
terça-feira, 13 de julho de 2010
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Um Poema ao Acaso: O céu de Sequeira

O céu de Sequeira
Ao Ademar Santos
Ofereço-te o céu de Sequeira que verias
e nenhuma flor cortada, mas três beijos
sobre a pedra escaldante
como a tua memória aqui:
Um de mar, que é da Rosa.
Um de ar, que é da Ana.
Mais o meu, de terra e raiva.
Todos os três de palavras.
Maria Alonso Seisdedos
Ao Ademar Santos
Ofereço-te o céu de Sequeira que verias
e nenhuma flor cortada, mas três beijos
sobre a pedra escaldante
como a tua memória aqui:
Um de mar, que é da Rosa.
Um de ar, que é da Ana.
Mais o meu, de terra e raiva.
Todos os três de palavras.
Maria Alonso Seisdedos
Em Sequeira, a 30 de Maio de 2010
Beijo Iker Casillas e Sara Carbonero - Final Mundial 2010
Desta vez, o guarda-redes espanhol Casillas não defendeu. Atacou! E bem!
Parabéns à Espanha!...
comemoram em Madrid a vitória da Espanha. PÚBLICO
*
Eu também gostaria de ter-me molhado naquela fonte!
EGN: o Estado Geral da Nação...
O Governo mantém, pela voz do secretário de
Estado da Segurança Social, Pedro Marques,
a vontade de que a Fundação António Sardinha
(FAS) continue a funcionar. A FAS, instituída
há três décadas por Maria Sardinha com o
nome do seu marido de quem enviuvara, tinha
o objectivo de construir um hospital e um
centro de dia para idosos. Mas, até hoje, nunca
concretizou o objectivo.
PÚBLICO
***
A notícia é em si irrevelante para o interesse nacional. Não vem acrescentar nada ao PEC, a obra prima de José Sócrates, que não é para aqui chamado É mais um daqueles pleitos judiciais que se arrastam indolentemente pelos tribunais e pelos gabinetes ministeriais, durante décadas, ao sabor dos golpes de audácia dos diferentes actores. Mas nem por isso o jornal PÚBLICO deixou de lhe dar relevo, pois trata-se de um episódio que retrata bem a paralisia endémica do Estado e dos tribunais, enredados nas suas próprias contradições e interesses.
Nesta história há de tudo. Um tribunal e um departamento de investigação criminal que se declaram incompetentes para a coisa, um ministro que altera a decisão de um outro ministro do governo anterior, um relatório de um organismo de inspecção que se contradiz na conclusão final, em relação às premissas do seu próprio parecer, um conselho de administração que parece não querer cumprir o objectivo último da instituição que gere, e, por fim, um secretário de Estado que declara fazer tábua rasa de tudo aquilo que ocorreu antes do início do exercício das suas soberanas funções.
É uma história exemplar, pouco dignificante, e que espelha bem o EGN (Estado Geral da Nação. O morto, esse, deve andar aos saltos no seu túmulo.
domingo, 11 de julho de 2010
Por uns barris de petróleo!...
Mbasogo, há três décadas à frente da Guiné Equatorial,
tem vindo nas últimas semanas a tentar melhorar a
sua reputação, para que ainda este mês possa entrar
em pleno na Comunidade dos Países de Língua
Portuguesa. A VIII Conferência de Chefes de
Estado e de Governo da CPLP vai decorrer no dia 23
de Julho em Luanda.
PÚBLICO
PÚBLICO
**
A Freedom House acaba de publicar um relatório
intitulado “Worst Human Rights Abusers”
(Os Piores Abusadores dos Direitos Humanos
no Mundo) que inclui nove países no mundo.
Nenhum membro da CPLP faz parte da lista
dos nove convocados. A Guiné Equatorial, pelo
contrário, está lá. O facto de ser um país onde
há petróleo significa que o PIB tem vindo a
aumentar. Mas os índices de qualidade de vida
da população continuam dos mais baixos do
mundo – toda a riqueza está concentrada no
líder e sua clique.
Marina Costa Lobo (in Moçambique para Todos)
***
O prestígio internacional da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) ficaria seriamente abalado se a Guiné Equatorial, do ditador Obiang Nguema, fosse admitida no seu seio. O gesto seria interpretado como uma tentativa de legitimação de um regime cleptocrata, despótico, corrupto e violador dos direitos humanos. Até ao momento, apenas o presidente Lula da Silva se vendeu por uns barris de petróleo. E tudo leva a crer que Portugal não vai ficar para trás, na corrida ao ouro negro. E andam por aí uns líricos a falar da ética em política!
sábado, 10 de julho de 2010
Foi bom recordar Fernando Namora e os escritores do neorealismo
Fernando Namora visto de perto
.
Por: Baptista Bastos
.
Vou ali à estante. Lá está ele, junto com os seus camaradas de geração. A densa capa do esquecimento tombou sobre ele; mas os seus camaradas, quase todos, não tiveram melhor sorte. Fernando Namora pertenceu a uma época em que a cultura dispunha de poder, e a um grupo de intelectuais que tinha como objectivo realizar uma teoria de conjunto da injustiça social. Hoje, talvez se olhe para aquele tempo e se examine aquele projecto com pequenos sorrisos desdenhosos. A ignorância sempre foi pedante e atrevida. E a grandeza daqueles jovens de então media-se pela dimensão do que ambicionavam e pela urgência do que diziam.
