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quarta-feira, 7 de maio de 2014

Conto: A Bruxa de Trevões


A bruxa de Trevões
Em qualquer história aparece sempre uma personagem que se destaca das restantes por uma qualquer saliência da personalidade ou por uma qualquer qualidade especial, seja ela de natureza comportamental, temperamental, anímica ou de uma outra variante psicológica, das muitas que compõem o tipo humano.
Neste caso, é o senhor F, um homem que, naquela aldeia duriense, situada na bordadura da fronteira com o planalto transmontano, sobressaía entre os demais, por ser muito esperto e matreiro e ter o olho muito fino para o negócio. Destemido, bem-falante, arrojado e possuidor de uma grande autoconfiança, seria assim que ele seria descrito por quem estivesse, fora da história, a observar-lhe o grau de superioridade que exibia, onde quer que se encontrasse. Apostou ele, numa roda de amigos, à volta de uma mesa de uma taberna da Carrapatosa - e já depois de ter dado as últimas notícias sobre a guerra do Hitler, ouvidas em outros sítios, das suas constantes andanças - que iria desmascarar o raio da velha bruxa de Trevões, cuja fama de advinha e de curandeira se espalhara por muitas léguas em redor.
Foi só descer, por um caminho de cabras, a íngreme ladeira do vale do Douro, contratar o serviço ao barqueiro da Valeira, para atravessar o rio, subir a encosta até o Santo Salvador do Mundo - possivelmente um antigo local de culto celta, recuperado depois pelo cristianismo, que ali ergueu doze capelinhas, tantas quantas são as estações da Via Sacra, mas que agora estava votado ao abandono, devido à concorrência de outros santuários mais sumptuários e melhor situados estrategicamente, em lugares de acesso fácil - e ei-lo a apanhar a nova estrada de maquedame, que o levaria, já depois de uma légua a andar a pé, à aldeia de Trevões.
Quando a velha o mandou franquear a porta que dava para uma salinha, onde recebia os clientes, já ele tinha mudado de semblante, agora carregado de fingida tristeza e de recatada humildade. A tal personagem, fora da história, que o visse agora, poderia dizer que o senhor F já não era o mesmo homem exuberante, que vira na Carrapatosa, mostrando-se agora cabisbaixo, tímido e exibindo até uma certa dificuldade em falar.
Feita a saudação do costume, com muita reverência de parte a parte, e depois de ambos se sentarem à volta de uma mesinha, coberta por uma camilha vermelha, a velha, de olhos vivos e perscrutadores, à procura de um qualquer sinal importante e inspirador, perguntou-lhe ao que vinha.
O senhor F torceu-se no assento, colocou no movimento das mãos, sobre o tampo da mesa, toda a sua encenada hesitação, e respondeu: sabe, minha senhora! O meu pai foi para o Brasil, quando eu era muito pequeno, ao ponto de nem sequer me lembrar muito da sua cara. Depois de algumas cartas, enviadas para a minha mãe, ele deixou de escrever e nunca mais soubemos nada sobre a sua vida. Não sabemos se é vivo ou se é morto.
A velha, depois de perguntar qual a terra do senhor F, e o que fazia, assim como o nome completo do seu pai e o ano em que ele emigrara para o Brasil, e dando sinal de estar satisfeita com as respostas recebidas, pediu licença para retirar-se por uns momentos e entrou para uma outra dependência da casa, fechando a porta, o que levou o senhor F a pensar que a bruxa deveria ter ido consultar os recortes necrológicos dos jornais, que ele sabia que ela guardava, só assim se explicando o facto de ela pedir o envio dos jornais de terras tão estranhas e longínquas, a quem decidia ir para o Brasil ou para África, depois de ouvir o seu vaticínio.
Uma vez regressada à sala, e compenetrando-se na solenidade do momento do anúncio do augúrio, que, como se saberá, será infalível e irrevogável, a velha disse: Sabe, senhor F!... O seu pai está vivo, está com muita boa saúde e é um homem muito rico. Brevemente, ele regressará a Portugal, para se juntar à família.
Palavras não eram ditas, e já o senhor F, com um ar triunfalista, e batendo com os nós dos dedos no tampo da mesa, largou uma sonora gargalhada e retomou o seu ar altivo e descontraído. Oh, minha senhora! O meu pai já morreu há uns anos e nunca foi para o Brasil. E, quando já se levantava, exibindo descarado desdém e dando mostras de que se iria embora, mesmo sem pagar o serviço, a velha, com uma serenidade profunda, adquirida nas catacumbas do tempo, por herança dos seculares segredos da profissão, travou-lhe o ímpeto e a afronta do escárnio: O senhor F está enganado! O seu pai, aquele que já morreu há uns anos, não era o seu pai…    
Alexandre de Castro
Maio de 2014

***«»***
Uma nota a propósito: Trevões, uma aldeia mergulhada na sua obscuridade secular, anda agora nas bocas do mundo, a propósito do homicida que tem conseguido escapar aos cercos e às perseguições policiais. Só quem conhece a instintiva capacidade de sobrevivência daqueles povos e o acidentado terreno do Alto Douro poderá perceber a situação de inferioridade das forças da GNR e da PSP. Por aqueles montes, que parecem o teto do mundo, há esconderijos escavados nas rochas pelo tempo e cercados de mato denso, que só os caçadores, como é o caso do homicida, conhecem. E nessa faina (trata-se de caçadores profissionais, pois vendem a caça que apanham), eles recuperam os sentidos e os instintos do Homem pré-Histórico.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Crónica: Provocação a um benfiquista e o exótico discurso sexual dos patos bravos


Caro Bruno:
Agora não vou falar-lhe do Benfica, para não o atormentar mais. Já basta o que basta.
Hoje, quero felicitá-lo por ter escolhido, para um dos momentos do seu lazer, o maravilhoso parque da Quinta das Conchas e da Quinta dos Lilases, ao Lumiar. É um local paradisíaco. Ali, na parte mais elevada, revestida por uma abundante vegetação selvagem, ainda se podem ver algumas pequenas aves que escolheram aquele espaço para nidificação, o que é um autêntico milagre numa cidade, onde impera a ditadura do cimento e do automóvel. Lembro-me de ter feito algumas reportagens para o nosso saudoso jornal, na altura em que aquele espaço verde esteve ameaçado pela gula dos patos bravos, que andaram a construir, a norte, a urbanização da Alta de Lisboa. Ainda conseguiram destruir o muro da cerca original, para derrubar algumas árvores centenárias e proceder ao esbulho de uma franja de terreno, pertencente ao parque, um crime que ficou impune.
Esses patos bravos e esses promotores imobiliários também tentaram abrir uma rua, para fazer a ligação directa da urbanização à avenida das Linhas de Torres, intento que foi travado, devido à corajosa luta da comissão de  moradores do Lumiar. Evitou-se assim o esquartejamento das duas quintas e, consequentemente, a destruição daquele espaço verde, pois, a partir dali, ficaria aberto o caminho para as árvores serem substituídas pelo tijolo e pelo cimento.
Estes patos bravos são assim. Não podem ver na cidade uma nesga de terreno, que não pensem logo em construir condomínios. Há quem diga até que os patos bravos têm potentes orgasmos quando olham para um arranha-céus, coisa que não lhes acontece quando fodem com as suas mulheres, o que os leva, em desespero de causa, a procurarem as putas nos bares de alterne da Duque de Loulé e da Luciano Cordeiro, o único sítio onde podem fazer crer que a sua potência sexual é equivalente à da potência dos motores dos seus automóveis topo de gama, invariavelmente da marca Mercedes e Audi, e que ficam caoticamente estacionados nos passeios daquelas artérias, numa manifestação pirosa de ostentação.
Só naqueles espaços obscuros da noite de Lisboa é que conseguem satisfazer as suas bizarras fantasias, e não só as de âmbito sexual, constando até, por aí, que, a mais bizarra, é aquela em que um famoso empreiteiro exige das meninas, a troco de uma nota de cem euros por cabeça, que o considerem presidente do glorioso, encenação esta que apenas ocorre, já perto da madrugada, quando ele já está encharcado em whisky.
Um abraço

