domingo, 31 de março de 2013

Carta de um General ao seu ministro...


Ex..º Sr. General Chefe do Gabinete de S. Ex.ª o Ministro da Defesa Nacional, 
Caro camarada:

Apresento a V. Ex.ª os meus cumprimentos.
Tomo a liberdade de me dirigir a V. Ex.ª para lhe solicitar que transmita a S. Ex.ª o Sr. Ministro a minha indignação relativamente à forma pouco respeitosa e mesmo insultuosa como se referiu às Forças Armadas, aos militares e às suas Associações representativas, no passado dia 1 de Fevereiro. De todos os governantes, o Ministro da tutela era o último que deveria proferir palavras dessa estirpe.
Sou Tenente-General Piloto-Aviador na situação de Reforma, cumpri 41 anos de serviço efectivo e possuo três medalhas de Serviços Distintos (uma delas com palma), duas medalhas de Mérito Militar (1.ª e 2.ª classe) e a medalha de ouro de Comportamento Exemplar. Servi o meu País o melhor que pude e soube, com lealdade e com vocação, sentimentos que S. Ex.ª não hesita em por levianamente em causa. Presentemente, faço parte com muito orgulho, do Conselho Deontológico da Associação de Oficiais das Forças Armadas.
Diz o Sr. Ministro que “a solução está em todos nós. Em cada um de nós”. Não é verdade! A solução está única e exclusivamente na substituição da classe política incompetente que nos tem governado (?) nos últimos 25 anos, e que nos tem levado, de vitória em vitória, até à derrota final! Os comuns cidadãos deste País, nomeadamente os militares, não têm qualquer responsabilidade neste descalabro. Como disse o Sr. Coronel Vasco Lourenço no seu livro, “os militares de Abril fizeram uma coisa muito bonita, mas os políticos encarregaram-se de a estragar…”
Diz também S. Ex.ª que as Forças Armadas estão a ser repensadas e reorganizadas. Ora, se existe algo que num País não pode ser repensado nem modificado quando dá jeito ou à mercê de conjunturas desfavoráveis, são as Forças Armadas, porque serão elas, as mesmas que a classe política vem sistematicamente vilipendiando e ultrajando, a única e última Instituição que defenderá o Estado da desintegração.
Fala o Sr. Ministro de algum descontentamento protagonizado por parte de alguns movimentos associativos. Se S. Ex.ª está convencido que o descontentamento de que fala se limita a “alguns movimentos associativos”, está a cometer um erro de análise muito sério e perigoso, e demonstra o desconhecimento completo do sentir dos homens e mulheres de que é o responsável político. Este descontentamento, que é geral, não tenha dúvida, tem vindo a ser gerado pela incompetência, sobranceria, despudor e, até, ilegalidade com que sucessivos governos têm vindo a tratar as Forças Armadas. É a reacção mais que natural de décadas de desconsiderações e de desprezo por quem (é importante relembrar isto) vos deu de mão beijada a possibilidade de governar este País democraticamente!
As Forças Armadas não querem fazer política! Não queiram os políticos, principalmente os mais responsáveis, “ensinar” aos militares o que é vocação, lealdade, verticalidade e sentido do dever. Mesmo que queiram, não podem fazê-lo, porque não possuem, nem a estatura nem o exemplo necessários para tal.
Quem tem vindo a tentar sistematicamente destruir a vocação e os pilares das Forças Armadas, como o Regulamento de Disciplina Militar, destroçado e adulterado pelo governo anterior? Quem elaborou as leis do Associativismo Militar, para depois não hesitar em ir contra o que lá se estabelece? Quem tem vindo a fazer o “impossível” para transformar os militares em meros funcionários do Estado? Apesar disso, tem alguma missão, qualquer que ela seja, ficado por cumprir? Fala S. Ex.ª de falta de vocação baseado em que factos? Não aceita S. Ex.ª o “delito de opinião”?
Não são seguramente os militares que estão no sítio errado!
Por tudo o que atrás deixei escrito, sinto-me profundamente ofendido pelas palavras do Sr. Ministro.
Com respeitosos cumprimentos de camaradagem

EDUARDO EUGÉNIO SILVESTRE DOS SANTOS
Tenente-General Piloto-Aviador (Ref.) 000229-B

P.S. – Informo V. Ex.ª que tenho a intenção de tornar público este texto

***«»***
Senhor General: Julgo que será melhor as Forças Armadas começarem a limpar as espingardas, pois o Estado já está a desintegrar-se, e, politicamente, eu não vislumbro qualquer solução redentora sustentável. Assaltem de baioneta calada os ministérios, que o povo sairá à rua, inundando as praças. Mas não tragam nenhum Pinochet. Coloquem um cravo vermelho na lapela e julguem os políticos dos partidos do arco da traição, que assinaram a capitulação.