Seria, acaso, importante proceder-se à leitura de um antigo texto de Namora, contido numa reedição do belíssimo "Casa da Malta", e talvez se entendesse que a relação, a relação com o outro, é o traço principal identificador da cultura. A cultura como meio de transformação; a cultura como processo de mais uma criação do "outro."
Nesse grupo de escritores, que a definição de "neorealistas" tornou redutora, creio que somente o Fernando Namora não era marxista. Todos os outros o eram, habitualmente sem terem lido Marx, a não ser através dos seus intérpretes: Friedman, Goldman, Lukacs, Lefebvre, Costas Axelos, textos esparsos de Lenine, Staline; alguns artigos de Elio Vittorini, traduzidos, à socapa, da grande revista "Il Politecnico", na qual o romancista de "Os Homens e os Outros" polemizou com Palmiro Togliatti. De resto, a formação dessa gente fez-se com a argumentação da leitura. A lista de autores americanos, russos, italianos, franceses por eles consumida é impressionante, pelo tamanho e pela diversidade.
Curioso é o facto de o "neorealismo" ter surgido em locais tão separados pela distância como em Coimbra, no Porto, em Santiago de Cacém, Vila Franca de Xira - e nas tertúlias dos cafés de Lisboa. É o que se convencionou designar de "o ar do tempo", e de uma vontade reconstrutora do mundo e da sociedade. O propósito cabia nesta princípio: a cultura da exclusão leva, inevitavelmente, à exclusão da cultura. Portanto, a cultura como mediadora que se não subordinava à razão dominante.
Namora é um dos mais importantes partícipes desse projecto sem programa. Ergue um edifício literário no qual a estética se associa a uma ética muito pessoal: nele, na sua obra, o acto cultural é um compromisso que se não esvazia de um forte conteúdo moral. Instalando-se em Lisboa, nunca se adaptou às malícias e às artimanhas da cidade. Como Aquilino, sobre o qual escreveu um texto a vários títulos admirável, Fernando Namora nunca deixou de ser um homem do campo com a nostalgia dos grandes silêncios e dos imensos espaços.
Tenho várias fotografias com ele. A mais antiga, eu para aí com vinte anos, no gabinete onde ele trabalhava no Instituto de Oncologia. Fui entrevistá-lo para a revista "Eva", dirigida por uma senhora excepcional, Carolina Homem Christo, e em cuja Redacção escreviam Carlos de Oliveira, Maria Judite de Carvalho, José Cardoso Pires e Rogério de Freitas. A entrevista levava o título de "Retalhos da Vida de um Escritor." Na imagem, lá estão o seu rosto fechado, o seu sorriso magoado, o seu ar melancólico e, também, o registo da sua bondade, da sua compaixão e da sua generosidade. Não foi um homem feliz. E, no entanto, ele, Ferreira de Castro e Urbano Tavares Rodrigues eram, então, os escritores portugueses mais conhecidos, mais traduzidos, mais admirados e, até, adulados.
A notícia da próxima saída de um livro de Namora causava grande alvoroço. Ocasiões houve em que, antes de sair a público, a primeira edição de alguns dos seus livros (cinco mil, sete mil e quinhentos exemplares) já estavam esgotadas. E há títulos de Namora que constituem importantes documentos literários da vida portuguesa. O seu impressionante êxito: edições de milhares e milhares de exemplares, traduções constantes, ensaios, estudos exegeses, teses sobre a sua obra, amiudadas vezes requisitado pela Imprensa a fim de depor acerca de este e de aquele assunto; entrevistas, comentários - enfim, essa glória que o envolveu não deixou de causar invejas e ressentimentos. A vida literária portuguesa não é diferente da vida literária em outros países [leia-se, a título de exemplo, "Écrits Intimes", de Roger Vailland, outro grande esquecido]. E Namora, cuja generosidade e camaradagem eram lendárias, sentia, profundamente, a circunstância. No entanto, jamais deixou de ser amável e cortês, até efusivo, com muitos daqueles que o atropelavam nas tertúlias dos cafés.
Pessoalmente, devo-lhe favores, gentilezas e atenções. Foi ele quem se prestou, sem lho pedir, a falar com o seu editor de então, o Lyon de Castro, da Europa-América, sobre um livro meu "As Palavras dos Outros", cuja primeira edição foi lançada pela constância da sua bela camaradagem. Ele sabia muito bem das aleivosias, dos destratos de que era objecto. Nem uma vez, nem uma escassa e módica vez, se me queixou. Encontrávamo-nos nos cafés. Tentava animá-lo. Visitava-o em sua casa, na Infante Santo. Já muito doente, fez questão em assistir ao lançamento de um livro meu, "A Colina de Cristal", sobre o qual ainda me enviou uma carta fraterna e generosa. Agora, tomo de mão o que, num depoimento ao "Diário de Lisboa", sobre a morte dele, disse Agustina Bessa-Luís, como só ela o sabia dizer: "Falta-nos o rio triste do seu olhar."