Alexandre de Castro

Lisboa, Setembro de 2011

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

CARTAS DA REVOLUÇÃO: Um sonho não concretizado…


Um sonho não concretizado…

Querida amiga:
Acordei estremunhado, ao acabar de sair de um sonho (ou de um pesadelo, não sei bem). Um sonho de que me lembrei de partilhar contigo, que a esta hora já estás acordada. E foi um sonho que me deixou uma sensação amarga, muito estranha e difusa. Não foi de alegria nem de tristeza. Apenas sei que sinto algum desconforto, agora que estou a pensar nele, no meio do silêncio aterrador da noite. Também não sei se tive medo. Desassossego, sim. Fiquei, pelo menos, inquieto.
A voz off, que me sopra todos os sonhos, adquire sempre a identidade de alguém que me narra o próprio sonho. Aqui, seria possivelmente um jornalista televisivo a debitar uma notícia, dando-lhe algum dramatismo. E o caso não era para menos! A notícia referia que o país estava a começar a entrar num turbilhão político pré-revolucionário e anárquico. O Tribunal Constitucional tinha acabado de anunciar a inconstitucionalidade do Orçamento de Estado de 2013. Foi como se uma bomba tivesse caído em S. Bento. O ministro das Finanças demite-se e foge do país. Segue-se a demissão do ministro da Economia e dos Negócios Estrangeiros. Cavaco Silva chama Passos Coelho ao Palácio de Belém e, numa nota emanada da Presidência da República, apela à calma dos portugueses. Começam a chegar informações de que, no interior do país, as populações começaram a sair à rua, em protesto e a exigir eleições legislativas. Cavaco Silva pede ao Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas que ponha as tropas de prevenção. Este recusa cumprir a ordem, respondendo que a Segurança Pública não compete às Forças Armadas, mas sim às forças policiais. Cavaco Silva pensa demiti-lo, mas começam a chegar vozes dos quartéis a avisar que as Forças Armadas nunca irão atacar o povo. Passos Coelho também está a pensar em demitir-se.
E a voz off comenta: Cavaco Silva começa a sentir o peso da responsabilidade desta crise, por não ter atuado atempadamente, pedindo a fiscalização preventiva do Orçamento de Estado. Foi apanhado pela armadilha que ele próprio armou. Abstendo-se em tomar uma decisão frontal e clara, em relação à conformidade do Orçamento de Estado com a Constituição da República, julgou que iria passar incólume por esta crise, quando, na realidade, ele deverá vir a ser a sua principal vítima, entre os políticos. Talvez escolha a demissão, já que perdeu a legitimidade moral para desempenhar o cargo. Ele próprio, possivelmente, também já terá concluído não ter capacidade para controlar uma situação, a ameaçar entrar em roda livre a qualquer momento.
E acordei, levantando-me da cama de rompante, como se estivesse a fugir de alguma coisa.
E, agora, estou aqui a pensar seriamente neste sonho, a partilhá-lo contigo, e não sei se deva acreditar nele.
Uma coisa, no entanto, me chamou a atenção. No sonho, não aparece ninguém a querer liderar seja o que for, nem o descontentamento e a revolta, nem a reação contrária, a da repressão. Parece-me que o país se demitiu. E isto é preocupante! Resta a revolta popular, cuja dimensão o sonho não conseguiu avaliar.
Só me falta saber se este sonho foi sonhado por outros portugueses.
E vou regressar à cama, que estou com sono. Não sei, no entanto, se conseguirei adormecer. Ou sonhar novamente! Talvez contigo…
***«»***
RESPOSTA:

Querido amigo:
Não sei se o teu sonho/pesadelo foi sonho ou se foi antes uma premonição...
Acho que eu, com um sonho desses, ficaria assustada uma data de noites sem dormir, só para não voltar a sonhar.

sábado, 20 de outubro de 2012

Colonialismo: uma nódoa na civilização ocidental.

Cecil Rhodes, o grande colonizador inglês.
Quando se fala do desenvolvimento dos países europeus e da sua civilização, elege-se como única causa de sucesso a revolução industrial, iniciada em Inglaterra no sec. XVIII, e a conquista da democracia, a partir da eclosão da Revolução Francesa. Esquece-se deliberadamente o colonialismo e o saque global das riquezas, na África, na Ásia e na América central e do sul, assim como a opressão impiedosa exercida sobre as suas indefesas populações.
A riqueza da Europa ainda está manchada com o sangue dos povos colonizados, e a memória dorida da escravatura ainda pesa no julgamento da História.

sábado, 11 de agosto de 2012

Crónica anunciada do primeiro poema onde entro

Fotografia de João Palmela

Crónica anunciada do primeiro poema onde entro

Deitei-me tarde, levantei-me cedo. O médico faltou. Fiquei azedo, como se tivesse sarro na boca. Resolvi descer à Baixa Pombalina, onde tudo cheira a História. Entrei na Havaneza para ver os cachimbos. Estão pela hora da morte. Vaguei pela Bertrand à procura do livro que ainda irei escrever. O empregado disse-me que já estava esgotado e que a todo o momento esperavam a 2ª edição. Fiquei irritado por ele não me ter reconhecido.
Cá fora, o colorido dos turistas a animar a rua. Desci ao Rossio e senti o perfume da manhã na esplanada do Nicola. Ali fiquei a saborear a cidade e o seu movimento colorido. A luminosidade de Lisboa é única. Disseram-me que é do reflexo do sol no grande estuário do Tejo. O que é certo é que esta luz enfeitiça os olhos. Talvez por isso, eu tenha começado a olhar para todas as mulheres que passavam e em cada uma delas tentava adivinhar aquela que me engravida as horas com as suas palavras. Senti-me preso nesse jogo, onde era o único jogador. Ganhava sempre. A imagem tornava-se cada vez mais nítida e lembrei-me daquela fotografia do rio Azul, o rio que para mim já não é fronteira, um veio de prata embaciado por neblinas, e era por aquela serenidade da paisagem que eu queria estagiar a minha ansiedade de ler todas as respostas às perguntas que ainda não fiz.
E quando cheguei a casa, sabia que a resposta estava ali, ainda sem ser palavra redentora, na carta que já anunciava o poema, que só depois descobri na outra carta, que também chegara.
O sarro da boca desapareceu e apressei-me a perdoar a lamentável falta de memória do empregado da Bertrand. Ele, na realidade, não poderia adivinhar que eu já estava dentro do poema, e a responder ao grito desta “poeta”, que começa a enlouquecer-me os dias e as noites, a pedir-me que lhe escreva, que a invente, que a imagine, que a sinta, inventando-me a mim próprio como namorado enciumado e invertendo aquele jogo, ensaiado ludicamente na esplanada do Nicola, quando ainda não sabia que já era poema, onde aparecia todo inteiro.
Alexandre de Castro
Lisboa, Idos de Março do ano I do encantamento

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Notas do meu rodapé: Não quero ver a raínha de Inglaterra vestida com a burka

Ao contrário do anunciado na primeira imagem pode clicar em todas para as ampliar














Estas manifestações fundamentalistas, que nada têm de espontaneidade, antes obedecem a um plano difusor altamente organizado e centralizado, fazem-me recordar as manifestações das juventudes hitlerianas dos anos trinta do século passado. A uni-las, um rancoroso ódio de brutalidade animalesca contra o inimigo eleito, assumido numa encenação grotesca e patética, e ao arrepio de todos os avanços civilizacionais baseados na tolerância e no direito pela diferença. Os países muçulmanos podem ter muitas razões de queixa em relação ao colonialismo europeu do passado e às agressões permanentes do sionismo judaico sobre o martirizado povo da Palestina, cuja independência as forças progressistas do ocidente defendem com sincera convicção. Não podem, contudo, através das suas comunidades europeias, alimentar o ódio xenófobo contra os povos que lhe deram acolhimento, nem ameaçar de morte quem não se identifica com a sua satânica religião, idêntica na sua vocação totalitária e exclusivista à matriz original das duas outras religiões monoteístas. 
Sabe-se que os fundamentalistas islâmicos, ensandecidos pela cegueira de ajustar contas com a História, pretendem conquistar através da demografia, aquilo que, na Idade Média, não conseguiram pelas armas. E, neste aspecto, aceito plenamente que se deva aplicar a lei da reciprocidade de tratamento, expulsando do solo europeu aqueles muçulmanos hostis, que nele entraram, utilizando o cavalo de Tróia, e limitando as liberdades a quem não quer respeitar as liberdades dos outros. A Europa não pode transformar-se na cloaca dos fundamentalistas islâmicos, que nela pretenderão impor, quando para isso tiverem a força suficiente, as implacáveis leis corâmicas da sharia, reclamadas na manifestação de Londres, e à qual reportam as imagens publicadas.
Não quero ver a rainha de Inglaterra vestida com a burka nem quero regressar ao tempo da Inquisição, em que apostasia e o ateísmo eram purificados pelo fogo.
Notas:
(1) "Deste modo, tornou-se uma obrigação individual, à qual não há escapatória, de cada Muçulmano preparar o seu equipamento, decidir-se a participar na jihad, e preparar-se para ela até que a oportunidade seja oportuna e Deus decrete uma matéria que é certo que será completada..."
al-Banna, fundador da Irmandade Muçulmana
(2) Sobre a total intolerância pelos costumes não-muçulmanos: "Tudo no Universo é Muçulmano pois tudo obedece a Deus pela submissão às suas leis... Em toda a sua vida, desde o estado embriónico até à dissolução do corpo após a morte, cada tecido dos seus músculos e cada membro do seu corpo segue o curso prescrito pelas leis de Deus. A sua língua, que pela sua ignorância defenda a negação de Deus ou professe divindades múltiplas, é na sua própria natureza "Muçulmana"... Aquele que negar Deus é um Kafir ("escondedor") porque ele esconde pela sua descrença o que é inerente à sua natureza e embalsamado na sua alma. Todo o seu corpo funciona em obediência a esse instinto... A realidade torna-se-lhe alienada e ele tateia na escuridão".
Sayed Abul ala Mawdudi, fundador da  Jamaat-e-Islami 

