terça-feira, 28 de maio de 2013

Poema: Nada - por Sónia M


Nada

Não pedia nada...
Tão pouco esperava nada.
Habitava a floresta, esquecida,
onde os dias eram nada.
No peito a dor das saudades
dos dias floridos da primavera.
A pele nua rasgada pelos galhos secos das árvores.
Na boca ressequida pelo vento...
apenas um murmúrio...um doce lamento...
de quem não pede nada...
Vagueava perdida por aquele labirinto...
Sem esperar nada...
Foi então que te vi!
Trazias de mil homens a bravura.
Do aço a resistência.
De uma criança a ternura.
No sorriso a magia
de quem conseguia mudar meu mundo!
Com as mãos, abriste caminho até mim.
Não pedia nada...tão pouco esperava nada...
Mas de repente... num segundo...tinha tudo!
Sónia M
***«»***
Nota: Neste poema, Sónia M atreve-se a resolver “poeticamente” um problema, que a filosofia tem perseguido, sem sucesso, desde o tempo em que Tales de Mileto proclamou, com toda a autoridade do seu pensamento, que “Tudo é uno”. Mas o certo, é que ninguém conseguiu definir exatamente o que é Tudo, como, também, não se conseguiu definir o que é “Nada”. São dois absolutos opostos, inatingíveis, que fazem parte da nossa Razão, mas que escapam à nossa realidade. O melhor que se produziu, a este nível, deve-se  ao filósofo Ortega y Gasset, quando afirmou: Buscamos «tudo»; o que temos é sempre o que não é tudo. Deste «tudo», não sabemos nada…  
Por oposição, digo eu, o “Nada é a total ausência do Tudo”, que eu não consigo imaginar projetado no infinito.
Mas, poeticamente, esta oposição está resolvida, porque a Poesia engana a Filosofia, a Ciência e a própria Realidade. À “poeta” bastou encontrar, como ela diz metaforicamente, quem lhe trouxesse a bravura, a resistência, a ternura e o sorriso de uma criança, ou seja a plenitude do Amor. E a beleza deste poema reside na excelente construção poética da malha desse caminho de palavras, que, ao lê-las,  nos transportam de repente, através da envolvência dos afetos, do «Nada» para o «Tudo». Um trajeto do  “Absoluto” que só cabe na Poesia.

A "poeta" Sónia M colabora neste blogue, publicando-se um poema seu, às terças feiras.

1 comentário:

Alexandre de Castro disse...

No Facebook, deixei o seguinte comentário, dirigido à "poeta" Maria Azenha:

Maria Azenha: E isto é assim, porque a Poesia é irracional, situando-se num patamar mais elevado,onde a Lógica e a Razão não fazem lei. A Filosofia e a Ciência procuram conhecer a Realidade (o Universo), admitindo à partida, como base teorética, que o Universo é racional, e que se rege pelas mesmas leis da Razão da nossa mente, o que não está provado. A Poesia, com a sua irracionalidade, subverte a Realidade, subvertendo ao mesmo tempo a Filosofia e a Ciência. Por isso, a Poesia é uma entidade superior. E neste poema de Sónia M, esta rebeldia da Poesia aparece espelhada neste confronto filosófico do que é o "Tudo" e o que é o "Nada". Poeticamente resolveu o problema.