sábado, 30 de março de 2013

A Justiça em Estado Puro - Séneca



A Justiça em Estado Puro 
Quero que me ensinem também o valor sagrado da justiça — da justiça que apenas tem em vista o bem dos outros, e para si mesma nada reclama senão o direito de ser posta em prática. A justiça nada tem a ver com a ambição ou a cobiça da fama, apenas pretende merecer aos seus próprios olhos. Acima de tudo, cada um de nós deve convencer-se de que temos de ser justos sem buscar recompensa. Mais ainda: cada um de nós deve convencer-se de que por esta inestimável virtude devemos estar prontos a arriscar a vida, abstendo-nos o mais possível de quaisquer considerações de comodidade pessoal. Não há que pensar qual virá a ser o prémio de um acto justo; o maior prémio está no facto de ele ser praticado. Mete também na tua ideia aquilo que há pouco te dizia: não interessa para nada saber quantas pessoas estão a par do teu espírito de justiça. Fazer publicidade da nossa virtude significa que nos preocupamos com a fama, e não com a virtude em si. Não queres ser justo sem gozares da fama de o ser ? Pois fica sabendo: muitas vezes não poderás ser justo sem que façam mau juízo de ti! Em tal circunstância, se te comportares como sábio, até sentirás prazer em ser mal julgado por uma causa nobre! 

Séneca, in 'Cartas a Lucílio'

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Lúcio Aneu Séneca (4 A,C, 65 D.C.) teve a honra, muitos séculos depois de morrer, de vir a figurar na galeria dos grandes escritores da Antiguidade Clássica, na Divina de Comédia, de Dante. Mais poeta do que filósofo, já que na sua obra literária os sentimentos suplantam em importância as ideias, Séneca, não deixa, contudo, de ser referido na História da Filosofia. Sem se encaixar em nenhum sistema filosófico, tal era o seu sentido de independência, que cultivava, ele aproxima-se do estoicismo e do epicurismo. É precisamente em  Epistolae morales dirigidas a Lucílio, que estas suas ideias filosóficas se exprimem vigorosamente e de uma forma sedutora, ao ponto de terem influenciado os primeiros textos dos cristãos, isto no que diz respeito ao estoicismo. Sabe-se que se teria encontrado com Paulo, em Roma, em meados do século, quando o cristianismo ainda era uma filosofia religiosa incipiente.
AC

Arcebispo de Braga critica classe política “incompetente” e monopólio dos bancos


O arcebispo de Braga, Jorge Ortiga, manifestou-se preocupado com os suicídios, depressões e frigoríficos vazios resultantes da crise e criticou a “incompetência” da classe política e o monopólio dos bancos.
Ao falar na homilia da celebração do Paixão do Senhor, na Sé de Braga, Jorge Ortiga também não poupou a “corrupção judicial” e as “mentiras dos astrólogos”.
Por que é que nós consentimos que tantos seres humanos continuem a ser vítimas da miséria social, da violência doméstica, da escravatura laboral, do abandono familiar, do legalismo da morte, da corrupção judicial, das mortes inocentes na estrada, das mentiras dos astrólogos, do desemprego, de uma classe política incompetente e do monopólio dos bancos?”, questionou o prelado.
Jorge Ortiga manifestou-se preocupado com o número de suicídios “que aumentam diariamente” em Espanha, por causa da penhora de casas, e advertiu que, “em breve, este drama poderá chegar” também a Portugal.
Uma preocupação extensiva às depressões dos jovens portugueses, “que se fecham nos seus quartos por causa do desemprego”, e às famílias “cujo frigorífico se vai esvaziando”.
“Os políticos, por seu turno, refugiam-se em questões sem sentido do verdadeiro bem comum e o sistema bancário, depois de ter imposto a tirania de consumos desnecessários para atingir metas lucrativas, hoje condiciona o crédito justo às jovens famílias portuguesas, com taxas abusivas que dificultam o acesso a uma qualidade de vida com dignidade”, criticou.
Para Jorge Ortiga, a solução está em Jesus, “o autêntico libertador do povo, porque concede crédito (atenção) aos mais pobres, defende o ideal da fraternidade”.
***«»***
A análise está certa, mas a solução está errada. Não é com o crédito de Jesus aos mais pobres que a miséria social desaparece e os astrólogos deixam de mentir. O tempo dos milagres da multiplicação dos pães já passou, se é que ele alguma vez existiu, nem são as orações dos fiéis que fazem nascer os empregos e encher os frigoríficos.
No entanto, ficou a denúncia, feita por um alto dignitário eclesiástico, que centrou a sua análise na “incompetência da classe política e no monopólio dos bancos”, para explicar as causas da atual crise económica e social, o que representa já um avanço na posição de uma igreja, que, historicamente, nunca deixou de estar comprometida com as classes possidentes. E congregar o descontentamento dos fiéis, para o canalizar para o aprofundamento da religiosidade, à volta da ideia de que Jesus é “o autêntico libertador do povo”, é remeter esses mesmos fiéis para a passividade da resignação. É fazer o jogo dos inimigos do povo. É como anestesiar um doente e recusar-lhe a intervenção cirúrgica.   

quinta-feira, 28 de março de 2013

Poema: Ultimatum - por maria azenha

Salvador Dali - Premonição da Guerra Civil , 1936
(100 x 99 cm - Philadelphia Museum of Art)
Considerada a obra mais agressiva pintada em todos os tempos.