terça-feira, 26 de abril de 2011

Conto: A última viagem - por Alexandre de Castro


A última viagem
1
Não sei porquê, mas comecei insidiosamente a pressentir que a viagem naquele comboio não tinha destino nem fim.
O bilhete era uma pequena cartolina branca, de forma rectangular, sem qualquer indicação útil para o revisor, que, à moda antiga, o obliterou com um alicate, dizendo-me obrigado, mecanicamente, ao mesmo tempo que me desejava boa viagem. Mas não me respondeu, quando lhe perguntei qual era a última estação daquela linha de via estreita, percorrida, ora num sentido, ora no outro, por carruagens antigas, de bancos de madeira corridos, puxadas com visível esforço, principalmente nas subidas, por uma locomotiva alimentada a carvão, que um homem de tronco nu, e todo suado, atirava às pazadas para a devoradora fornalha.
No banco, à minha frente, ia uma compenetrada senhora, com um elegante chapéu preto na cabeça e uma renda da mesma cor a descer-lhe pelo rosto. Disse-me que ia visitar o marido, mas começou logo a ler a Bíblia, quando lhe perguntei em que localidade se encontrava o marido. No entanto, reparara que ela trazia duas alianças no dedo anelar da mão esquerda, o que indiciava, seguramente, a manifestação pública do seu estado de viuvez. Não deixei de ficar intrigado.
Adormeci, e, quando acordei, ouvindo o som do matraquear das rodas sobre os carris, que me parecia vir de muito longe, apercebi-me da ausência de árvores na paisagem que desfilava pela janela da carruagem. Era uma paisagem dominada por terra amarela, como nunca vira, e as rochas tinham uma cor avermelhada, como se fossem brasas de uma lareira. Lembrei-me da paisagem de Marte, que já vira em fotografias.
A viúva, afivelando uma postura de dignidade, e antes de sair no apeadeiro, onde o comboio estava agora parado, permitiu-se tirar o chapéu da cabeça e destapar o rosto, para dar um retoque no cabelo, e pude então reparar que se tratava de uma mulher que deveria ter sido muito bonita na sua juventude.
Pela janela da carruagem ainda vi o chefe da estação com a bandeirola debaixo do braço, mas na frontaria do edifício não existia nenhum letreiro a indicar o nome do apeadeiro. Aí, dei-me conta que estava sem referências espaciais para poder orientar-me. Não sabia onde estava. Também já perdera as referências temporais, e o meu medo era poder vir a perder as referências existenciais, e acabar por não ser capaz de responder a esta pergunta tão simples, mas tão fundamental: Quem sou eu?
O meu relógio parara, inexplicavelmente, durante a viagem, e na parede do edifício do apeadeiro também não havia nenhum relógio, que me devolvesse o ordenamento temporal. Apesar do céu não ter nuvens, não era visível a existência do Sol ou de qualquer outro astro luminoso, e assim eu também não podia reencontrar-me com os quatro pontos cardeais. E comecei a interrogar-me de onde vinha aquela claridade constante e uniforme, sem qualquer nuance na mudança de tom e que transmitia uma pesada imobilidade ao dia, que parecia ser perpétuo. Pela primeira vez, experimentei uma estranha sensação de vazio, por sentir-me sem as coordenadas do Tempo, que a alternância dos dias e das noites faculta. Progressivamente, sentia que estava a perder aquela noção íntima do Tempo, que permite situar-nos no antes e no depois e que separa com nitidez o que é passado, presente e o que é futuro.
Entretanto, o lugar deixado vago pela viúva tinha sido ocupado por um senhor gordo, todo esbaforido de calor a arrastar pela coxia uma pesada mala. Deixei que se acomodasse, depois de ter esperado que terminasse a tarefa de limpar o suor da cara e do pescoço com um lenço branco, exageradamente grande, para lhe colocar todas as inquietantes dúvidas a que me conduziram as minhas recentes cogitações sobre o Espaço, o Tempo e a Existência. Respondeu-me amavelmente que essas questões já não o preocupavam, tendo acrescentado que, para ser mais exacto, até já nem conseguia abarcar a extensão e a profundidade desses conceitos e, enigmaticamente, deixou o seguinte conselho:
- Para nos livrarmos de um vício, o melhor é arranjar outro que o substitua, mas, neste caso, é preciso ter cuidado para não ficarmos com os dois.
E sem me dar tempo que lhe pedisse uma clarificação sobre a sua afirmação, tirou do bolso interior do casaco a carteira, que abriu para me mostrar a fotografia de uma mulher ainda jovem, e que eu imediatamente associei à senhora que acabara de sair da carruagem no último apeadeiro:
- É a minha mulher – disse-me, antes que eu fizesse alguma referência.
- Aqui, não podemos regressar ao passado, nem podemos caminhar para o futuro, porque passado e futuro deixaram de existir. Aqui só há presente.
- Como assim? - Perguntei, intrigado.
- Transferiram-me para outro campo, uma vez que ela vinha a chegar. E isso poderia afectar a ordem estabelecida.
- Como assim? – Voltei a insistir, colocando agora na minha voz um tom imperativo, que não admitia mais subterfúgios.
- Vai compreender, quando sairmos da carruagem, no próximo apeadeiro.
- E esse é o último apeadeiro desta linha? – Perguntei, na esperança de obter uma resposta à pergunta que no início da viagem o revisor tinha ignorado.
- Tanto quanto sei, esta linha não tem fim e não há viagem de regresso, uma manobra engenhosa para esvaziar a noção do Espaço. Uma vez que eu tinha obrigatoriamente de fazer esta viagem, pediram-me para o acompanhar e de o informar das novas regras. Já lhe disse que tem de arranjar outro vício, que substitua o vício de pensar, mas deve ter muito cuidado para não ficar com dois vícios.
- Está a dizer-me que tenho de viciar-me em não pensar.
- Não!... Eu não queria dizer isso. O que é necessário é que abdique de todo o tipo de lógica e que não utilize o pensamento dialéctico.
- Mas isso equivale a renunciar ao pensamento autêntico!...
- Como queira, Mas, o meu amigo vai descobrir que esse não é o pensamento autêntico, já que através dele, não se consegue abarcar esta realidade que existe à sua volta, e que é a realidade dominante.
Encolhi-me todo no banco, parecendo um bicho-de-conta a enrolar-se sobre si mesmo. Um frio percorreu-me a espinha, o que me provocou um arrepio, que o meu interlocutor teve a oportunidade de observar.
- Não se preocupe. Vai habituar-se.
Fez-se um pequeno silêncio na carruagem, que, sem eu ter constatado antes, já ia vazia.
- Os outros passageiros? - Indaguei, alarmado.
- Já saíram todos com o comboio em andamento. Já vejo que está surpreendido, mas a lei da Física da gravitação universal não se manifesta aqui. Já vê que tem de viciar-se num outro tipo de pensamento e abandonar o que aprendeu. Não queira ficar com dois vícios. E agora eu também vou sair e nunca mais irá ver-me, embora eu continue a observá-lo, segundo as instruções que recebi. Eu, quando cheguei, também tive de fazer este percurso.
- E a sua mulher? Também vai fazer este percurso?
- Porque faz essa pergunta?
- Por nada … Por nada! Simples curiosidade, nada mais.
- Apaixonou-se por ela, durante a viagem?
- Não, não!... Apenas reparei tratar-se de uma mulher interessante.
- Talvez ela venha fazer-lhe companhia, já que ela, quando me viu, disse-me que se apaixonara por si.
- Oh!.. Não pode ser!... Está a brincar comigo!...
- Estou a falar a sério, meu caro amigo. Percebi que ela já não me aceita. E não vale a pena obrigá-la a passar a eternidade a olhar para mim com desgosto. Mas ela só virá ter consigo, quando ambos aprenderem o novo pensamento.
E o homem estendeu-me a mão, grossa e papuda. E antes de desaparecer misteriosamente, tal como fizeram antes os outros passageiros da carruagem, disse-me:
- Quando o comboio parar no apeadeiro, siga sempre as setas que estão no chão, que o conduzirão à casa do guarda.
- Está a querer dizer-me que eu vou para uma prisão?
- Não. Aqui não há prisões. Mas, agora, peço-lhe para não fazer mais perguntas. Adeus.
2
Recebi esta carta numa tarde de Agosto. Vinha numa embalagem tubular, de um material que se desagregou completamente, depois de a abrir. Não trazia remetente, e a ausência de qualquer carimbo dizia-me que não tinha chegado através do circuito normal dos correios. Não faço a mínima ideia quem seria o seu autor.

Alexandre de Castro

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Conto: O meu mundo subaquático - por Alexandre de Castro


