórios das pensões, para assim consolidar as contas públicas, pelo lado da diminuição da despesa.
Os reformados, a classe mais vulnerável e indefesa, juntamente com a dos desempregados, continua a ser uma presa fácil para este governo, que apenas se preocupa com os mercados e com os compromissos com os credores internacionais, ignorando o contrato social do Estado com os pensionistas.
AC

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Anotação do Tempo: A sustentabilidade do tempo…


A sustentabilidade do tempo…

À minha avó Maria

Julgas que vou fazer isto tudo?
Nunca tenho tempo para nada
porque sempre julgo
ter tempo para tudo.

A culpa é dos relógios
que contam o tempo devagar
quando afinal, e veloz como o vento,
o tempo passa a correr.

Devia ser como no tempo da minha avó
que contava os dias pelos dedos,
as horas pelo sol
e despertava ao cantar do galo.
E ela sempre teve tempo para tudo,
até para ter netos.
E foi sempre assim,
até morrer…

Alexandre de Castro

Lisboa, Janeiro de 2014

Opinião: O dia em que acabou a crise! – por Concha Caballero (*)


Quando terminar a recessão teremos perdido 30 anos de direitos e salários…
Um dia no ano 2014 vamos acordar e vão anunciar-nos que a crise terminou. Correrão rios de tinta escrita com as nossas dores, celebrarão o fim do pesadelo, vão fazer-nos crer que o perigo passou embora nos advirtam que continua a haver sintomas de debilidade e que é necessário ser muito prudente para evitar recaídas. Conseguirão que respiremos aliviados, que celebremos o acontecimento, que dispamos a atitude critica contra os poderes e prometerão que, pouco a pouco, a tranquilidade voltará à nossas vidas.
Um dia no ano 2014, a crise terminará oficialmente  e ficaremos com cara de tolos agradecidos, darão por boas as politicas de ajuste e voltarão a dar corda ao carrocel da economia. Obviamente a crise ecológica, a crise da distribuição desigual, a crise da impossibilidade de crescimento infinito permanecerá intacta mas essa ameaça nunca foi publicada nem difundida e os que de verdade  dominam o mundo terão posto um ponto final a esta crise fraudulenta (metade realidade, metade ficção), cuja origem é difícil de decifrar mas cujos objectivos foram claros e contundentes:
Fazer-nos retroceder 30 anos em direitos e em salários
Um dia no ano 2014, quando os salários tiverem descido a níveis terceiro-mundistas; quando o trabalho for tão barato que deixe de ser o factor determinante do produto; quando tiverem ajoelhado todas as profissões para que os seus saberes caibam numa folha de pagamento miserável; quando tiverem amestrado a juventude na arte de trabalhar quase de graça; quando dispuserem de uma reserva de uns milhões de pessoas desempregadas dispostas a ser polivalentes, descartáveis e maliáveis para fugir ao inferno do desespero, ENTÃO A CRISE TERÁ TERMINADO.
Um dia do ano 2014, quando os alunos chegarem às aulas e se tenha conseguido expulsar do sistema educativo 30% dos estudantes sem deixar rastro visível da façanha; quando a saúde se compre e não se ofereça; quando o estado da nossa saúde se pareça com o da nossa conta bancária; quando nos cobrarem por cada serviço, por cada direito, por cada benefício; quando as pensões forem tardias e raquíticas; quando nos convençam que necessitamos de seguros privados para garantir as nossas vidas, ENTÃO TERÁ ACABADO A CRISE.
Um dia do ano 2014, quando tiverem conseguido nivelar por baixo todos e toda a estrutura social (excepto a cúpula posta cuidadosamente a salvo em cada sector), pisemos os charcos da escassez ou sintamos o respirar do medo nas nossas costas; quando nos tivermos cansado de nos confrontarmos uns aos outros e se tenha destruído todas as pontes de solidariedade. ENTÃO ANUNCIARÃO QUE A CRISE TERMINOU.
Nunca em tão pouco tempo se conseguiu tanto. Somente cinco anos bastaram para reduzir a cinzas direitos que demoraram séculos a ser conquistados e a estenderem-se. Uma devastação tão brutal da paisagem social só se tinha conseguido na Europa através da guerra.
Ainda que, pensando bem, também neste caso foi o inimigo que ditou as regras, a duração dos combates, a estratégia a seguir e as condições do armistício.
Por isso, não só me preocupa quando sairemos da crise, mas como sairemos dela. O seu grande triunfo será não só fazer-nos mais pobres e desiguais, mas também mais cobardes e resignados já que sem estes últimos ingredientes o terreno que tão facilmente ganharam entraria novamente em disputa.
Neste momento puseram o relógio da história a andar para trás e ganharam 30 anos para os seus interesses. Agora faltam os últimos retoques ao novo marco social: um pouco mais de privatizações por aqui, um pouco menos de gasto público por ali e “voila”: A sua obra estará concluída.
Quando o calendário marque um qualquer dia do ano 2014, mas as nossas vidas tiverem retrocedido até finais dos anos setenta, decretarão o fim da crise e escutaremos na rádio as condições da nossa rendição.”
*
(*) Concha Caballero é licenciada em filosofia e letras e professora de línguas e literatura. Entre 1993 e 2008, ocupou um lugar no parlamento da Andaluzia, onde chegou a ser porta voz do grupo esquerda unida.
Deputada autonómica entre 1994 e 2008, foi uma das deputadas chave na aprovação da Reforma do Estatuto Autonómico da Andaluzia, a que imprimiu um caráter mais social e humano do que aquele que, no principio, os grupos maioritários do parlamento pretendiam.
Actualmente, colabora em diferentes meios de comunicação. Escreve sobre actualidade politica. Em 2009, publicou o livro “Sevilha cidade das palavras”.
Texto recebido por email

Agradecimento


Agradeço à Maria Eu a amabilidade de ter aderido ao Alpendre da Lua, como amiga/seguidora.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Pintura: Os 85 Mirós do BPN que vão a leilão em Londres - Expresso


A Christie's, escolhida pelo Estado para leiloar os Mirós, que pertenceram ao BPN, em Londres, no mês de fevereiro, atribuiu à coleção um valor de 35,9 milhões. O leilão poderá render 80 milhões de euros. [Das 85 pinturas], 68 vieram de offshores com dívidas ao banco.
Expresso 
Veja aqui

domingo, 19 de janeiro de 2014

Uma arrochada a preceito...