Ultimatum

No céu como um lustre
Está toda a Terra acesa.
Ei-los por ordem:
Camões,
Aquilinos,
Pascoaes,
Pessoa,
E no fim de tudo,
A minha cabeça ardendo
Por cima de um vaso do século,
Ensanguentando as ruas.

É Portugal inteiro ardendo!

Chegaram a este ponto
Com a testa esplêndida do Inferno.
Chegaram os canhões e as liras
Pelas bocas das Tribunas;
Acomodaram-se os fiéis
Ajoelhados na República:
- Cadáveres
Sobre cadáveres,
Cantando em ondas de veludo
A Tribuna Romana,
Que forraram de Hitler.

Está toda a Europa presente
Nas trincheiras das mesquitas.
E hoje resplandece
Esta viúva calva da Terra
Nas catedrais de Hiroxima,
Que rodam na mais terrível hipérbole
Pelos séculos sem fundo;

E as areias das encostas
Troam ao longe,
Como trovões em carne de espuma.

Tensos, os habitantes da América,
Fizeram nascer uma bomba em Lisboa.
Tremem de gelo no peito dos jovens,
Amotinados pelos exércitos da Europa.

Hoje celebram-se as bodas de sangue
Num podium!
E Portugal
Treme de repente
Nos seios de Ilíada!

Descem granadas pelas páginas do Saara, e
De novo as ninfas do Tejo
São degoladas em nossos dias.
E num pesadelo mais negro
É a pintura de Botto e d’ Almada
Que ilumina todos os sons mesclados
Na feiura do Século!

- A eles todos! A eles!
Gritam os desempregados do mundo
Com plumas!
E enchendo o samovar de gemidos humanos,
Sobem para o Céu
Num grito verdadeiro no dia do Ungido!
E os tiros dos anjos ouvem-se blindados
Com nuvens no rosto mais calmo de Buda!
- Eh! Vocês! Eh !!!,
De rostos amedrontados nos esqueletos caídos!
Isto foi para o que vim em carne viva,
Para que vos possa contar tudo sem esconder uma única prega!

E viro a outra página do Livro
Amarrotado à chuva.
É o mais belo incêndio dos anos.
E num comboio amordaçado,
Os cabelos dos mortos
São agora fios da China!
E sob o manto dos risos, Portugal ergue-se ridículo
De um batalhão de palmeiras!

A isto!
A isto!
Em verso, não!
É melhor cuidar dos vivos
Antes que o seu coração inflame de sida!
E na confusão dos aplausos,
A minha língua atravessa um verdadeiro deserto!
Curvo-me ante o peso terrível das blasfémias do século
Como um Anjo caído nas mãos da República!

O Universo inteiro sofre agora um tormento gelado
Que lança os primeiros gemidos
Nos olhos ardentes dos templos da India!
Escorro degolado pelos canais de Veneza
Ardendo no sangue da Europa
Numa pálpebra caseira

E o meu rosto desfigurado nos anjos,
Retém o meu nome vazado
Num dia de trabalho
Num oceano incontável.
Confesso:  Eu  sou o culpado!
Sou Eu o mais maldito dos fiéis verdadeiros
Que se feriu na Batalha dos Lázaros!
E agora como um cão esganado
Não sei a que vítima atirarei o meu próximo golpe.

Mas, Séculos! Perdão!
Ajoelhar- me-ei  ao pé de Vós se for necessário!
Abandonarei a escória dos Anos!
Eu própria arrancarei ao vivo

As drogas e as armas da pele da Europa
Como um continente fedorento de lepra!
E se for necessário,
Humilhar-me-ei
Diante da avalanche dos Séculos!
Tomarei todas as lágrimas
Num oceano blindado,
Para que nasçam Homens
Mais livres
Que o próprio século!
E no corpo de Gólgota
Cravarei uma faca no rosto de Líli
Nos seus lábios ofendidos pelas feridas de Mussolini.
E dos túmulos do mundo,
Levantarei os oceanos escondidos
No rugido das Fábricas!

Um só não ficará deitado!

Trarei às costas todo o ouro Diógenes
Das entranhas da Grécia,
Por um cortejo ardendo sonoro.
E como um harpejo apaixonado
Num coração de carnes fogosas,
Entregar-me-ei
Como uma mulher de incêndios nos lábios,
A todas as montanhas do Tibete às Áfricas!

Glória!
Glória!
Glória aos céus nas alturas
Pelo que trouxe pelo vaso dos séculos!
Sou o mais luminoso ponto que gela em Nápoles!
E a minha amante perfumada
É agora uma Rosa africana
Que viaja aos pés dos humildes!

E todos os corações fungosos
Numa capital da europa
Correm atrás dela através de cada violino
Por onde passa em azul…

Olhai!, como ao pé de cada árvore
Crescem os séculos! E de todos os portos
Saem navios, braço-dado pelos continentes fora!

Todos!, para a Festa que eu proclamo!