O meu mundo subaquático

Enquanto mastigava, a língua dançava-me na boca a enrolar a comida e, em movimentos mais elásticos, procurava apanhar aqueles resíduos dispersos que teimavam entalar-se nas comissuras e colar-se às gengivas e às bochechas. Foi num desses movimentos que a placa esquelética saltou do lugar e o gancho metálico, que se encontrava solto, por, há dias, se ter partido o dente canino de apoio, foi espetar-se na base da língua, rasando aquele veio azulado, que se vê, proeminente, quando a dobramos com a ponta virada para cima. Foi uma dor aguda, um fio de fogo a queimar-me por dentro, e imediatamente pensei que deveria ser essa a dor que os peixes sentiriam quando mordiam o anzol. E neste acidente, o gancho da placa funcionou, na realidade, como se fosse um autêntico anzol, pois quanto mais procurava libertar a língua, mais ele penetrava naqueles tecidos moles, já todos ensanguentados, o que aumentou o meu pânico. Tive de socorrer-me da mão, mas, por mais manobras que fizesse, o gancho rasgava cada vez mais a carne. Só com um valente e decidido esticão, a fazer estremecer de dor todo o meu corpo, uma dor a ressoar pelas entranhas e quase a provocar-me um desmaio, consegui arrancar o maldito gancho, que trouxe agarrado na ponta um pequeno pedaço de carne. Parecia uma minúscula amostra de um tecido destinado a uma biopsia.
A boca já era uma massa ensanguentada, a formar uma pasta mole, que cuspi com violência para o lavatório, indo, como se tivesse sido um espirro, salpicar o espelho e os azulejos brancos das paredes. O sangue saía aos borbotões daquele veio azul, que pulsava ao ritmo da dor. Fechei a boca, mas ainda tive tempo de ver no espelho os dentes raiados de sangue, como se fosse um drácula. Bochechei com a água fria da torneira, mas, cada vez mais, o sangue saía em maior quantidade. Meti na boca, por baixo da língua, um toalhete molhado, procurando fazer alguma pressão sobre o golpe para conseguir estancar as golfadas de sangue. De nada me valeu. O toalhete ficou encharcado de sangue, parecendo um molusco viscoso. Lembrei-me então de ir buscar uma pedra de gelo ao frigorífico, na esperança, tal como sempre ouvi dizer, que o frio contrai as artérias e as veias, e que é eficaz nas hemorragias.
Olhei para o espelho casualmente e comecei a ver os olhos marejados de lágrimas vermelhas a esconderem o branco da córnea. Entrei em pânico e comecei a pensar na melhor maneira de pedir socorro e ir ao hospital. O medo de morrer ali, sozinho, a esvair-me em sangue, aterrorizava-me. Durante a minha vida pensei várias vezes nas muitas maneiras de poder vir a morrer. Na cama, na rua, com um fulminante ataque de coração, num acidente de automóvel, na enfermaria de um hospital, na mesa de operações... Mas nunca pensei morrer assim, devido a uma hemorragia na língua, provocada por um golpe certeiro da ponta de um gancho de uma placa dentária esquelética.
Olhei novamente para o espelho, que já me devolvia a cor de cera do meu rosto, e meti os dedos nos ouvidos, para me certificar se também por ali perdia sangue. Foi quando eu reparei em duas protuberâncias membranosas, que começaram a crescer por detrás das orelhas. Ao apalpá-las, tive a sensação de sentir a pele escamosa de um peixe. Voltei a tocá-las, ao mesmo tempo que torcia o pescoço, para as ver melhor, e reparei que na sua parte inferior, aquelas duas protuberâncias apresentavam uma abertura, como se ali tivesse sido feito um golpe com uma navalha, tal era a perfeição do seu alinhamento rectilíneo. Fiquei intrigadíssimo com este fenómeno anatómico, de que nunca ouvira falar.
Por uns momentos, pensei que teria entrado num estado alucinatório, mas a evidência do sangue, que já me sujara a camisa de linho, e aquelas duas protuberâncias de uma cor acastanhada, como se fossem dois tumores, confirmavam-me a surpreendente realidade. Belisquei a perna, para ver se tudo aquilo não passava de um pesadelo. Olhei para o relógio, que marcava dez horas da manhã, e a essa hora eu não podia ainda estar a dormir. Aliás, lembro-mo muito bem do despertador tocar e de ter saltado da cama, assim como me lembro de estar a comer as torradas do pequeno-almoço, tendo sido nesse momento que ocorreu o acidente com o gancho da placa esquelética.
Cheguei à conclusão de que meter debaixo da língua um toalhete molhado seria a melhor maneira de evitar a saída do sangue pela boca, embora notasse que a hemorragia continuava, ao ponto de já ter utilizado meia dúzia de toalhetes, que ia deitando na tulha da roupa suja, devidamente embrulhados em tiras de papel higiénico. Depois, passei a embrulhá-los em papel de jornal, por me parecer que os isolava melhor, evitando assim manchar de sangue a outra roupa.
Resolvi também tirar a camisa, a única camisa de linho que possuía, e daí a razão de gostar muito dela e de a vestir mais vezes. E foi nesse momento que comecei a sentir falta de ar. Primeiro, julguei tratar-se de uma somatização dos sintomas da minha ansiedade, o aparecimento de uma anormalidade física, desencadeada pelo medo. Mas, já na rua, à procura de um táxi, que me transportasse ao banco de urgência, sentia que a dificuldade em respirar começava a aumentar. Tentei controlar o meu pensamento, pois sabia que quanto mais pensasse na hemorragia, mais agravava aquela sensação de falta de ar, que me obrigava a fazer inspirações profundas, para resistir melhor. Comecei a concentrar-me na imagem do peixe a morder o anzol, que me tinha surgido na casa de banho, quando tentava retirar da língua o gancho da placa esquelética. Tive de aplicar toda a minha energia mental, adquirida na prática do yoga, para esquecer a dor do ferimento e para superar a ansiedade.
Mas, quando já tinha iniciado o exercício de concentração, alarmei-me com a constatação de que os táxis vinham todos ocupados e que o trânsito fluía lentamente. Um novo alarme fez-me estremecer, ao ponto de sentir as pernas a fraquejar. Fiz as contas. Por este andar arriscava-me a morrer asfixiado, ali, no passeio, ou dentro do táxi, ensarilhado no tumulto do trânsito. Seria o cúmulo do azar, morrer ali, desamparado, com o hospital a uma centena de metros, apenas porque, inicialmente e por cautela, não quis arriscar fazer o respectivo percurso a pé. Mas foi isso que, perante a dificuldade de apanhar um táxi vazio, decidi fazer, confiante na minha capacidade de conseguir domesticar o ciclo respiratório, enquanto impunha um ritmo seguro e regular às minhas passadas. Desci a avenida e cortei para o jardim do Repuxo, para atalhar caminho, e ao olhar para a fonte, no meio do jardim, com uma enorme taça de pedra, na base, cheia de líquenes, fui acometido por uma sede intensa, ao ponto de não resistir a inclinar-me para a carrancona de pedra que deitava água por um cano enfiado na boca. Senti uma sensação agradável ao beber aquela água e receber os seus salpicos na cara. Um impulso mais, e de uma forma irresistível, enfiei a cabeça debaixo do cano. Deixei-me ficar ali, a saborear o prazer provocado pela água a correr-me pela cabeça, embora, assim de repente, aquelas duas protuberâncias, atrás das orelhas, tivessem começado a latejar. Ao incómodo motivado pela falta de hábito, começou a sobrepor-se a doce sensação da quietude do meu corpo, ao ponto de ter esquecido a dor na língua e de a respiração ter retomado o seu ritmo normal. O que me surpreendeu foi aquela sensação de habitar um corpo revigorado por novas forças, que já me vinham faltando, durante a caminhada.
Entretanto, a hemorragia continuava. Enfiei um novo toalhete debaixo da língua, e reiniciei a minha marcha, agora mais apressada, pois uma tão grande perda de sangue começava a preocupar-me. Mal iniciei a caminhada, um relâmpago atravessou-se no pensamento, iluminando um súbito pressentimento. Voltei atrás e olhei para o tanque e, para meu espanto, não vi na superfície da água vestígios de sangue, embora tivesse a certeza de que o toalhete, que tinha atirado, momentos antes, para o caixote do lixo, ali ao lado, parecesse o tal molusco avermelhado e viscoso.
Estranho, disse para mim. Tenho de falar ao médico deste pormenor, que não deverá ser insignificante, pois nunca se viu uma ferida deixar de sangrar subitamente, para depois, passados uns minutos, ser novamente necessário utilizar um toalhete para estancar o sangue. E foi a meio deste solilóquio que as protuberâncias começaram a doer-me, enquanto latejavam com mais intensidade, emitindo um som estranho, muito parecido com o som gutural, provocado pela libertação da expectoração. Estanquei a marcha, e um novo relâmpago atravessou-me a cabeça e o corpo, deixando no seu rasto uma queimadura profunda e inquietante. Uma nebulosa translúcida fixou-se nos olhos e comecei a ver os objectos, as casas e as pessoas a flutuarem no ar, numa realidade etérea, que eu não compreendia. As pessoas, lá nas alturas, em diversos patamares, adquiriam aquela postura repousada de quem vai numa escada rolante. Umas diziam-me adeus, outras faziam-me caretas e algumas insultavam-me. As crianças riam-se e atiravam-me pedras e pedaços de madeira. Até um polícia, lá do alto, que deslizava ao lado de uma velhinha, apoiada numa bengala, me ameaçou com o cassetete em punho. As pessoas já eram tantas, por cima da minha cabeça, vindas de todas as direcções, e cruzando-se umas com as outras, que eu comecei a correr desalmadamente, com o meu pensamento fixado na nebulosa esbranquiçada, que cobria os meus olhos. Pisei os canteiros do jardim, derrubando as plantas à minha passagem. Atravessei-me à frente dos carros, empurrei pessoas num passeio. Vi, finalmente um táxi livre. Filho da puta, que não apareceste, quando eras preciso, gritei, furioso, para o taxista, que travou de repente, ficando a olhar para mim com um ar aparvalhado, enquanto eu continuava aquela correria louca, assustando as pessoas, que faziam alas para me dar passagem.
Eu estava a ser guiado por aquela névoa, que me cobria os olhos, e ao passar por uma montra com vidros espelhados pude ver que eles eram grandes e redondos, cobertos por uma membrana gelatinosa, e era devido a essa membrana que eu via, de dentro de mim, a nebulosa translúcida e esbranquiçada, que me apontava o caminho a seguir. Ainda tive tempo de ver as duas protuberâncias que, entretanto, tinham incorporado as orelhas, dando ao meu rosto um aspecto espalmado.
Já uma multidão vinha no meu encalço, gritando e agitando freneticamente os braços. As pessoas, que flutuavam por cima da minha cabeça, como se fossem transportadas por uma passadeira rolante aérea, olhavam-me com um misto de desprezo e de comiseração.
A névoa já estava a indicar-me que o fim da correria estava a chegar ao fim, e, naquele momento, era o que mais ansiava, pois a respiração começava a claudicar e as pernas falhavam constantemente. Até que cheguei ao cais das colunas, depois de atravessar a grande praça ladrilhada. Veio o cheiro da maresia dilatar-me as narinas. O vento marítimo adoçava-me a cara afogueada. Ao longe, o silvo agudo dos navios, a entrarem no porto.
Parei no muro do cais, e olhei aquele lençol de água do estuário, uma lâmina espelhada a reverberar a luz do sol. Dei um salto e mergulhei na água, até ao fundo. Dejectos e mais dejectos, a carcaça enferrujada de um automóvel, cercado de peixes, muitas garrafas de vidro, botijas de gás e até um caixote escavacado com armamento militar. O rio era o vazadouro do lixo da cidade, pensei, enquanto dei um impulso ao corpo para vir à superfície e olhar pela última vez a cidade, para depois mergulhar definitivamente nas profundezas, pensando que só regressaria a terra, se um outro anzol viesse a prender-se na minha língua ou se ficasse enrolado nas malhas de uma rede de arrasto.
***
Lembro-me de começar a ver um ponto brilhante e um sussurro de vozes à minha volta, enquanto, num lento acordar, ouvia os meus gemidos e sentia fortes dores no corpo, como se um pesadelo se tratasse. Os olhos abriram-se lentamente, e movi os dedos da mão a tentar tactear a realidade, mas rapidamente fechei as pálpebras, agredido pela luz intensa e branca que vinha de um objecto em forma de disco. Julgo que, por breves momentos, voltei a adormecer, como se o corpo se recusasse a sair do limbo inconsciente, e quando voltei a abrir os olhos, vi a cara circunspecta de um homem a aproximar o seu rosto do meu, olhando-me fixamente, através de uns olhos muito azuis, enquadrados por uns óculos de aros metálicos e finos. Com uma pequena lanterna apontou-me um foco de luz para cada uma dos meus olhos, e com os dedos delicados, que eu senti frios, revirou-me as pálpebras. Como se sente, perguntou-me, com uma voz suave, que me pareceu longínqua, vinda como um eco do fundo do tempo.
E foi então que eu lhe disse que a sua cara estava a transfigurar-se lentamente, ficando cada vez mais espalmada, e parecendo-me estar a ver um peixe muito grande, de olhos líquidos esbugalhados. Levantou-se de repente e disse a alguém, que eu do meu lugar não podia ver, para me dar outra injecção e deixar-me amarrado à cama.
Adormeci novamente, julgando que estava no fundo do mar.

