quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

A mulher do Vento - por Sónia M

Imagem selecionada pela autora.

A mulher do Vento

Um dia, enfiou as mãos na boca e puxou a garganta para fora. Passou o dia a desatar nós. Caiam-lhe aos pés, as dores que ali se cravaram. Servindo-se das unhas, raspou o calado, que separou cuidadosamente, da mescla de sangue e lágrimas que lhe escorria pelos cotovelos. Depois, voltou a colocar a garganta no sitio e atirou com o que dali arrancou para cima da mesa. Houve os que perderam a fome, outros a sede, outros ainda, o sono. Depois disso nunca mais falou.
Esta é a história de uma mulher, que dizem ser tão antiga como a rua. Chamam-lhe a mulher do Vento. Dizem  que, desde esse dia, a sua voz é nada mais que um sopro leve, que se liberta das curvas do tempo e se faz ouvir através de uma flauta. Sem se importar com o que os outros dizem ou pensam, pois só a eles lhes pertence.
Todos os dias, à mesma hora, toca naquela esquina. Há os que passam e a chamam de louca. Há os que param e escutam, sem entenderem. Há a criança que canta e a árvore que estende os seus braços e lhe abraça a leveza. Mas só o Vento se demora no que ouve, rodopia sobre a rua, assobiando a mesma melodia em cada janela, até que já cansado a leva consigo, para a sua morada, que ninguém sabe onde fica. E quando todos já dormem, a rua murmura o que o vento lhe trouxe... e a lua sorri.

Sónia M

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Nota: A Mulher do Vento: poderia ter sido a história de uma lenda. Mas é um apontamento ficcional com imagens fortes e de grande significado, como aquela da mulher puxar a garganta para fora, expondo impudicamente o que de lá tirou, em cima de uma mesa, e tendo, depois, perdido a voz, para sempre. Ficou na sua boca a melodia sinuosa do vento, a marcar-lhe o tempo e a existência.
AC

A "poeta" Sónia M colabora regularmente no Alpendre da Lua.

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