Gente!, esse momento há-de vir
Com as mais poderosas canções sonoras
No leque da História!
E Eu, o mais humilde do seus filhos,
Tocarei os sinos
Ao pé da minha amante…

maria azenha

1989, Hora Imediata (Hora Extrema), Átrio - pág. 8 a 12,


Nota: Tal como Salvador Dali se antecipou, com a sua genial pintura, à Guerra Civil de Espanha, também Maria Azenha, neste poema, deixou uma marca indelével e premonitória do inferno que Portugal está a viver atualmente, numa orgia dantesca da “celebração das bodas de sangue”, ao mesmo tempo que nos descreve a decadência de um mundo inquieto, que deixa “descer” as granadas pelas “páginas do Saraa”. É o retrato não só do fim de um século, um século de descomunais horrores, mas também do fim do paradigma nascido na Acrópole e no mar Egeu, e que já não ilumina a humanidade.
No entanto, a poeta deixa aberta a nesga de uma porta, uma pequena coluna de luz para perscrutar o futuro e para se poder ouvir na claridade das manhãs o som dos sinos e as “poderosas canções sonoras”, abrindo-se assim, mais uma vez, o “leque da História”.
Estamos em presença de um poema, que não pode ser esquecido!...
AC

terça-feira, 26 de março de 2013

“É óbvio que uma moção de censura serve para derrubar o Governo”


Depois de a imprensa ter noticiado que António José Seguro enviou uma carta aos membros da troika em que deixa clara a intenção de derrubar o Governo e de renegociar o memorando, fonte do PS confirmou ao PÚBLICO o teor da missiva, que deverá ser divulgada ainda nesta terça-feira.
“É óbvio que uma moção de censura serve para derrubar o Governo”, disse fonte do partido, explicando que a carta tem uma primeira parte em que “é feito o enquadramento político da moção de censura e em que são explicadas as suas razões”.
A missiva enviada à troika pelo secretário-geral do PS tem uma segunda parte em que se escreve que o partido “honrará todos os compromissos do Estado, mas que pretende renegociar o memorando” subjacente ao programa de ajustamento económico em curso no país desde o pedido de ajuda externa, em Maio de 2011.
“É uma carta dura”, confirmou fonte do partido, explicando que “em princípio deverá ser divulgada hoje [terça-feira]”.
***«»***
António José Seguro gosta de escrever cartas à troika! Diz o porta-voz do PS que esta última se trata de uma carta "dura", embora eu diga que é mais uma carta de amor. 
Percebeu-se a intenção de António José Seguro. Pretendeu pedir, a quem na realidade governa Portugal, a devida e respeitosa autorização para derrubar o governo de Passos Coelho. E se a troika disser não, mesmo que de forma subliminar? Talvez seja a oportunidade soberana para a Hitler de saias lhe tirar o tapete, a fim de abrir caminho ao regresso apoteótico de José Sócrates, que sabe enganar melhor os portugueses.

Adenda: Anunciar uma moção de censura ao governo e, ao mesmo tempo, prestar vassalagem às instituições europeias é um tiro de pólvora seca. O tiro apenas faz barulho. E António José Seguro já demonstrou que apenas sabe caçar pardais com uma espingarda de chumbo. A António José Seguro falta-lhe a visão estratégica para perceber que o problema do governo está a montante. O verdadeiro nó górdio é o memorando da troika, que tem de ser firmemente denunciado.

Noam Chomsky explica o que está em causa em Portugal e na Europa...

*
Noam Chomsky é professor emérito do Instituto de Tecnologia de Massachusetts e destacou-se, durante a segunda metade do século passado, pelos seus trabalhos na área da Linguística, desenvolvendo uma teoria baseada na abordagem das propriedades da Matemática, aplicadas às linguagens formais. É um militante político de esquerda e a suas análises sobre a crise endémica do sistema capitalista caracterizam-se pelo rigor dialético que as enforma.

Agradecimento


O editor do Alpendre da Lua manifesta o seu agradecimento ao André, pela sua decisão de se inscrever como amigo/seguidor deste blogue.

sábado, 23 de março de 2013

Notas do meu rodapé: No Chipre, a subserviência canina à ditadura do Eurogrupo voltou a vencer.


Chipre aprova medidas para satisfazer troika
O Parlamento de Chipre aprovou a imposição de restrições aos movimentos de capitais, a criação de um fundo de solidariedade e a reestruturação do banco Laiki numa tentativa de cumprir as exigências feitas pela troika ao país. A votação sobre a imposição de uma taxa próxima de 15% sobre os depósitos superiores a 100 mil euros foi deixada para este sábado, informava o canal público de televisão cipriota.
… Entre as medidas está a possibilidade de converter depósitos à ordem em depósitos a prazo, a imposição de restrições ao uso de cartões de crédito e débito e a criação de limites aos levantamentos. (ver aqui)
... Uma das medidas do “plano B”, que permitirá o apoio da troika através de um empréstimo de 10 mil milhões de euros, poderá passar por uma taxa de 25% sobre os depósitos acima dos 100 mil euros. (ver aqui)
PÚBLICO
***«»***