Jornal de Negócios
***
Ao acabar a leitura deste texto do escritor e jornalista Baptista Bastos, senti-me como se tivesse levado um murro no estómago. É que de repente dei-me conta de ter atraiçoado a memória de Fernando Namora e de todos os escritores referidos naquele texto, ao esquecer-me de reler as suas obras, que tanto me apaixonaram no início da minha maturidade literária. Foi com os escritores neorealistas, sobretudo com Fernando Namora e José Cardoso Pires que eu comecei, como leitor, a dimensionar a grandeza da literatura e a apreciar a beleza da novela e do romance. Foi com eles, depois de apurar o sentido da leitura, que resolvi querer também ser escritor. A dureza da vida, que não me dava tréguas para desocupar o espírito das preocupações da subsistência, nem tempo para aprofundar a reflexão, que a escrita de um romance exige, obrigou-me a adiar projectos e esboços e só muito recentemente é que o sonho se tranformou em realidade, escrevendo um romance, que tem como pano de fundo a minha juventude e a cidade de Lamego, onde estudei.
Devo a esses escritores do neorealismo, a que acrescento Virgilio Ferreira e o grande Saramago, a minha grande paixão pela literatura. Seria injusto se a esta galeria de autores da minha contemporaneidade não acrecentasse os nomes de Aquilino Ribeiro e de Miguel Torga, que me cativaram mais pela beleza telúrica do discurso narrativo e pela força da palavra do que pela efabulação romanesca.
Agora, Batista Bastos obriga-me a desencaixotar as grandes obras de todo aqueles escritores. Irei lê-los com outra disponibilidade e com um outro sentido crítico, aquele que o distanciamento temporal permite. Vou voltar a aprender.
sexta-feira, 9 de julho de 2010
Um quarto dos alunos reprovou a Física e Química A
de Física e Química A reprovou. Foi a esta disciplina,
a que se submeteram 35.826 alunos, que a média
nacional foi a mais baixa: 81 pontos (numa escala de
0 a 200), e de 85 para os alunos internos, ou seja, para
aqueles que estiveram inscritos na escola e fizeram a
disciplina. Os alunos internos, na maior parte das
provas, obtêm melhores resultados do que os que se
autopropõem a exame. O Ministério da Educação
divulgou hoje os resultados da 1.ª fase dos exames
nacionais do ensino secundário.
PÚBLICO
***
Não se preocupem, meninos! Para o próximo ano, a senhora ministra ordenará a elaboração de provas mais acessíveis, para que todos os alunos possam ficar aprovados. É esta a regra.
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Paulo Nozolino devolve prémio AICA

COMUNICADO
Recuso na sua totalidade o Prémio AICA/MC 2009 em repúdio pelo comportamento obsceno e de má fé que caracteriza a actuação do Estado português na efectiva atribuição do valor monetário do mesmo. O Estado, representado na figura do Ministério da Cultura (DGARTES), em vez de premiar um artista reconhecido por um júri idóneo pune-o! Ao abrigo de “um parecer” obscuro do Ministério das Finanças, todos os prémios de teor literário, artístico e científico não sujeitos a concurso são taxados em 10% em sede de IRS, ao contrário do que acontece com todos os prémios do mesmo cariz abertos a candidaturas.
A saber: Quem concorre para ganhar um prémio está isento de impostos pelo Código de IRS. Quem, sem pedir, é premiado tem que dividir o seu valor com o Estado!
Na cerimónia de atribuição do Prémio foi-me entregue um envelope não com o esperado cheque de dez mil euros, como anunciado publicamente, mas sim com uma promessa de transferência bancária dessa mesma soma, assinada por Jorge Barreto Xavier, Director Geral das Artes. No dia seguinte, depois do espectáculo, das luzes e do social, recebo um e-mail exigindo-me que fornecesse, para que essa transferência fosse efectuada, certidões actualizadas da minha situação contributiva e tributária, bem como o preenchimento de uma nota de honorários, onde me aplicam a mencionada taxa de 10%, cuja existência é justificada pelo Director Geral das Artes como decorrendo de um pedido efectuado por aquela entidade à Direcção-Geral dos Impostos para emitir “um parecer no sentido de que, regra geral, o valor destes prémios fosse sujeito a IRS”.
Tomo o pedido de apresentação das certidões como uma acusação da parte do Estado de que não tenho a minha situação fiscal em dia e considero esse pedido uma atitude de má fé. A nota de honorários implica que prestei serviços à DGARTES. Não é verdade. Nunca poderia assinar tal documento.
Se tivesse sido informado do presente envenenado em que tudo isto consiste não teria aceite passar por esta charada.
Nunca, em todos os prémios que recebi, privados ou públicos, no país ou no estrangeiro, senti esta desconfiança e mesquinhez. É a primeira vez que sinto a burocracia e a avidez da parte de quem pretende premiar Arte. Não vou permitir ser aproveitado por um Ministério da Cultura ao qual nunca pedi nada. Recuso a penhora do meu nome e obra com estas perversas condições. Devolvo o diploma à AICA, rejeito o dinheiro do Estado e exijo não constar do historial deste prémio.
Paulo Nozolino
A saber: Quem concorre para ganhar um prémio está isento de impostos pelo Código de IRS. Quem, sem pedir, é premiado tem que dividir o seu valor com o Estado!
