sábado, 17 de janeiro de 2015

Anotação do Tempo: Dissertação sobre as vírgulas…


Dissertação sobre as vírgulas…

À minha amiga Maria João Correia, 
que se diverte imenso, quando eu
invento uma vírgula…

Não ligues
são apenas moscas
entre as palavras
como se fossem pestanas
a embelezar o olhar
de quem as lê.
São artifícios burlescos
para ilustrar os discursos dos políticos
às segundas feiras
quando inventam as mentiras
para entreter os jornais durante a semana
são as pausas do esquecimento
quando já não há mais nada para dizer
a não ser o que foi dito
ou, se quiseres, são os berros do Cristiano Ronaldo
quando os neurónios migram para os pés
e ele dá pontapés na gramática.
A vírgula é uma síntese do nada
e o limite do zero absoluto,
a bissetriz dos ângulos rugosos da memória,
o ponto morto do equador,
que o Gama levou para a Índia
e que por lá ficou a apodrecer
no túmulo de um jesuíta.
Mas a vírgula é muito mais do que isto.
A vírgula é, na sua profunda essência e potência,
a caganita da mosca, que aterrou no poema…

Alexandre de Castro

Lisboa, Janeiro de 2015 

3 comentários:

Maria disse...

Obrigada, amigo Alexandre. Tenho viajado menos por estas bandas da internet. E somente hoje, encontrei aqui mais uma vírgula, tratei logo de a colocar entre o sapato e o tapete.

Beijinho e um grande bem haja.

Maria

http://mariaazenha.wordpress.com/ disse...

Adorável:)

Adorei.



Abraço amigo,


maria azenha

Alexandre de Castro disse...

Nada mais reconfortante do que ser elogiado por uma grande "poeta".
Obrigado, Maria Azenha.
Abraço