A partir de agora, qualquer cidadão da União Europeia ficou a saber que, de um momento para o outro, o seu governo poderá vir a saquear, a seu belo prazer, as suas poupanças.
À tentativa fracassada de fazer um saque aos depósitos bancários, segue-se o seu sequestro, que é uma forma mais elaborada desse mesmo saque. Não tenhamos dúvidas: os pequenos aforradores cipriotas não perdem agora o seu dinheiro, mas irão perdê-lo amanhã, pois está escrito nos astros que a situação, com estas aberrantes medidas, vai obrigar o governo do Chipre a somar medidas restritivas sobre medidas restritivas, até ao desastre final. Tal como aconteceu na Grécia e tal como está a acontecer em Portugal, com as medidas de austeridade que se traduziram no aumento brutal dos impostos e no saque direto aos salários dos trabalhadores, aos subsídios dos desempregados e às pensões dos reformados.
A máquina trituradora da União Europeia prossegue com a sua ação devastadora e predadora, negando a ideia da sua matriz, que pretendia ser, dizia-se hipocritamente, um espaço de solidariedade, quando não é mais do que um espaço de negócio, cada vez mais obsceno e escabroso.
As hienas e os chacais voltaram a atacar. O capitalismo triunfante arreganha a dentuça e mostra o esplendor da sua vilania.

A Europa é dominada pela Alemanha

**
O eurodeputado britânico Nigel Farage, co-presidente do grupo dos eurocéticos do Parlamento Europeu, apesar de ser um político controverso no seu país (ele lidera o UKIP, um partido anti-europeu e anti-imigrantes, que está a subir nas intenções de voto), não deixa de ter razão nas duras críticas que faz às políticas da União Europeia. E, neste ponto, aproxima-se das posições dos partidos de esquerda, que também consideram que o projeto da União Europeia é um fracasso, e que, neste momento, apenas serve para defender os interesses da toda poderosa Alemanha. A base da sua argumentação fundamenta-se sempre na falta de legitimidade dos dirigentes da Comissão Europeia, que não se submeteram a nenhum sufrágio para ocupar os seus cargos. Durão Barroso tem sido uma vítima do humor cáustico de Nigel Farage, assim como o Herman van Rompuy, o presidente do Conselho Europeu, a quem ele chamou "esfregona", o que foi considerado um insulto. A frase "Você tem o carisma de uma esfregona húmida e a aparência de um funcionário bancário" foi verdadeiramente assassina e demolidora, já que punha em causa a subserviente ligação política de Rompuy com a senhora Merkel.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Citação: A premonição de Thomas Jefferson, 3º Presidente dos EUA...


Imagens enviadas por João Fráguas
É por isso que eu tenho vindo a dizer que nos encontramos no meio de uma guerra financeira de dimensão continental, desencadeada pela Alemanha, através das instituições comunitárias, que controla totalmente. Merkel está a fazer com o euro e a dívida soberana dos países periféricos aquilo que Hitler não conseguiu fazer com os tanques e com os canhões. Ainda tenho esperança que os povos europeus, depois de correrem com os seus respetivos governantes, meros acólitos de Merkel, inflijam uma estrondosa derrota à arrogante Alemanha.

Agradecimento


O editor do Alpendre da Lua manifesta o seu agradecimento à Maria Alice Ribeiro, pela sua decisão de se inscrever como amiga/seguidora deste blogue.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Poema: Vi a eternidade - por maria azenha

  @ Beverly Mayer  - Imagem selecionada pela autora.

Vi a eternidade

Vi a eternidade em teus lábios desenhando pombas
e descíamos degraus de água através de facas em flor
a tarde era azul e havia um punhal de luz
cravado na sombra de um muro
abandonado pelas palavras

vi ainda círculos de chuva depositando trevas
em máquinas de inocência e ervas húmidas

e pousavam em teus cabelos de sangue
fendidos pela solidão do vento e por relâmpagos

às vezes ouço o sino triste das aves
em âncoras de ouvidos e árvores de dolência
e sei que é o grito das acácias em amargas sílabas
descalças

maria azenha
2013- 03- 09

Nota: Eu julgo que já encontrei, a propósito de outros poemas, a expressão apropriada para classificar a poesia de Maria Azenha, e que, aqui, em "Vi a eternidade", atinge o esplendor do sublime: densidade poética. 
Maria Azenha inventa novas formas de lirismo, com as palavras, num criativo jogo metafórico, a submergirem o leitor num mundo de novas sensações.

Poema: PARA NEPTUNO - por Alexandra Kraft (heterónimo de Maria Azenha)

*

PARA NEPTUNO

traçamos hoje quadrados de nada
um cortejo de alfabetos uma queda
um grito de Kafka para os átomos
um poema de Kraft no espaço
um futuro sob a forma de impulsos
um território musicado ao máximo

Alexandra Kraft
Heterónimo de Maria Azenha

quarta-feira, 20 de março de 2013

Humor: Deus já não pode atender mais pedidos...

Agradecimento



O editor do Alpendre da Lua manifesta o seu agradecimento à Rose, pela sua decisão de se inscrever como amiga/seguidora deste blogue.

Notas do meu rodapé: A culpa não pode morrer solteira...


