quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Poesia… - por Sónia M


Poesia…
Numa manhã fria, como qualquer outra, encontrei o calor à porta de casa.
Estava vestido de branco, com um chapéu às cores, sentado no primeiro degrau da entrada. 
Mantinha a mão direita, com os dedos a apontar para uma folha branca, que segurava nos joelhos. Todos os pássaros da cidade sobrevoavam a minha rua em círculos, como se esperassem que alguém, de repente, lhes atirasse migalhas de pão.
A imagem era tão irreal, que cheguei a pensar que ainda dormia e me passeava pelo sonho.
Belisquei-me. Doeu! Pensei em voltar a entrar em casa, mas quando dei um passo para trás, senti frio. Então decidi aproximar-me. Desci, cautelosa, todos os degraus. 
À medida que me aproximava ficava mais quente, era como um bafo cálido que me envolvia todo o corpo.
Sem pensar, sentei-me ao seu lado. Foi então que vi que, pelos dedos que apontavam para a folha branca, desciam brincalhonas, letras, que se amontoavam no centro da folha, em grande algazarra.
Riam, saltavam por cima umas das outras, abraçavam-se, beijavam-se e eu, incrédula, voltei a beliscar-me.Voltou a doer! Esfreguei os olhos, mas continuava a vê-las e a ouvi-las!
Eram tão alegres e coloridas como o chapéu às cores.
Com muito cuidado, como se não quisesse perder nenhuma, recolheu com as mãos em concha todas as letras da folha e levou-as à boca. Começou a mastigá-las. As bochechas eram agora gordas e redondas e, sempre que os lábios se entreabriam, saltavam pequenos pedaços, como raspas de lápis de cor, que caíam no chão. Os pássaros apressavam-se a recolhê-los e imediatamente ficavam azuis, tão azuis como céu. Já não os via, mas sabia que eles estavam lá.
E ele mastigava...e mastigava, arredondava com os dentes cada letra, moldava-as e colava-as com a saliva umas às outras.  Depois, com dois dedos em forma de pinça, puxava pelo canto da boca, palavra a palavra e com elas encheu a folha branca. Aproximei a cabeça do seu ombro e comecei a ler o texto.
O que li, era tão bonito, que depressa me chegou ao coração.
Quis perguntar como se chamava e quando finalmente o fiz, a voz saiu-me rouca, quente, como um sussurro.
- Como te chamas?
E ele respondeu  - Poesia.
Naquele dia, acho que encontrei um poeta.

Sónia M

Nota: Sem a poesia não haveria mito. E o mito é o produto de uma realidade superada e que nunca é encontrada. É a Poesia que o inventa, incendiando as palavras. E Sonia M, que escreveu este inspirado texto, para ler ao seu filho de oito anos, inventou-se nas palavras, "fabricando" um mito. É Poesia... 

A "poeta" Sónia M colabora regularmente no Alpendre da Lua