A historiadora e investigadora, Raquel Varela, publicou na página do Grupo “Que se Lixe a Troika” um cartaz a anunciar uma manifestação de protesto de bolseiros, investigadores e professores universitários, junto à sede da Fundação para a Ciência e Tecnologia, a exigir melhores condições de trabalho. Um jovem leitor, formado em Engenharia, no Instituto Superior Técnico, apresentou-se com um comentário, a questionar Raquel Varela, de uma forma capciosa, e utilizando argumentos falaciosos e retorcidos. Resolvi sair-lhe à frente, para lhe dar uma arrochada, que, certamente, lhe deveria ter doído muito, pois o meliante, que aqui irei designar por César Carvalhal, não tugiu nem mugiu, tendo desaparecido, sem deixar rasto.

Eis as mensagens trocadas:

César Carvalhal: A Raquel Varela é contra os mercados de manhã e à tarde, quer subsídios, bolsas, serviços públicos, etc. e tal. Já se lembrou de responder à principal pergunta? Ou de sequer a fazer? De onde vem o dinheiro para tudo isso?

EU: César Carvalhal: O seu comentário à publicação de um cartaz, por iniciativa da historiadora e investigadora Raquel Varela, a anunciar uma manifestação de protesto de bolseiros, investigadores e professores universitários, é de um primarismo chocante, o que só é desculpável, quando assumido por ignorantes e por néscios.
Devolvo-lhe a pergunta. Possivelmente, o César Carvalhal nasceu numa maternidade pública, sustentada exclusivamente pelos dinheiros dos impostos, e os seus pais começaram a receber imediatamente o respetivo abono de família, através da Segurança Social, para onde eu andei a descontar durante 35 anos. Depois, entrou na escola pública, que frequentou até ao 12º ano, que completou, sem pagar um tostão, a não ser o dispêndio para os livros escolares. Ingressou numa escola superior, para frequentar um curso, o de engenharia, um dos mais dispendiosos para o erário público. O que os seus pais despenderam em propinas não dava para pagar o vencimento de um ano a uma empregada de limpeza dessa escola superior. Pergunto-lhe: de onde veio esse dinheiro todo, que andou a gastar ao Estado? Porque não ficou, desde que nasceu, na incubadora da maternidade, onde seria alimentado a leite e a soro, situação essa que teria ficado mais barata para a comunidade, que agora tem de aturar o seu azedo egoísmo geracional?
E, depois de ler este meu comentário, não me apareça aqui, novamente, com respostas e argumentos idiotas e demagógicos, pois, se assim acontecer, farei tudo o que estiver ao meu alcance para que a sua família não venha a receber o subsídio do seu funeral.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Os enigmas do Ministério da Saúde ou o comissariado político em todo o seu esplendor - por Mário Jorge Neves (*)