Alexandre de Castro

Lisboa, Abril de 2011

sexta-feira, 25 de março de 2011

Coisas que eu escrevi: Mais uma oportunidade perdida na Educação

A propósito da aprovação do fim do modelo de avaliação dos professores pela Assembleia da República, achei oportuno recuperar para aqui um texto que publiquei no Jornal do Douro, em 18 de Fevereiro de 2009, onde abordo, de forma genérica, o enquadramento metodológico de um processo de avaliação.
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Mais uma oportunidade perdida na Educação
O diferendo entre os professores e o Ministério da Educação chegou ao ponto do vómito.
Sou dos que defendem a adopção do processo de avaliação em todas as actividades e profissões e em todos os escalões hierárquicos, exceptuando aqueles que, derivando da nomeação política, são avaliados pelos mecanismos eleitorais, e, no caso das empresas privadas, os dirigentes superiores, os o topo, que são os respectivos proprietários ou os que por eles são designados.
Mas, para que o processo não seja desvirtuado por favoritismos nem inquinado por pressupostos subjectivos, defendo que todo o processo de avaliação, na forma e no conteúdo, deve obedecer aos seguintes princípios gerais:
- A avaliação é um processo contínuo que deve acompanhar a evolução de toda actividade profissional, mas que implica a obrigatoriedade da existência de uma formação inicial e de um escalonado processo de formação contínua.
- A avaliação tem por objectivo único melhorar os desempenhos profissionais, estimulando e gratificando os aspectos positivos, tentando recuperar os aspectos negativos, através de estratégias simples e convenientemente dirigidas, e nunca podendo ser utilizada para reprimir ou humilhar.
- A avaliação será sempre da responsabilidade do superior hierárquico imediato, que será solidário com os objectivos dos seus subordinados, uma vez que o seu próprio êxito depende do êxito de todos eles. É nesta partilha obrigatória das responsabilidades que repousa a garantia de independência da avaliação. Quem dirige subordinados e lhes avalia desempenho também será avaliado, ao nível do escalão imediatamente superior, pela forma como dirige e avalia. Aqui reside uma outra garantia para despistar erros, prepotências ou favoritismos.
- Os parâmetros a avaliar devem ser desenhados na base de um profundo conhecimento dos perfis das respectivas actividades profissionais, recorrendo-se às mais diversas fontes de informação para os elaborar, a que se acrescentarão todos aqueles que são comuns a todas elas e também os que o bom senso aconselhar.
- O processo de avaliação é uma importante ferramenta da gestão de recursos humanos e não pode estar desligada dos planos de actividades, quer os gerais e de longo prazo, quer os específicos e de médio ou curto prazo, estes últimos preferencialmente orientados para a correcção das deficiências entretanto diagnosticadas. E qualquer plano de actividades deve conter obrigatoriamente os objectivos, realisticamente definidos com clareza e rigor e perfeitamente alcançáveis com o desenvolvimento das performances esperadas. Evitar os exageros da ambição desmesurada e, em sentido contrário, os da modéstia paralisante é a regra de ouro da tarefa do estabelecimento de um qualquer objectivo. Ignorar esta regra é contribuir para o insucesso e para a frustração de quem trabalha.
Os meios necessários a utilizar para atingir os objectivos constituem o segundo pilar do plano de actividades. Sem os meios considerados minimamente necessários é impossível, à partida, atingir os objectivos. O terceiro pilar, o do desenvolvimento das acções, será monitorizado e acompanhado, no sentido de avaliar e de corrigir a sua implementação. E é nesta fase que devem surgir planos específicos para ultrapassar pormenores do desempenho, mas que se revelam decisivos para o cumprimento dos objectivos finais do plano de actividades. Por fim, o plano de actividades contempla a avaliação final, na base dos parâmetros previamente escolhidos e que digam respeito à actividade desenvolvida.
- Todas as etapas deste processo, os planos de actividades e os resultados das avaliações serão reduzidas a escrito de uma maneira simples e objectiva, renunciando-se à sua burocratização. O processo tem de ser visto como um compromisso entre quem dirige e avalia e de quem executa e é avaliado. Como se trata de um compromisso, o processo exige um diálogo franco e aberto e a plena aceitação por ambas as partes, exigência esta que é indispensável para garantir a credibilidade e a fiabilidade da avaliação.
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Cultura institucional e empresarialEnumerados os principais princípios que devem nortear o processo de avaliação profissional, e não abordando outros por manifesta impossibilidade de sobredimensionar este texto, impõe-se uma advertência ao nível das atitudes e dos comportamentos de quem trabalha numa instituição pública ou privada. Trata-se do ambiente cultural orientado para o rigor e para a eficiência, ambiente cultural este que se vai desenvolvendo à medida que progride o enraizamento das boas práticas da gestão de pessoal, de que os diferentes planos de actividades e os processos de avaliação são peças importantes.
Outra advertência importante reflecte-se na necessidade flexibilizar o processo de avaliação, adaptando-o constantemente à necessidade de o utilizar no sentido de valorizar o desempenho, de recuperar os pontos negativos e de motivar quem trabalha, e recusando liminarmente modelos rígidos, modelos autoritários e modelos permissivos.
Nenhum modelo poderá ser considerado totalmente adquirido e definitivo. Para ser válido e útil, ele tem de ser aperfeiçoado ao longo do tempo, após o cruzamento das experiências anteriores e da discussão dos problemas surgidos, discussão essa a desenvolver-se na estrutura organizacional, a vertical e a horizontal. Ninguém pode considerar-se diminuído por ter errado, e isto deve aplicar-se ao avaliado e ao avaliador. O importante é reconhecer-se o erro e encontrar uma solução para o ultrapassar.
Acima de tudo tem de imperar o bom senso e evitar as decisões precipitadas que desacreditem os fundamentos de um processo de avaliação sério, construtivo, dinâmico e maleável, e de reconhecida utilidade para quem pretenda trabalhar com método, rigor e entusiasmo. Um processo de avaliação atinge o seu “ponto de rebuçado”, quando todos, avaliadores e avaliados, nele se reconhecerem, depois de, na prática, o terem interiorizado e assimilado.