O PS enreda-se na sua condição de subscritor do memorando, dizendo tudo e o seu contrário, incapaz de assumir claramente, sem hesitações nem ambiguidades, a ruptura com este rumo e a urgência da demissão deste Governo.
Margarida Coelho
Membro da Comissão Política do Comité Central do PCP
PÚBLICO (ver aqui)
***«»***
E o problema já não é apenas o governo do PSD/CDS, que insiste em levar por diante a destruição da economia do país, conforme os desejos da Hitler de saias, que não se comove com o sofrimento a que gregos e portugueses estão ser sujeitos, com as danosas políticas de austeridade. O problema também é do Partido Socialista, cúmplice e solidário com o Memorando da Traição, e que, agora, na oposição, não consegue descartar. António José Seguro limita-se a vociferar protestos, de estilo panfletário, falando farisaicamente ao coração dos portugueses, mas sem se comprometer com projetos concretos, ao mesmo tempo que os engana, fazendo-os acreditar que é possível inverter a situação no quadro de entendimento com a troika.
O Partido Socialista tem tantas responsabilidades quanto o PSD, na calamitosa situação do país. Foram estes dois partidos que, em traiçoeira alternância,  exerceram o poder durante os trinta e seis anos de governos constitucionais. Foram estes dois partidos que aceitaram sem pestanejar as condições da troika, num ato de submissão vergonhoso, e ignorando os avisos de gente honrada e sabedora, que afirmava ser a receita preconizada contrária aos interesses nacionais, e que não iria garantir a resolução da crise. 

Um Poema ao Acaso: Os grous - Fiama Hasse Pais Brandão


Os grous?

As viagens separam-nos do passado.
Se apenas viajássemos como grous,
sem reconhecer as nações debaixo da quilha do nosso esterno,
se não trocássemos os idiomas e as unhas
com os habitantes das novas geografias,
seríamos nós. Porque o idioma
é fechado e insondável em cada criatura,
porque cada nação é o berço de uma língua
e os meus poemas noutra língua não são meus.
Quando viajamos no mundo não sabemos quem fomos.

Fiama Hasse Pais Brandão
(1938 - 2007)
in "Cenas Vivas", 2000

***«»***
Este poema deve ser "estudado", para se lhe descobrir a originalidade da ideia central e a forma criativa como é exposta. À primeira vista, e numa leitura desatenta, poderá parecer um poema vulgar. Não é! É um poema de antologia.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Marcelo: Vítor Gaspar perdeu credibilidade, “parece um astrólogo”


O ministro das Finanças, “o bom aluno” de Bruxelas, pode ter conseguido melhorar a imagem externa de Portugal e a credibilidade do país junto dos mercados, mas acabou por “chumbar o ano”. Vítor Gaspar “chumbou porque não estudou economia portuguesa”, disse Marcelo Rebelo de Sousa, neste domingo, no habitual espaço de comentário na TVI.
“Parece um astrólogo, não parece um ministro das Finanças. Perdeu larguissimamente a credibilidade”, sublinhou o antigo presidente do PSD, para quem o “fracasso” no défice do ano anterior – que ficou muito acima do previsto pelo Governo – foi o pior dos números apresentados na sequência da sétima avaliação da troika.
***«»***
Na realidade, Vitor Gaspar parece um astrólogo, que não sabe ler os sinais dos astros. Mas Marcelo Rebelo de Sousa é, certamente, um cartomante, pois a sua opinião varia com a posição das cartas no baralho. Marcelo Rebelo de Sousa foi um dos que endeusaram o ministro das Finanças, mas agora, como é um bom cartomante, consegue ler sempre a carta certa. Sai sempre por cima, por mais asneiras que diga. É um artista! 

Opinião: A ICAR está obsoleta - por Carlos Esperaça*

O alfaiate enganou-se nas medidas...