A acção política do actual Ministro da Saúde, ao longo destes dois anos e meio em que está no Governo, tem apresentado quatro eixos caracterizadores fundamentais: a preocupação principal em gerir a sua imagem e carreira política fugindo aos problemas mais polémicos; o recurso sistemático a acções de mera propaganda política na comunicação social; a adopção de uma política “silenciosa” e dissimulada de crescente asfixia financeira e de desmembramento progressivo do SNS; e o incremento empenhado do comissariado político.
Naturalmente que uma acção política deste tipo tem sempre os dias contados e esta não irá fugir à regra.
Apesar das pesadas condições impostas pela Troika nos mais variados sectores, o Ministério da Saúde desenvolveu, desde logo, um amplo programa de cortes indiscriminados que as suplantaram amplamente.
Procurou criar a ideia na opinião pública que os cortes se dirigiam quase exclusivamente a nível das despesas com os medicamentos, tendo desenvolvido esta encenação política até à exaustão como “cortina de fumo” para dissimular os restantes cortes indiscriminados nas áreas nevrálgicas do SNS.
A exuberância política do Ministério da Saúde na abordagem desta importante matéria atingiu aspectos argumentativos tão radicais que até parecia estarmos perante um activista ultra revolucionário.
Simultaneamente, tem feito múltiplas declarações sobre o seu apego à defesa do SNS e dos serviços públicos de saúde, ao mesmo tempo que vai encerrando um crescente número de serviços, criando super agrupamentos de centros de saúde cada vez mais distantes das populações carenciadas e impondo orçamentos que sabe, à partida, conduzirem à falência funcional das instituições de saúde.
A sua preocupação com o futuro SNS pode ser avaliada por um simples facto, apesar de existirem infelizmente muitos outros: assumiu o compromisso de desencadear uma reforma hospitalar e nomeou para dirigir a respectiva comissão a mesma pessoa que durante o anterior governo de coligação PSD/CDS presidiu à entidade que dirigiu a implementação do modelo de hospitais SA, cujo objectivo era proceder à privatização integral dos hospitais públicos.
A reforma dos Cuidados de Saúde Primários está bloqueada e se ainda não foi objecto de uma ofensiva destruidora é porque no primeiro documento emitido pela Troika as USF foram referidas como uma experiência inovadora e a preservar.
Mesmo assim, ainda recentemente foi efectuada a tentativa de não proceder ao pagamento da componente variável do salário em função dos objectivos atingidos, precisamente dois ou três dias depois de o Ministério da Saúde ter assinado um compromisso negocial com os Sindicatos Médicos sobre esta matéria.
A propaganda política tem sido gerida no anúncio de medidas pontuais sempre que se verifica a deslocação do ministro à Assembleia da República para qualquer interpelação ou quando vêm a público aspectos lesivos da política governamental na área da saúde.
Mas se no início esta acção foi gerida com alguma habilidade na sua apresentação pública, nos últimos tempos o Ministério da Saúde tem revelado grande desorientação.
Para tentar desviar as atenções da opinião pública dos resultados concretos e brutais da sua política de cortes que já começam a fazer-se sentir para um número cada vez maior de cidadãos e famílias, o Ministro da Saúde lançou uma grande campanha de publicidade política sobre acções de investigação relativas a situações de conflitos de interesses a nível dos profissionais de saúde.
Não está em causa o cumprimento integral da legislação em vigor, mas esse cumprimento tem de ser igual para todos.
Ora, tendo sido denunciada uma iniciativa de uma multinacional farmacêutica em que o programa contou com intervenções de destacados dirigentes do Ministério da Saúde, o Ministro nada fez e todos continuam em funções impunemente.
Importa acrescentar que a discussão dessa iniciativa incidiu sobre matérias da exclusiva responsabilidade ministerial: externalização de consultas hospitalares e contratualização das USF para 2014.
Pelos vistos, as investigações são só para os profissionais de saúde, porque para os seus nomeados políticos tudo é permitido e a “legislação” é outra.
Mais recentemente, o desnorte político ministerial foi ao ponto de anunciar uma “nova” medida sobre a mobilidade geográfica dos médicos quando se trata de matéria consignada, em termos gerais, na legislação laboral da Administração Pública desde 2008 e que foi objecto de nova abordagem no acordo assinado entre o Governo e os Sindicatos Médicos em Outubro de 2012.
Entretanto, a questão do comissariado político e das clientelas dos aparelhos partidários do Governo assume uma importância relevante na análise sobre a delicada situação no sector da saúde.
Existem sectores de opinião que consideram estarmos perante uma situação em que o ministro se encontra politicamente “aprisionado” pelos membros da clientela partidária por si nomeados para os vários níveis das administrações dos serviços públicos de saúde.
Mas, por outro lado, também se evidenciaram fatos que apontam em sentido contrário, ou seja, que os nomeados políticos são obedientes executores das estratégias ministeriais e têm de desempenhar o papel de “polícias maus”.
Em diversas ocasiões, têm sido divulgadas medidas gravosas ou sem sustentação legal e logo que se desencadeia a contestação surge o ministro a “esclarecer” que se trata de um mal-entendido, que as pessoas não entenderam a essência da medida e que houve deturpação do seu real sentido.
Um aspecto “curioso” nestas situações é que essas medidas gravosas nunca são anunciadas pelo ministro, mas pelos seus secretários de estado ou por algum presidente de ARS mais empenhado na sua militância partidária.
O ministro aparece sempre depois para fazer o papel político do “polícia bom” e para “dar dito pelo não dito”.
As medidas de perseguição política a três dirigentes sindicais da FNAM por três administrações hospitalares e a arrogância política do seu comportamento posterior, revelam que usufruem de uma chocante impunidade da tutela ministerial.
Algumas medidas protagonizadas pelas administrações da ARS do Norte e da ARS de Lisboa e Vale do Tejo revelam igualmente, pela sua gravidade política, que só se mantêm em funções porque dispõem da clara complacência ministerial e que estão a cumprir as suas ordens hierárquicas.
Neste contexto clientelar e dos nomeados partidários, a eclosão da contestação aberta dos médicos do Hospital de Faro ao presidente da respectiva administração, e ex-bastonário da Ordem dos Médicos, Pedro Nunes, não sendo surpreendente merece particular registo.
Enquanto no desempenho das suas funções de bastonário escreveu um editorial da revista da Ordem dos Médicos (número de Julho/Agosto de 2009), com o
título “o preço da nossa liberdade”, onde me dirigiu graves ofensas pessoais por eu ter participado numa iniciativa partidária em plena campanha eleitoral, onde apresentei uma comunicação em defesa do SNS.
Fazendo grosseiras comparações com duas conhecidas figuras públicas de ex-deputados, afirmou sobre essa minha participação “…sem que se saiba se e qual o cargo que lhe terá sido prometido”.
Já nessa altura, era conhecido o frenesim de movimentos desse então bastonário que num dia participava em reuniões do PSD para discutir a elaboração do respectivo programa eleitoral e noutro dia aparecia no CCB em sessões do PS.
E acabou por ser compensado politicamente pelo actual ministro, que o nomeou para o cargo onde está a fazer o tipo de gestão que é agora denunciado num abaixo-assinado.
A grande diferença de princípios e de valores, é que tenho participado em iniciativas políticas para exercer os meus direitos cívicos e de cidadania na defesa de causas humanistas, continuando a desempenhar as funções sindicais, sem nunca me misturar com cargos de comissariado político.
Segundo diz o ditado, a família não se escolhe, mas no que se refere aos comissários e aos executores das políticas ministeriais as escolhas são já claras e elucidativas.
Se alguns dos nomeados, que têm protagonizado episódios políticos controversos, estivessem com isso a prejudicar o rumo da política do Governo e do Ministro da Saúde alguém tem dúvidas de que seriam imediatamente demitidos ou convidados a pedirem a demissão?
Não existem quaisquer enigmas na acção do Ministério da Saúde porque o objectivo é, como disse há algum tempo o Prof. Sobrinho Simões: rebentar com tudo!
A situação de ruptura a que temos assistido na grande maioria dos serviços de urgência é o resultado directo e inevitável da política de cortes e de desmembramento do SNS em curso pelo actual governo. É, dramaticamente, ainda só a “ponta do iceberg”, porque outras consequências graves irão acontecer a curto prazo.
Mas esta política não passará, porque há sempre alguém que diz “não” e já existem muitos a dizerem: NÃO!!!

