domingo, 18 de novembro de 2012

Poema: Nunca, nunca mais acabou ! - por Olímpio A. Alegre Pinto


Nunca, nunca mais acabou !!

Um frio terrível gelou a montanha!

- Não há folha no vale!
- Não há água que corra!
- Não há cova que sirva!
-Não há vida que mova!

O vento não ouve...
- É branco o silêncio!

À entrada da gruta
Hesita há um tempo
Um grupo sedento
Gelado, esfaimado.

Lá dentro outro grupo:
Família dorida
- O macho está ferido
- Um braço comido!
Da luta bravia
C'o a fera vencida!

As crias encostam
Mantendo o calor
A fêmea vigia
Instinto e Amor!

O cheiro é acre e adocicado
Dos restos, bocados
Da carne caçada.

Aqueles que estão fora
Procuram abrigo
- Lá dentro está quente!
- Ainda há comida!

A gruta é pequena
O espaço não chega!
E a fêmea que rosna
Sustem os intrusos!

Mas...
Do grupo faminto
A fome venceu!
- O mais corpulento
- O mais violento
- Os olhos em fogo
- Olhar em cobiça!
Com grito estridente
Irrompe a direito
Vibrando o cacête
- Num golpe certeiro
A fêmea abateu!
Os outros o seguem
Em gritos berrando
Em roncos uivando
De pedras na mão
Batendo com força
Na fêmea já morta!
Nas crias que guincham!
No macho que as cobre
- O corpo enrolando
- Os dentes cerrando
- A boca rasgando
- Os olhos vidrados
- Da força da Dor
- Do medo e pavor
- Do ódio e da raiva
- Do terror e da morte!...

Passado algum tempo
Vincando a ravina
Rolaram os corpos
Moídos, esmagados
Torcidos, vergados
Horrendos, disformes!
- Um já não tem braço
- O outro desfeito
- E três são pequenos!
E ficam, rasgados
Em sangue, em farrapos!

Que signo sinistro!
Que torvo prenúncio!
Que nódoa terrível!
Na neve mais branca!
No branco mais puro!
Da Mãe Natureza!

Mas...
Dos corpos pequenos
Da morte um escapou!
O acaso o roubou!
- Caíu num covil
- A loba o tomou!
- À vida voltou!...

E nunca, nunca mais esqueceu!
E um dia... um dia vingou!

O homem nasceu!
- A guerra vomita!
- Uma guerra d'irmãos!
- Uma guerra maldita!

Que nunca, nunca mais acabou!

Olímpio António Alegre Pinto
Janeiro 1997