quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Crónicas de um destino anunciado: O PESADELO - por Sónia M


Crónicas de um destino anunciado
O PESADELO

Esta noite tive um pesadelo. Despertava e apenas ouvia silêncio.
Era muito mais que a ausência de sons. Era profundo, apertava cá dentro como um mau agoiro.
Levantei-me lentamente e dirigi-me à janela. Lá fora as ruas estavam cheias de gente de braços abertos e mãos estendidas, a olhar o céu. Pareciam estátuas, ninguém se mexia nem falava.
Os carros não circulavam, as fábricas não produziam, o mundo inteiro havia simplesmente parado e toda a humanidade estava na rua de braços abertos e mãos estendidas, a olhar o céu.
Saí à rua descalça, o silêncio incomodava mais do que o frio, que fazia.
Era difícil caminhar por entre aquele aglomerado de gente. Acabei por andar pouco mais de um metro e parei. Confusa, tentei perguntar, à senhora ao meu lado, o que se passava, mas da minha boca não saía
um único som! Por mais que abrisse e fechasse a boca, o único que cuspia era silêncio!
Comecei a sentir os pés molhados. Rapidamente aquela água já me chegava aos tornozelos! Parecia um rio, que nascia aos nossos pés.
Foi então que reparei que todos choravam, silenciosamente, sem desviar o olhar do céu.
Elevei o meu olhar e as lágrimas brotaram também dos meus olhos.
O mundo havia mergulhado naquele silêncio triste, sem palavras, ninguém poderia voltar a falar da beleza das flores. O céu estava encoberto com uma nuvem gigante e dela caíam milhares de borboletas mortas.
Abri os braços e estendi também as minhas mãos, que a pouco e pouco ficaram cheias de cadáveres coloridos...
Quando acordei, tentei escrever o sonho imediatamente, para tentar não me esquecer dele.
Acordei incomodada!
Sónia M

Amabilidade da autora, que ofereceu este texto inédito ao Alpendre da Lua.

Nota crítica: Este texto da "poeta" Sónia M, que, ao nível das influências literárias, quer pela opção temática, quer pela desconstrução do real e da subversão da narrativa, acusa influências de Kafka e das correntes surrealistas, enquadra-se perfeitamente nas tendências estilísticas dos novos autores portugueses da era pós-Saramago.
Respondendo à autora, a agradecer-lhe a amabilidade, disse-lhe que este seu pequeno texto marcava um degrau na escalada do seu percurso literário, que assim ensaiava novas formas de expressão e avançava para a descoberta de novos temas.
AC