Mário Jorge Neves,
Médico e Presidente do Sindicato dos Médicos da Zona Sul/FNAM

(*) Publicado na revista no site/jornal Tempo Medicina

Amabilidade do autor.

***«»***
Nota do editor: E eu pertenço ao grupo de portugueses, e que já são muitos, que dizem NÃO a esta política de austeridade, que, além de se centrar no aumento de impostos e no corte dos salários e das pensões, também ambiciona (velho sonho da direita) destruir o Estado Social (Saúde, Educação e Segurança Social), para entregar a parte mais lucrativa aos poderosos grupos económicos.
Quando, no final deste ano, o Serviço Nacional de Saúde estiver descaracterizado e disfuncional, ou simplesmente destruído, a maioria dos portugueses ficará muito limitada no acesso aos tratamentos médicos e de enfermagem, o que se traduzirá no agravamento das desigualdades sociais e económicas e na rutura da coesão social.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Petição pela Manutenção em Portugal das obras de Miró (do património BPN)


Governo não vê a colecção Miró do BPN
como “prioridade” para o Estado

A venda de 85 obras do artista catalão, agendada para Fevereiro na Christie’s de Londres, está a ser alvo de contestação através de uma petição e chega ao Parlamento na sexta-feira. Secretaria de Estado diz que a sua aquisição “não é considerada uma prioridade” ( ver artigo de ontem no Público)

***«»***
Além dos graves danos patrimoniais, artísticos, culturais e financeiros, que a decisão comporta, temos de considerar também a ignóbil leviandade ou a grosseira ignorância dos respetivos decisores, que assim, desta forma, também ofendem, insultam e a desconsideram a memória do grande pintor Miró. O povo português não pode consentir tamanha afronta à sua dignidade!.
AC

Assine a Petição aqui

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Agradecimento


Agradeço a Maria Angelica Mesquita e Figueiredo a amabilidade de ter aderido ao Alpendre da Lua, como amiga/seguidora.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Pintura: Almada Negreiros [3]

Clicar na imagem para a ampliar








Morais Sarmento: "Segundo semestre pode ser o último de vida deste Governo"

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O ex-ministro Morais Sarmento afirmou na antena da Rádio Renascença que “o segundo semestre” deste ano “pode ser o último deste Governo”, porque será nessa altura que “os portugueses vão perceber que afinal não muda nada” com a saída da troika. Além disso, considerou Morais Sarmento, “o País deve exigir que haja um entendimento" entre os "partidos do arco de governação”, até porque aí o Presidente da República perde “o argumento da estabilidade política” para não convocar eleições.

***«»***
Até eles, os gurus da direita, já admitem a “inevitabilidade” do desastre e também, embora indiretamente, a inutilidade da atual política de austeridade. Só ainda não assumiram que tudo isto não constitui nenhuma surpresa para os mentores destas políticas, pois o que interessava era promover muito rapidamente a transferência da riqueza do país (rendimentos do trabalho) para os centros financeiros da Europa, a fim de ancorar a dívida dos bancos de retalho portugueses. Trata-se de uma política assassina e predadora, que foi assumida conscientemente pelos partidos do arco da traição, quando assinaram o Memorando da Troika, e ao qual ainda se encontram amarrados, o que os impede de, no futuro, poderem vir a reclamar inocência.
AC

Fotografia: Foz do Douro, sob o temporal...

Amabilidade do João Fráguas

Eleita foto do dia (5/12/2013) pela National Geographic.
Blogue Aventar

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Pantera Negra...


Foi do grande jornalista desportivo, Fernando Correia, que ouvi o mais digno e empolgante elogio a Eusébio, a sobressair das muitas banalidades e baboseiras, vertidas para os ecrãs televisivos. Disse Fernando Correia: "Esta homenagem no Estádio da Luz não é para chorar a morte de Eusébio. É para celebrar a sua imortalidade!". E foi, digo eu. Foi um cenário de "festa", que só a morte dos grandes HOMENS merece. E Eusébio, a Pérola Negra, como eu lhe chamo, já é uma lenda do Futebol. Até sempre, Eusébio!...
...
A propósito da morte do Pantera Negra, escrevi a uma amiga o seguinte:  E julgo, Silvia Fontes, que ocorreu em Portugal um fenómeno de catarse coletiva, com as pessoas, mesmo as indiferentes ao fenómeno futebolístico, a projetarem na morte de Eusébio os recalcamentos e as angústias que esta crise avassaladora está a provocar em Portugal.

Papa 'brinca' com irmãs em clausura


“O que estão a fazer as irmãs que não podem atender? Sou o Papa Francisco e queria saudar-vos neste fim de ano. Vou ver se consigo ligar mais tarde. Que Deus vos abençoe”, disse o Papa Francisco numa mensagem de voz que deixou às irmãs do Convento de Carmelitas Descalças de Lucenda, conta o jornal ABC.