A ICAR está obsoleta
A Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR), incapaz de inovar, para manter fiel a clientela, regressou aos velhos truques numa sociedade alfabetizada. Os milagres, o aparecimento da Virgem (a obsessão pela virgindade é esquizofrénica) a uns pobres de espírito a quem transmite recados do divino filho, visitas do Cristo, ele próprio, a uns inocentes a quem faz pedidos patetas e um ror de prodígios capaz de adormecer crianças e imbecilizar adultos, são os truques em que reincide para manter a clientela e alargar a base de apoio. 
Nem lhe ocorre encomendar hóstias com sabores às pastelarias diocesanas, perfumar a água benta com aromas testados à saída da missa pela pituitária dos devotos, temperar a água com que batiza as crianças, evitando o choro e o resfriado, ou inovar a música e ir além do cantochão. Até os chocalhos que anunciam a viagem da hóstia, rente ao sacrário, estão desafinados e distorcem o som com o verdete acumulado.
O passado pouco recomendável de papas, bispos e padres não ajuda à propagação da fé e à frequência do culto. O livro de referência - a Bíblia - tão arcaico e cruel, tão cheio de incoerências e maldições, não prestigia Deus nem facilita a vida ao clero. 
Que resta, pois, à ICAR, perdido o medo do inferno, desinteressados homens e mulheres do destino da alma, incapaz de conter o consumo de carne de porco à sexta-feira, sem clientes para a compra de bulas e com o dízimo caído em desuso? 
Cada vez se encontra em maiores dificuldades para introduzir no código penal o pecado como crime. Não consegue para os pecados veniais uma simples coima nem para os mortais uma pena de prisão. A blasfémia é ignorada em juízo, o divórcio é facilitado e o adultério deixou de interessar ao Estado. Apenas o aborto consegue ainda, em países de forte poder clerical, devassar a vida íntima das mulheres e submetê-las ao vexame de um julgamento e ao opróbrio da prisão. Até a apostasia, uma abominação para os pios doutores da ICAR, é uma prática com popularidade crescente e um direito inalienável.
Assim, resta à ICAR vociferar contra o preservativo, atirar-se à pílula como S. Tiago aos mouros e execrar a investigação em células estaminais. Já poucos lhe ligam quando apostrofa a eutanásia, afronta a proibição do ensino da religião nas escolas do Estado ou injuria os casamentos entre pessoas do mesmo sexo.
Os últimos padres vão enegrecer ao fumo das velas, abandonados pelos crentes, impedidos de ter uma companheira que lhes alivie a solidão, enquanto os bispos e o papa satisfazem o narcisismo com a riqueza e o colorido dos paramentos. Acabam por descrer da virtude da Igreja, da bondade do seu Deus e a renunciar à salvação da alma.
Resta-lhe a festa do novo Papa, onde os crentes veem virtudes e os hereges procuram nódoas do passado.
Carlos Esperança
Presidente da Direção da Associação Ateísta Portuguesa

sábado, 16 de março de 2013

Conto: Era uma vez um “poeta” que mastigava as letras… - por Sónia M


Era uma vez um “poeta” que mastigava as letras…

Numa manhã fria, como qualquer outra, encontrei o calor à porta de casa.
Estava vestido de branco, com um chapéu às cores, sentado no primeiro degrau da entrada. 
Mantinha a mão direita, com os dedos a apontar para uma folha branca, que segurava nos joelhos. Todos os pássaros da cidade sobrevoavam a minha rua em círculos, como se esperassem que alguém, de repente, lhes atirasse migalhas de pão.
A imagem era tão irreal, que cheguei a pensar que ainda dormia e me passeava pelo sonho.
Belisquei-me. Doeu! Pensei em voltar a entrar em casa, mas quando dei um passo para trás, senti frio. Então, decidi aproximar-me. Desci, cautelosa, todos os degraus. À medida que me aproximava, ficava mais quente. Era como um bafo cálido que me envolvia todo o corpo.
Sem pensar, sentei-me ao seu lado. Foi então que vi que pelos seus dedos, a apontarem para aquela folha branca, desciam, brincalhonas e em grande algazarra, as letras que se amontoavam no seu centro.
Riam, saltavam por cima umas das outras, abraçavam-se, beijavam-se e eu, incrédula, 
voltei a beliscar-me. Voltou a doer! Esfreguei os olhos, mas continuava a vê-las e a ouvi-las!
Eram tão alegres e coloridas como o chapéu às cores.

Com muito cuidado, como se não quisesse perder nenhuma, recolheu, com as mãos em concha, todas as letras da folha e levou-as à boca. Começou a mastigá-las. As bochechas eram agora gordas e redondas e, sempre que os lábios se entreabriam, saltavam pequenos pedaços, como raspas de lápis de cor, que caíam no chão. Os pássaros apressavam-se a recolhê-los e imediatamente ficavam azuis, tão azuis como o céu. Já não os via, mas sabia que eles estavam lá.
E ele mastigava...e mastigava, arredondava com os dentes cada letra, moldava-as e colava-as com a saliva umas às outras.  Depois, com dois dedos em forma de pinça, puxava pelo canto da boca, palavra a palavra, e com elas encheu a folha branca. Aproximei a cabeça do seu ombro e comecei a ler o texto.
O que li era tão bonito, que depressa me chegou ao coração.
Quis perguntar como se chamava e, quando finalmente o fiz, a voz saiu-me rouca, quente, como um sussurro.
- Como te chamas?
E ele respondeu  - Poesia.
Naquele dia, acho que encontrei um poeta.

Sónia M

Nota:  Amabilidade da autora, pela oferta ao Alpendre da Lua deste original inédito, escrito para o André, um dos seus filhos. 

sexta-feira, 15 de março de 2013

Poema: Para um amigo - por Sónia M


Para um amigo
trago o meu ombro
um arco-íris pintado
no chão dos pássaros

do poço da alma
emergem trémulos
restos de ternura esquecidos
a cair em êxtases de luz
no chão dos teus silêncios...

Sónia M

Nota: Poema sublime, de uma grande riqueza metafórica. "Chão de pássaros", "chão dos teus silêncios" "êxtases de luz" são metáforas de uma grande eloquência. Gostei muito.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Líbia: Cemitério militar britânico vandalizado por um grupo de muçulmanos fanáticos

Amabilidade de Joaquim Pereira da Silva e de Olímpio A. Pinto
*
O Islão foi uma âncora da resistência dos povos árabes contra o colonialismo britânico e francês e agora é a rampa de lançamento de uma ofensiva de vingança cega contra os países ocidentais, cujos governos, para salvaguardarem o acesso ao petróleo do solo árabe, pactuam vergonhosamente com o fundamentalismo islâmico. 

