segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Poema s/ Título – por Sónia M

GLÊNIO BIANCHETTI - Mãe e filho -
Acrílico sobre fundo sólido

Poema s/ Título

A minha mãe nunca me disse que do asfalto
cresciam garrotes a estrangular a vida.
E que as janelas para a rua, teriam grades
e cortinas pesadas, por onde o sol pouco passa.
Ainda me iludi, por instantes, com a maciez
do chão desta sala e com os fatos de casaco e gravata.
Mas esta manhã reparei que pisava penas;
a suavidade de umas penas, que em tempos já foram asas.
Ontem o meu filho perguntou-me
porque caem as folhas das árvores.
E eu deitei-me ao seu lado e inventei-lhe um conto,
daqueles que fazem o mundo bonito.
Cada vez que o olhava, podia ver-me, através dos seus olhos
de encanto. Lembrei-me da minha mãe, que tantas vezes
se deve ter visto nos meus, quando eu acreditava que o mundo
era feito à medida das suas histórias.
Sónia M

***«»***
Nota: Neste poema, apesar da melodia doce que escorre das palavras, exibe-se poeticamente, e numa gestão metafórica harmoniosa, o profundo conflito fractal entre o sonho (da criança) e a realidade (do adulto). Duas estruturas da vida de cada um de nós, fragmentadas e irregulares, que se conjugam, ao nível da percepção, em escalas diferentes. A mãe, que já foi criança, prolonga o mito, para que ele se perpetue geracionalmente, embora reconheça que pisou penas, "que em tempos foram asas", metáfora grandiosa, que marca definitivamente todo o alinhamento deste excelente poema.
AC

A "poeta" Sónia M colabora regularmente no Alpendre da Lua.