Na cerimónia de atribuição do Prémio foi-me entregue um envelope não com o esperado cheque de dez mil euros, como anunciado publicamente, mas sim com uma promessa de transferência bancária dessa mesma soma, assinada por Jorge Barreto Xavier, Director Geral das Artes. No dia seguinte, depois do espectáculo, das luzes e do social, recebo um e-mail exigindo-me que fornecesse, para que essa transferência fosse efectuada, certidões actualizadas da minha situação contributiva e tributária, bem como o preenchimento de uma nota de honorários, onde me aplicam a mencionada taxa de 10%, cuja existência é justificada pelo Director Geral das Artes como decorrendo de um pedido efectuado por aquela entidade à Direcção-Geral dos Impostos para emitir “um parecer no sentido de que, regra geral, o valor destes prémios fosse sujeito a IRS”.
Tomo o pedido de apresentação das certidões como uma acusação da parte do Estado de que não tenho a minha situação fiscal em dia e considero esse pedido uma atitude de má fé. A nota de honorários implica que prestei serviços à DGARTES. Não é verdade. Nunca poderia assinar tal documento.
Se tivesse sido informado do presente envenenado em que tudo isto consiste não teria aceite passar por esta charada.
Nunca, em todos os prémios que recebi, privados ou públicos, no país ou no estrangeiro, senti esta desconfiança e mesquinhez. É a primeira vez que sinto a burocracia e a avidez da parte de quem pretende premiar Arte. Não vou permitir ser aproveitado por um Ministério da Cultura ao qual nunca pedi nada. Recuso a penhora do meu nome e obra com estas perversas condições. Devolvo o diploma à AICA, rejeito o dinheiro do Estado e exijo não constar do historial deste prémio.
Paulo Nozolino
1 de Julho de 2010
***
Paulo Nozolino não se vendeu. A sua dignidade vale muito mais do que o prémio amputado, que o Estado lhe queria dar, e a que ele, justamente, chamou presente envenenado. A dualidade dos critérios fiscais a aplicar aos prémios obtidos por concurso público e aos que são atribuídos por um júri qualificado não tem qualquer justificação séria. É uma autêntica aberração. Paulo Nozolino fez bem em mandar à merda o Ministério da Cultura.
Este comentário ao post anterior merece aparecer na 1ª página...
O capitalismo está a entrar em contradição outra vez. Se, no sistema actual, o nível de empregabilidade de uma nação é uma medida do bem-estar da população, há um factor, muitas vezes ignorado, que destrói o bem-estar das populações: a mecanização do trabalho. A mecanização do trabalho, não só vai tirando o emprego a muitas pessoas, como também torna os processos de produção mais eficientes e mais lucrativos (as máquinas não precisam de férias, seguros, subsídios,...). É portanto evidente que a mecanização conduz a uma maior desigualdade de rendimentos. Os empresários, ignorando os efeitos das suas acções a nível global, avançam para a mecanização, e depois surpreendem-se que os seus produtos, produzidos super-eficientemente, não têm escoamento nos mercados, já que o poder de compra dos trabalhadores é reduzido à medida que a mecanização avança. O primeiro alvo da mecanização foi a agricultura, o que levou os trabalhadores para a manufactura. Depois foi a manufactura, transportando a mão-de-obra para o sector dos serviços. Neste momento o alvo da mecanização são os serviços. Resta saber se desta vez vai ser inventado algum novo sector para colocar as pessoas que estão e vão ficar desempregadas com a mecanização dos serviços. Para deixar claro, eu não sou contra a mecanização do trabalho, muito pelo contrário. Sou é contra o sistema actual, onde a inovação e o avanço das tecnologias, em vez de criar prosperidade, cria crises e sofrimento.
João Mota
Notas do meu rodapé: O embuste da crise.

Os agentes do capitalismo neoliberal, principalmente os do sector financeiro, que, com as suas actividades especulativas (geradoras de lucros sem criação de riqueza), desencadearam a actual crise económica e financeira, comandam agora, através das suas agências internacionais e dos governos que controlam, um ataque cerrado aos rendimentos do trabalho e à qualidade de vida das populações, procurando desmantelar os pilares das políticas sociais, que foram implementadas na segunda metade do século passado.
Actualmente, esta ofensiva agressiva centra-se principalmente na Europa. Comandada por uma mão invisível, todos os governos encetaram, com o pretexto dos défices orçamentais e das dívidas soberanas, a aplicação de políticas restritivas, coincidentes e simultâneas, depois de terem preparado a opinião pública para a sua inevitabilidade. O argumento base concentra-se no argumento falso e falacioso de que os países estão a viver acima das suas possibilidades, quer no que respeita aos rendimentos individuais, quer no que respeita aos bens sociais suportados directamente pelo Estado (com o dinheiro dos contribuintes). A Segurança Social está agora no centro do debate, mas, logo que se consiga atingir o objectivo do seu desmantelamento parcial, a ofensiva passará para a Saúde e para a Educação. A palavra chave do discurso neoliberal é a competitividade, que, na sua lógica, deve ser aumentada à custa da diminuição dos salários e do peso da despesa social nos orçamentos de cada Estado. Embora o não confessem, a última etapa deste diabólico plano, superiormente coordenado, consistiria na descida dos impostos sobre o capital, com o argumento de que será necessário dinamizar a economia.
À primeira vista, e para as pessoas menos familiarizadas com a economia, o plano e os seus objectivos até parecem obedecer à mais pura racionalidade da teoria económica. Só que os arautos do neoliberalismo ocultam as verdadeiras causas do desencadeamento da crise, e quando a ela se referem, apresentam-na como uma identidade abstracta, sem rosto e sem culpados, elevando-a à categoria de desastre natural imprevisível, tal como se classificam os terramotos e as tempestades.
