sábado, 9 de novembro de 2013

Poema: Metades de um todo - por Sónia M

Pablo Picasso - Mulher chorando (1937)

Metades de um todo

É como se precisasse beber toda a chuva,
para acender a claridade dos ombros.
Apagar estrelas com os pés descalços, para
acordar o fogo adormecido.

Os sonhos enchem os espaços vazios, entre
as nuvens das palavras. Morre um, chora a nuvem.
Na extremidade do que morre nasce outro e a dispersa.
Preciso do que morre, para regar o que nasce.

Por mais que me vista de metade, não é mais que
um disfarce a cobrir um corpo inteiro.
Como podia eu ser a metade de outro, se eu própria
já sou duas? Que metade lhe daria?

Sou saudade, do que já foi: memória que arrasto até
à outra metade, que descobre o que ainda será.
Sou azul. Um azul de outro azul, a luzir em cada
metade. E talvez cada metade, se divida em mais duas.

Amar é um peregrino a caminhar no deserto.
Uma chegada ao paraíso de um oásis, onde nunca
sabemos ficar. Uma exigência constante, de ter
apenas uma metade do outro a morar cá dentro, por
nunca o sabermos aceitar por inteiro.

Sónia M

***«»***
Sem fugir aos seus temas preferidos, Sonia M aventurou-se, pela primeira vez, a fazer uma abordagem filosófica na sua poesia, aqui explicitada na desmultiplicação do Eu sentimental pelas suas sucessivas metades, que é uma forma de dar consistência ao Todo ou ao Uno, tal como se vê nestes dois versos: “Por mais que me vista de metade, não é mais que / um disfarce a cobrir um corpo inteiro”. Quem genialmente caracterizou esta desmultiplicação referida, foi o poeta Eufrázio Filipe, num sintético comentário que fez a este poema, e que se transcreve: “Tudo acontece no ciclo das marés / nos apeadeiros do cais / nos heterónimos”.
Trata-se, ao nível da renovação temática e estilística, de uma mudança significativa, desejada e promissora.
Aqui, a densidade poética é a primeira característica que salta aos olhos do leitor, e que é logo anunciada na entrada fulgurante dos primeiros quatro versos.
AC 

 A "poeta" Sónia M colabora regularmente no Alpendre da Lua.

1 comentário:

Sónia M. disse...

Alexandre:
Eufrázio Filipe, além de ser um poeta que eu aprecio bastante (muito mesmo) e que graças a este mundo virtual, tenho a oportunidade de ler com frequência, é também alguém que me dá imenso prazer em ter por aqui. Quase sempre, consegue, com um pequeno comentário, caracterizar um poema inteiro. É genial na sua poesia e também quando a lê, tal como o Alexandre. Que vou considerando quase como um pai na poesia, um mestre (não se zangue), por quem tenho um enorme sentimento de gratidão.

Dizer obrigada, não chega.
Bom fim de semana.