Faltou sensibilidade à ministraQuem se der ao trabalho de examinar com atenção o encavalitado questionário que o Ministério da Educação pretendeu implementar por decreto, evidenciando uma obsessão centralizadora e pouco clarividente, e não deixando margem de manobra para que, verticalmente, se envolvessem todas as estruturas intermédias na discussão criativa do respectivo processo, irá reparar que não obedece aos princípios aqui enunciados. E a ministra da Educação veio de uma escola superior onde existem especialistas consagrados nesta matéria. Bastava ouvi-los e pedir-lhes a colaboração.
O questionário tem a mesma estrutura do check list que os pilotos utilizam antes de levantar voo. E os professores, que se saiba, não são máquinas nem têm vocação para voar.
A intenção subjacente é repressiva e não contempla nenhum modelo de correcção e de recuperação dos erros e defeitos evidenciados pelo avaliado, nem também contempla o acompanhamento construtivo, por parte do avaliador, que aparece aqui, apenas porque pertence a um escalão superior, o de professor titular, e que não se encontra comprometido com os resultados finais dos avaliados que lhe calharam na rifa. Este processo tortuoso tem todos os ingredientes para se prestar a favoritismos de toda a ordem e ao nepotismo silencioso daqueles que detêm poder e influência.
Mas se o Ministério, ao desvirtuar a nobre essência da avaliação dos professores, avaliação esta que é urgente implementar para que a Educação ultrapasse as suas entorses, provocou uma onda de justos protestos, os sindicatos, por outro lado, com alguma arrogância e arrivismo, obrigaram a deslocar o problema para o plano político, descentrando-o do patamar técnico onde ele deve situar-se, ao mesmo tempo que “proletarizaram” uma classe que, acima de tudo, necessita do reconhecimento público da sua importante e estratégica função, a de educar as novas gerações, com exigência e rigor.
Ninguém ignora que há bons e maus professores. Também é consensual que os maus resultados dos nossos alunos, em relação ao espaço político e económico em que nos inserimos, resultam também da má preparação de muitos professores. Também sabemos o que significam as promoções automáticas num exército onde todos os soldados têm garantido o generalato. Também não escapou à atenção dos cidadãos mais interessados a partidarização e os consequentes favoritismos que o processo de eleição dos corpos directivos das escolas tem fomentado.
Não se sabe ainda qual o desfecho desta luta, que incomodou a sociedade portuguesa. O que já se sabe, é que, mais uma vez, se perdeu uma oportunidade para valorizar o nosso sistema de ensino, valorização que é urgente e imperiosa se não quisermos afastarmo-nos mais dos nossos parceiros europeus. E não nos admiremos se, amanhã, os alunos também começarem a recusar a sua avaliação.

Nota: Quando um qualquer procedimento, neste caso um procedimento administrativo, relativo ao processo de avaliação, se torna obsessivo, na sua tentativa de impor um modelo totalitário, de pensamento único, ultrapassa-se a fronteira do tolerável e do bom senso.
Foi o que se passou num hospital público de Lisboa, onde o processo de avaliação já está a ser aplicado ao pessoal administrativo (já adivinho o deflagrar da próxima guerra, quando a avaliação se alargar aos profissionais de saúde).
Um diligente administrador hospitalar resolveu querer aplicar ao capelão a respectiva grelha de avaliação, já que este prestava um serviço remunerado pelo Estado. Indignou-se o padre com a afronta, que, de tal maneira irado, não a escondeu do conhecimento de terceiros e não se sabe se, até, não fez estremecer de medo o próprio Deus.
Também ainda não se sabe se o dito administrador, perante a impossibilidade de poder presenciar certos actos do múnus sacerdotal, para os poder avaliar, usufrui de alguma prerrogativa especial de acesso a uma qualquer porta celestial, onde do próprio Deus pudesse vir a recolher o testemunho directo sobre o desempenho profissional do capelão, a saber: se ele confessava os crentes bem ou mal, se as penitências eram as mais acertadas, de acordo com a doutrina, e, também, se as extremas-unções tinham atingido os objectivos pretendidos, o da remissão dos pecados do moribundo.
Este é um exemplo de como a cegueira, que não a visual, pode, de repente, transformar uma boa ideia numa má prática, transformando assim a realidade numa aberrante caricatura.
Alexandre de Castro

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Notas do meu rodapé: A original revolução do Facebook que derrubou um ditador

Ralf Dahrendorf, um sociólogo alemão, falecido em 2009, e que foi director da London School Economics, afirmou premonitoriamente que as próximas revoluções não seriam feitas nem pelas classes médias, nem pelos operários, nem pelos partidos clássicos, mesmo os de orientação marxista, mas sim pelos jovens deserdados. Ralf Dahrendorf referia-se não só aos jovens das segunda e terceira gerações dos imigrantes europeus, que as políticas de assimilação ou de integração não conseguiriam socializar, mas também aos jovens dos países em desenvolvimento. Uns e outros fariam um novo tipo de revolução, baseada na extrema violência (o que não aconteceu no Egipto nem na Tunísia), por vezes gratuita e errática, sem qualquer carga ideológica e sem o mínimo de capacidade organizativa, o que os tornariam presas fáceis das forças repressivas do sistema e da demagogia falaciosa dos políticos. Estas ideias (citadas de memória) foram expressas por este sociólogo no rescaldo das primeiras revoltas dos jovens, de ascendência magrebina, dos subúrbios de Paris. Os jovens tunisinos e egípcios deram-lhe razão, em relação à primeira parte do enunciado. Falta saber, se a segunda parte também se concretizará.
Mas o que Ralf Dahrendorf não poderia prever (nem ninguém) era o aparecimento das novas tecnologias de informação na base da mobilização das massas populares, o que consagra uma outra revolução, dentro da revolução. Os analistas já lhe chamam a revolução do Facebook, já que foi através desta ferramenta informática que, no Egipto, três jovens líderes conseguiram com êxito pôr em movimento todo um povo. Nenhum general tem coragem de dar ordem de fogo sobre uma multidão de milhares e milhares de pessoas, e mesmo que avançasse com essa ordem, arriscava-se a não ser obedecido pelos seus soldados. O regime ditatorial ficou paralisado perante a velocidade da mobilização, facilitada pelo Facebook, e já não teve tempo de a estancar no seu início, mesmo que provocasse meia dúzia de mortes inglórias, que nos dias seguintes seriam esquecidas pela comunicação social.
O que se passou na praça Tahrir representa o início de um novo processo de agitação política, que os políticos, a partir de agora, irão temer e os sociólogos irão estudar. Acima de tudo, os políticos vão pretender que rapidamente seja encontrado um antídoto ou um potente escudo para desmontar este tipo de revolta, que se revela extremamente letal para as ditaduras.
É certo que a revolta do Egipto não nasceu por geração espontânea, pois a mobilização das pessoas, através da internet e das mensagens por telemóvel, foi testada anteriormente, desde 2008, para manifestações sectoriais, centradas em objectivos específicos e pontuais, tais como, por exemplo, o protesto contra a prisão de activistas e o protesto contra a prática da tortura. Faltava testar o processo num outro patamar, com um objectivo mais ambicioso, quando estivessem reunidas as condições necessárias para fazer uma grande mobilização geral que fosse ao encontro do profundo descontentamento das pessoas contra o regime.
Os jovens, todos com menos de trinta anos, Wael Ghonim, o executivo da Google, Bassem Samir, o presidente do CyberACT e da Egyptian Democratic Academy, e Raoof, o responsável de media da Global Voices e da Egyptian Initiative for Personal Rights, duas das organizações que lideraram a revolta, resolveram avançar decididamente, logo que se aperceberam da vulnerabilidade das ditaduras árabes, que o exemplo da Tunísia evidenciou. O êxito foi retumbante, o que vai catapultar a revolta do Egipto para os anais da História Contemporânea, pelo que ela teve de original e inovador, ao ponto de ter apanhado de surpresa e ultrapassado os clássicos partidos de oposição ao regime de Mubarak.
Resta agora saber, e isso será o objecto de um outro texto, se, na fase de consolidação da revolta, que será longa, difícil e perigosa, o facebook não terá de ceder o lugar aos partidos clássicos e se a tecnologia poderá prescindir das ideologias. Bassim Samir já pensa em organizar um partido político. Segundo o jornal PÚBLICO, este partido chamar-se-á Movimento Liberal 25 de Janeiro e pretende reunir todos os que acreditam na liberdade e iniciativa individuais. E, para justificar esta base programática, que eu considero minimalista, o activista afirmou: "A revolução da praça Tahrir mostrou como é determinante a vontade de cada um. Não foram necessários líderes nem organizações, para que as pessoas tivessem decidido ir para a praça. É nisso que acredito, e acho que a maioria dos jovens também. Ninguém simpatiza com os partidos religiosos. Se as pessoas querem fazer orações, vão à mesquita. Mas não queremos que ninguém nos diga o que devemos fazer na nossa vida. E também não aceitamos que nos peçam para sofrer nesta vida, porque seremos felizes na outra, depois da morte. Nós queremos aproveitar a vida agora."