Em relação à redução dos salários, já aqui foi referida a sua inconsequência na resolução da crise, uma vez que a sua concretização vai ter efeitos devastadores na procura interna e no emprego, principalmente nos países com estruturas económicas mais débeis, como é o caso de Portugal. Menos poder de compra vai induzir mais falências, mais desemprego, mais despesa social, factores estes que, por sua vez deprimem ainda mais a procura interna e, logicamente, o desejável crescimento económico.
Em relação à ofensiva concertada para proceder ao desmantelamento das políticas sociais, suportadas pelo Estado, é imprescindível desmontar o mito da sustentabilidade, que é apresentado sempre pelo lado da despesa, esquecendo-se a componente da receita, através dos impostos, que têm vindo a baixar para os altos rendimentos e para os rendimentos do capital, enquanto se mantiveram estáveis para os rendimentos do trabalho. Se a tributação dos rendimentos do capital fosse justa e equitativa, os problemas de financiamento público do sector social não seriam tão agudos e tão aflitivos. E o mais escandaloso é que a aplicação de uma política fiscal regressiva sobre os altos rendimentos e sobre os rendimentos de capital teve lugar durante um período em que a economia cresceu, promovendo-se assim o aumento dos lucros.
Lancemos mão de um excerto do texto do economista Vicenç Navarro, que caracteriza bem este verdadeiro embuste:
Lancemos mão de um excerto do texto do economista Vicenç Navarro, que caracteriza bem este verdadeiro embuste:
"... o sistema tributário regressivo em muitos países da UE -15 tem vindo a crescer desde o início da era neoliberal. Abordemos os componentes deste regressividade, começando com os impostos (a maioria dos dados aqui apresentados são provenientes do livro Europa Global Finance e Social, Colecção dirigida por John Grahl e publicado pela Edward Elgar . 2009).
As receitas do Estado, através de impostos, têm vindo a diminuir na UE -15 , passando de 39,8% do PIB em 1996 para 39,3% em 2004. Nos E.U.A , as receitas fiscais também caíram, passando, em relação ao PIB, de 27,3% para 25,4% , tal como no Japão , que caíram de 27,3% para 25,4 %, durante o período de 1995-2004.
Mas, além de menor receita para o Estado (apesar do aumento do nível de riqueza), vemos que a tributação dos rendimentos de capital ( muito menores do que os provenientes da renda do trabalho) caiu ainda mais. A taxa de tributação dos rendimentos de capitais nos países da zona do euro caiu de 17,0% em 1995 para 14,0% em 2003, o maior declínio entre o grupo dos países da OCDE (o clube dos países ricos ), enquanto os rendimentos do trabalho continuaram a ser tributados em 35%. A taxa de tributação do consumo permaneceu no mesmo nível , com um ligeiro aumento de 20,5 % em 1995 para 20,8% em 2003. Estes dados mostram que os ganhos de capital foram os que mais beneficiaram, como resultado das políticas fiscais, aplicadas durante esse período.
Mas, além de menor receita para o Estado (apesar do aumento do nível de riqueza), vemos que a tributação dos rendimentos de capital ( muito menores do que os provenientes da renda do trabalho) caiu ainda mais. A taxa de tributação dos rendimentos de capitais nos países da zona do euro caiu de 17,0% em 1995 para 14,0% em 2003, o maior declínio entre o grupo dos países da OCDE (o clube dos países ricos ), enquanto os rendimentos do trabalho continuaram a ser tributados em 35%. A taxa de tributação do consumo permaneceu no mesmo nível , com um ligeiro aumento de 20,5 % em 1995 para 20,8% em 2003. Estes dados mostram que os ganhos de capital foram os que mais beneficiaram, como resultado das políticas fiscais, aplicadas durante esse período.
Os detentores dos rendimentos mais elevados também foram muito beneficiados, pois viram a taxa de imposto cair de 51,52 % do seu rendimento para 49,20 %. Para entender esses números , sabemos que cada diminuição de 0,1% na taxa de tributação representa biliões de euros que os estados perdem em receita".
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Campeonato do Mundo de Futebol: momentos mágicos da equipa de França....
Um Poema ao Acaso: Poema sem título...

tantos poemas
tanto mar e pássaros convocados
e tanta gente a passear pelos cais deste mundo
para ver se estás
e tu estás sempre, sempre
e isto é apenas mais uma maneira de dizer
da falta que fazes
o poema já começou
mas não sei se o acabo
sei que o vou continuar
mais daqui a pouco
da falta que fazes
tiramos luz
foste-te embora apenas
para poderes renascer todos os dias
Ana Saraiva
tanto mar e pássaros convocados
e tanta gente a passear pelos cais deste mundo
para ver se estás
e tu estás sempre, sempre
e isto é apenas mais uma maneira de dizer
da falta que fazes
o poema já começou
mas não sei se o acabo
sei que o vou continuar
mais daqui a pouco
da falta que fazes
tiramos luz
foste-te embora apenas
para poderes renascer todos os dias
Ana Saraiva
terça-feira, 6 de julho de 2010
Pintura de Dália Faceira (Dacha)
***
Dália Faceira, minha antiga colega do liceu de Lamego, é uma notável pintora, já com uma obra assinalável, de grande qualidade pictórica, e com um vasto currículo de exposições, individuais e colectivas, em Portugal e no estrangeiro.
