terça-feira, 18 de junho de 2013

Poema: Alma - por Sónia M

Romano, Alma (2011) - Imagem selecionada pela autora.

Alma

Perdi-me de ti na chegada. Cheguei em pranto, partida.
Um vazio revestido de pele, a isto a que chamam de vida.

Que crueldade construir casas que não habitas,
plantar flores em jardins onde não te passeias!
Vestir os dias de ausências e de silêncios,
desde onde me chega a tua voz aflita
como ecos da angústia de outras vidas.

E nunca de ti estive tão perto...

Será teu o sufoco que às vezes sinto?
Serão teus os passos que à noite oiço?
Ou apenas delírios de uma louca, tudo o que de ti pressinto?

Que idade terão as almas?
Quantos regressos somam na procura?
Quantas vezes se cruzam e reconhecem,
incapazes de soltar amarras...

Perdem-se os ponteiros do tempo,
neste mar profundo que nos separa
deixando a ilusão de ser sempre cedo...sempre cedo...
E é tão tarde, meu amor, é já tão tarde...
Tarde para tudo, menos para a noite, onde sempre te sonho.

Sónia M

Nota: Uma vez, uma "poeta", minha amiga, disse-me que "há poemas que não se comentam, apenas se sentem". É o caso deste poema de Sónia M, que nos envolve na densa teia de uma atmosfera de um "amor dorido, dilacerado por um amor ausente", mas que o poema assume estar sempre presente, tal como assume aquela serenidade,  que emerge de todas as emoções traduzidas, a revelar a extrema sensibilidade da "poeta". Trata-se de um intimismo profundo que se abre para o poema.
Tomei a iniciativa de titular de "Alma" este excelente poema (recebido sem título), pedindo emprestada a expressão ao pintor Romano, que a utilizou para título do seu expressivo trabalho de óleo sobre acrílico.
AC  

A "poeta" Sónia M colabora neste blogue, publicando-se um poema da sua autoria, às terças-feiras.