O Papa Francisco ligou esta semana para o Convento de Carmelitas Descalças de Lucenda, para desejar às irmãs em clausura um bom ano novo. Mas, não tendo ninguém atendido o telefone, Bergolio deixou uma mensagem de voz, em que o tom de brincadeira é bem evidente.
“O que estão a fazer as irmãs que não podem atender? Sou o Papa Francisco e queria saudar-vos neste fim de ano. Vou ver se consigo ligar mais tarde. Que Deus vos abençoe”, disse Francisco, citado pela Renascença, no tom descontraído que o caracteriza.
No convento vivem, actualmente, cinco freiras, três delas argentinas, que o Papa Francisco conhece pessoalmente.
Notícias ao Minuto
***«»***
As freiras estavam a atender outros clientes... 

domingo, 5 de janeiro de 2014

O problema do PS é este: tem muitos telhados de vidro


Portas diz que Seguro não tem autoridade para criticar Governo

Paulo Portas disse que José Seguro não tem "nem razão, nem autoridade" para criticar o alargamento da Contribuição Extraordinária de Solidariedade (CES), decidida pelo Governo como uma das medidas alternativas ao "chumbo" da convergência de pensões.
" Portas salientou também que "a TSU das pensões aplicava-se a reformas de 400 euros, o que é socialmente inaceitável" enquanto a medida do governo é o alargamento da base da CES "para reformas entre os 900 e os mil euros".
Para Paulo Portas, o líder do PS também não tem autoridade para as críticas que fez, dado que "a última medida que o Partido Socialista tomou sobre pensões foi congelar pensões mínimas, pensões sociais e pensões rurais, que tinham um valor mensal entre 200 euros e 250 euros".

***«»***
O problema do PS é este: tem muitos telhados de vidro. Tal como Passos Coelho, também José Sócrates aumentou os impostos, depois de  ter prometido o contrário, na campanha eleitoral que o elegeu. Tal como Passos Coelho, também José Sócrates fez incidir, através dos PEC, sobre os reformados e sobre os desempregados, as primeiras medidas de austeridade. Tal como Passos Coelho, também José Sócrates considerou ricos todos os trabalhadores que auferissem salários a partir dos mil e quinhentos euros. Durante estes quarenta anos de democracia, estes dois partidos, o PSD e o PS, rivalizaram no jogo de alterne com os portugueses, utilizando duas narrativas, uma para ser utilizada enquanto força política na oposição e outra destinada a ser difundida, enquanto governo.
E é esta verosimilhança de propósitos e de comportamentos, que nos tem levado a afirmar que se tratam de dois partidos que são as faces da mesma moeda, apenas com algumas diferenças em relação ao acessório.
AC

Agradecimento


Agradeço a Ana Loureiro  a amabilidade de ter aderido ao Alpendre da Lua, como amiga/seguidora.

sábado, 4 de janeiro de 2014

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Em Portugal ainda há escravos!....


Em 26 anos nunca vi 5 tostões. Zero
JOANA GORJÃO HENRIQUES

Francisco esteve 26 anos numa quinta do Alentejo, às mãos de uma família portuguesa. Estima-se que existam em Portugal entre 1300 e 1400 escravos. Conseguiu fugir há três meses

Ao domingo, sentava-se no quarto a ouvir a rádio. Para trás, deixava seis dias de trabalho no campo, deixava a enxada, as sementes que lançava à terra, deixava as ovelhas, os porcos, as vacas e punha-se a seguir os relatos de futebol ou a ouvir música. Ao menos ali podia escolher. Podia escolher em que estação iria sintonizar. O resto, as horas de comer, o que ia vestir, quando ia para a cama, que tarefa ia desempenhar, tudo o que é um dado adquirido para qualquer um de nós, era definido pelos patrões. Às 13h era a hora do almoço. Na cozinha.
Durante 26 anos, o domingo foi o único dia de descanso de Francisco (nome fictício). Nunca teve férias. Trabalhou sempre sem horários. Levantava-se, no Verão, às 5h30 para regar a horta, antes de o calor tornar a tarefa impossível de suportar. Geralmente, acabava o dia já depois de o sol se pôr, às vezes perto da meia-noite, se o patrão precisasse dele. Durante 26 anos, fez tudo isto numa quinta no Alentejo. “Em 26 anos, nunca vi 5 tostões. Zero”, diz-nos Francisco, levantando um pouco a voz, mas sem qualquer ponta de agressividade.
Aos 63 anos, Francisco, angolano, é um homem de estatura pequena, que solta um riso que lhe vem de dentro, um riso que se vai tornando ainda mais poderoso à medida que nos conta a tragédia em que se tornou a sua vida. Conta-nos, depois de passar em revista a sua história, que ri para aguentar, como se essa fosse a arma final de quem é humilhado uma vida inteira mas não verga, não verga porque ainda é dono das suas emoções.
Foi explorado pelos patrões, um casal português, que o algemou quando lhe confiscou os documentos de identificação e o obrigou a trabalhar de graça. Francisco entregou os documentos um dia porque pensava que lhe iriam tratar da regularização. Nunca mais viu papel nenhum. Em 26 anos, foi, aqui e ali, pedindo ajuda a alguns. Fecharam-lhe sempre a porta. Convenceu-se de que nunca iria ser capaz de sair dali.
E então ficou com medo de fugir. Medo de ir parar à prisão. Medo de ficar sem comer. Medo de perder o almoço e o jantar. Medo de ficar sem a cama e o banho de água quente que, apesar de tudo, ainda lhe davam. “Fugir para onde?”, perguntou-se, durante 26 anos.
Tinha chegado a Portugal em 1975, escapando da guerra civil em Angola. Em Portugal, pelo que conta, deram-lhe o estatuto de refugiado na altura. Sem esse documento, que não voltou ao bolso de Francisco, ninguém o empregava. Uma vez fugiu da quinta. Durou um, dois dias. Foi ter com um senhor que conhecia. “Somos amigos, mas não tens documentos…”, ouviu. Voltou à quinta pelo seu pé. A patroa, quando o viu, começou a chorar. Ele disse: “Mas não me pagam.” Responderam: “A gente arranja isso.” Nunca “arranjaram”.