A propósito de uma exposição, em 2008, de antigos alunos do liceu de Lamego, numa nota crítica sobre evento, publicada no Jornal do Douro, escrevi sobre a sua obra o seguinte:
"Mas, se o observador estiver mais atento e apurar a sua sensibilidade (a pintura, como qualquer outra arte visual, vive dos sentidos e para os sentidos), vai descobrir como alguns autores marcaram a sua presença com uma intencional unidade, quer temática, quer cromática. É o caso, por exemplo de Dália Faceira, uma pintora que declarou que a sua obra é bastante diversificada, o que justifica a sua tentativa de fazer múltiplas experiências, trabalhando a cor e os materiais de forma segura e serena. E o que ela se propõe mostrar com as três composições abstractas que apresenta, caracteriza-se pela utilização em todas elas da mesma combinação de cores e do mesmo gradiente. Mas, apesar da suavidade das transições cromáticas, e da sua harmonia, o observador absorve a explosão da claridade que irradia de cada quadro. Dália Faceira, para pintar os seus nenúfares, explorou os resquícios da memória da panorâmica captada num lindo jardim de Barcelona, e que registou fotograficamente, para rever posteriormente. O que resultou desta experiência, condensada neste trabalho, leva a crer que a sua maturação como pintora já foi atingida".
Assinar de cruz...
CQC - Mônica Iozzi em Brasília - 14/06/2010
Vídeo enviado por João Fráguas, seguidor deste blogue
***
Não tardará muito, e a moda chegará a Portugal. Aliás, somos conhecidos por "adoptarmos sempre as melhores práticas que se usam lá fora".
segunda-feira, 5 de julho de 2010
ANA tira prémio de assiduidade a mães que estão a amamentar

Sindicato lamenta demora da Autoridade para as
Condições de Trabalho, alertada em Novembro.
ACT diz que vai notificar empresa.
A situação mantém-se há vários anos, pelo menos
desde 2006. As mães trabalhadoras na ANA-
Aeroportos de Portugal e que têm dispensa para
amamentação perdem o prémio de assiduidade pago
todos os trimestres pela empresa gestora dos
aeroportos portugueses, pertencente ao Estado.
PÚBLICO
***
Não é a ANA que está no plano das próximas privatizações, a promover pelo governo? É o que se chama limpar os passivos da empresa, para a tornar mais atractiva para os privados. Com menos leite, claro, que a mama, agora, já é outra. É com medidas deste tipo que se promove o desejado aumento da taxa de natalidade.
Ler em:
PSD avança com lei sobre linhas de alta tensão, PS quer saber quanto vai custar
A lei é uma saída para as populações que vivem
perto das linhas de alta tensão. Nos últimos
anos, as "lutas" populares têm-se somado em
Almada, Fanhões (Sintra), Tunes (Portimão),
Celeiro (Batalha), Vermoil (Pombal) ou Serzedelo
(Guimarães). Problemas que teriam solução
mais fácil com esta lei que o PSD está a
ultimar, para proteger as populações dos campos
eléctricos e magnéticos.
PÚBLICO
***
Todos têm culpa neste processo, onde não houve planeamento nem coordenação. Do Estado, porque o governo da altura, quando da privatização, não acautelou o interesse nacional, não estabelecendo no contracto de concessão regras claras sobre a definição dos traçados das redes de alta tensão nem titulando o ónus das responsabilidades quando o interesse das populações afectadas estivesse em causa. Da REN, porque apenas se preocupou com a rentabilização dos seus investimentos, ignorando os incómodos e os eventuais prejuízos causados. Dos municípios, que permitiram novas construções nas zonas críticas, com o argumento de que já se encontravam urbanizadas.
Este é o lado negro das privatizações.
Agradecimento...
domingo, 4 de julho de 2010
Cristiano Ronaldo anuncia ter sido pai de um rapaz

Cristiano Ronaldo anunciou hoje nas suas
páginas oficiais nas redes sociais Facebook
e Twitter ter sido pai de um rapaz.
Ronaldo publicou um comunicado à uma
Ronaldo publicou um comunicado à uma
hora da madrugada em que afirma que
“é com grande alegria e emoção” que informa
que se tornou “recentemente pai de um rapaz”.
PÚBLICO
***
Irina Shayk, namorada do jogador, está desolada...
Correio da Manhã
***
Depois de muito treino, Cristiano Ronaldo conseguiu marcar um golo. A sua actual namorada é que já anda a dizer que ele estava fora de jogo.
sábado, 3 de julho de 2010
Uma Guerra Civil quase anunciada - por Alexandre de Castro

Uma Guerra Civil quase anunciada
Primeiro dia do ano. Ruas desertas. Um ou outro
passante, descontraído na preguiça de mais um feriado. Ia olhando para os cafés
que me são habituais, de tanto os frequentar. Tudo fechado, que o negócio já
acabara no dia anterior. Refugiei-me na Mexicana,
que pouco frequento. Entrei, distraído, e logo ali senti sobre mim o peso de
mil olhos, fixados num cachimbo que, apagado, levava pendurado na boca.
