segunda-feira, 27 de julho de 2015

A chegada._ por Sónia M


A chegada.

O primeiro dia na "casa nova", ficou marcado pelo inicio da espera, que todos os dias seguintes, iria fazer à noite.

Era um edifício antigo, com uma fachada surpreendente, que o fazia destacar de todos os outros, que preenchiam a rua. Umas imagens de pedra, com olhar triste, pareciam esgueirar-se pelas paredes, como guardiãs, da pouca grandeza que ainda lhe restava. No interior a degradação era bem visível. As escadas de madeira pareciam ser o banquete de milhares de térmitas. Subi-as, carregando os poucos pertences que me acompanhavam sempre - uma mala de roupa e uma caixa de papelão, onde transportava os únicos tesouros que possuía. Cada degrau que pisava, parecia gritar-me a idade que tinha. Alguns ameaçavam ceder ao peso da minha passagem. Chegei a imaginar um buraco negro a aparecer por baixo dos meus pés, fazendo-me cair num tempo, longe daquele tempo presente, com cheiro a velho, onde talvez a luz elétrica fosse ainda o sonho de algum louco. O Tempo. Subir aquelas escadas, fazia com que o Tempo perdesse o sentido. Era como se caminhasse na vida em círculos. Condenada a fazer o mesmo caminho, uma e outra vez, até reparar em todas as flores, árvores e bancos de jardim. Todas as casas, todas as nuvens, luas, sóis e estrelas, que se me escaparam na vez anterior. Enquanto isso, o caminho envelhecia triste, à espera da minha chegada. Mas, mesmo envelhecido, quando finalmente nele reparava, era novo.

Abri a porta e entrei em casa. Pousei a mala e a caixa de papelão, endireitei o corpo e olhei à minha volta. Uma chuva quase demente - ora finas gotas de espanto, ora grossas e fortes - açoitou o edifício. Numa parede, duas janelas sem cortinas, faziam lembrar dois olhos esbugalhados, que me olhavam perplexos. De repente os dois olhos começaram a chorar, para dentro e para fora. Tal como chora uma mãe, quando entra em casa, o filho há muito perdido.

Ouvi bater à porta. Quando a abri, dei de caras com um sorriso, daqueles que nos fazem sorrir também. Era um homem, mas o primeiro que lhe notei, não foi o sorriso de menino, nem o cabelo grisalho. O primeiro que lhe notei e senti, foi a ternura. Caramba! O que via não era um homem com ternura. Via a ternura com um homem lá dentro. Só via o homem, porque a ternura é transparente.

- Boa tarde! Sou o zelador das almas que habitam este edifício, vim informá-la que a partir deste momento, estarei ao seu dispor, para zelar também pela sua.

- Boa tarde! Como alma perdida que sou, não sei dizer-lhe o quanto me apraz ouvir isso.
Há muitos anos que o espero.

As gargalhadas que se seguiram, não escaparam ao eco no corredor, que as repetiu até onde o ouvido já não chegava. Convidei-o a entrar, com o mesmo entusiasmo com que se pede a um velho amigo que entre, depois de uma longa ausência. A verdade é que nem o seu nome sabia, mas que importa um nome, quando a alma parece reconhecer um amigo de longa data.
Chamava-se Alexandre, era o zelador do prédio. Mas pela forma como falava e me acolhia, bem que podia ser um zelador de almas.

- Amanhã virei arranjar a choradeira da janela. Agora posso ajudá-la a trazer a bagagem para cima.
- Agradeço a amabilidade, mas já subi toda a bagagem.
- Uma caixa e uma mala!
- Achei que não precisava de mais nada.
- Entendo...Talvez me queira acompanhar, gostaria de lhe mostrar um lugar. Não demora muito, depois deixo-a, para que se instale.
Concordei, sem perguntar onde ia. Saímos de casa, atravessámos o corredor e subimos dois andares de escadas, em silêncio. Fomos dar ao telhado, onde um jardim o cobria como se de um manto se tratasse. Era lindo, como uma pintura! Ao fundo avistava-se o porto de Antuérpia, olhando para o meu lado direito, podia ver a torre da famosa Catedral e nas traseiras do jardim, um emaranhado de prédios com pequenas chaminés largando fumo, escondia as ruas cinzentas. Ali em cima, senti que pisava o último lugar verde do mundo, onde a calma, a serenidade, e até o canto dos pássaros se conseguia respirar. Olhei para o Alexandre.
- Porque me trouxe aqui?
- Achei que precisava. Já não chove, em breve o sol vai-se pôr, gostava que assistisse comigo ao pôr do sol.
- Não me parece que hoje se veja grande coisa, Alexandre. O céu está de um cinza tão escuro. Penso que passará do cinza ao negro da noite, sem que mais nada se consiga ver.
- Ver não é assim tão importante. Quando tudo o que se vê é cinza, é preciso aprender a ouvir a luz. Por vezes, quando se deita, só lhe ouvimos o cansaço, mas, quando acorda, mesmo por detrás de uma cortina cinzenta, continua a dar vida às cores...
Amanhã...amanhã encontramo-nos aqui, à mesma hora, pode ser?

Sónia M

Antuérpia, 20 de Julho de 2015