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Portugal na década de 1960

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A Lisboa, que aparece neste filme, é a Lisboa que eu comecei a habitar, há mais de quatro décadas, e da qual nunca mais me separei. Confesso que aprendi a gostar muito dela, embora por vezes lhe rogasse pragas (e ainda rogo) do tamanho de um terramoto. Também, nem sempre lhe fui fiel. Gostei de outras cidades. Mas Lisboa tem um travo especial, um perfume que nos enfeitiça os olhos. Talvez seja o espelho prateado do grande estuário, que lhe reflecte uma luminosidade única.
Na altura, o Rossio era o verdadeiro centro da urbe, o sítio da peregrinação diária ao café Martinho. Era o café da malta nova. Era o café, onde se ia, quando queríamos encontrar um amigo, e que acabávamos sempre por o descobrir por ali. Nas noites de Verão, o Rossio parecia uma romaria, tanta era a gente que ali se cruzava, a saborear a brisa que chegava do rio, a beber uma cerveja no café Gelo ou um verde branco na Tendinha. E as miúdas, santo deus, que começaram a ter ordem de soltura até às dez da noite, a exibirem o princípio de uma liberdade, que nunca mais chegava, e que se vestiam como se fossem para um baile. Sempre em grupo - pois uma mulher sozinha, por ali, àquela hora da noite, não era consentido pela rigidez da moral burguesa da época - passeavam lentamente pelos largos passeios, de braço dado, cochichavam e riam, miravam-se nas montras para verem se o penteado, curto e abaulado, característico dos anos sessenta, continuava armado.
Era a Lisboa da minha memória, da qual já me despedi, e que, agora, com alguma emoção, revi neste filme, que me chegou às mãos, através do meu amigo João Fráguas. A Lisboa de hoje é outra, mais cosmopolita, menos provinciana, e, talvez, menos solidária.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Coisas que eu escrevi: A vida desalmada de Jorge Burriços


Jorge Burriços, olhos vidrados pelo efeito dos dois bagaços bebidos, logo de manhã, no café da praça, aguarda pacientemente o seu lugar na longa fila de espera para marcar uma consulta encomendada no centro de saúde de Sacavém. Ocupa o meio de fila, o que indicia ter chegado por volta das seis horas da manhã, e aguarda pacientemente que um diligente funcionário franqueie a porta às mais de oitenta pessoas que ordenadamente marcam a sua posição de chegada através de uma senha de presença.
Mas, Jorge Burriços, mal alcança a almejada senha, esgueira-se pela porta e vai direitinho entregá-la a casa do cliente que lhe encomendou aquele serviço. Cobra cinco euros pelo incómodo da chuva, do vento, do frio e do tempo de espera. Desta vez até tirou duas senhas, recorrendo a um hábil estratagema, e este serviço vai render-lhe 10 euros para gastar no festival de álcool a que se entrega diariamente. “Apanho duas bebedeiras por dia”, afirmou convicto, assumindo a sua relação viciada com o álcool, embora por vezes o dissimule num pacote de leite.
Foi por causa do álcool que desfez o seu casamento, engendrado pela tia que o criou, e “que o queria ver arrumado e com juízo antes de morrer”. No meio de mais uma embriaguez que lhe atiçou a coragem, disse à mulher, num rompante, para se ir embora com o filho e a filha, pois a vida para ele “resumia-se ao álcool e às putas”. Deu-lhe dinheiro suficiente para comprar um andar, acordou uma pensão, e, Jorge Burrico, ficou com a vida livre para se entregar à boémia, na qual esbanjou perdulariamente a choruda herança de seu pai, que esteve cativa nas mãos da sua tia-tutora até à sua maioridade. Sucessivamente, à medida que o vício progredia e requeria mais requinte, aumentava a voragem da delapidação dos bens herdados. E nessa vertigem, desfez-se do estabelecimento do pai, onde se teceu parte da fortuna, e de cinco andares de habitação. “Só não vendo um andar”, afirma, lançando um desafio à curiosidade do interlocutor, através daquele olhar vesgo. E responde, mal reprimindo o gozo de lhe adivinharem uma réstia de submissão aos princípios da boa gestão de bens patrimoniais: “Só não vendo o andar das minhas pernas”.
E é entre mais dois golos de bagaço, “para aquecer, que a manhã está fria”, que confessa o estratagema do negócio das senhas de marcação de consultas médicas no centro de saúde, negócio este que não iguala em subtileza a venda da sua carta de condução e do seu bilhete de identidade a um cigano, que queria ser cidadão encartado, ou a plena assumpção do papel de testemunha perante o Registo Civil de um casamento de conveniência, para efeitos de aquisição de nacionalidade, entre um indiano e uma portuguesa.
E se lhe apontam o comportamento incorrecto dos seus estratagemas, incluindo o da marcação de consultas no centro de saúde ou a venda aos restaurantes de embalagens de leite e de carne, à beira da expiração do respectivo prazo de validade, recolhidas nos contentores de um grande hipermercado de Sacavém, responde serenamente que ao longo da sua vida também já teve muitos actos de generosidade para com o seu semelhante. E no meio dos vapores de mais outro bagaço, este emborcado num travo, recorda a oferta de 100 contos, há mais de 20 anos, a uma prostituta do Intendente, que lhe confessara no meio do fogo dos amores comprados, “ter-se metido na vida” para amealhar algum dinheiro “para uma operação aos olhos do filho, em Espanha”.
E quando Jorge Burriços se atrevia a descrever a saga de uma louca paixão por uma linda cigana, com quem fugiu, e a consequente perseguição, com intuitos vingativos, que lhe foi movida pelos familiares desonrados, que não admitiam casamentos fora do clã, a voz da dona do café avisou: “Jorge, amanhã vais marcar-me uma consulta ao centro”.
Com o negócio selado para o dia seguinte, Jorge Burriços, atravessou a praça com destino ao mercado, onde os seus amigos ciganos lhe garantem “alguns biscates”.
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Este texto, publicado no jornal A Capital, em 25 de Janeiro de 2003, constituiu um nota à margem de uma reportagem no centro de saúde de Sacavém, onde procurei retratar, tal como fiz nos centros de saúde de Sintra e de Paço d'Arcos, o emergente problema da falta de médicos de família nas zonas limítrofes de Lisboa, o que obrigava os utentes a marcar posição muito cedo para se inscreverem na consulta do médico de turno. Testemunhei o sofrimento de idosos doentes à espera da sua vez, numa fila interminável, sofrendo resignadamente na pele as inclemências da invernia, que era o preço que tinham de pagar para usufruirem de um direito que a Constituição da República lhes outorgou. Fui o primeiro jornalista a levantar o assunto na comunicação social, mas as minhas reportagens não comoveram os poderes instituídos. Hoje, em 2011, a falta de médicos de família constitui a maior entorse do funcionamento do Serviço Nacional de Saúde.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Outra vez, João Abel Manta...



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Neste tríptico, João Abel Manta capta o lado mais misterioso de Salazar: a sua solidão. A solidão da sua vida de asceta, da qual não se lhe conheciam vícios, e a sua solidão no exercício do poder, o que lhe era politicamente vantajoso. E o ditador usou e abusou da exposição pública dessa solidão, para construir à sua volta o mito do salvador a Pátria. Para o caracterizar melhor, Abel Manta enquadrou-o num palácio de estilo neoclássico, realçando assim o seu enraizado conservadorismo.
Vestindo sempre Salazar de negro, para realçar o hábito que lhe ficou dos tempos do seminário, Abel Manta caricaturou-lhe a vocação solitária para o poder absoluto, o que norteou toda a sua vida política, e, num rasgo genial do seu traço, escreveu, numa sintese perfeita, a história do ditador, fazendo suceder ao Salazar mais novo e ao Salazar mais velho, o vazio da terceira janela, simbolicamente eficaz na sua leitura imedita, e com que pretendeu afirmar que os regimes ditatoriais raramente sobrevivem à morte dos seus fundadores.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Coisas que eu escrevi: Homenagem a João Abel Manta