Poema: EM RAMOS DE CINZAS E VENTO - por maria azenha

Imagem selecionada pela autora

EM RAMOS DE CINZAS E VENTO

entraram no meu sonho ramos de cinzas e vento
em pequenas canções de infantes e vagabundos 

toda a noite os martelos da lua choveram 
males para o centro do quadrado em que ardemos 

há um vulto de criança com uma gazela ao peito
que se perdeu em nós entre flores e fendas 

e quis alumiá-los com a luz da água da noite
na sombra lilás de um rei que foi morto

meus olhos vêem um círculo azul de tristeza incandescente
um enforcado no silêncio com uma colher de azeite 
na boca 

maria azenha
2013-03-09


Nota: Este poema suscitou-me o seguinte comentário: Fiquei novamente "agarrado à cadeira"! Um poema escrito através da subversão das palavras (ou do seu significado literal)! Um poema que toca o intangível Sublime! "Os martelos da lua" choveram todos na minha cabeça e a primeira ideia que emergiu da leitura do poema foi a ideia do Absurdo (Kafka, Sartre, Camus)...

Trás-os-Montes: A Província esquecida e abandonada pelo poder central...


Pela primeira vez encerraram mais empresas do que abriram
Em 2012 e pela primeira vez em Vila Real, o número de empresas dissolvidas foi superior às constituídas ao longo do ano, com 99 negócios a abrir contra os 119 que fecharam portas, segundo a Associação Empresarial.
"Atingimos um ponto de viragem, que nos dá uma ideia de que as pessoas perderam a esperança e a força na criação de novas empresas", afirmou hoje à agência Lusa Luís Tão, presidente da Nervir - Associação Empresarial.
Em 2012, o saldo foi negativo pela primeira vez em Vila Real. No ano passado, foram criadas 99 empresas, mas fecharam 119, a maior parte das quais da área dos serviços como restaurantes, cafés, sapatarias ou lojas de roupa.
*
Menos nascimentos no distrito de Bragança
Já nos primeiros dois meses deste ano nasceram, apenas, 76 bebés no distrito de Bragança.O director clínico da Unidade Local de Saúde (ULS) do Nordeste, Domingos Fernandes, acredita que esta tendência pode estar a relacionada com a crise.“Há algum decréscimo no que diz respeito ao ano passado.
Tivemos 550 nascimentos, o que representou algum decréscimo em relação ao período homólogo de 2011. Temos uma população que está cada vez mais envelhecida e isso repercute-se numa redução da natalidade. 
Não nos podemos esquecer também que estamos a atravessar um período de crise que está associado a uma redução da natalidade só por si”, justifica Domingos Fernandes. Das 550 crianças que nasceram no ano passado 42 por cento foram cesarianas.
Um número superior à média nacional, que a ULS do Nordeste está a tentar baixar de acordo com as recomendações do Ministério da Saúde.“De 2011 para 2012 houve uma redução de cerca de 3 por cento, mas mais importante do que isso é que nos primeiros dois meses deste ano vamos com 37 por cento, o que significa uma redução de cinco pontos percentuais em relação ao ano passado, o que significa que estamos com uma tendência decrescente do número de cesarianas nesta ULS”, sustenta o director clínico.
Domingos Fernandes justifica esta percentagem de partos por cesariana com o facto de existir apenas uma maternidade para um distrito tão extenso.
“Penso que o que está na génese deste número terá um pouco a ver com o nosso distrito muito disperso, com apenas uma maternidade para cerca de 40 por cento da região Norte”, realça Domingos Fernandes. 
A crise a contribuir para a diminuição do número de nascimentos no distrito de Bragança.

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A avalanche emigratória dos anos sessenta do século passado desvitalizou Trás-os-Montes, a província mais pobre do país. A interioridade e o isolamento ditaram-lhe o atraso estrutural, o que limitou o seu desenvolvimento económico. Quando chegaram as auto estradas do progresso, já não havia população ativa suficiente para agarrar as alavancas do desenvolvimento e desbravar o futuro. Com o mundo rural a sobreviver com uma população idosa e pobre, a taxa de natalidade tem vindo a decrescer progressivamente, desde há mais de quarenta anos. Existem aldeias que festejam com foguetes o nascimento de uma criança, tal é a raridade deste fenómeno biológico. A atual crise e as políticas recessivas acabarão por completar a desertificação desse mundo rural, indispensável à coesão do tecido social e económico do território. Daqui por vinte ou trinta anos, a província onde eu nasci, será um cemitério de ruínas de aldeias desertas e terá apenas uma dúzia de centros urbanos, alicerçados no setor terciário, cercados por um imenso matagal, entregue aos lobos e aos javalis. Talvez Trás-os Montes venha a ser uma enorme coutada para a caça grossa.