Ao fundo, havia uma mesa vaga e, enquanto me
dirigia para a ocupar, verifiquei que ninguém estava a fumar, o que, para mim,
já não constituía novidade, já que, ainda em casa, vira numa reportagem
televisiva o respectivo gerente deste já histórico café de Lisboa a
vangloriar-se com militante entusiasmo que ali estava a cumprir-se a nova lei
antitabagista, embora se tivesse engasgado, perante a jornalista que o
entrevistava, ao debitar a escusa à realização de quaisquer obras, a fim de
reservar um espaço apropriado, para os clientes fumadores, refugiando-se no
argumento dos elevados custos, argumento este de muito peso e que possivelmente
não escapou à matreirice do zeloso legislador, que assim adivinhou, divertido,
o efeito paralisante das respectivas exigências técnicas para essas obras.
Mal me sentei numa cadeira, confrontei-me com os
olhares agrestes e suspensos de três velhas, que pararam a sua viva palração,
quando repararam no meu cachimbo, pendurado nos dentes. Agitaram-se, e todas,
ao mesmo tempo, como se fossem autómatos, impulsionados por uma mola,
inclinaram-se para a frente, muito hirtas e concentradas. Nem pestanejavam, tal
era a sua ânsia em descortinar uma onda de fumo a sair do fornilho do cachimbo.
Pareciam sanguessugas, pensei.
Comecei a ler o jornal, fingindo não ter
reparado na animosidade da recepção, enquanto lhes espiolhava os gestos pelo
canto do olho. Reclinaram-se nos espaldares das cadeiras e começaram a
cochichar umas com as outras, fazendo esgares alarmantes. Voltaram a olhar-me,
e eu resolvi sacar da bolsa do tabaco, que pousei no tampo da mesa. A excitação
reacendeu-se nos olhos das três velhas, que voltaram a inclinar-se para a
frente, agora com um ar mais determinado. Deixei que se cansassem naquela
incómoda posição - até resolverem, todas ao mesmo tempo, encostarem-se
novamente ao espaldar das suas cadeiras - para eu iniciar com gestos vagarosos
o enchimento do fornilho do cachimbo, enquanto aparentava mostrar muita atenção
ao que simuladamente estava a ler no jornal. Um ritual mil vezes ensaiado, mas
que ali eu sopesava com extrema paciência e rigor. Os dedos e o calcador iam,
vagarosamente, apertando o tabaco no fornilho, e as velhas seguiam, como se de
um maléfico efeito hipnótico se tivesse apossado delas, todos os meus
movimentos, os quais as exasperavam, como se podia deduzir através da evidência
dos irreprimíveis sinais de impaciência, que manifestavam.
E foi quando abandonei o cachimbo no tampo da
mesa, para poder segurar o jornal com ambas as mãos - último gesto, este, assim
exigido ao leitor que tropeça, sem disso estar à espera, numa inusitada notícia
que lhe desperta subitamente o interesse - que voltaram a recostar-se, soltando
uma exclamação que, ainda hoje, não sei se foi de alívio ou de desilusão.
Assim as deixei, entregues às tagarelices, que
rapidamente retomaram, ao mesmo tempo que passaram a ignorar-me, enquanto eu,
segurando o jornal com as duas mãos, continuei a ler a tal notícia, e que me
obrigou, com estudada simulação, a uma maior fingida concentração.
Não lhes dei tréguas por muito tempo. Num gesto
rápido e decidido, largo o jornal, coloco o cachimbo na boca e começo a apalpar
todos os bolsos à procura do isqueiro, que eu sabia já estar em cima da mesa,
por aí o ter colocado, mal me sentei. As três velhas deram um estremeção nas
cadeiras e, novamente, voltaram-se para mim. Uma delas já olhava para trás,
para o balcão, julgo que para descobrir o gerente, que já estava, a resguardada
distância, e numa presença vigilante, a observar-me atentamente. A velha
esboçou um sorriso de satisfação, depois de certificar-se de que se poderia
contar com a inestimável ajuda daquele importante aliado, nesta sua primeira
investida da sagrada cruzada antitabagista.
Peguei finalmente no isqueiro. Agarrei-o e
coloquei-o em posição para o accionar, mas reincidi na descoberta de uma outra
notícia do jornal a despertar-me a atenção, e ali fiquei a lê-la com afincada
concentração, enquanto o antebraço, com o cotovelo assente no tampo da mesa,
ficara em suspensão, por um tempo indeterminado, que, para as três velhas,
nunca mais acabava.
A velha que se certificara da presença vigilante
do gerente e que, das três, era a que revelava maior impaciência, levantou-se,
ajeitou o casaco, que trazia pelos ombros, e, lesta, encaminhou-se para uma
mesa próxima, onde um senhor anafado lia o jornal. A intimidade entre ambos era
visível, pois a um cochicho da velha, aquele senhor, com um ar de funcionário
público aposentado, levantou os olhos por cima dos óculos e olhou na minha
direcção, para depois, perante as palavras da velha - que deveriam ser de
indignação, tal como se podia observar pelos seus esgares que lhe arrepelavam
as peles do rosto - ensaiar com a cabeça sucessivos gestos afirmativos de
inteira e absoluta concordância.
Quando o gerente estava quase a desistir da sua
apertada vigilância, por, possivelmente, outros afazeres lhe reclamarem a
imprescindível presença, accionei a chama do isqueiro. As velhas, o gerente e o
senhor anafado estancaram de repente e ali ficaram estáticos e com a respiração
suspensa, a olhar, ansiosos, a chama bruxuleante do meu isqueiro, que eu
mantinha aceso, com o braço apoiado e imóvel, enquanto voltei a uma nova e
concentrada leitura.
