quarta-feira, 10 de abril de 2013

Poema: Quietude - por Sónia M

 Óleo s/ tela: Silent Thoughts, por © Garmash

Quietude

Sacudo da língua tudo o que disse, 
quando ainda não estavas.
Permito-me a quietude dos lábios, 
agora que estás, sem estar.
Sobre a mesa há pilhas de papeis amarrotados, 
com palavras gastas, rasgadas.
E eu, com olhos de pássaro espantado,
vejo o quanto as palavras são inúteis, às vezes...
tal como as portas e as janelas fechadas.
Há pegadas tuas por toda a parte, 
num chão que nunca pisaste.
E mesmo quando partes, sempre ficas,
posso ouvir-te no silêncio onde te abraço,
a respirar-me a pele, sem memória da tua.
Atravessas as paredes da casa,
abrindo as cortinas
e nem ao menos sei por onde entraste.

Sónia M

Do blogue Sussurros.

Nota: A "poeta" Sónia M já nos habituou, através da sua poesia sentimental e intimista, a atingir o Sublime poético. Neste poema, o leitor é confrontado com uma réplica do drama shakespereano do ser ou não ser, aqui transferido para o drama de estar ou não estar, drama este que sustenta todo o lirismo expresso e transmite ao poema uma dimensão filosófica. É pois um lirismo de rara beleza.