quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Poema: A janela - por Sónia M

Imagem selecionada pela autora

A janela

Trago o sopro de uma noite nos cabelos e todas as vozes,
que não quis ouvir, seguram os botões quase soltos
do casaco. Vivo dentro da janela, que pintámos à rebeldia,
no muro que atravessa a cidade.
Aqui as noites são claras e consigo tocar a lua
com a palma da minha mão. Para lá da vidraça,
erguem-se os dedos cegos, nas margens do rio de lama,
que banha a cidade fria. Bocas com sede de bocas,
bocas com fome de corpos, apontam e desdenham,
vomitando a sua própria hipocrisia.
De quando a quando, ouve-se uma pedra na vidraça
-pedra na pedra - nada se rompe,
a não ser o silêncio das suas noites escuras,
que se ouve como um grito,
saído de uma boca mais pérfida.

Vi um homem que não existe,
escrever em todos os muros invisíveis,
uma frase dedicada à cegueira do Ser.
"Talvez seja esta janela, o paradigma que vos falta…"

Apesar das poeiras e da lama onde as almas se arrastam,
amanhece a vida dentro da janela,
que pintámos à rebeldia, no muro que atravessa a cidade.
Aqui as noites são claras,
consigo tocar a lua com a palma da minha mão …
e todas as noites me visitam as estrelas.
Talvez haja quem de longe perceba,
que em todos os muros se pode abrir uma janela…

Sónia M
In Sussurros
Nota: Talvez seja este o "Homem que escreve o Destino", cruzando todas as latitudes do tempo!...

A "poeta" Sónia M colabora regularmente no Alpendre da Lua.