As velhas pareciam hipnotizadas, o senhor
anafado olhou em redor, com um sorriso imbecil, para se certificar se outros
clientes também estavam a ver aquilo que ele via, e o gerente levou a mão ao
bolso, dando-me tempo, no entanto, para observar o movimento discreto da sua
mão a agarrar um pequeno objecto cinzento, ficando-me a dúvida, ainda hoje não
esclarecida, se se tratava de um telemóvel ou de uma pistola.
Apaguei a chama do isqueiro, pois já estava a
queimar-me, e coloquei-o novamente no tampo da mesa para dar toda a minha
atenção à leitura concentrada do jornal. As velhas soltaram em simultâneo, e
com uma estridente sonoridade, um suspiro de desânimo, o gerente retirou a mão
do bolso e encostou-se a uma coluna, não renunciando à sua atitude vigilante, e
o senhor anafado procurava o olhar da velha, que antes se lhe dirigira, mas
que, agora, já lá vai, muito aflita, em passinhos miudinhos e rápidos, num
trejeito cómico, a caminho dos lavabos, talvez movida pela urgência de uma
provável incontinência urinária a manifestar-se, devido à excitação do momento.
Sem me dar conta, já os clientes de todas as
mesas estavam a olhar-me com interessada curiosidade e uma pouca discreta
animosidade, enquanto alguns, para demonstrar o lado da trincheira em que
combatiam, teciam em voz mais alta, para eu ouvir, comentários laudatórios à
nova lei, entrada naquele dia em vigor.
As velhas, agora com o trio recomposto, pois
aquela, que tinha ido, aflita, aos lavabos, já regressara, aliviada, ao seu
lugar, entraram em grande excitação, visível na forma como nervosamente
agitavam as pernas, ao verificarem que toda a clientela da Mexicana, ali presente, estava alertada para se lançar sobre mim,
se eu cometesse a ousadia de acender o cachimbo, infringindo a nova lei, que
protege os não fumadores, mas estigmatiza os fumadores.
Correndo riscos, resolvi regressar à encenação
do isqueiro. Ali ficou pendurada a chama a excitar toda a gente, com alguns
clientes, onde não estavam incluídas as velhas, nem o senhor anafado, nem o
gerente, já a suspeitarem das minhas verdadeiras intenções, e a adivinharem a
pilhéria ou a provocação de mais um fumador ressabiado com a lei
proibicionista.
Apaguei a chama, dobrei o jornal, a sinalizar o
fim da leitura, e voltei a accionar o isqueiro, atrevendo-me a simular o gesto
de acender o cachimbo. A tensão atingiu o rubro. O gerente desencostou-se da
coluna e ensaiou com estudada energia uns passos na minha direcção, o senhor
anafado tirou os óculos e debruçou-se para a frente com as mãos apoiadas no
tampo da mesa, e as três velhas, excitadíssimas, saltaram das cadeiras, como se
uma mola as impulsionasse, e já se preparavam para também saltar sobre mim, se
eu, num gesto rápido, não tivesse apagado o isqueiro, e rapidamente o
recolhesse no bolso, juntamente com a bolsa do tabaco. Levantei-me com um ar
descontraído, como se desconhecesse toda aquela súbita agitação e, calmamente,
saí do café, para grande desilusão das velhas, que ficaram ali de pé,
especadas, e com um ar espantado, e também para grande alívio do gerente, que
viu afastado do seu estabelecimento o perigo de um desagradável incidente.
Já cá fora, em plena Praça de Londres, pensei
que, se, na realidade, tivesse acendido o cachimbo no interior do café, poderia
ter desencadeado uma trágica guerra civil em Portugal.
Alexandre
de Castro
Janeiro de 2008
***«»***
Este texto
foi escrito na sequência da entrada em vigor da lei antitabágica e foi
publicado no abnoxio,
um blogue de um grande rigor editorial, do prestigiado poeta Ademar Santos,
entretanto falecido, prematuramente. Aproveito a oportunidade para lhe prestar
a minha humilde homenagem.
Agradeço ao autor a partilha do texto.
Posted by Ademar Santos at
12:46 PM
abnoxio 29 JAN 08
José Sócrates: crescimento do desemprego vai continuar a abrandar

O primeiro-ministro, José Sócrates, manifestou-se
hoje confiante de que os próximos meses darão
sinais claros de uma tendência para o
abrandamento do crescimento do desemprego em
Portugal.
Dados hoje publicados pelo Eurostat indicam que
a taxa de desemprego continua a subir em Portugal,
tendo atingido 10,9 por cento em Maio, enquanto na
UE e na zona euro se manteve nos 9,6 e dez por cento,
respectivamente.
PÚBLICO
***
Este homem já começou a derrapar para a mais pura irracionalidade política. Desacredita-se cada vez mais, sempre que abre a boca para falar da crise. O Eurostat a dizer que o desemprego continua a aumentar e a criação de novos empregos a diminuir, e ele a tentar confundir-nos a razão, como se já não se tivesse percebido que a situação vai agravar-se progressivamente, uma vez que as previsões de crescimento económico são muito sombrias. José Sócrates continua a querer vender um país que não existe.
sexta-feira, 2 de julho de 2010
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