João Abel Manta – um percurso de arte e de intervenção
João Abel Manta nasceu em Lisboa em 29 de Janeiro de 1928. Filho de pintores – Abel Manta e Maria Clementina Carneiro de Moura – a sua infância e adolescência foram indelevelmente marcadas pelas influências culturais, artísticas e políticas de seus pais. Na juventude, J. Abel Manta teve a oportunidade, rara para um jovem daquela época, de viajar pela Europa culta, visitando a Espanha, França, Itália e os Países-Baixos, onde, sob a orientação dos pais, conheceu as grandes obras de pintura e de escultura da Antiguidade Clássica e da Renascença, e que vieram a moldar a sua formação.
Entretanto, concluiu, em 1951, o seu curso de Arquitectura, na Escola de Belas Artes de Lisboa.
Mas foi no desenho que J. Abel Manta se destacou, aliando a sua formação plástica, à sua cultura e à sua intervenção política. Já nos anos quarenta, ficou célebre o seu desenho caricatural de um grupo de intelectuais, ao qual pertenciam Lopes Graça, Manuel Mendes e o seu próprio pai, que ele por vezes acompanhava, e que se reuniam em tertúlia no Café Martinho e na Brasileira do Chiado. O grupo é retratado como uma banda de música, sob a batuta de Lopes Graça. É também nessas tertúlias que J. Abel Manta, com a sua potencial irreverência, desperta para a política e começa a empenhar-se em acções contra a ditadura do Estado Novo, acabando também por sofrer a repressão impiedosa da PIDE, que o manteve preso, durante alguns meses, em 1958.
As influências artísticas são múltiplas, mas J. Abel Manta construiu o seu próprio estilo, quer no desenho, quer na ilustração e nos célebres cartoons.
Ganhou, em 1961, o Prémio de Desenho na II Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian, e, em 1965, na cidade de Leipzig, conquistou a Medalha de Prata na Exposição Internacional de Artes Gráficas. Para além destes certames, esteve presente na II Bienal de São Paulo, nas mostras internacionais Di Bianco e Nero, em Lugano, assim como nas exposições internacionais de Tóquio e Medellin – Colômbia. Expôs também individualmente em Londres, no I.C.A.
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OS TRÊS PILARES DO REGIME
A obra pictórica de João Abel Manta agarra toda a tragédia de um país que viveu uma feroz e castradora ditadura e que acabou por desembocar numa madrugada redentora, para reinventar a sua identidade. Atento, culto, perspicaz, J. Abel Manta faz de cada traço das suas caricaturas e dos seus desenhos uma metáfora das contradições de uma sociedade amarrada aos seus fantasmas, aos seus medos e às suas glórias passadas. Daí a sua opção pelo risco negro, pela deformação das formas anatómicas, a carregarem um cenário de pesadelo e de angústia, inserido em atmosferas lúgubres. E é desse cenário fantasmagórico que as personagens retratadas ganham vida e significado, conduzindo o observador ao pensamento crítico pretendido.
As caricaturas magistrais de Salazar, sempre de casaca preta e de nariz pronunciadamente adunco, como se tratasse de uma ave nocturna agoirenta, apresentam-no tal como ele era na realidade – um misterioso solitário, que governava sozinho, bajulado pelos poderes que o apoiavam, mas que ele próprio displicentemente desprezava. Veja-se como J. Abel Manta coloca Salazar a virar as costas aos acólitos dos três pilares do regime – as Forças Armadas, o clero, e os banqueiros – nos três cartoons que, no seu conjunto, constituem um tríptico notável, onde também sobressai, como J. Abel Manta queria dizer, a ordenada subserviência dessas teatrais personagens, ali bem enfileiradas e disciplinadas, em ordeira e solene sessão de vassalagem.
Numa penada, foi feita, para uma leitura imediata, uma caracterização perfeita do Estado Novo, onde também se manifesta, em toda a sua pujança, o subtil e corrosivo humor de J. Abel Manta.
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João Abel Manta e a revolução
João Abel Manta foi um militante anti-fascista e, como todos os democratas, recebeu com alegria e de braços abertos a revolução de Abril. No entanto, esse entusiasmo não obnubilou a sua aguda percepção da nova realidade em movimento, nem a sua perspicaz capacidade crítica, perante as contradições inerentes ao processo revolucionário. Manteve-se fiel a tudo o que se exige de um cartoonista, libertando numa gargalhada o ridículo de tudo aquilo que, sendo verdade, também era caricato. Não cedeu a tentações laudatórias, nem abdicou de fazer valer a inteligência do seu traço.O cartoon em que os notáveis do marxismo-leninismo internacional, em magote, olham com um ar muito sério para um ecrã, onde figura solitariamente o mapa de Portugal, exprime bem a subtileza do seu humor. Salta à vista a perplexidade daqueles marxistas-leninistas que não sabem o que fazer deste pequeno país que fez uma revolução. Sabendo-se que a União Soviética não estaria interessada em fazer de Portugal uma nova Cuba, a mensagem ganha a sua verdadeira actualidade satírica. O mesmo se poderá dizer do cartoon dedicado às campanhas de dinamização cultural do MFA, em que um povo analfabeto recebe de barrete na mão a elite cultural europeia de todo o século XX. A picardia está lá. A João Abel Manta não escapou a ingenuidade romântica da iniciativa, e caricaturou-a com mestria.
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Nota: Estes textos foram escritos, a pedido da minha amiga, a médica Drª Pilar Vicente, para figurarem nos painéis com as caricaturas da autoria de João Abel Manta, numa exposição em homenagem a este grande artista plástico, realizada no Hospital de S. José, em Lisboa, e integrada nas comemorações do 25 de Abril, em 2009.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Coisas que eu escrevi: Reencontro...


Reencontro...

A emoção carregava-me os olhos e tolhia-me os sentidos. Um turbilhão de imagens a rasgar a dureza da memória de meio século de distância. Ali estava o velho portão do Liceu de Lamego, aquele mesmo portão que precisamente há cinquenta anos franqueei pela primeira vez, de olhos esbugalhados pelo espanto e com aqueles gestos imberbes e tímidos do alvorecer da adolescência. Fiz as contas. Eram mesmo cinquenta, os anos que mediavam entre 1954 e 2004! Meio século de ausência. Meio século de memórias repassadas, algumas diluídas pela ingrata correria do tempo, a transfigurarem a própria realidade vivida, outras, a reavivarem-se numa nitidez precisa, de cores, formas e ambiências, como se esse tempo tivesse ficado imóvel até este tardio reencontro.
Ao lado, também os velhos companheiros desse tempo, que a memória reconstituiu e identificou nos seus traços fundamentais, e que ali estavam a reconciliar-se com o passado longínquo da juventude.
E agora estou aqui, neste espaço íntimo da minha escrita dorida, a celebrar os 150 anos deste Liceu – o meu Liceu - dos anos de encantamento, dos sonhos e das ilusões, das amizades que se ergueram e se firmaram no deslumbramento da juventude - mas também a recordar aqueles que, entre professores e companheiros, definitivamente já partiram.

Alexandre de Castro

Outubro de 2005
Texto incluído numa brochura dos Antigos Alunos do Liceu de Lamego

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Resposta a um anónimo sobre o jogo do pau e as suas variantes...

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A propósito da minha referência ao meu bisavô materno e à sua perícia no jogo do pau, no texto que acompanhou o vídeo dos pauliteiros de Miranda do Douro, um anónimo deixou um comentário, em que me perguntava se o bisneto teria herdado o “domínio dessa técnica”.
Eis a minha resposta, que resolvi colocar no frontispício deste blogue:

Desconheço por completo a técnica do jogo do pau, o que lamento, pois, por vezes, apetecia-me correr à paulada alguma gente importante, que por aí anda a pavonear-se, e que por decoro me abstenho de identificar. Sei que a técnica é muito eficaz, mas exige muito treino e destreza, além da força de braços e de pernas. Um bom jogador do pau consegue manter à distância um grupo de cinco ou seis meliantes, que o queiram atacar. Tanto quanto me apercebi, o segredo consiste em saber combinar a manobra do pau com o constante movimento das pernas, mudando sempre de lugar, a fim de iludir e confundir o adversário. Todos esses movimentos combinados, a exibirem uma grande leveza, conferem ao lutador o aspecto de um bailarino a dançar sobre um palco. O adversário nunca consegue perceber onde a paulada vai cair, se na cabeça, se nos costados ou se vai a rasar as pernas, último golpe este que derruba irremediavelmente o adversário. A velocidade do pau, caia onde cair, faz mossa. Cabeças rachadas e a sangrar e costelas partidas, quando se trata de um travar de razões, são as mazelas mais frequentes da refrega.
Mas, se não tive a oportunidade de aprender a jogar o pau, aprendi em miúdo a manejar o paulito, numa dança de pauliteiros, realizada no palco do salão dos Bombeiros de Carrazeda de Ansiães. Facultaram-me essa experiência precoce, de que tenho uma recordação difusa. Mas o desempenho deveria ter sido excelente, pois, posteriormente, também fui seleccionado para dançar o malhão e representar em cena a figura do rei D. Dinis, numa pequena peça de teatro infantil, versando o estafado milagre das rosas, e em que pela primeira vez senti os eflúvios da paixão a trepar pelo corpo acima, já que me apaixonara pela Teresinha, a miúda que representava a figura da rainha Santa Isabel.
E a minha história de paus, paulitos e pauliteiros acaba aqui.
Na verdade não herdei o pau do meu bisavô, que levantou um grande alvoroço numa feira de gado, em Carrazeda de Ansiães, nem sequer o gene da sua provecta virilidade, reflectida, segundo dizem, na sua capacidade de procriar, sendo já septuagenário. Condenado à abstinência por uma precoce viuvez, e não havendo na aldeia mulher disponível, que lhe aliviasse os humores, começou a arrastar a asa à mulher de Campelos, que, diariamente, fazia o transporte do correio da Carrapatosa para o apeadeiro da estação da Alegria, onde se chegava por um caminho de cabras, sobre uma encosta íngreme e agreste, e que o uso, com o tempo, fez pedonal para os humanos. E alguém viu, naquele caminho, o meu bisavô, que já andava curvado e agarrado a um cajado, a fornicar a mulher do correio, debaixo da ampla copa de um sobreiro. Saltaram-lhe as filhas em cima, incluindo a minha avó materna, a condenar-lhe o desvario e a chamarem-lhe velho depravado, acusações que, parece, o deixaram imperturbável.
Não sei se, na sua numerosa prole, entre filhos, netos e bisnetos, alguém lhe herdou o jeito e a força do pau, com que varava as feiras e o outro com que emprenhava as mulheres. Ouvi falar de um seu filho, meu tio-avô, que lhe herdou os calores do sangue, e que não desmerecia dos atributos do pai. Ainda rapaz, a conduzir por um caminho esconso um carro de bois, cruzou-se com a rapariga dos seus encantos, que já andava a catrapiscar. E não esteve com mais rodeios. Possante como o pai, agarrou na rapariga, e, à força, deitou-a sobre o feno do carro de bois e varou-lhe os três vinténs com que ela viera ao mundo.
Atordoado com o que acabara de fazer, e temendo a vingança da honra ofendida da família da rapariga, que lhe punha a própria vida em risco, deixou os bois e correu para casa, onde mudou de roupa e amanhou a trouxa, que iria também guardar-lhe o pecúlio amealhado, e ala que se faz tarde, estugou o passo, encosta abaixo, até à estação de Alegria, onde apanhou o comboio para o Porto. Daí dera o salto até Lisboa, onde embarcou num paquete para o Brasil. Não deu mais sinais de vida. Muito vagamente, chegavam notícias esfarrapadas de um ou outro emigrado regressado, que o davam como vivo no Rio de Janeiro.
Conheci-o uns quarenta anos mais tarde, após a sua precipitada fuga, quando resolveu quebrar o silêncio e terminar o degredo. Chegado a Lisboa, visitou, na Amadora, a minha mãe, que era a sua sobrinha preferida, e apresentou a sua família, que crescera no Brasil.
Julgo que na Carrapatosa a ferida já estava sarada, a avaliar pelos foguetes a estalejar, com que saudaram a sua chegada.