terça-feira, 11 de junho de 2013

Poema: Anoiteceu - por Sónia M

Van Gogh, “A Noite Estrelada”

Anoiteceu

Os olhos muram a distância que se fez em nós
Ainda que a mão possa tocar esse banco, 
onde te sentas
a olhar um jardim de flores mortas.
A cor do desejo já não fulgura na pele.
Há um frio que dói nos ossos.
A mão do sol já não afaga nem aquece o dia.
Já não é dia, nem há dias
Há apenas um tempo sem destino.
Horas mortas.
Anoiteceu. Uma noite eterna que te cega.
Abandono a paisagem de mim,
que penduras com zelo
nos escombros do que já foi morada,
onde se ouvia uma melodia que já ninguém toca.
Tornei-me leve, 
sem esse corpo ao qual te aferras e não soltas.
Já não sou corpo, nem há corpo.
Sou asa de pássaro a rasgar o céu
em direção ao horizonte onde os azuis se misturam.
Não me chames. Não te ouço, nem te vejo
Já não há ouvidos, nem olhos. 
Não tenho frio, nem sinto fome
Há apenas sede.
Uma sede de mergulhar as penas nesse azul imenso
...e ser mar

Sónia M
Maio 2011

Nota: Quando li este poema no blogue da autora, deixei este comentário: “Talvez o azul seja uma cor neutra, que tanto dá para engalanar a luz do dia, como para amortalhar a escuridão da noite. Mas é seguramente a cor onde se refugia a “poeta”, para escrever sobre  as suas vivências e sobre as suas dúvidas existenciais, tentando atingir o extremo limite dos sentidos e esgotar o significado das palavras. Uma escrita dorida à volta do absurdo da vida”.

A "poeta" Sónia M colabora neste blogue, publicando-se um poema seu, às terças-feiras.