terça-feira, 30 de abril de 2013

Poema: Hoje é par ti que escrevo - por Sónia M

Imagem selecionada pela autora.

Hoje é para ti que escrevo

Nunca pensei em afogar os teus olhos.
Queria poli-los, até que o brilho da lua se refletisse neles.
As pequenas estrelas cadentes que te deixo na noite,
servem para que rasgues com elas, este céu de lonjuras.

Queria dar-te o Sol, aos pedaços, repartidos pelo dia.
E suaves brisas, que te envolvessem com o perfume 
do jardim, onde te espero.

Queria que percebesses, que mandei parar o tempo.
Que sentisses a ausência do tic-tac em todos os relógios.
Que o mundo, não vai avançar um só segundo
... sem a pressa e a correria das horas, espera,
que toquemos juntos,a profundeza deste mar de sonhos. 

Mas sabes? Nem sempre escrevo para ti.
Por vezes escrevo com os espinhos que trago cravados na pele,
ou com as flores que vi pelo caminho
e que ali deixei, agarradas à terra, 
rodeadas do bater das asas de coloridas borboletas.
E nem sei bem porque o faço!
Talvez, para que nada se perca de mim.

Sei que o mar nem sempre traz sonhos coloridos,
que o céu, nem sempre é azul,
que a lua esconde o seu brilho nas nuvens negras,
das tormentas, que teimam em desabar em nós.
E que o vento, nem sempre é brisa.

E também sei,que o Tempo...apenas se ri...e ri...
com gargalhadas que me despertam e me fazem sentir,
que é tanto o tempo que perco, quando não te escrevo a ti.

Nunca pensei em afogar os teus olhos...
apenas queria sentir, como os meus se "afogam" nos teus.
E como tu, navegas em mim...

Sónia M

Nota: Mais um poema de “amor” de Sónia M, onde extravasa um intimismo muito forte, a nortear o seu sentido. Desta vez, a autora recorreu à mesma metáfora envolvente, no início e no fim do poema. “Afogar os teus olhos” e “afogar os meus olhos nos teus” são expressões metafóricas eloquentes, que suportam todas as derivações do poema, derivações estas reportadas às contradições do “amor”, ali exposto como uma dádiva sofredora e até incompreendida, um “estado de alma” que, na poesia de Sónia M, é recorrente.
Na poesia de Sónia M não há revolta, não há rebeldia, não há gritos. Uma serena e repousante tranquilidade escorre das palavras, onde apenas se “ouvem” murmúrios, lamentos e queixumes, além das manifestações expressivas de uma enorme energia sentimental a oferecer-se e a pedir uma partilha igual.
AC
Sónia M colabora neste blogue, publicando-se um poema seu, às terças-feiras.