A sua vida era o campo
Quando Francisco foi parar às mãos deles nos anos 1980, o fim do colonialismo ainda era recente. Ele próprio tinha lutado, em Angola, ao lado dos portugueses. Antes de rumar a Portugal, trabalhava para uma portuguesa, que sempre o tratou bem, segundo conta. Ela não sabia falar “a língua angolana”, ele ajudava-a a traduzir, fazia vários serviços por 300 escudos ao mês, suficiente para vestir, porque “comer não precisava, tinha tudo” em casa da mãe. Trabalhava de manhã e à tarde, depois regressava a casa da mãe, em Quipeio (Huambo), onde nasceu. “Às quatro da tarde, a senhora dizia: ‘Vai para casa’.” Foram os portugueses que o educaram, diz, apesar de ele nunca ter estudado. “Graças a Deus, no tempo do [Marcelo] Caetano tratavam-me bem.” Até aos 25 anos, a sua vida era o campo, como sempre. A patroa voltaria a Portugal quando estourou a guerra civil, deixou-lhe “o comércio”, uma loja que vendia “tudo”, tabaco, panos, peixe. “Toma, está aqui a chave, vamos embora”, disse-lhe a patroa. Francisco seria roubado, e pôs-se a andar para Portugal. A mãe não quis acompanhá-lo, preferiu ficar, mas o irmão, que entretanto morreu, sim
Dos patrões que o escravizaram não tem queixas de o tratarem de forma racista. Como também não lhe batiam, garante. Os maus tratos eram outros, e podiam passar simplesmente por nunca o levarem ao médico, a não ser quando era mesmo necessário. E disso ele não estava à espera quando o primeiro patrão para quem foi trabalhar no Norte, em 1975, lhe disse, ao fim de 11 anos, que ele iria para o Sul do país com a irmã e o cunhado — estávamos, pelas contas, em 1986. Lá, em Castelo Rodrigo, sempre foi pago. Aliás, até foi aumentado logo ao princípio, quando começou a trabalhar numa vacaria: “Entrei com 5 contos. Depois o meu patrão disse-me: ‘Oh, vou-te aumentar mais um bocadinho, estás a trabalhar bem.” Passaram a oferecer-lhe 12 contos. “Eu disse obrigado”, conta-nos, orgulhoso.
Depois veio a vida de escravatura em Évora. Os novos patrões eram, na altura, aquilo a que Francisco chama de seus amigos. Conheceu-os ainda eles namoravam. No Norte, prometeram-lhe contrato. Ele foi com eles. Quando chegou, o filho que hoje tem 27 anos tinha apenas um ano; o mais velho teria três. “Passou um mês, nada. Passou outro, nada. [Perguntava-lhes]: ‘Agora acabo com a roupa, como vou comprar?’” A resposta era a mesma: nada.

Dos patrões que o escravizaram não
tem queixas de o tratarem de forma racista.
Como também não lhe batiam, garante.
Os maus tratos eram outros, e podiam passar
simplesmente por nunca o levarem ao médico,
a não ser quando era mesmo necessário


Roupa os patrões não lhe compravam. Seriam outras pessoas que andariam pela quinta, “amigos” que lhe dariam, de vez em quando, coisas com que se vestir e sapatos. Tinha um quarto, com casa de banho para si, mas comia na cozinha, por vezes com outros empregados, que trabalhavam na quinta, esses, sim, a ganhar. A patroa é que limpava a casa, mas houve uma altura em que havia uma ucraniana a fazer o serviço, do qual desistiria quando percebeu que não era paga. É difícil perceber, pelas suas descrições, a dimensão da riqueza da família, que tipo de quinta e herdade seriam, quais os negócios dos patrões: ele diz que compravam e vendiam gado, teriam algum dinheiro, mas quanto, e mais do que isso, não sabe ou não quer dizer. Teriam amigos, que Francisco viu pela quinta. Nunca nenhum entrou em sua defesa? Ele relata que houve quem chegasse a acusar os patrões: “Não tens vergonha de não pagar ao homem?” Mas, comentário de Francisco, face à indiferença com que olhavam para o seu caso: “Muita gente arranjava assim empregados, a trabalhar de graça.” Ou seja, na sua cabeça, ele não seria caso único.

Passou um mês, nada. Passou outro, nada.
[Perguntava-lhes]: ‘Agora acabo com a roupa,
como vou comprar?’ A resposta era a mesma: nada

A Francisco nunca lhe ocorreu agarrar no telefone, em casa dos patrões, e fazer queixa às autoridades.
Tinha medo. E também não sabia a quem recorrer. Já tinha contado a uma tia que vivia no Norte, e que não vê há 24 anos, o que se passara. Disse-lhe, exactamente, onde ficava a quinta no Alentejo. Ela nunca apareceu, nem mandou ninguém para o resgatar.
Os dois filhos dos patrões, jovens — um terá perdido o emprego por não gostar de usar gravata, acordar cedo e fazer a barba, segundo conta a rir —, sabiam que ele era escravo. Tanto que, por vezes, Francisco levantava a voz para lhes atirar à cara:
— Pensam que estou para aturar vocês, ou quê? Não ganho nada!
Eles não diziam mais nada.
— Olha, a vossa sorte é que vocês não me entregam os documentos. Não estou para aturar vocês os dois, a vossa mãe e o vosso pai.

"Custava-me sentar e não trabalhar"
Ao longo de 26 anos, Francisco terá tido episódios de revolta, alguns poderão estar já longe, muito longe. As memórias estão vívidas quando conta algumas cenas, que diz serem das poucas em que se zangou a sério. Uma vez foi quando a patroa lhe pediu para trabalhar ao domingo. Ele disse: “‘Então vou trabalhar a um domingo? Hoje, não faço nada. Se não comer, também não morro.’ Não a vi mais o dia todo.” Que fossem os filhos a pegar na enxada, respondeu.
Outra vez foi quando a patroa decidiu pedir roupa a um armazém para ele e para ela própria, fingindo que seria para a mulher de Francisco. “Mas a senhora [que deu a roupa] chegou perto de mim e disse: ‘A sua patroa pediu para arranjar roupa para si e para a sua senhora.’ Eu disse: ‘Não senhora, estás enganada, não tenho mulher’.”
Ela sabia que Francisco era solteiro. Ele, irado, confrontou a patroa: “Como foste mentir a dizer que era preciso roupa de senhora? Foste pedir para ti ou foste pedir para mim?’ Comecei a enervar-me. Chamei o marido [o patrão].” Ele deu-lhe razão, e terá batido na mulher.
Francisco irou-se até porque nunca teve uma namorada ao longo daqueles 26 anos. O seu tom desce quando lhe perguntamos por isso mesmo, se namorou. Nunca, responde. “Dou o quê à namorada? Não ganhava nada. Casava e depois? Era ela que trabalhava para mim?” Silêncio, à espera da nova pergunta.

Tinha um quarto, com casa de banho
para si, mas comia na cozinha,
por vezes com outros empregados, que
trabalhavam na quinta, esses, sim, a ganhar

De resto, nunca conseguiu dizer aos patrões que não trabalhava. Não podia, senão ficava sem comida e sem tabaco. “Custava-me sentar e não trabalhar.” Não ia ao café, estava sempre na quinta, mesmo ao domingo. Na rádio, nunca ouviu histórias parecidas com a sua, nunca ouviu uma notícia que o inspirasse a pedir ajuda.
Até que um dia se lembrou: “Estou a ficar velho, com 63 anos. Um dia não posso trabalhar e botam-me para fora. Isso foi do que me lembrei. Botam-me para fora.” E imita o que imaginou os patrões a fazerem-lhe: “Não podes trabalhar, vai embora!”
E assim, ao fim de várias tentativas, ao fim de 26 anos a virarem-lhe a cara, foi falar com uma amiga, que lhe disse para falar com um homem que trabalhava num armazém do patrão. “Comecei a dar-lhe confiança, eu também tinha confiança. Às vezes estava muito triste e ele me perguntava:
— Que é que se passa?
— Não se passa nada. De manhã até agora, ainda não fumei um cigarro.
Ele também fumava e assim me dava um cigarro. Tentei falar com ele:
— Tenho que falar rápido que tenho de regar as batatas.
Estava muito calor.
— Tá bem… Tens tempo para regar as batatas.
— É assim, assim, assim [e explicou-lhe].
— Ai é? Porque não me disseste há mais tempo, estou aqui há um mês?
Ele disse que ia falar com um amigo que foi com ele para tropa. Passou uma semana, e o outro não aparecia. Fui outra vez ao armazém.
— Eh pá, então?
— Calma, isso não é para fazer à pressa.
Tirou as coisas dele do armazém e, com calma, foi-se embora.”
A guarda apareceu enfim, conta Francisco. Andou a perguntar por Francisco à patroa, que inventou que ele tinha sido levado pelo filho para a herdade. O filho, por sua vez, terá dito que Francisco estava com a mãe. Francisco: “Passei por uma porta. Já estava na estrada. Estava nervoso. [E pensei]: ‘Fico aqui, quando eles vierem me apanham.’ O sargento disse: ‘Anda cá. Tu vais já com a gente. Não tenhas medo. A gente não fazemos mal.’” Entrou para o carro. “Só fiz assim com o braço [acena]: ‘Adeus!’” O que se seguiu deve ter sido uma das suas gargalhadas poderosas, como fez ao contar-nos isto.
Ficou com pena de uma única coisa: do cão, que adorava. E de deixar de andar na terra, porque esta foi e continua a ser a sua vida. Se há algum sonho que tenha, é do “trabalhar”. Não consegue verbalizar o que deixou para trás. Mesmo se ganhasse o Euromilhões, era aí que investiria: numa herdade, para tratar dela. Sabe, claro, que era escravo. “Não era escravo? Ainda era pior. Porque não ganhava nada.” E raiva, nunca sentiu? “Raiva para quê? Para nada. Andava sempre contente com os meus companheiros.” Quando ficava triste, era porque, às vezes, se lembrava: “Não ganho nada, os outros recebem.”

Raiva para quê? Para nada.
Andava sempre contente com
os meus companheiros

O que é escravatura
Na instituição que acolheu Francisco, não há dúvidas: a situação é de “autêntica escravatura”, diz Hernâni Caniço, fundador da associação Saúde em Português, que gere um Centro de Acolhimento e Protecção a vítimas de tráfico de seres humanos do sexo masculino ao abrigo de um projecto financiado através da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género. Uma das equipas regionais de assistência a vítimas de tráfico humano da Associação para o Planeamento da Família contactou a Saúde em Português depois de uma denúncia, seguida de uma rusga à quinta no Alentejo pela GNR. A 5 de Setembro, Francisco foi acolhido no CAP da Saúde em Português. O caso está a ser investigado, mas esta organização não quis revelar mais informação para não perturbar a investigação. Francisco foi alguém que esteve sozinho, durante muitos anos, mas que nunca ninguém ouviu. Talvez por isso Hernâni Caniço sublinhe que é preciso uma maior sensibilização da sociedade, até porque “há uma desvalorização deste crime”.
Preto no branco, o crime de escravidão, punido com pena de 5 a 15 anos, para o Código Penal é isto: “Quem a) Reduzir outra pessoa ao estado ou à condição de escravo; ou b) Alienar, ceder ou adquirir pessoa ou dela se apossar com a intenção de a manter na situação prevista na alínea anterior.” O que é demasiado sucinto, tanto que não define o que é escravatura. Mas num acórdão do Tribunal da Relação do Porto de Janeiro deste ano, que condenou dois indivíduos por este crime (a sete anos e seis meses, e a cinco e seis meses), escreve-se que “por escravatura entende-se ‘o estado ou condição de um indivíduo sobre o qual se exercem todos ou quaisquer atributos do direito de propriedade”. E adianta-se: “Cabe na previsão legal a escravidão laboral, nos casos em que a vítima é objecto de uma completa relação de domínio por parte do agente, vivenciando um permanente ‘regime de medo’, não tendo poder de decisão sobre o modo e tempo da prestação do trabalho e não recebendo qualquer parte da sua retribuição.”
Dou o quê à namorada? Não ganhava
nada. Casava e depois? Era ela que
trabalhava para mim?

Têm sido raros os julgamentos de casos de escravatura, e a punição ainda mais. Segundo o Ministério da Justiça, os dados disponíveis dos últimos dez anos sobre crimes por escravidão estão protegidos por segredo estatístico, pelo facto de as ocorrências (condenações) serem inferiores a três. Além do citado acórdão do Porto, há pelo menos notícia de que, em 2011, o Tribunal do Fundão condenou três pessoas, naquela que foi considerada na altura a primeira condenação de sempre por escravatura em Portugal.
Na Polícia Judiciária (PJ) deram entrada, até final de Novembro deste ano, 10 processos relativos ao crime específico de escravatura. Eram 14 em 2012, 15 em 2011, ou 13 em 2008. Em cada processo, pode estar mais do que um tipo de crime, mais do que uma vítima, mais do que um agressor. Os números sobem quando se fala de tráfico de seres humanos — um crime ao qual o de escravidão está, muitas vezes, associado, quando se trata de tráfico para exploração laboral: em 2013, deram entrada na PJ 31, e a média dos 30 foi constante nos anos anteriores, sendo mais alta em 2008, quando se registaram 39.
Mas, como várias organizações ligadas a este fenómeno não se têm cansado de divulgar, os números escondem uma realidade que fica debaixo do tapete por diversas razões, muito por ser difícil de provar e às vezes por dificuldade da vítima em denunciar. Quando em Outubro foi divulgado o primeiro Índice Global de Escravatura 2013, revelaram-se números chocantes: estimava em quase 30 milhões o número de escravos modernos que existiam no mundo e entre 1300 e 1400 em Portugal. Só neste ano, a Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) já identificou cerca de 60 pessoas vítimas de escravidão por dívida, casos comunicados ao Ministério Público. São os casos que o inspector-geral da ACT, Pedro Pimenta Braz, não tem dúvidas de que se tratam de escravatura. Destes, excluem-se os casos “cinzentos”, em que as pessoas estão em situações desumanas mas podem, “no limite”, mesmo com grandes dificuldades, sair do sítio onde estão. Sinais de escravatura, sem dúvidas: a retenção dos documentos de identificação de alguém, diz.

Saudades da terra
O caso de Francisco não será do mesmo tipo de escravatura que se tem ouvido nos últimos tempos e que a ACT tem fiscalizado, pois ele chegou a Portugal pelo seu próprio pé. Mais do que tudo: é diferente pela duração. É diferente também, em alguns aspectos, das redes que trazem estrangeiros para trabalhar, por exemplo, na azeitona, quando, em vez de receberem, os trabalhadores ficam com dívidas aos patrões (pelo alojamento, alimentação e taxa sobre o que ganham) e recebem ainda ameaças físicas. É diferente também por Francisco não estar num grupo com mais escravos. A família que o aprisionou era, aparentemente, “uma família normal”, que “normalizou a situação” e a dada altura começou a explorar Francisco, analisa o psicólogo. “As pessoas acabam por se mentir a elas próprias, acabam por se dizer que até lhe estavam a fazer bem, que lhe davam comida e roupa. Na cabeça deles, nem sequer entendiam isto como grande abuso, e isso é tão ou mais grave.”

Estou a ficar velho, com 63 anos.
Um dia não posso trabalhar e botam-me
para fora. Isso foi do que me lembrei.
Botam-me para fora

O psicólogo, que tem acompanhado Francisco ao longo destes três meses, relata que tem sido um período de adaptação difícil, porque, apesar de Francisco saber que estava “numa situação má”, apesar de ter noção de que era vítima de escravatura, sente falta de algumas coisas — e a terra, o campo, é uma delas. Francisco tem as capacidades cognitivas intactas e se, para todos há dificuldade nas adaptações a mudanças, imagine-se para quem passou por uma mudança radical, lembra. “Esteve tanto tempo numa situação de maus tratos… Sempre lhe foi confirmada a ideia de que ele não podia sair dali, que tinha de se resignar. Agora temos de ir devagarinho, porque tem de integrar as mudanças aos poucos.”
Um dos trabalhos a desenvolver é à volta das expectativas em relação ao futuro de um homem com 63 anos, para quem não será fácil a integração no mercado de trabalho e muito menos na formação. “É uma pessoa com capacidades e muitas competências na área que ele gosta. Já conseguiu fazer crescer uma série de plantas, de ervas e de flores” no sítio em que está a viver.
Das saudades da terra fala-nos Francisco várias vezes. O que é que ele desejaria que acontecesse aos patrões? “Pagarem-me o que não me pagaram.” Deviam ser julgados e condenados? Sim. Se lhes pudesse dizer agora alguma coisa, seria isto: “Não dizia nada.”

O que é que ele desejaria que acontecesse aos patrões? “Pagarem-me o que não me pagaram.” Deviam ser julgados e condenados? Sim. Se lhes pudesse dizer agora alguma coisa, seria isto: “Não dizia nada.”

JOANA GORJÃO HENRIQUES

15 de Dezembro de 2013